Fichamento: Mass Warfare and the Welfare State/Social Policy: Causal Mechanisms and Effects
Obinger, H. & Petersen, K. (2014)
Obinger, H., & Petersen, K. (2014). Mass warfare and the welfare state: Causal mechanisms and effects. ZeS-Working Paper No. 02/2014. Zentrum für Sozialpolitik, Universität Bremen.
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1 Introdução (pp. 8–10)
1.1 O debate e o gap na literatura [§1–§2]
O artigo se abre com a epígrafe ciceroniana “Silent leges inter arma” e imediatamente apresenta o debate central: a relação entre guerra e Estado de bem-estar social é contestada. De um lado, uma tradição substantiva de autores — Titmuss (1950), Wilensky (1975), Porter (1994), Kasza (1996, 2002), Skocpol (1992), Castles (2010), entre outros — considera a guerra um pacemaker do welfare state. Do outro, há pesquisadores que enfatizam o trade-off entre gastos militares e gastos sociais, destacando os impactos negativos do conflito sobre a proteção social (Gal 2007). Os autores reconhecem, porém, que muitos desses achados repousam sobre estudos de caso ou focalizam exclusivamente os gastos sociais, deixando em aberto uma análise comparativa sistemática dos mecanismos causais subjacentes.
A razão pela qual a pesquisa comparativa de bem-estar social raramente incorporou a guerra como variável explicativa é, segundo Obinger e Petersen, a própria natureza excepcional do fenômeno. A guerra é conceituada nas ciências sociais como choque exógeno, “evento anormal” (Kasza 1996), emergência black swan (Castles 2010) ou “juntura crítica” (Capoccia/Kelemen 2007). Todas essas conceituações sugerem que as teorias convencionais de políticas públicas comparadas raramente se aplicam em condições de guerra: em democracias e autocracias, poderes executivos de emergência, censura, suspensão de direitos democráticos, controle público da economia e coalizão de governo e oposição são prevalentes no tempo de guerra, enquanto veto players institucionais perdem importância.
1.2 A proposta do artigo e as quatro qualificações [§3–§5]
O artigo propõe que a guerra é um fator causal importante para explicar diferenças transnacionais no desenvolvimento e nos padrões do Estado de bem-estar. Seu objetivo é montar um framework analítico que permita análise empírica sistemática do nexo guerra-welfare state. Para tanto, os autores oferecem uma análise exploratória dos mecanismos causais e examinam os efeitos resultantes sobre os padrões e a dinâmica de desenvolvimento dos welfare states avançados.
Quatro qualificações importantes são apresentadas antes de prosseguir. Primeira: os autores não afirmam que a guerra é o único ou mais importante fator; os “suspeitos usuais” na literatura comparada (partidos políticos, organizações de interesse, crescimento econômico, instituições políticas, ideias) continuam sendo relevantes, mas já são bem conhecidos — daí o foco na guerra. Segunda: nem todo conflito militar se relaciona com o desenvolvimento do welfare state. O texto foca na guerra de massa moderna (mass warfare), fenômeno que se estende de aproximadamente 1860 a 1960, com ênfase especial nas duas Guerras Mundiais, “as únicas guerras em larga escala travadas entre potências industrializadas” (Porter 1994: 150). Terceira: o impacto do conflito militar de grande escala sobre a política social não é esperado ser homogêneo entre países — é necessário analisar tanto países beligerantes quanto países neutros. T.H. Marshall (1965: 82) é citado ao afirmar que a natureza do efeito da guerra total sobre a política social depende das “fortunas da guerra” — se o país foi invadido, derrotado ou vitorioso, e do grau de destruição física e desorganização social sofrido. Quarta: não basta focar no período de conflito; as condições antecedentes e as repercussões de longo prazo no pós-conflito precisam ser estudadas. Guerras são antecipadas e planejadas e lançam longas sombras sobre o tempo de paz (Boemeke et al. 2006; Hamilton/Herwig 2010).
