Fichamento: O FIES e as estratégias dos grupos empresariais da educação superior frente à redução dos contratos de financiamento público
Scudeler (2022)
Scudeler, M. A. (2022). O FIES e as estratégias dos grupos empresariais da educação superior frente à redução dos contratos de financiamento público. Tese de doutorado, Pontifícia Universidade Católica de Campinas.
Última atualização: 2026-04-19 Modelo: Claude 3.5 Sonnet (2024-10-22) Gerado em: 2026-04-19T14:30:00-03:00
1 Introdução (pp. 17–30)
1.1 Contexto e objeto de pesquisa [pp. 17–19]
O autor descreve a transformação da educação superior privada brasileira nos últimos 25 anos, com ciclos distintos de demanda e público. A partir de 2005, o perfil do alunado mudou com o Prouni, que trouxe estudantes de famílias de baixa renda, e com o Fies, que ampliou o acesso na primeira metade da década de 2010. Nesse período, grandes grupos empresariais educacionais atuaram com foco na captação de alunos e política de preços, enquanto a EaD se fortalecia.
A partir de 2015, com a crise econômica e a política de austeridade fiscal, o Fies começou a ser reduzido progressivamente. Grandes players adquiriram pequenas instituições, o financiamento público tornou-se escasso e as empresas passaram a oferecer financiamento próprio ou por intermédio de bancos. O ticket médio das mensalidades foi reduzido, muitas vezes sem reajuste pela inflação.
O autor situa o contexto da pandemia da Covid-19 como acelerador das mudanças, com o ensino remoto fortalecendo a EaD. O Fies, que foi protagonista na ampliação e diversificação do acesso, também serviu como ferramenta de financeirização das IES privadas, beneficiadas pelo custeio estatal com pouco ônus ou compromisso com a qualidade.
1.2 Hipótese e objetivos [pp. 19–20]
A tese tem como objetivo compreender as consequências do forte encolhimento do Fies a partir de 2015 para o segmento educacional, analisando as alternativas comerciais criadas por grandes grupos educacionais para minimizar a redução na captação de novos alunos.
A hipótese central é que, com a míngua de fontes públicas de financiamento estudantil, a continuidade da expansão e a manutenção dos resultados financeiros das empresas educacionais foi viabilizada por duas estratégias comerciais: (a) oferta de fontes privadas de financiamento estudantil; (b) aumento da oferta de cursos na modalidade EaD, com mensalidades sensivelmente mais baratas. Essas estratégias visaram minimizar o impacto da redução do financiamento público na captação e permanência de alunos com perfil socioeconômico mais carente (até 3 salários mínimos per capita), não contemplados pelo Prouni.
1.3 Estado da arte: teses sobre o Fies [pp. 20–24]
O autor realizou levantamento no Catálogo de Teses e Dissertações da Capes (setembro de 2021) com o descritor “Fies”, encontrando 22 teses de doutoramento. Essas foram categorizadas em dois eixos:
Primeiro eixo (12 teses): abordam o Fies lateralmente, usando-o para contextualizar outros objetos (ex.: Cruz 2013, Guimarães 2013, Sousa 2014, Reis 2015, Campos 2017, Maia 2017, Silva 2017, Souza 2017, Silva 2018, Wbatuba 2018, Nascimento 2018, Vituri 2019). Destaca-se a tese de Vituri (2019), que aponta que o Fies estimula o acesso de sujeitos historicamente excluídos, mas também promove endividamento.
Segundo eixo (10 teses): colocam o Fies no centro da pesquisa, analisando seu papel na diversificação do acesso e na financeirização. Incluem Perdigão (2015), Jerônymo (2020), Lins (2018), Seki (2020), Miranda (2017), Rodrigues (2017), Santos (2018), Siqueira (2019), Tavares (2019) e Santos Filho (2016). Este último mostra que o Fies representou cerca de 40% da receita líquida de grandes grupos educacionais entre 2007 e 2015.
