Fichamento: Institutional Development and Colonial Heritage within Brazil

Naritomi, Soares & Assunção (2009)

Annotated Bibliography
Political Economy
Institutions
Development Economics
Brazil
Autor

Tales Mançano

Data de Publicação

19 de abril de 2026

Referência APA 7
Naritomi, J., Soares, R. R., & Assunção, J. J. (2009). Institutional Development and Colonial Heritage within Brazil (IZA Discussion Paper No. 4276). Institute for the Study of Labor (IZA), Bonn. https://hdl.handle.net/10419/35536

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Última atualização: 2026-04-19
Modelo: Claude 3.5 Sonnet (via API)
Gerado em: 2026-04-19T21:00:00-03:00

Ficha Analítica Crítica

Nota

Esta seção segue o formato IA Planilhando Textos v15.0.

Dimensão Raciocínio analítico Conteúdo
Instituição As afiliações aparecem explicitamente na página de rosto (p. 3): Naritomi na Harvard University; Soares na PUC-Rio, NBER e IZA; Assunção na PUC-Rio. Não há indicação do nível de formação, apenas as posições atuais. A ausência de informação sobre o estágio de carreira dos autores não compromete a análise, mas impede inferências sobre possíveis vieses de senioridade. Joana Naritomi (Harvard University), Rodrigo R. Soares (PUC-Rio, NBER, IZA), Juliano J. Assunção (PUC-Rio). Nível de formação: Não identificado.
Questão de Pesquisa A pergunta central está explicitada na introdução (p. 5): por que o padrão geográfico de desenvolvimento dentro do Brasil replica a correlação latitude-renda observada entre países, mesmo com instituições formais (de jure) constantes? A formulação reconstrói o puzzle a partir da contradição entre a literatura cross-country (que atribui a correlação a diferenças em macro-instituições) e a evidência intramunicipal brasileira. A natureza é explicativa (busca causas para variação local em instituições de facto). “This paper analyzes the determinants of local institutions and distribution of political power within a constant ‘macro-institutional’ setting. We present evidence that characteristics of Brazilian municipalities related to institutional quality and distribution of endowments are partly inherited from the colonial histories experienced by different areas of the country.” (p. 5). Natureza: explicativa.
Questões Secundárias O texto desdobra a pergunta central em três questões específicas, cada uma correspondendo a um tipo de legado colonial: (1) o ciclo da cana-de-açúcar afeta a concentração fundiária atual? (2) o ciclo do ouro afeta a qualidade da governança e o acesso à justiça? (3) essas diferenças institucionais explicam parte da variação contemporânea na provisão de bens públicos e na renda per capita? A relação com a pergunta central é clara: cada questão secundária testa um mecanismo causal distinto, mapeado a partir da historiografia. 1) Municípios com origem no ciclo da cana exibem maior desigualdade na distribuição de terras? 2) Municípios com origem no ciclo do ouro exibem piores práticas de governança e menor acesso à justiça? 3) A herança colonial afeta a provisão de bens públicos e a renda per capita, e esse efeito é mediado pelas instituições locais?
Puzzle-Type O puzzle é genuinamente paradoxal: a literatura cross-country (Acemoglu, Johnson & Robinson, 2001; Engerman & Sokoloff, 1997) interpreta a correlação latitude-renda como evidência de que condições geográficas moldaram instituições de jure distintas. O Brasil, com instituições formais unificadas, exibe correlação ainda mais forte (R²=0,56). A generalização é potencialmente alta para outros países federais ou ex-colônias com diversidade geográfica interna, mas os autores limitam-se a sugerir implicações para a distinção entre instituições de jure e de facto. Puzzle explicativo (gap na explicação cross-country). O puzzle é genuíno, pois desafia a interpretação dominante de que a geografia afeta o desenvolvimento exclusivamente via instituições formais nacionais. A generalização para além do Brasil é plausível, mas não é o foco do artigo.
Conclusão / Argumento Central A tese sustenta que episódios coloniais de rent-seeking (cana e ouro) geraram arranjos institucionais de facto distintos que persistem até hoje, mesmo sob o mesmo arcabouço legal. O claim of discovery é que as características específicas de cada ciclo — polarização social na cana, Estado opressor e ineficiente no ouro — produziram legados diferenciados: concentração fundiária no primeiro caso, má governança e baixo acesso à justiça no segundo. A força do argumento repousa na correspondência entre a historiografia qualitativa e os resultados empíricos, mas a inferência causal depende crucialmente da exogeneidade da localização dos ciclos em relação a características geográficas não observadas. “Municipalities with origins tracing back to the sugar-cane colonial cycle […] display today more inequality in the distribution of land. Municipalities with origins tracing back to the gold colonial cycle […] display today worse governance practices and less access to justice.” (p. 7). A herança colonial afeta negativamente a provisão de bens públicos e a renda per capita.