1.3 Estrutura do argumento e síntese das fases [§6]
2 A Fase de Preparação para a Guerra (pp. 11–15)
2.1 Contexto histórico: da paz armada ao recrutamento em massa [§7–§8]
A seção se inicia evocando a famosa afirmação de Charles Tilly de que “a guerra faz os Estados e os Estados fazem a guerra” (Tilly 1975: 42). Contudo, entre o Congresso de Berlim em 1878 e o início da Grande Guerra em 1914, a Europa escapou de conflitos militares de grande escala entre as grandes potências (Chickering et al. 2012). Ainda assim, em retrospecto, a guerra era a regra na Europa e um conflito futuro permanecia um cenário provável. As rivalidades entre as grandes potências cresceram continuamente ao longo dessas décadas, e atitudes imperialistas alimentaram esforços massivos de preparação para a guerra em todos os países.
O surgimento da guerra de massa está intimamente relacionado à difusão do exército de conscritos de massa na segunda metade do século XIX (cf. Figura 1 do original). A Prússia foi o primeiro país a emular o exército popular francês introduzindo a conscrição masculina universal em 1814. As derrotas militares frente à Prússia motivaram a Áustria-Hungria (1868) e a França (1873) a (re)introduzir a conscrição geral. Na Escandinávia, a Dinamarca a introduziu em 1848 como parte de uma mobilização nacional contra a Prússia; Finlândia (1870), Suécia (gradualmente a partir da década de 1880) e Noruega (1905) seguiram. O Reino Unido somente introduziu a conscrição universal durante a Grande Guerra, em 1916.
2.2 Conscrição em massa e saúde pública [§9–§11]
A introdução da conscrição em massa gerou um nexo estreito entre o estado de saúde da população masculina, a mortalidade infantil elevada e o poder militar. Dado o precário estado de saúde de homens jovens e crianças — resultado das repercussões da industrialização, urbanização e doenças como tuberculose — as preocupações com efetivos e poder de combate aumentaram tanto entre políticos quanto no meio militar, desencadeando reformas sociais com ênfase na proteção de (futuros) soldados e mães (Skocpol 1992). O primeiro caso histórico documentado é um relatório do tenente-general prussiano Heinrich Wilhelm v. Horn ao rei Federico Guilherme III em 1828, reclamando do declínio do número de soldados no Rhineland por conta do trabalho infantil disseminado na indústria têxtil. Esse relatório motivou o primeiro Ato de Proteção ao Trabalho na Alemanha, o Preussisches Regulativ de 1839, que proibiu o trabalho infantil para crianças abaixo de nove anos, o trabalho noturno e dominical para jovens, e restringiu a jornada de trabalho de adolescentes.
Na segunda metade do século XIX, as estatísticas de recrutamento forneceram informações confiáveis sobre o estado de saúde de grandes parcelas da população. Exemplos alarmantes: na Áustria-Hungria, 70% dos recrutas não passavam no exame físico em 1912; na Alemanha imperial, 54% dos jovens eram considerados inaptos para o serviço militar; na Suíça em 1878, o índice era de 51%. Na Grã-Bretanha — que não tinha conscrição até 1916 —, quase metade dos recrutas arregimentados em cidades industriais como York, Leeds e Sheffield entre 1897 e 1901 foram considerados inaptos. Essas revelações chocantes levantaram preocupações entre militares de alta patente sobre a “degeneração nacional” e eventualmente levaram a reformas de política social (Dwork 1987: 15-21). Durante a Grande Guerra, o Primeiro-Ministro Lloyd George reclamou do fraco estado físico dos soldados britânicos comparados a australianos e canadenses e, em discurso em Manchester em 1917, anunciou reformas para “construir uma Grã-Bretanha melhor” no pós-guerra.
O padrão se repetiu no Japão: em 1935, 40% dos jovens recrutados não passavam no exame físico. Como consequência, militares de alta patente e o Ministério do Exército propuseram a criação de um ministério da saúde. De fato, já em 1937, um Ministério do Bem-Estar foi estabelecido e, no ano seguinte, uma nova lei de seguro nacional de saúde foi adotada (Kasza 2002: 423-24).