O autor argumenta que sua pesquisa avança ao analisar as consequências do encolhimento do Fies e as estratégias comerciais adotadas pelas IES privadas para manter a expansão, tema não aprofundado nas teses anteriores.
1.4 Referencial metodológico [pp. 24–30]
A pesquisa é documental, de caráter explicativo, com abordagem dialética para enfrentar as contradições do Fies como política pública. Foram utilizadas fontes diversas: reportagens jornalísticas, dados normativos, estatísticas do Censo da Educação Superior (Inep), documentos do MEC, do FNDE, do TCU, do Semesp, da Hoper Educação, da OCDE, além de relatórios de administração (2020 e 2021) das cinco companhias brasileiras de educação superior com ações negociadas na B3: Cogna Educacional, Yduqs Participações, Cruzeiro do Sul Educacional, Ser Educacional e Ânima Educação.
A base teórica apoia-se em Bourdieu (reprodução cultural, capital social, habitus) e em autores que discutem políticas públicas educacionais (Prouni, Fies, ações afirmativas, permanência). A pesquisa articula técnicas quantitativas e qualitativas, interpretando dados contextuais. Assume a contradição e o conflito como inerentes ao objeto, seguindo uma perspectiva reflexiva e dialética.
2 Capítulo 1. A idealização da educação superior (pp. 31–54)
2.1 Reprodução cultural segundo Bourdieu [pp. 32–41]
O capítulo discute a percepção do senso comum de que a educação superior permite mobilidade social. O autor recorre a Bourdieu para questionar essa visão, mostrando que a escola é um fator de reprodução e legitimação das desigualdades sociais. A origem social é o determinante mais influente no desempenho escolar, e o capital cultural herdado da família condiciona as chances de sucesso.
Bourdieu critica o “mito da escola libertadora”, afirmando que ela fornece aparência de legitimidade às desigualdades, tratando o dom social como dom natural. O habitus – disposições duráveis incorporadas socialmente – perpetua a estratificação por violência simbólica. A escola, ao invés de promover igualdade, reproduz o arbítrio cultural das classes dominantes.
“O sistema de educação pode na verdade assegurar a perpetuação do privilégio unicamente pelo jogo de sua própria lógica; dito de outra forma, ele pode servir aos privilégios sem que os privilégios tenham que se servir dele.” (Bourdieu e Passeron, 2018, p. 45, apud Scudeler, p. 39)
No entanto, o autor reconhece que ações pedagógicas contínuas podem neutralizar as desigualdades culturais, ainda que não eliminem o determinismo estrutural. A mera ampliação do acesso não reduz desigualdades sem políticas complementares.
2.2 Contextualização no Brasil emergente [pp. 41–45]
Dubet et al. (2012) mostram que a relação entre desigualdades sociais e escolares não é uniforme entre países. Quanto mais os diplomas determinam posições sociais e ganhos salariais, mais os pais investem para obter vantagens escolares. O Brasil enquadra-se no grupo em que o diploma de nível superior proporciona ganhos salariais muito superiores à média da OCDE (144% acima dos trabalhadores com ensino médio, contra 54% na média da OCDE).
Apesar da crítica bourdieusiana, o autor aponta que a expansão e diversificação do acesso no Brasil, a partir dos anos 2000, contribuiu para reduzir desigualdades de oportunidades educacionais. O diploma ainda é um bem relativamente escasso e estruturante das desigualdades, de modo que ampliar o acesso pode reduzir desigualdades – ainda que limitado por fatores estruturais do mercado de trabalho.
2.3 Meritocracia em contexto de equidade [pp. 45–47]
O autor distingue a meritocracia como discurso legitimador de desigualdades (crítica de Dubet) de sua validade quando analisada em contexto de equidade e isonomia. A meritocracia é legítima quando considerada de forma relacional, ou seja, comparando agentes com cargas equivalentes de capital cultural e social. Em sociedades com grandes desigualdades, os degraus sociais são mais altos e distantes, mas o esforço meritocrático dentro do mesmo ponto de partida tem valor.