Métodos Estudo observacional transversal com dados municipais. A estratégia empírica combina: (1) construção de índices de influência dos ciclos coloniais (sugar, gold) baseados em critérios históricos e de fundação; (2) regressões OLS com controles geográficos extensivos (latitude, distância à costa, precipitação, insolação, altitude, 12 temperaturas mensais, 12 tipos de solo); (3) interações com distância a Portugal para capturar variação na intensidade do controle metropolitano; (4) análise IV exploratória para o efeito das instituições sobre a renda. Limitações de identificação: a localização dos ciclos não é aleatória; os controles geográficos, embora numerosos, podem não capturar todas as diferenças relevantes; o design transversal impede análise de trajetórias dinâmicas. Estudo observacional com dados municipais (cross-section, circa 2000). Técnicas: OLS com controles geográficos; variáveis de interação; análise de variáveis instrumentais exploratória. Fontes: Censo Agropecuário 1996, IBGE, Tribunal Superior Eleitoral, dados climáticos e de solo de diversas fontes.
Data Generation Process (DGP) Fenômeno: variação na qualidade institucional local dentro de um país. Observação: indicadores de concentração fundiária, persistência política, governança e acesso à justiça. Coleta: dados censitários e administrativos agregados em nível municipal (N ≈ 5000). Operacionalização: índices sintéticos (ex.: governança = média de quatro indicadores administrativos). Análise: regressão múltipla com controles geográficos; IV para segundo estágio. Inferência: associação entre exposição histórica e resultados contemporâneos, interpretada como persistência de instituições de facto. Unidade de análise: município. Agregação: nível municipal, com algumas análises em nível estadual. Fenômeno → observação: persistência de arranjos institucionais locais → indicadores municipais de concentração de terra, governança e justiça. Coleta: fontes secundárias oficiais. Operacionalização: variáveis binárias/índices de influência dos ciclos; índices de instituições. Análise: OLS com controles geográficos + interações; IV. Unidade: município. Agregação: municipal; algumas regressões agregadas por estado.
Achados e Contribuições Achados empíricos: (1) O ciclo da cana está associado a maior Gini fundiário, especialmente em áreas mais próximas de Portugal. (2) O ciclo do ouro está associado a pior governança e menor acesso à justiça, também com gradiente de distância a Portugal. (3) Ambos os ciclos correlacionam-se com menor provisão de bens públicos. (4) Nas regressões IV, governança e acesso à justiça mostram efeito positivo sobre a renda per capita. Contribuições: (a) evidência de que variação institucional de facto dentro de um país replica padrões cross-country; (b) identificação de mecanismos específicos de persistência colonial (concentração fundiária vs. qualidade do Estado); (c) uso de controles geográficos finos para isolar legado histórico. O design identifica correlações condicionais robustas; a inferência causal permanece sugestiva. Principais achados: (i) sugar → maior Gini de terra; (ii) gold → pior governança e menos acesso à justiça; (iii) efeitos mais fortes com maior proximidade a Portugal; (iv) menor provisão de bens públicos e renda nos municípios afetados; (v) IV sugere que governança e justiça afetam positivamente a renda. Contribuição: demonstra que heranças coloniais distintas geram legados institucionais diferenciados dentro de um mesmo país, refinando a literatura de instituições e desenvolvimento.
Análise Crítica dos Achados Os autores respondem parcialmente à pergunta: mostram que variação geográfica em instituições de facto está correlacionada com episódios coloniais, mas não demonstram conclusivamente que os ciclos causaram as diferenças institucionais. Ameaças à identificação: (1) a localização dos ciclos não é exógena — dependeu de fatores geográficos (clima para cana, geologia para ouro) que podem ter efeitos diretos sobre o desenvolvimento não capturados pelos controles; (2) a persistência pode ser espúria se características geográficas omitidas afetam simultaneamente a localização histórica e os resultados contemporâneos; (3) a medição das instituições é cross-section contemporânea, impossibilitando verificar a trajetória de persistência. O DGP é adequado para identificar associações condicionais, mas insuficiente para claims causais fortes. As scope conditions não são explicitadas; o argumento implicitamente assume que a persistência opera via mecanismos de path dependence não modelados. A generalização para outros contextos é plausível, mas depende da similaridade dos arranjos coloniais. Os autores fornecem evidência correlacional robusta de que legados coloniais distintos estão associados a diferentes dimensões institucionais contemporâneas. No entanto, a identificação causal é frágil: a localização dos ciclos é endógena a características geográficas, e os controles, embora numerosos, podem não eliminar completamente a influência direta da geografia. A ausência de dados históricos sobre as instituições impede o rastreamento do mecanismo de persistência. A análise IV é exploratória e sofre de possível viés de variável omitida (a exclusão da distância a Portugal como instrumento em algumas especificações reflete essa preocupação).
Limitações Reconhecidas pelos autores: Reconhecem que a distância a Portugal é uma proxy imperfeita para custos de transporte coloniais (p. 21). Admitem que o indicador de persistência política cobre apenas três ciclos eleitorais (p. 28). Alertam para os problemas da análise IV (p. 31).