2.3 Conscrição em massa e educação [§12–§14]
O interesse militar na formação de habilidades e na educação primária decorria de múltiplas razões. O progresso tecnológico exigiu crescentes habilidades para operar equipamentos cada vez mais sofisticados. A alfabetização era pré-requisito para compreender ordens escritas, manuais técnicos e novas tecnologias como o telégrafo. Um observador contemporâneo da Grande Guerra registrou: “não é apenas o poder físico médio dos recrutas que importa. Quanto mais tecnicamente avançado se torna nosso armamento, mais atividade mental, prontidão de raciocínio, compreensão e expertise em assuntos técnicos também importam” (Zimmermann 1915: 22). O analfabetismo era generalizado: 30% dos 1,7 milhão de homens que fizeram o Army Beta test em 1918 nos EUA não conseguiam ler os formulários adequadamente. Na Rússia czarista, o reformador militar D.A. Miljutin lançou programas abrangentes de alfabetização. Na Áustria-Hungria, com dez idiomas falados nas forças armadas, os oficiais precisavam aprender as línguas dos regimentos em Bildungsschulen especiais.
O interesse militar na educação abrangia também a propaganda e a doutrinação. A guerra de massa não exigia apenas mobilização de energia física, mas a alfabetização em massa tornava “os soldados mais acessíveis à propaganda, tanto como crianças quanto como adultos” (Posen 1993: 121). Há evidências consideráveis para Prússia, França e Áustria-Hungria de que o exército tentou manipular a educação primária antes e durante as guerras, com vistas a promover o patriotismo e a unidade nacional.
2.4 Conscrição em massa e política populacional [§15–§16]
A emergência da guerra de mobilização em massa tornou a política populacional um foco para formuladores de políticas e militares. O declínio das taxas de fertilidade nas primeiras décadas do século XX em todas as potências europeias (Kahn 1930; Myrdal/Myrdal 1935) suscitou preocupações políticas e militares sobre tamanho e qualidade populacional relativa às nações rivais. A equação que caracterizava o debate público era simples: maiores taxas de natalidade e contingentes populacionais equivalem a maior poder militar.
Na França, o medo de ser superada numericamente pelo inimigo alemão provocou intensos debates no final do século XIX sobre o nexo entre declínio populacional, capacidade defensiva e sobrevivência da nação, acelerando a introdução de benefícios familiares e políticas pronatais (deduções fiscais, políticas de habitação, saúde pública). O compromisso com políticas familiares orientadas à população foi mais pronunciado na Itália fascista e na Alemanha nazista. O regime nazista considerava a queda das taxas de fertilidade uma ameaça imediata ao Volkstod e às capacidades de defesa (Reidegeld 1989; 1993). Contudo, mesmo na Escandinávia Social-Democrata, políticas populacionais similares apareceram nos anos entreguerras: o exemplo mais proeminente é a Suécia, onde a análise de Gunnar e Alva Myrdal sobre a “Crise na Questão Populacional” (1935) sequestrou uma pauta conservadora e a transformou em agenda de reforma social-democrata (Hatje 1974).
3 A Fase da Guerra (pp. 16–23)
3.1 Contextos variados: da democracia à ocupação [§17]
A própria guerra teve impactos enormes, mas muito distintos entre os países envolvidos. Para países neutros como Suíça e Suécia, os efeitos foram mais indiretos, permitindo maior continuidade das atividades normais. Na Dinamarca da Segunda Guerra, isso se verificou em certa medida, enquanto países ocupados como Polônia e Países Baixos testemunharam ocupações brutais acompanhadas de mudanças de regime. Alguns países foram pesadamente envolvidos em combate e sofreram baixas enormes, enquanto outros não. Os países também diferiam politicamente: alguns eram autocracias ao entrar em guerra, enquanto outros eram democraticamente controlados. Para os últimos, a guerra parece ter fomentado um consenso nacional e dotado os governos de maior poder decisório (medidas de emergência). Contudo, em que grau isso prevaleceu sobre os conflitos partidários tradicionais em torno da política social permanece uma questão em aberto (Addison 1994; Jefferys 1991).