2.4 Capital cultural institucionalizado e estratificação horizontal [pp. 47–52]
O diploma é um exemplo de capital cultural institucionalizado, que confere valor convencional e juridicamente garantido. No Brasil, há uma estratificação horizontal da educação superior: estudantes de origem socioeconômica baixa tendem a acessar cursos de menor prestígio (pedagogia, letras, serviços sociais), enquanto os mais ricos concentram-se em cursos imperiais (direito, medicina, engenharias). Além disso, a modalidade EaD, em expansão, pode criar novas diferenciações.
Apesar das críticas, o diploma superior ainda proporciona ganhos salariais significativos no Brasil. A OCDE (2020) registra que trabalhadores com curso superior ganham 144% mais que os demais. O autor conclui que a graduação agrega capital cultural e altera o habitus, melhorando as condições de disputa no campo social, ainda que não garanta mudança de estrato em uma única geração.
2.5 Síntese do capítulo [pp. 52–54]
O diploma superior é idealizado como trampolim para melhores rendimentos, e há forte demanda por acesso. Bourdieu alerta que a educação por si só não promove mobilidade, mas ações pedagógicas contínuas podem neutralizar barreiras. No Brasil, o hiato salarial é imenso, e as políticas públicas de ampliação e diversificação do acesso a partir dos anos 2000 podem ser vistas como ações pedagógicas compensatórias. O capital social do jovem que ingressa na educação superior pela primeira vez na família é menor, mas ele proporciona melhores condições para as próximas gerações.
3 Capítulo 2. A ampliação do acesso à educação superior e as causas de sua massificação e diversificação (pp. 55–90)
3.1 Ampliação do acesso: dados históricos [pp. 56–68]
O autor analisa a expansão da educação superior brasileira a partir da LDB/1961 e da Reforma Universitária de 1968, que permitiram o crescimento do setor privado. A CF/1988 tratou a educação como direito social. A LDB/1996 e o Decreto n. 2.306/1997 permitiram a criação de IES privadas com finalidade lucrativa, o que acelerou a privatização.
Tabela 1 (p. 60) mostra o crescimento das matrículas: de 1,38 milhão em 1980 para 8,98 milhões em 2021. O setor privado responde por cerca de 75% das matrículas. Tabela 2 (p. 61) mostra o número de IES: 2.574 em 2021, sendo 2.261 privadas.
Apesar da expansão, o Brasil não atingirá a Meta 12 do PNE/2014 (50% de taxa bruta de matrícula e 33% de taxa líquida até 2024). Em 2021, a TBM era 39,3% e a TLE 24,0%. O autor classifica o sistema como de “massa” (Trow: 16-50% da faixa etária), mas ainda não democrático.
3.2 Políticas públicas de massificação e diversificação [pp. 69–79]
O autor sistematiza as políticas em quatro grupos:
Ações afirmativas: Lei de Cotas de 2012 (Lei 12.711) reserva 50% das vagas das federais para estudantes de escolas públicas, com subcotas para pretos, pardos e indígenas. O percentual de alunos pretos/pardos/indígenas nas IES públicas subiu de 39,1% (2010) para 49,7% (2020).
Concessão de bolsas (Prouni): Criado em 2004/2005, concede bolsas integrais (renda per capita ≤ 1,5 SM) e parciais (≤ 3 SM) em IES privadas. Em 2021, foram 296 mil bolsas. O programa tem baixo custo para o Estado (renúncia fiscal).
Empréstimo público (Fies): Criado em 1999, reformulado em 2010, teve auge em 2014 (733 mil novos contratos). Financia mensalidades de estudantes com renda per capita até 3 SM (modalidade sem juros) ou 5 SM (com juros). O autor aprofunda no capítulo 3.