Não reconhecidas ou subestimadas: (1) A endogeneidade da localização dos ciclos em relação à geografia — os controles geográficos podem ser insuficientes para garantir a exogeneidade condicional. (2) A ausência de uma discussão sobre sorting populacional pós-colonial: migrações seletivas poderiam explicar parte dos padrões observados. (3) A medição das instituições no ano 2000 não permite distinguir persistência desde o período colonial de mudanças ocorridas em momentos intermediários. (4) A análise IV usa instrumentos que são funções da distância a Portugal, cuja validade de exclusão é questionável (pode afetar a renda por canais não institucionais, como integração comercial histórica).
**Reconhecidas pelos autores:** Proxy imperfeita para distância colonial; curto período para persistência política; limitações da IV.<br><br>**Não reconhecidas ou subestimadas:** Endogeneidade da localização dos ciclos; possibilidade de sorting populacional; ausência de dados institucionais históricos; validade de exclusão dos instrumentos na IV.
Perspectiva Teórica O artigo se insere na tradição da Nova Economia Institucional (North, 1991) e da literatura sobre origens coloniais do desenvolvimento comparado (Acemoglu, Johnson & Robinson, 2001, 2002; Engerman & Sokoloff, 1997). Mobiliza também a literatura sobre resource curse e Estados rentistas (Ross, 1999; Goldberg et al., 2008) para interpretar o ciclo do ouro. A moldura teórica é adequada à pergunta: permite diferenciar legados de desigualdade (cana) de legados de ineficiência estatal (ouro). Há coerência entre a ontologia implícita (instituições como regras do jogo que persistem via path dependence) e o método (análise de variação cross-section contemporânea como proxy de trajetórias históricas). Tradição da Nova Economia Institucional; literatura de origens coloniais (Acemoglu, Johnson & Robinson); resource curse (Ross). Adequação alta: a distinção entre dois tipos de legado colonial corresponde à diferenciação teórica entre desigualdade de endowments e qualidade do Estado.
Principais Referências O diálogo com a literatura é robusto: cita extensivamente os trabalhos seminais de Acemoglu, Johnson e Robinson, Engerman e Sokoloff, North, além de referências específicas sobre história do Brasil (Simonsen, 1937; Prado Jr., 1945; Fausto, 2006). A bibliografia é equilibrada entre economia, história e ciência política. Uma possível lacuna é a ausência de engajamento mais profundo com a literatura de historical persistence que utiliza métodos de boundary discontinuities ou experimentos naturais dentro de países (ex.: Banerjee & Iyer, 2004; Dell, 2010). Acemoglu, Johnson & Robinson (2001, 2002); Engerman & Sokoloff (1997); North (1991); Simonsen (1937); Schwartz (1987); Ross (1999). Diálogo forte com a literatura macro de instituições; diálogo mais limitado com a literatura micro de persistência dentro de países.
Observações O artigo é uma contribuição valiosa para a compreensão de como heranças coloniais diferenciadas podem gerar padrões distintos de desenvolvimento subnacional. A principal vulnerabilidade reside na identificação causal: a estratégia empírica é essencialmente correlacional, e a interpretação histórica, embora plausível, não é testada diretamente. A validade externa é limitada pela singularidade do caso brasileiro (colonização portuguesa unificada, mas diversidade geográfica extrema). Para a agenda de pesquisa do leitor, o artigo sugere a importância de investigar mecanismos específicos de persistência e de coletar dados históricos sobre instituições locais. A omissão de uma discussão sobre scope conditions enfraquece a generalidade das conclusões. Vulnerabilidade principal: identificação causal. Validade externa: potencialmente alta para países com diversidade geográfica e legados coloniais variados, mas depende de contextos específicos. Lacuna: ausência de dados institucionais históricos. Implicação para pesquisa futura: necessidade de designs que explorem descontinuidades geográficas ou variação exógena na exposição colonial.

Introdução (pp. 5–7)

Apresentação do puzzle e do argumento central [§1–§4]

Os autores abrem o artigo situando-o na literatura sobre instituições e desenvolvimento, que ganhou proeminência após os trabalhos de North (1991), Engerman e Sokoloff (1997) e, especialmente, Acemoglu, Johnson e Robinson (2001, 2002). O consenso emergente nessa literatura cross-country é que a correlação entre geografia (notadamente a distância ao Equador) e renda per capita reflete diferenças em arranjos institucionais herdados de experiências coloniais distintas. Nessa narrativa, condições geográficas moldaram os tipos de colonização, que por sua vez determinaram as macro-instituições (de jure) adotadas em cada país — sistemas políticos, judiciais e de enforcement de leis. Essas instituições, então, afetaram a proteção dos direitos de propriedade e, em última instância, o desenvolvimento econômico.