3.3 Centralização, planejamento econômico e construção institucional [§23–§24]
O isolamento e/ou a destruição econômica induzidos pela guerra levaram tipicamente a escassezes de alimentos, commodities, mão de obra e matérias-primas, causando inflação e declínio da produção. Governos em todo o mundo responderam com controles de preços e aluguéis, regulação de salários, racionamento, controles de câmbio e nacionalizações de empresas em setores estratégicos (Porter 1994). Em resumo, o mercado livre foi progressivamente substituído pelo planejamento econômico, gerando uma expansão dramática do governo e alterando as relações Estado-empresas. O economista austríaco Gustav Stolper previu esse fenômeno já em 1915: “as mudanças mais importantes causadas pela guerra afetarão as relações entre a economia de mercado e a economia estatal. A guerra estendeu o escopo da influência estatal a um grau que, muito provavelmente, nunca retornará ao seu nível anterior” (Stolper 1915: 5).
3.4 O ônus militar e a ascensão do Estado fiscal [§25–§27]
A necessidade de financiar a guerra foi um passo adicional no caminho para o grande governo. Os orçamentos militares dispararam, e em consequência os poderes tributários do Estado central foram ampliados em toda parte. Novos impostos — incluindo o imposto de renda (França 1915, Canadá 1917) e impostos sobre lucros de guerra — foram introduzidos durante a guerra. Scheve e Stasavage (2010) demonstraram que os altos custos de oportunidade da participação na guerra por parte de milhões de indivíduos geraram pressão política para impor encargos financeiros sobre aqueles que não arriscavam suas vidas. Foi essa “lógica do sacrifício igual” que levou a maiores encargos tributários sobre os ricos. Durante a Primeira Guerra Mundial, a alíquota marginal máxima do imposto de renda subiu de 7% para 77% nos EUA; de 8,3% para 60% no Reino Unido; de 21,9% para 72,5% no Canadá; e de 2% para 50% na França (Scheve/Stasavage 2010: 538-41). Durante a Segunda Guerra Mundial, a alíquota efetiva do imposto federal de renda chegou a 90% nos EUA para rendimentos acima de um milhão de dólares.
A hiperinflação causada pela impressão de moeda para financiar a guerra poderia ter impacto duradouro sobre o mix público-privado do welfare state pós-guerra: ela tornava fortunas privadas e formas de previdência de capitalização sem valor, aumentando assim a demanda por suporte público de renda. Isso desacreditou o mercado especialmente nos países com maior destruição e hiperinflação, enquanto nos EUA e na Suíça — que não sofreram guerras no território nacional nem hiperinflação — o setor privado permaneceu relativamente forte.
3.6 Desmobilização [§31–§33]
A desmobilização ao fim das duas guerras mundiais impulsionou ainda mais o planejamento econômico e a introdução de programas sociais e educacionais categóricos. Os principais desafios sociais relacionados à desmobilização eram desemprego, suporte de renda para veteranos inválidos e suas famílias, educação e reabilitação vocacional de veteranos, e habitação.
Antes da Primeira Guerra Mundial, a habitação era basicamente deixada aos mercados; após a Grande Guerra, os governos intervieram pela primeira vez em larga escala — Lloyd George propôs um programa habitacional massivo para fornecer “lares dignos para os heróis” e “levar luz e beleza às vidas do povo” (Gilbert 1970: 19). O GI Bill nos EUA (1944) — “um dos direitos sociais mais generosos e inclusivos que o governo federal já financiou e administrou” — ofereceu benefícios sociais, educação superior e treinamento vocacional para 7,8 milhões de veteranos da Segunda Guerra (Mettler 2002: 351). Quanto ao desemprego, o medo de agitação social motivou governos a adotar benefícios de emergência para veteranos. Nenhum país havia introduzido seguro-desemprego obrigatório antes de 1914, mas o esquema temporário e não contributivo de benefício por desemprego introduzido na Grã-Bretanha em 1918 abriu caminho — em parte involuntariamente — para o seguro-desemprego universal em 1920 (Gilbert 1970: 54ff).