Políticas de permanência: Reuni (2007) expandiu vagas e reduziu evasão nas federais; Pnaes (2010) oferece assistência estudantil. No setor privado, as políticas de permanência são quase inexistentes, e os alunos “se viram”.
3.3 Outros fatores contribuintes [pp. 79–88]
- Estabilidade econômica: Plano Real (1994) reduziu a pobreza e a inflação, criando condições para o aumento da demanda por educação.
- Expansão da educação básica: O número de concluintes do ensino médio estabilizou-se em cerca de 1,8 milhão por ano (2010-2020).
- Ganhos de remuneração: O diploma superior proporciona ganhos 144% superiores aos do ensino médio (OCDE, 2020).
- Grupos econômicos: A partir de 1997, a permissão para IES lucrativas, somada ao capital estrangeiro (a partir de 2001) e à abertura de capital na bolsa (a partir de 2007), criou grandes grupos empresariais educacionais. Exemplos: fusão Kroton-Anhanguera (2014) formou o maior conglomerado do mundo, com 1 milhão de alunos.
3.4 Síntese do capítulo [pp. 88–90]
O Brasil migrou de um sistema de elite para um sistema de massa e diversificado, mas ainda não democrático. O processo foi viabilizado por políticas neoliberais que transferiram ao setor privado a responsabilidade pela expansão, com o Estado atuando como regulador e financiador indireto.
4 Capítulo 3. Da privatização à financeirização da educação superior brasileira (pp. 91–132)
4.1 A transformação da educação superior em negócio lucrativo [pp. 93–97]
O autor define privatização como o processo de ampliação do número de estudantes no setor privado em detrimento do público, e financeirização como a dinâmica em que a acumulação de capital ocorre no mercado financeiro (ações, rentismo) em vez da produção de serviços. A LDB/1996 e o Decreto 2.306/1997 permitiram a criação de IES com finalidade lucrativa, o que foi decisivo para a entrada de grandes grupos.
O governo FHC (1995-2002) mais que dobrou o número de IES privadas (de 711 para 1.442). A criação dos centros universitários (autonomia sem obrigação de pesquisa) facilitou a expansão. Os novos players caracterizam-se por: crescimento rápido, padronização pedagógica e governança centralizada desvinculada do corpo acadêmico.
4.2 Prouni: trajetória histórica e legal [pp. 97–102]
O Prouni foi criado em 2004/2005 como resposta ao lobby do setor privado para reduzir a ociosidade e a inadimplência. O programa concede bolsas em troca de isenções fiscais. O autor destaca que o Prouni tem dois lados: (a) forte impacto social, incluindo melhor desempenho dos prounistas no Enade; (b) ferramenta de financeirização, pois ocupou vagas ociosas e deu benefícios fiscais a IES lucrativas que antes não os tinham.
Em 2021/2022, a MP 1.075 (convertida na Lei 14.350/2022) alterou o Prouni, permitindo que estudantes de escolas particulares (não apenas bolsistas) concorram às bolsas, e estabeleceu cotas para negros, indígenas e pessoas com deficiência.
4.3 Fies: trajetória histórica e legal [pp. 102–113]
O autor organiza a história do Fies em quatro fases:
| Fase | Período | Características principais |
|---|---|---|
| 1ª | 1999-2009 | Criação, juros de 6,5% a.a., exigência de fiador, carência de 6 meses. |
| 2ª | 2010-2014 | Reforma (Lei 12.202/2010): juros caem para 3,4% a.a., FGEDUC garante 80% do risco, dispensa fiador para baixa renda. Explosão de contratos: de 76 mil (2010) para 733 mil (2014). |
| 3ª | 2015-2017 | Ajustes fiscais: redução drástica de novos contratos (287 mil em 2015, 168 mil em 2017), exigência de nota mínima no Enem (450 pontos), retorno do fiador. |
| 4ª | 2018-2020 | Lei 13.530/2017: cria duas modalidades (juros zero para renda ≤ 3 SM; juros para renda 3-5 SM), aumenta contribuição das IES (13-16% da mensalidade). Novos contratos caem para 82 mil (2018), 85 mil (2019), 54 mil (2020), 47 mil (2021). |
O investimento público no Fies atingiu pico de R$ 19,9 bilhões em 2017 (Tabela 8, p. 108), mesmo após a queda de novos contratos, devido à manutenção de contratos antigos. A inadimplência é alta: 48,8% dos contratos em fase de amortização estavam inadimplentes em 2019 (Tabela 10, p. 111). O autor destaca que a inadimplência é inversamente relacionada ao valor da dívida: contratos mais baixos (cursos baratos) têm maior inadimplência.
