Fichamento: Varieties of Liberalization and the New Politics of Social Solidarity (Capítulo 1)
Thelen (2014)
Thelen, K. (2014). Varieties of Liberalization and the New Politics of Social Solidarity. In Varieties of Liberalization and the New Politics of Social Solidarity (pp. 1–32). Cambridge University Press.
Última atualização: 2026-04-23 Modelo: IA Planilhando Texto v13.0 Gerado em: 2026-04-23T13:00:00-03:00
1 Introdução e Capítulo 1: Variedades de Liberalização (pp. 1–32)
1.1 Puzzle e Argumento Central [§1–§5]
Kathleen Thelen inicia o capítulo situando seu estudo no contexto do debate sobre o futuro do capitalismo igualitário europeu, confrontado por pressões como a globalização e a desindustrialização (§1). Embora uma vasta literatura sobre o welfare state analise mudanças na política social, a autora opta por focar em arenas institucionais centrais para a literatura de Variedades de Capitalismo (VofC) – relações industriais, educação e treinamento vocacional (VET) e mercado de trabalho – que são vistas como distintivas das economias coordenadas de mercado (CMEs) (§1). A autora reconhece a contribuição da VofC ao desafiar a tese de convergência para um modelo único, argumentando que CMEs e economias liberais de mercado (LMEs) representam lógicas distintas e duráveis (§2). Contudo, a observação de tensões e mudanças significativas em todas as três arenas institucionais, especialmente nas CMEs, levanta a questão central do livro: se as tendências atuais estão, afinal, conduzindo a uma convergência para o modelo desigual das LMEs (§2).
Para abordar essa questão, a autora considera o debate inconclusivo entre os defensores da VofC e seus críticos, e propõe uma superação dessa dicotomia, desvinculando analítica e empiricamente as instituições do capitalismo coordenado daquelas que sustentam o capitalismo igualitário (§3). Essa distinção fundamenta uma estrutura alternativa que identifica três trajetórias ideal-típicas de mudança: liberalização desregulatória, dualização e flexibilização socialmente integrada (embedded flexibilization). O argumento central é que as pressões liberalizantes comuns são canalizadas por diferentes coalizões sociais, gerando impactos distributivos distintos, o que contraria a sabedoria convencional de que a defesa das instituições tradicionais preserva a solidariedade e toda liberalização a corrói (§3). A autora conclui esta seção introdutória apresentando a base de seu argumento: uma visão político-coalizacional das instituições, que explica por que as instituições que permanecem robustas são aquelas reconfiguradas sob novas coalizões, distintas das do passado (§4).
1.2 Variedades de Capitalismo e suas Críticas [§6–§8]
A autora examina as discordâncias na literatura sobre como interpretar as tendências nas três arenas institucionais (§6). Frequentemente, as disputas são empíricas, decorrentes da ênfase em diferentes variáveis. Por exemplo, as estruturas formais de negociação coletiva nas CMEs mostram-se resilientes, mas a cobertura desses acordos encolheu, mascarando mudanças significativas (§6). Thelen argumenta que as divergências não se resolverão apenas com mais dados, pois os estudiosos buscam mudanças em dimensões distintas. A literatura de VofC, de perspectiva econômica, foca nas funções “williamsonianas” das instituições — sua capacidade de gerar ganhos conjuntos por meio da coordenação empregador-empregado. Os céticos, de orientação sociológica ou política, avaliam as funções “durkheimianas” ou “polanyianas” — a capacidade de promover coesão social e resultados distributivos igualitários (§7).
Essa diferença de perspectiva leva a um “desencontro” analítico, onde é possível haver coordenação entre empregadores e para alguns empregados, mesmo com um número decrescente de trabalhadores cobertos (§7). A Figura 1.1 (p. 7) ilustra visualmente esse ponto, mapeando países em um espaço bidimensional: o eixo x captura a coordenação patronal (interesse dos teóricos da VofC) e o eixo y captura a solidariedade/dualização, medida por cobertura de negociação e desemprego (interesse dos céticos) (§8). A figura revela trajetórias divergentes: Alemanha e Japão mantêm-se estáveis na dimensão VofC, mas movem-se em direção à maior dualização, enquanto Suécia e Dinamarca mantêm alta solidariedade apesar de alguma liberalização institucional formal (§8).