4 O Período Pós-Guerra (pp. 24–29)
4.1 Necessidades sociais induzidas pela guerra [§34]
Os períodos pós-guerra imediatos foram quase em todo lugar caracterizados por legislação social abrangente e levaram, especialmente após 1945, a um salto quântico no desenvolvimento do welfare state. No rescaldo das duas guerras mundiais, mais de sessenta milhões de pessoas perderam suas vidas, e a guerra total gerou necessidades sociais de magnitude inconcebível. A proteção social de milhões de viúvas, órfãos, veteranos inválidos, desempregados, refugiados e desabrigados gerou um gigantesco desafio para os formuladores de políticas. Todos esses resultados desastrosos criaram uma forte demanda por suporte governamental de renda e tiveram tremendo impacto sobre os gastos sociais.
4.4 O legado das políticas de guerra como catalisador do welfare state [§41–§43]
O mais famoso efeito de feedback da guerra sobre as políticas públicas pós-guerra é o “efeito de deslocamento” (displacement effect) detectado por Peacock e Wiseman (1961) em seu estudo sobre o desenvolvimento das despesas públicas britânicas. Eles argumentaram que grandes perturbações como as guerras alterariam as ideias das pessoas sobre os níveis toleráveis de tributação e deslocariam as receitas e despesas públicas para níveis mais altos durante o período de guerra. Contudo, as maiores alíquotas tributárias e despesas induzidas pela guerra nunca retornariam aos seus níveis pré-guerra, em função de efeitos de habituação, rigidezes institucionais e novas obrigações de gastos relacionadas à guerra.
Peacock e Wiseman também argumentaram que a guerra contribui para um “processo de concentração” dos gastos públicos em polidades descentralizadas ou federais, pois as autoridades locais são incapazes de lidar com as repercussões de emergências de grande escala. Governos democráticos do pós-guerra podiam responder rapidamente às necessidades sociais criadas pela guerra, apoiando-se em medidas de preparação e propostas já elaboradas ou implementadas durante a guerra. Na Alemanha, a Grande Guerra foi, sem dúvida, um pacemaker para o welfare state da República de Weimar (Preller 1978; Reidegeld 1989). No Reino Unido, o benefício temporário não contributivo por desemprego de 1918 abriu caminho, em parte involuntariamente, para o seguro-desemprego universal em 1920. Na Suíça, o sistema de compensação salarial federal para militares serviu como modelo organizacional para o novo sistema de pensões introduzido em 1946 (Leimgruber 2010). Na Suécia, o benefício familiar para famílias de soldados foi transformado em benefício familiar geral no pós-guerra, e agências públicas criadas durante a guerra como o Conselho do Mercado de Trabalho (Arbetsmarknadsstyrelsen) continuaram existindo após a guerra.
4.5 Guerra e crescimento econômico [§44–§45]
A guerra total afetou as economias nacionais de muitas maneiras. Durante a guerra, uma grande proporção do PIB foi alocada a despesas militares em países diretamente envolvidos e em países neutros. Após a guerra, muitos países enfrentaram situações de infraestrutura destruída, força de trabalho e capacidades produtivas prejudicadas. Os países derrotados tiveram ainda que compensar por danos de guerra. Os autores destacam dois pontos importantes: primeiro, que a situação econômica após a Primeira Guerra tornou-se muito mais dramática porque foi seguida pela crise de 1929-1933; segundo, que o impacto econômico das guerras diferiu significativamente entre países.