4.4 O Fies como programa de inclusão de sucesso [pp. 113–116]
Apesar das críticas, o Fies promoveu forte inclusão de estudantes vulneráveis:
- Renda per capita ≤ 1 SM: passou de 31,8% dos contratos (2010) para 74,7% (2017) (Tabela 11, p. 114).
- Escola pública: passou de 62,6% (2010) para 77% (2017) (Tabela 12, p. 114).
- Autodeclarados pretos, pardos ou indígenas: passou de 36,8% (2010) para 60,3% (2017) (Tabela 13, p. 115).
4.5 Prouni e Fies como ferramentas de financeirização [pp. 116–127]
O autor argumenta que esses programas transferiram recursos públicos para o setor privado, fortalecendo grupos empresariais. A Tabela 15 (p. 118) mostra que as despesas da União com Fies e Prouni cresceram de 8% das despesas com universidades federais em 2003 para 32% em 2014. Em 2014, o conglomerado Kroton-Anhanguera foi a empresa privada que mais recebeu pagamentos do governo federal.
O custo por aluno no Fies (R$ 11.413) é menos da metade do custo em universidade federal (R$ 23.697), e o Prouni custa apenas R$ 3.785 por aluno (Tabela 16, p. 122). No entanto, o autor ressalta que essa comparação é problemática porque as universidades federais incluem despesas com pesquisa, extensão e aposentadorias.
“Trata-se de um verdadeiro capitalismo sem risco, com cliente cativo, inadimplência zero e com setor privado impondo preços.” (Napolitano, 2017, apud Scudeler, p. 120)
O autor distingue os tipos de IES privadas: - Com finalidade lucrativa: sociedades de capital aberto ou fechado, distribuem lucros. - Sem finalidade lucrativa: associações ou fundações, não distribuem lucros, gozam de imunidade tributária (IRPJ, ISS, IPTU, CSLL, COFINS, PIS). As beneficentes (com Cebas) também têm imunidade das contribuições previdenciárias.
O Prouni concedeu às IES lucrativas os mesmos benefícios fiscais que as sem fins lucrativos já tinham, além de ocupar vagas ociosas. Isso acelerou a expansão das IES lucrativas, que cresceram “28 vezes mais que as IES sem fins lucrativos” entre 2010 e 2016 (Tagliari, 2022, apud Scudeler, p. 126).
4.6 A política de austeridade fiscal e o encolhimento do Fies [pp. 127–130]
A EC 95/2016 congelou os gastos primários por 20 anos, afetando programas sociais. O Fies sofreu cortes progressivos a partir de 2015, retornando em 2019 aos patamares de 2010. A crise econômica aumentou o desemprego e reduziu a capacidade das famílias de investir em educação.
4.7 Síntese do capítulo [pp. 130–132]
O poder público pagou um preço alto pela massificação e diversificação: privatização e financeirização do setor. Os mesmos programas que incluíram alunos vulneráveis também financiaram a formação de grandes grupos empresariais educacionais.
5 Capítulo 4. Não há espaço vazio no capitalismo: a ampliação da oferta da EaD e das fontes de financiamento privado (pp. 133–197)
5.1 Primeira reação do mercado: redução do preço médio das mensalidades presenciais [pp. 135–139]
O autor identifica três fases na evolução do preço médio das mensalidades presenciais (Tabela 17, p. 136):
- 2005-2010: queda de 26,5% (de R$ 932 para R$ 788) – formação dos primeiros grupos, marketing de precificação.