O artigo introduz um desafio empírico a essa interpretação ao replicar o gráfico de dispersão entre latitude e renda per capita para os municípios brasileiros (Figura 2). A relação dentro do Brasil é ainda mais forte do que entre países: o R² é 0,56 contra 0,32, e o coeficiente da latitude é 0,053 contra 0,038. Contudo, o Brasil é um país com um único colonizador, uma única língua, um sistema federal altamente centralizado e, crucialmente, macro-instituições de jure constantes em todo o território. Esse fato desafia a interpretação de que a correlação geografia-desenvolvimento opera exclusivamente por meio da variação em instituições formais no nível nacional.

Diante desse desafio, os autores propõem duas possibilidades não mutuamente excludentes: (1) fatores geográficos podem ter efeitos diretos sobre o desenvolvimento de longo prazo, o que contradiria o consenso institucionalista; ou (2) mesmo dentro de um arcabouço de jure constante, diferentes características geográficas podem estar associadas a diferentes arranjos institucionais de facto e a distintas distribuições de poder econômico e político. O artigo concentra-se na segunda possibilidade, argumentando que a variação local em instituições de facto no Brasil pode ser rastreada até episódios coloniais específicos de rent-seeking: os ciclos da cana-de-açúcar e do ouro.

Nota

Conceito-chave: A distinção entre instituições de jure (formais, codificadas em lei) e instituições de facto (como as regras são efetivamente aplicadas e vividas) é central para o argumento. Os autores sustentam que, dentro de um país com leis uniformes, a variação local em resultados institucionais revela a dimensão de facto do poder político e da qualidade institucional.

Os autores delineiam então a estratégia empírica: identificar as áreas do Brasil envolvidas nos ciclos da cana e do ouro, delimitar essas influências geográfica e cronologicamente, e examinar se os municípios afetados diferem sistematicamente hoje em quatro dimensões: distribuição de poder econômico (concentração fundiária), persistência de poder político (reeleição da mesma família para a prefeitura), acesso à justiça (disponibilidade de cortes locais) e qualidade da governança (índice de eficiência administrativa). A hipótese subjacente é que cada ciclo colonial, com suas características socioeconômicas e políticas específicas, deixou um legado institucional distinto que persistiu ao longo do tempo.

Contribuições e estrutura do artigo [§5–§6]

Os autores situam sua contribuição na interseção entre a literatura macro (cross-country) e micro (intranacional) sobre instituições. Eles destacam três vantagens de sua abordagem. Primeiro, a capacidade de medir manifestações muito específicas de qualidade institucional dentro do arcabouço macro-institucional constante do Brasil, evitando as medidas genéricas e imprecisas típicas dos estudos cross-country. Dada a centralização do sistema federal brasileiro, a variação capturada revela uma dimensão de facto do desempenho institucional ainda não analisada. Segundo, em vez de recorrer a padrões históricos amplos (identidade do colonizador, mortalidade de colonos, tradição legal), o artigo foca em eventos concretos — os ciclos da cana e do ouro — cujos ambientes políticos e socioeconômicos podem ser caracterizados com precisão a partir da historiografia. Terceiro, o exercício empírico incorpora um conjunto extenso de controles geográficos (latitude, distância à costa, insolação, precipitação, altitude, temperaturas mensais, tipos de solo), permitindo isolar o efeito da herança colonial daquele da geografia de forma mais cuidadosa do que na literatura cross-country.

O restante do artigo está estruturado da seguinte forma: a Seção 2 descreve os episódios históricos dos ciclos da cana e do ouro, enfatizando suas estruturas sociais, políticas e econômicas. A Seção 3 detalha a construção das variáveis históricas, apresenta as variáveis dependentes institucionais e políticas, e descreve os demais dados (geográficos e econômicos), além de explicitar a estratégia empírica. A Seção 4 apresenta os principais resultados sobre o impacto dos ciclos coloniais nas instituições locais e na distribuição de poder. A Seção 5 explora os efeitos do passado colonial e das instituições locais sobre o desenvolvimento de longo prazo e a provisão de bens públicos, incluindo uma análise de variáveis instrumentais. A Seção 6 conclui.

Os Ciclos da Cana-de-Açúcar e do Ouro na História Colonial Brasileira (pp. 9–17)

Contexto colonial e seleção dos ciclos [§7–§10]

Os autores iniciam a seção histórica contextualizando o período colonial brasileiro (1500–1822), caracterizado por sucessivas ondas de empreendimentos extrativistas conduzidos por Portugal. A ocupação inicial do território foi guiada pelos interesses da metrópole, com a proximidade a Portugal sendo um fator crucial nos primeiros séculos. O Nordeste foi a primeira região ocupada devido à sua localização e clima favorável; o Sul permaneceu relativamente à margem da intervenção direta da metrópole. Os custos e as dificuldades de comércio com Lisboa impunham um “tempo administrativo” que limitava a eficácia do aparato governamental (Wheling, 1994).