Contudo, a guerra também teve efeitos mais positivos sobre as economias nacionais. O excepcional crescimento econômico nas três décadas seguintes à Segunda Guerra facilitou a expansão sem precedentes do welfare state na chamada Idade de Ouro. Os “milagres econômicos” do Japão e da Alemanha são casos emblemáticos. Mancur Olson (1982) atribuiu a rápida recuperação econômica nesses países à remoção de coalizões distributivas enraizadas, relacionada à guerra. A teoria neoclássica do crescimento, por sua vez, explica o rápido crescimento pós-guerra como catch-up resultante do dramático declínio do PIB nas economias devastadas — em 1946, o produto per capita no Japão era equivalente ao de 1910, e na Alemanha, ao de 1890 (Frieden 2006: 261).
5 Resultados: Impacto da Guerra sobre o Desenvolvimento e os Padrões do Welfare State (pp. 30–33)
5.1 Efeito sobre o timing de adoção de programas [§46]
A guerra é importante para compreender as diferenças transnacionais no timing da adoção de programas de bem-estar. Há evidências de que o período pós-guerra imediato foi uma fase de rápida legislação de política social e que a guerra e a preparação para a guerra estão estreitamente associadas à introdução de programas específicos: compensação por desemprego, habitação e suporte de renda para famílias são áreas-chave onde o Estado interveio pela primeira vez em maior escala. O período pós-guerra imediato foi também uma era de intensa atividade legislativa em direito do trabalho, proteção ao emprego e jornada de trabalho (ex.: a jornada de oito horas). A Grã-Bretanha é um caso emblemático com a Lei de Educação Fisher (1918), a Lei Butler (1944), a Lei do Serviço Nacional de Saúde e de Habitação (1946) e a Lei de Habitação (1949).
5.2 Efeito sobre o mix público-privado [§47–§48]
Na maioria dos países da Europa continental, a guerra total expulsou fortemente os mercados da provisão social e desacreditou os modos totalmente fundados de financiamento de bem-estar no rescaldo da guerra. Em contraste, as evidências são mais mistas para nações que não foram atingidas por atos de guerra em seu território nacional e/ou por hiperinflação — como EUA e Suíça, onde a previdência privada e ocupacional não foi negativamente afetada. Contudo, a guerra é condição necessária mas não suficiente: o Japão e a Coreia do Sul, onde a guerra teve impacto massivo, mas onde a esquerda política era marginalizada, continuaram a depender fortemente de formas privadas de provisão social após a guerra.
5.3 Efeito sobre as relações de gênero [§49–§51]
A guerra de massa e o exército de massa moderno também moldaram as relações de gênero de maneiras múltiplas e contraditórias. O exército de conscrição de massa serviu como “escola de masculinidade” ao separar homens e mulheres e afetar papéis de gênero fora do domínio militar (Frevert 2004). As preparações de guerra levaram a uma crescente preocupação com o tamanho e qualidade da população, tornando-se argumento para políticas familiares pronatais (maternalistas) na maioria dos países europeus. Por um lado, esses discursos fortaleceram a posição das mulheres na sociedade; por outro, o pronatalismo e os benefícios familiares em dinheiro reforçaram o modelo do provedor masculino e o papel da mulher como cuidadora. A conscrição em massa de homens ofereceu uma oportunidade para as mulheres entrarem no mercado de trabalho — a participação feminina cresceu durante a guerra desafiando o ideal dominante do provedor masculino (Thane 1982) —, com efeitos duradouros mesmo que as mulheres frequentemente se retirassem parcialmente do mercado de trabalho após a guerra.
5.4 Efeito sobre os gastos [§52–§53]
A guerra total teve um impacto tremendo sobre os gastos sociais públicos. Os autores desagregam os gastos totais alemães em gastos sociais relacionados à guerra e gastos sociais “civis” (Figura 2 do original): entre 1927 e 1960, os gastos sociais relacionados à guerra representaram, em média, 17,1% dos gastos totais na Alemanha. A segunda guerra pode ajudar a explicar por que — contrariamente às expectativas das abordagens funcionalistas dos anos 1960 — não houve convergência dos então laggards do welfare state nos gastos sociais após 1945: a guerra empurrou os gastos para cima exatamente nos países que já tinham altos níveis de gastos pré-guerra e sofreram grandes destruições (Alemanha, Bélgica, Áustria, França, Itália). Os laggards do welfare state, por contraste, não foram fortemente afetados pela guerra em seu território nacional.