- 2011-2015: aumento de 21,8% (de R$ 788 para R$ 960) – auge do Fies, governo como “cliente” cativo.
- 2016-2021: nova queda de 21% (de R$ 960 para R$ 758) – encolhimento do Fies e crise econômica.
5.2 Primeira estratégia: expansão da EaD [pp. 139–164]
O autor traça os marcos legais da EaD, destacando o Decreto 9.057/2017 e a Portaria 11/2017, que permitiram a criação de polos sem autorização prévia do MEC e o credenciamento de IES exclusivamente para EaD. A Portaria 1.428/2018 autorizou até 40% da carga horária de cursos presenciais na modalidade a distância (hibridização).
A expansão foi rápida:
- Matrículas EaD no setor privado: 1,20 milhão em 2014 (17,1% do total) → 3,54 milhões em 2021 (39,4%) (Tabela 18, p. 147).
- Ingressantes EaD no setor privado: ultrapassaram os presenciais em 2019; em 2021, 70,5% dos ingressantes optaram por EaD (Tabela 21, p. 150).
- Cursos EaD: 1.476 em 2015 → 7.620 em 2021 (Tabela 22, p. 150).
- Polos EaD: 4.913 em 2014 → 31.497 em 2021, com salto de 7.052 para 15.452 entre 2017 e 2018 (Tabela 23, p. 152).
O autor analisa materiais comerciais de grupos como Cogna (Anhanguera) e Multivix, mostrando que os polos são tratados como negócios de franquia, com investimento inicial baixo (a partir de R$ 15 mil) e repasse de 30-40% do faturamento para o parceiro local. A principal atividade dos polos é a captação de alunos (60,9% das respostas na pesquisa da ABED, Tabela 24, p. 153).
Diferencial de preço: a mensalidade média da EaD caiu de R$ 405 (2012) para R$ 249 (2021), representando 32,8% do valor do presencial em 2021 (Tabela 27, p. 163). Essa redução é viabilizada por ganhos de escala: o aumento de alunos não implica aumento proporcional de custos com infraestrutura e docentes.
5.3 Segunda estratégia: financiamento estudantil privado [pp. 164–169]
O autor distingue três modalidades de financiamento privado:
- Reembolsável concedido pela própria IES: cresceu de 0,4% dos alunos em 2014 para 3,2% em 2019, mas caiu para 1,2% em 2020 (Tabela 28, p. 166).
- Reembolsável por entidade externa (ex.: Pravaler): manteve-se estável em torno de 0,6-0,8% dos alunos.
- Não reembolsável (descontos comerciais): disparou de 13,4% dos alunos em 2014 para 30,6% em 2020 (Tabela 29, p. 168). Essa é a principal estratégia de precificação, atrelada ao pagamento pontual.
“A Yduqs compensa queda no Fies com cursos EAD e de Medicina. […] a empresa já fatura com o ensino a distância (EAD) o mesmo patamar do antigo Fies.” (O Estado de São Paulo, 18/03/2022, apud Scudeler, p. 190)
5.4 Análise dos relatórios de administração das cinco maiores empresas de capital aberto [pp. 173–187]
O autor analisa os relatórios de 2020 e 2021 da Cogna, Yduqs, Cruzeiro do Sul, Ser Educacional e Ânima. Principais achados:
- Cogna: teve prejuízos em 2020 e 2021, realizou “maior reestruturação da história”, fechou campi, demitiu docentes, expandiu polos para 2.517 unidades. O EaD cresceu 32% ao ano desde 2019.
- Yduqs: manteve lucros, com receita do EaD atingindo R$ 1,3 bilhão em 2021 (mesmo patamar do auge do Fies). Expandiu polos em 34% em 2021, visando 2.500 até 2022. O CEO afirmou que o foco está nas classes C e D.