Entre as várias atividades extrativistas, os autores selecionam os ciclos da cana-de-açúcar e do ouro por três razões: (1) são considerados os mais importantes em termos de relevância econômica e área de influência; (2) caracterizaram-se por uma organização socioeconômica essencialmente extrativista e uma lógica abertamente rent-seeking; e (3) marcaram a ocupação inicial de áreas significativas do país (Nordeste e Centro-Sul, respectivamente). Em ambos os casos, a metrópole mobilizou recursos e aparato institucional de forma coordenada para maximizar a extração de renda. A noção de “ciclo” refere-se mais à proeminência da atividade entre os empreendimentos da metrópole do que à existência da atividade em si. A natureza extrativista é evidenciada pela crônica escassez de alimentos e outros bens básicos nas áreas envolvidas.

O ciclo da cana-de-açúcar [§11–§15]

O ciclo da cana-de-açúcar, localizado principalmente na costa nordestina, foi o período de expansão econômica mais importante da era colonial. Fatores climáticos e de solo, combinados com a proximidade a Portugal, tornaram a região particularmente adequada para a produção de açúcar destinada à exportação. No século XVII, o Brasil era o principal produtor mundial de açúcar. Os autores adotam a periodização de Simonsen (1937), definindo o ciclo como o período entre o início da colonização efetiva e 1760, abarcando o “século do açúcar” (1570–1670), auge da produção e dos lucros. Após 1650, o valor exportado começou a declinar.

A economia açucareira baseava-se no sistema de plantation, estruturado sobre três pilares: o latifúndio, a monocultura e o trabalho escravo. Os engenhos demandavam grande volume de recursos iniciais, de modo que a terra era concedida a indivíduos com capital suficiente para explorar seu potencial açucareiro. A escravidão africana surgiu como a única forma viável de extrair renda em um contexto de oferta abundante de terras para subsistência. Um engenho típico possuía entre 60 e 100 escravos; no século XVIII, os escravos representavam mais da metade da população das capitanias nordestinas, e entre 65% e 70% nas áreas de plantation. No topo da pirâmide social, os senhores de engenho constituíam uma aristocracia rural branca que concentrava poderes sociais, econômicos e políticos. Embora a propriedade formal da terra fosse muitas vezes inexistente, a posse de engenhos conferia enorme prestígio social.

Nota

Caracterização sociopolítica: Os autores enfatizam a polarização extrema entre senhores e escravos, e a concentração de poder nas mãos de uma elite econômica restrita. Essa estrutura, argumentam, ecoa a descrição de Engerman e Sokoloff (1997) sobre ocupações extrativistas que geram desigualdade persistente.

O poder local dos senhores de engenho contrastava com seu fraco acesso ao poder real. Portugal limitava seu controle sobre as atividades açucareiras a regras e dispositivos voltados essencialmente para garantir a constância do fluxo de rendas e a preservação da supremacia sobre as áreas de interesse. Cerca de 80% das receitas do governo de Pernambuco no século XVII provinham de impostos sobre a produção e o comércio de açúcar. A polarização social e a dominância do sistema de plantation voltado para a exportação constituem, na visão dos autores, os fundamentos da estrutura social, econômica e política associada à cana-de-açúcar — uma sociedade construída sobre desigualdade extrema e elites com poderes concentrados.

O ciclo do ouro [§16–§23]

A expansão da mineração de ouro no centro do Brasil foi extremamente intensa e concentrada no tempo. As primeiras descobertas significativas ocorreram em 1695, na região correspondente ao atual estado de Minas Gerais. Descobertas subsequentes em Mato Grosso e Goiás (após 1720) e de diamantes (1728) levaram ao auge da produção por volta de 1760, seguido por um rápido declínio já no final do século XVIII. Apesar de sua breve duração, o ciclo do ouro deixou marcas permanentes na economia e demografia da colônia e nas relações colônia-metrópole. Entre 1700 e 1770, a produção brasileira de ouro correspondeu a toda a produção do resto das Américas entre 1492 e 1850, e a cerca de 50% da produção mundial entre os séculos XVI e XVIII.

A notícia das descobertas gerou uma “corrida do ouro” que levou a uma ocupação sem precedentes do Centro-Sul. Apenas 25 anos após as descobertas iniciais, a região, antes praticamente desabitada, abrigava 50% da população colonial. A preocupação da Coroa com o despovoamento da metrópole levou a restrições legais à emigração. O colapso da economia mineradora foi igualmente rápido, destacando sua natureza essencialmente rent-seeking: o principal centro urbano da região passou de 20 mil habitantes em 1740 para apenas 7 mil em 1804.