1.3 Desvinculando Capitalismo Coordenado e Igualitário [§9–§12]
Thelen aprofunda a crítica à associação convencional entre capitalismo coordenado e igualitário, que se consolidou na “Era de Ouro” do pós-guerra (§9). Ela argumenta que esses fenômenos são analiticamente distintos e historicamente nem sempre coincidiram, citando o exemplo da Alemanha do final do século XIX (coordenada, mas não igualitária). O debate atual, ao focar no movimento ao longo de um único contínuo (coordenação vs. liberalização), falha em capturar combinações como o declínio da solidariedade em contextos de coordenação contínua (§9). Modelos de mudança anteriores, como os de Kitschelt et al. (1999b), previam que as “CMEs nacionais” (ex.: Escandinávia) convergiriam para as “CMEs setoriais” (ex.: Alemanha), ou que estas últimas caminhariam para o modelo anglo-saxão, reforçando a ideia de um contínuo único (§10).
A autora insiste que a capacidade de coordenação patronal não dita automaticamente um resultado igualitário; isso depende da política e das coalizões que sustentam as instituições (§11). O sistema de treinamento alemão serve de exemplo: historicamente, seus efeitos igualitários cresceram com sua expansão (escopo), mas a partir dos anos 1990, o racionamento de vagas de aprendizagem dentro do sistema ainda coordenado gerou novas desigualdades (§11). Thelen conclui que a questão não é apenas se os empregadores abandonarão a coordenação ou se o trabalho resistirá, mas quem está se coordenando com quem e para fazer o quê (§12). Essa perspectiva relacional e funcional é a chave para entender a variação nas trajetórias de mudança.
1.4 Variedades de Liberalização [§13–§22]
A autora introduz sua estrutura analítica, argumentando que o termo “liberalização” é genérico demais para capturar as diferentes dinâmicas políticas e resultados distributivos em jogo (§13). Ela distingue três trajetórias ideal-típicas de liberalização, representadas na Figura 1.5 (p. 13):
Liberalização Desregulatória (Deregulatory Liberalization): Associada às LMEs como os EUA, envolve o desmantelamento político ativo das capacidades de coordenação e o declínio da cobertura, levando a uma acentuada individualização do risco (§14). O processo de mudança institucional típico é o deslocamento (displacement). Exemplos incluem o ataque direto aos direitos de negociação coletiva.
Liberalização Dualizante (Dualizing Liberalization): Predominante em países democratas-cristãos como a Alemanha, caracteriza-se por uma forte coordenação contínua no lado patronal, mas com um estreitamento do número de firmas e trabalhadores cobertos, permitindo o crescimento de uma periferia desprotegida (§15). O processo de mudança típico é a deriva (drift), onde as instituições se corroem por conta própria à medida que o emprego se desloca para setores não organizados. Coalizões cross-class nos setores centrais intensificam a cooperação, mas deixam outros para trás (§15).
Flexibilização Socialmente Integrada (Embedded Flexibilization): Associada às social-democracias escandinavas como a Dinamarca, introduz novas formas de flexibilidade dentro de estruturas abrangentes que coletivizam o risco (§16). Distingue-se da desregulação por estar “integrada” em políticas que promovem uma “solidariedade do lado da oferta”, focando em capacitar os mais vulneráveis. O processo de mudança típico é a conversão institucional (conversion) de estruturas existentes para novos objetivos, sob a égide de uma coalizão social reconfigurada.