- Cruzeiro do Sul: fez IPO em 2021, captou R$ 1,2 bilhão. A base de alunos EaD cresceu 21,2% em 2020 e 12,5% em 2021, compensando a queda no presencial. Reduziu despesas com pessoal e infraestrutura.
- Ser Educacional: receita bruta de R$ 2,8 bilhões em 2021, com crescimento de 15%. Criou uma fintech (Educred) para oferecer crédito a alunos.
- Ânima: tradicionalmente focada em presenciais, anunciou em 2021 que o EaD seria prioridade. Em 2021, já tinha 114 mil alunos na modalidade, com receita de R$ 106,8 milhões.
Todos os relatórios mencionam a redução drástica da base de alunos financiados pelo Fies (Cogna: 2,6% da base total em 2021; Ânima: 7,3%) e a estratégia de expansão de polos EaD como compensação.
5.5 Concentração de mercado na EaD [pp. 191–194]
A Tabela 31 (p. 193) mostra que 70,2% dos alunos de EaD estão concentrados em apenas 10 IES privadas, pertencentes a 7 grupos empresariais. O autor destaca aquisições recentes: Ser Educacional comprou a FAEL (EaD) por R$ 280 milhões; Vitru Educação comprou a Unicesumar por R$ 3,2 bilhões, gerando sinergias de R$ 1-2,8 bilhões em redução de custos.
5.6 Síntese do capítulo [pp. 195–197]
O mercado educacional reagiu ao encolhimento do Fies com duas estratégias principais: (1) expansão da EaD, com preços muito mais baixos e ganhos de escala; (2) oferta de financiamento privado, especialmente descontos comerciais (não reembolsável). Essas estratégias permitiram manter o crescimento do número de alunos e a rentabilidade, mesmo sem o protagonismo do Fies. O autor conclui que a EaD se tornou a principal via de acesso para alunos das classes C, D e E, mas com sérias implicações para a qualidade e a estratificação horizontal.
6 Conclusão (pp. 198–212)
O autor sintetiza os principais argumentos:
- O diploma superior é altamente valorizado no Brasil devido aos ganhos salariais (144% acima do ensino médio) e ao histórico de acesso elitista.
- As políticas públicas de expansão e diversificação (Prouni, Fies, cotas) produziram inegáveis benefícios sociais, mas também serviram como financiamento indireto para a formação de grandes grupos empresariais educacionais.
- A crise econômica de 2015 e a política de austeridade fiscal (EC 95/2016) levaram ao encolhimento do Fies, ameaçando o acesso de alunos das classes C, D e E.
- O mercado reagiu com duas estratégias: (a) expansão massiva da EaD, com mensalidades baixas (cerca de 1/3 do valor do presencial) e ganhos de escala; (b) financiamento privado, especialmente descontos comerciais (30,6% dos alunos em 2020).
- Essas estratégias mantiveram a expansão do número de matrículas, mas aprofundaram a estratificação horizontal: alunos de baixa renda são direcionados para cursos EaD de baixo custo, enquanto alunos de alta renda permanecem nos presenciais de prestígio.
- O autor critica o modelo do Fies, que deixou o preço da mensalidade a cargo das IES, gerando endividamento excessivo e financeirização. Propõe que o Estado retome o protagonismo, definindo áreas prioritárias, modalidades de formação e, principalmente, quanto o Estado quer pagar para que o setor privado forme o estudante.
“O Estado precisa voltar a ser o protagonista deste cenário, a partir de uma forte revisão do modelo jurídico do Fies, em que o Estado deve definir quais áreas do conhecimento são prioritárias para a formação de profissionais para o futuro, a modalidade de formação e, em especial, o quanto o Estado quer pagar para que o segmento privado forme este estudante.” (p. 212)
7 Argumento Sintético
Ficha Analítica Crítica
Esta seção segue o formato IA Planilhando Textos v12.0.