A principal preocupação da Coroa portuguesa era manter as áreas de mineração sob o máximo controle e escrutínio possível. Uma série de regulamentações sobre exploração de metais preciosos, circulação de bens e pessoas, e tributação foi implementada. Pelo menos doze impostos distintos foram adotados, destacando-se o “quinto” (20% do ouro produzido pertencia à Coroa) e a “capitação” (taxa fixa por escravo possuído acima de 12 anos). O ouro era considerado monopólio da Coroa, e a exploração dependia do acesso a datas minerais, alocadas por meio de leilões e loterias com base no número de escravos possuídos. O processamento do ouro bruto em barras era usado como ferramenta para impor a tributação, sendo realizado obrigatoriamente nas Casas de Fundação.

Apesar dos esforços da metrópole, as fraudes eram constantes. O ambiente criado nas regiões mineradoras era de uma corrida incessante entre indivíduos e Estado. À medida que os mineradores tentavam evadir os impostos, a Coroa criava dispositivos cada vez mais opressivos para regular e controlar a produção. O ápice dessa tensão foi a “derrama”, um imposto adicional cobrado quando a arrecadação do quinto não atingia uma meta pré-estabelecida, aplicado sobre virtualmente qualquer tipo de atividade ou riqueza, com uso extensivo do exército e confisco de bens.

Apesar do uso generalizado de escravos, a sociedade mineradora não era tão polarizada quanto a da cana. A tecnologia e a escala de produção implicavam um certo grau de horizontalidade. Enquanto o senhor de engenho necessitava de vastos recursos para iniciar seu negócio, o minerador de aluvião podia ser um homem de poucas posses. A natureza do trabalho escravo também era distinta: os escravos desfrutavam de algum poder de barganha devido a vantagens informacionais, podendo esconder ou furtar achados, o que tornava a rentabilidade do empreendimento dependente de sua disposição em reportar descobertas. Isso levou a uma estrutura social peculiar, na qual se tornou relativamente comum que escravos comprassem sua própria liberdade.

Importante

Implicações para a governança: Os autores argumentam que o ciclo do ouro está associado ao desenvolvimento de uma sociedade relativamente horizontal, mas intrinsecamente ligada a um Estado rentista e opressivo. A necessidade de monitorar cada etapa da produção e comércio de metais preciosos levou a um aparato governamental superdimensionado, extremamente focado e ineficiente, construído inteiramente em torno da supervisão e extração de renda de uma única atividade. Esse legado, sugerem, pode ter gerado uma cultura de distanciamento entre população e Estado, com efeitos persistentes sobre a eficácia do governo e a provisão de bens públicos.

Os autores conectam essa caracterização à literatura de ciência política sobre a “maldição dos recursos” (resource curse), que enfatiza os efeitos perversos da disponibilidade de rendas de recursos naturais quando desacopladas de atividades produtivas e da representação política. Governos rentistas tornam-se independentes da necessidade de tributar eficientemente atividades produtivas e menos responsivos (accountable) à sociedade, levando à atrofia das instituições estatais e sociais. No contexto colonial brasileiro, onde o Estado governante (Portugal) era formalmente desligado da população local, esses efeitos podem ter sido ainda mais pronunciados.

Estratégia Empírica e Dados (pp. 18–26)

Variáveis históricas [§24–§28]

Os autores definem a unidade de análise como o município, a menor unidade político-administrativa do Brasil, com relativa homogeneidade formal mas grande variação em qualidade administrativa e provisão de bens públicos. Para identificar os municípios afetados pelos ciclos coloniais, eles combinam informações da historiografia com dados de fundação dos municípios.

Para o ciclo da cana-de-açúcar, definido como o período de 1530 a 1760, as regiões afetadas correspondem às áreas costeiras dos atuais estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Espírito Santo e à região de Campos dos Goytacazes (RJ). Na ausência de informações precisas sobre a distribuição da produção dentro dessas áreas, os autores utilizam o ano de fundação e a localização para classificar um município como diretamente afetado se ele estiver localizado a menos de 200 km da costa em uma das regiões listadas e tiver sido fundado antes de 1760.

Para o ciclo do ouro, a identificação é mais direta a partir de relatos históricos. Os estados com áreas diretamente envolvidas incluem Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo. Um município é classificado como diretamente afetado se estiver localizado em um desses estados, estiver na área de influência da mineração conforme mapas históricos (Figura 4), e tiver sido fundado durante o ciclo do ouro.

Além das variáveis binárias de afetação direta, os autores constroem índices de influência para cada ciclo. Esses índices atribuem peso 1 para municípios diretamente afetados, peso 0,5 para municípios localizados nos mesmos estados das áreas diretamente afetadas (mas não atendendo aos demais critérios), e 0 para os demais. A lógica é capturar efeitos de spillover ou influência indireta. As variáveis resultantes são denominadas sugar e gold.