Thelen aponta que essas trajetórias correspondem aos “três mundos” do welfare de Esping-Andersen (1990) e desafia a visão da VofC de que as instituições político-econômicas e de bem-estar social são paralelas e complementares (§17). A análise da autora busca demonstrar combinações que os modelos unidimensionais não preveem: a dualização combina declínio da igualdade com coordenação contínua, enquanto a flexibilização socialmente integrada mostra alta igualdade com reformas pró-mercado (§18). Os dados na Figura 1.6 (p. 17) sobre desemprego de longa duração e emprego involuntário em tempo parcial corroboram essas trajetórias, mostrando, por exemplo, como a queda do desemprego de longa duração nas CMEs continentais veio acompanhada de um aumento de “empregos ruins” (§19).
A autora anuncia que focará sua análise nos EUA (LME), Alemanha (CME Democrata-Cristã) e Dinamarca (CME Social-Democrata), com tratamentos complementares de Holanda e Suécia para refinar a compreensão das dinâmicas políticas e dos alinhamentos de interesse que produzem essas trajetórias (§20).
1.5 Explicando as Trajetórias de Mudança [§23–§31]
Thelen analisa as forças e fraquezas das principais perspectivas teóricas para explicar as trajetórias divergentes. Ela começa pela Teoria dos Recursos de Poder (Power Resource Theory) , que atribui os resultados à força do trabalho organizado (densidade sindical, partidos de esquerda no governo) para resistir à ofensiva patronal por flexibilidade (§23–§24). Embora ofereça uma primeira aproximação convincente, a autora aponta anomalias que essa teoria não explica bem: Holanda e Alemanha, com taxas médias de sindicalização e partidos democratas-cristãos dominantes, tiveram trajetórias distintas; a Suécia, com mais recursos de poder que a Dinamarca, apresenta mais tendências dualistas (§24). Além disso, a ideia de que a globalização empodera o capital contra o trabalho é complexa, pois empregadores da manufatura, os mais afetados pela globalização, não são os que mais demandam desregulação, mas sim os do setor de serviços (§24).
Em seguida, a autora avalia as Teorias do Dualismo, especialmente o argumento de David Rueda (2007) de que partidos social-democratas fortes, aliados a sindicatos de insiders, podem promover a desigualdade ao proteger os interesses de seus eleitores principais contra os dos outsiders do mercado de trabalho (§25–§26). Thelen reconhece a força do argumento em desagregar os interesses da classe trabalhadora, mas critica seus mecanismos causais, notando que as diferenças de preferências políticas entre insiders e outsiders documentadas por Rueda são muito pequenas, e que a desigualdade permanece mais baixa em países onde a social-democracia é mais forte, o que contradiz a lógica central da teoria (§26).
Por fim, a autora discute as Teorias da Organização Patronal e do Macro-Corporativismo, que argumentam que associações empresariais centralizadas e negociações tripartites nacionais promovem maior solidariedade ao facilitar o compromisso e “transformar as preferências” dos empregadores (§27). Embora haja uma forte associação empírica entre tripartismo e solidariedade, Thelen aponta variação temporal e política que é obscurecida por essa ênfase. Momentos de crise e neoliberalismo na Escandinávia, bem como o fato de que o “milagre do emprego” holandês veio após um período de estagflação também gerado por políticas corporativistas, mostram os limites de uma visão excessivamente cooperativa do corporativismo (§28). Além disso, a retirada unilateral dos empregadores suecos da negociação centralizada em 1990 desafia a noção de que eles abraçam o tripartismo por terem aprendido seus benefícios (§29).
1.6 Coalizões de Grupos Produtores e o Papel do Estado [§30–§31]
Com base nas limitações das teorias anteriores, Thelen esboça seu argumento político-coalizacional, que ecoa uma segunda geração de teorias corporativistas com foco na capacidade estatal (state capacity) (§30). A questão crucial passa a ser: o Estado é forte em relação a quem? A resposta da autora é: “forte em relação aos interesses da manufatura”. Na era pós-industrial, a coalizão cross-class na manufatura, que foi central para a coordenação na Era de Ouro, não está mais disposta (empregadores) ou não é mais capaz (sindicatos) de defender as instituições tradicionais em toda a economia (§30). Onde essas coalizões dominam as associações de interesse, promove-se o dualismo; onde estão imbricadas em organizações mais abrangentes, a liberalização pode avançar sob uma aliança mais ampla que socializa os riscos (§30).