A Tabela 1 do artigo reproduz dados de Wilensky (1975) ilustrando essa diferença:
| País (Alto impacto de guerra) | Gasto social % PIB 1949 | País (Baixo impacto) | Gasto social % PIB 1949 |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 13,7 | Austrália | 4,3 |
| Áustria | 11,6 | Canadá | 6,1 |
| Finlândia | 6,2 | Irlanda | 7,2 |
| Itália | 8,2 | Nova Zelândia | 9,5 |
| Reino Unido | 10,6 | Dinamarca | 7,8 |
| Bélgica | 11,8 | EUA | 4,4 |
| França | 11,0 | Suécia | 9,1 |
| Países Baixos | 8,1 | Suíça | 5,8 |
| Média | 10,15 | Noruega / Média | 6,5 / 6,74 |
5.5 Convergência crescente desde os anos 1980 [§54–§55]
Enquanto a Idade de Ouro do welfare state nas décadas de 1950 e 1960 foi caracterizada por dissimilaridades crescentes na política social, estudos empíricos recentes indicam uma convergência crescente dos gastos sociais e padrões regulatórios desde os anos 1980 (Schmitt/Starke 2011; Höpner et al. 2011). Uma razão para esse resultado é que os impactos da guerra se atenuaram com a passagem do tempo, por dois processos demográficos: (1) as vítimas de guerra foram passando e aliviaram os governos dos compromissos de gastos relacionados à guerra (na Alemanha, o gasto social induzido pela guerra declinou de 12,4% em 1960 para 2,4% em 1990); (2) a substituição geracional: a partir de meados dos anos 1980, as elites políticas da Idade de Ouro — que haviam pessoalmente testemunhado a guerra total e/ou a Grande Depressão — deixaram o poder e foram gradualmente substituídas por elites nascidas no período pós-guerra, que cresceram numa era de afluência econômica e estabilidade política sem precedentes. A socialização marcadamente diferente dessas coortes pós-guerra pode ter reforçado o recuo do Estado intervencionista (de bem-estar) desde os anos 1990.
6 Conclusão (pp. 34–36)
6.1 Síntese dos achados e implicações comparativas [§56–§58]
Os autores concluem que, embora muitos estudiosos tenham estudado o nexo entre guerra e welfare state, muito menos atenção foi dada aos múltiplos mecanismos causais que explicam como a guerra moldou o desenvolvimento do welfare state. O artigo apresentou uma visão geral de vários mecanismos pelos quais a guerra de massa deixou sua marca no welfare state nas três fases de hostilidades militares, e evidências empíricas relacionadas para países beligerantes, ocupados e neutros.
Os achados gerais sustentam ambas as visões presentes na literatura. Particularmente durante o período de guerra, os efeitos negativos prevalecem claramente, especialmente o pronunciado trade-off armas-manteiga. Por outro lado, há evidências consideráveis de que a guerra é um catalisador do welfare state — distinguindo efeitos diretos (necessidades sociais induzidas) e indiretos (impacto sobre contexto político-socioeconômico e preferências individuais e coletivas). Por fim, há evidências de que o impacto da Segunda Guerra sobre o welfare state foi muito maior comparado à Grande Guerra, sugerindo um impacto cumulativo da guerra ao longo do tempo, relacionado a um processo de aprendizado que contribuiu para respostas políticas diferentes quando a guerra total atingiu um país pela segunda vez.
Os autores concluem citando Kasza (1996: 370): “É tempo de a política comparada dar a esse fenômeno central a atenção que ele merece.” Ignorar a guerra total nas análises transnacionais do desenvolvimento do welfare state seria perder uma variável explicativa relevante.
7 Argumento Sintético
Ficha Analítica Crítica
Esta seção segue o formato IA Planilhando Textos v13.0.