Adicionalmente, os autores utilizam a distância euclidiana de cada município a Lisboa (dist to Portugal) como proxy para os custos administrativos e o grau de intervenção da metrópole. Embora reconheçam que essa medida não captura perfeitamente os custos de transporte marítimo e terrestre coloniais, argumentam que ela deve ser altamente correlacionada com a distância de viagem, especialmente porque os controles geográficos incluem distância à costa e ao Equador. O principal interesse reside na interação entre a distância a Portugal e os índices de influência dos ciclos (sugar x dist to Portugal e gold x dist to Portugal), que capturariam a variação no grau de controle exercido pela metrópole dentro de cada ciclo.

Nota

Variáveis históricas finais: sugar, gold, dist to Portugal, sugar x dist to Portugal, gold x dist to Portugal.

Variáveis institucionais e políticas [§29–§32]

Os autores selecionam quatro indicadores para capturar diferentes dimensões do ambiente institucional e da distribuição de poder contemporâneos:

  1. Concentração fundiária (land Gini): O coeficiente de Gini da distribuição de terras, calculado a partir do Censo Agropecuário de 1996. Os autores argumentam que, embora contemporânea, essa medida é representativa do passado histórico, uma vez que sua gênese remonta ao período colonial (Leal, 1997; Frankema, 2005; Assunção, 2008). A concentração de recursos econômicos nas mãos de uma elite atua como fonte de poder político de facto (Acemoglu & Robinson, 2006).

  2. Persistência política (political persistence): Variável discreta (0–2) indicando se a mesma família ocupou o cargo de prefeito mais de uma vez nos ciclos eleitorais de 1996, 2000 e 2004 (dados do Tribunal Superior Eleitoral). A alta persistência no executivo local, sob regras eleitorais estritamente uniformes, pode indicar que instituições políticas locais são controladas por um grupo específico, refletindo concentração de poder político de facto.

  3. Qualidade da governança (governance): Índice calculado pelo IBGE, utilizado pelo Ministério do Planejamento para monitorar o desempenho administrativo dos municípios. É a média simples de quatro indicadores qualitativos normalizados (1–6): ano de atualização da base de dados do IPTU, taxa de pagamento do IPTU, número de instrumentos administrativos e número de instrumentos de planejamento. Os dados referem-se ao período 1997–2000. A variável aproxima-se de uma medida de eficiência e capacidade organizacional da administração local.

  4. Acesso à justiça (access to justice): Índice baseado na definição do IBGE (2001), variando de 0 a 3 conforme a existência de três tipos de instâncias locais: Juizado de Pequenas Causas, Conselho Tutelar e Comissão de Defesa do Consumidor. Dados de 2001. A existência dessas cortes representa uma dimensão de facto do rule of law e do acesso à justiça, uma vez que, formalmente, não há sistema judiciário municipal no Brasil.

Os autores justificam a escolha dessas variáveis argumentando que elas cobrem diferentes aspectos do ambiente institucional de facto e são indicadores mais concretos do que as medidas tipicamente utilizadas em estudos cross-country.

Outras variáveis e estratégia empírica [§33–§35]

Os autores utilizam renda per capita e população do Censo 2000, além de área, idade (ano de fundação) e coordenadas geográficas de cada município (IBGE). O conjunto de controles geográficos inclui: distância ao Equador (valor absoluto da latitude), distância à costa, precipitação média anual (1931–1990), insolação média anual (1931–1990), altitude, doze médias mensais de temperatura e doze dummies para os tipos de solo presentes em um raio de 0,1 grau ao redor do centro oficial do município.

Adicionalmente, são utilizados indicadores de provisão local de bens públicos (Sistema Nacional de Indicadores Urbanos, Ministério das Cidades, 2000): percentual de domicílios com ligação à rede pública de esgoto, número de centros de saúde por 10.000 habitantes, logaritmo natural do gasto municipal per capita em educação e cultura, dummy para existência de biblioteca pública e dummy para existência de estação de rádio local.

A Tabela 1 (p. 38) apresenta regressões da renda per capita e das quatro variáveis institucionais sobre o conjunto completo de controles geográficos, demonstrando que a geografia explica, respectivamente, 65%, 30% e 20% da variação em renda, governança e Gini fundiário. A inclusão das variáveis institucionais eleva o R² para 74%, mas os autores alertam para a endogeneidade.

A especificação econométrica principal é:

[ Z_i = + ^S S_i + ^{SP} S_i P_i + ^G G_i + ^{GP} G_i P_i + ^P P_i + ’ _i + _i ]

onde (Z_i) é uma das quatro variáveis institucionais, (S_i) é sugar, (G_iégold, \(P_i\) édist to Portugal`, (_i) é o vetor de controles geográficos.