Para explicar a variação nas trajetórias, a análise aponta duas variáveis principais que afetam como os interesses da manufatura se conectam com o resto da economia (§31):
- Abrangência das associações de interesse: Nos países escandinavos, sindicatos e associações patronais são amplos e abrangentes, enquanto em muitas economias políticas continentais, a filiação é fortemente concentrada na manufatura.
- Capacidade do Estado: O Estado possui ferramentas distintas para intermediar acordos abrangentes. A Tabela 1.1 (p. 24) cruza essas duas variáveis, gerando quatro cenários. O melhor cenário é aquele com associações abrangentes e alta capacidade estatal (ex.: Dinamarca), enquanto o pior, que leva ao dualismo, combina associações dominadas pela manufatura com baixa capacidade estatal (ex.: Alemanha).
A autora conclui que o poder estatal é frequentemente crucial para forçar acordos que superem as divisões internas das associações.
1.8 Dinâmicas Políticas e Coalizões [§39–§41]
A autora conecta as escolhas políticas da Era de Ouro com as dinâmicas atuais. Nos países social-democratas, a resposta à escassez de mão de obra nos anos 1960 foi mobilizar as mulheres para o mercado de trabalho, o que, por sua vez, expandiu o setor público e criou um contrapeso sindical significativo à manufatura (§40). Já nos países democratas-cristãos, a resposta foi recorrer a programas de guest workers, mantendo as mulheres em casa e um setor de serviços menor, permitindo que os interesses da manufatura continuassem a dominar a política dos grupos produtores (§40). Com base nessas trajetórias, Thelen delineia três padrões político-coalizacionais:
Liberalização Desregulatória (EUA): O declínio da manufatura, sem um acordo estável prévio entre capital e trabalho, gerou um conflito feroz. A transição para os serviços ocorreu sob uma coalizão neoliberal entre empregadores de setores novos e antigos, levando a uma acentuada individualização do risco e ao aumento da desigualdade (§41).
Dualização (Alemanha): Uma forte coalizão cross-class na manufatura continua a defender com sucesso as instituições tradicionais para o núcleo industrial. No entanto, essa mesma coalizão não consegue (e, para os empregadores, não deseja) estender essa liderança para toda a economia, resultando em uma crescente dualização através da deriva, beneficiando-se, inclusive, de uma periferia menos regulada que reduz custos de serviços e impostos (§41).
Flexibilização Socialmente Integrada (Escandinávia): Os interesses da manufatura são menos dominantes, e novos grupos (trabalhadores de serviços, mulheres) são bem organizados e incorporados. Isso permite coalizões de reforma mais abrangentes que abraçam a liberalização, mas a reincorporam em políticas de “investimento social” que garantem empregos de qualidade e protegem os vulneráveis. O Estado desempenha um papel crucial como corretor e sustentador dessa coalizão, com políticas que promovem a empregabilidade em vez da segurança no emprego (§41).
1.9 Estrutura dos Capítulos Seguintes [§42]
A autora conclui o capítulo delineando a estrutura do restante do livro. Os próximos três capítulos analisarão a política de estabilidade e mudança institucional em três arenas — relações industriais (Capítulo 2), treinamento vocacional (Capítulo 3) e política de mercado de trabalho (Capítulo 4) — comparando EUA, Alemanha e Dinamarca (§42). O Capítulo 5 estenderá a análise para Holanda e Suécia, para explorar a variação dentro das famílias de países, contrastando a Holanda (flexigurança de tipo continental) com a Alemanha, e a Suécia (tendências dualistas em um contexto social-democrata) com a Dinamarca (§42). O Capítulo 6 concluirá com as implicações do estudo.
2 Argumento Sintético
Ficha Analítica Crítica
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