Ciclos Coloniais e Instituições Atuais (pp. 26–30)

Resultados principais [§36–§40]

A Tabela 3 (p. 40) apresenta os resultados principais. Nas especificações simples (colunas 1–4), tanto sugar quanto gold mostram correlações negativas com todas as variáveis institucionais, exceto uma associação levemente negativa de gold com persistência política. No entanto, a introdução dos controles geográficos (colunas 5–8) altera substancialmente os coeficientes. A associação de sugar com Gini fundiário permanece robusta (coeficiente 0,052, significativo a 1%), enquanto seus efeitos sobre as demais variáveis se atenuam ou invertem sinal. Para gold, as correlações com governança e acesso à justiça mantêm o sinal negativo, embora apenas acesso à justiça preserve significância estatística nesta especificação intermediária.

A especificação completa (colunas 9–12), que inclui as interações com distância a Portugal, revela o padrão central do artigo. Para o Gini fundiário (coluna 9), o coeficiente de sugar é positivo e significativo (0,690), e o coeficiente da interação sugar x dist to Portugal é negativo e significativo (-0,009). Isso indica que o efeito do ciclo da cana sobre a concentração de terras é maior para municípios mais próximos de Portugal. Para governança (coluna 11), o coeficiente de gold é negativo e significativo (-3,126), e a interação gold x dist to Portugal é positiva e significativa (0,039), indicando que o efeito negativo do ciclo do ouro sobre a qualidade da governança é mais severo em áreas mais próximas da metrópole. Resultados análogos são observados para acesso à justiça (coluna 12), com gold negativo (-6,606) e interação positiva (0,082). A persistência política não apresenta resultados significativos em nenhuma especificação.

Os autores quantificam os efeitos: se o município médio na área histórica de mineração não tivesse sido afetado pelo ciclo do ouro, seu índice de governança seria melhor em 5% de um desvio-padrão, e seu índice de acesso à justiça melhoraria em 11% de um desvio-padrão. Para o ciclo da cana, o efeito sobre o Gini fundiário corresponde a uma redução de 35% de um desvio-padrão.

Dica

Interpretação: Os resultados são consistentes com a caracterização historiográfica. O ciclo da cana, com sua sociedade polarizada e latifundiária, legou maior concentração fundiária. O ciclo do ouro, com seu Estado rentista opressivo e ineficiente, legou pior governança e menor acesso à justiça. A influência negativa é mais pronunciada onde o controle metropolitano foi mais intenso (proximidade a Portugal).

Robustez e extensões [§41–§43]

A Tabela 4 (p. 41) testa a robustez dos resultados à inclusão de controles adicionais: logaritmo da população e da área, idade do município e dummies para as cinco macrorregiões brasileiras. Os resultados qualitativos permanecem inalterados.

A Tabela 5 (p. 42) investiga a natureza da variação institucional dentro e entre estados. As colunas 1–4 incluem dummies estaduais, explorando apenas a variação within-state. Os coeficientes de sugar e gold permanecem significativos para Gini fundiário e governança, respectivamente, indicando que os efeitos são identificados também a partir da variação dentro dos estados. Para acesso à justiça, o coeficiente perde significância, sugerindo que sua relação com o ciclo do ouro é identificada principalmente pela variação entre estados. As colunas 5–8 apresentam regressões com médias estaduais (N=26). Nesse nível, sugar também se associa positivamente com persistência política e negativamente com acesso à justiça, e gold mantém associação negativa com acesso à justiça. Os autores interpretam esses resultados como sugestivos de que parte do legado colonial pode operar por meio do ambiente institucional criado no nível estadual.

Herança Colonial, Instituições Atuais e Desenvolvimento (pp. 30–34)

Resultados de forma reduzida [§44–§45]

A Tabela 6 (p. 43) apresenta regressões de forma reduzida da renda per capita sobre as variáveis históricas. Na especificação completa com controles geográficos e interações (coluna 3), apenas as variáveis relacionadas ao ciclo do ouro (gold e gold x dist to Portugal) permanecem significativas. O coeficiente de gold é -3,144 (significativo a 1%), e o da interação é 0,039 (significativo a 1%), indicando que o efeito negativo do ciclo do ouro sobre a renda per capita é atenuado pela distância a Portugal. O ciclo da cana não apresenta efeito significativo na especificação completa.

Análise de variáveis instrumentais [§46–§48]

Os autores conduzem uma análise exploratória de variáveis instrumentais, usando as cinco variáveis históricas como instrumentos para as instituições contemporâneas (Tabela 7, p. 44). Eles reconhecem as limitações dessa abordagem, especialmente a possível violação da restrição de exclusão (a distância a Portugal pode afetar a renda por canais não institucionais, como integração comercial histórica). Por essa razão, algumas especificações omitem a distância a Portugal do conjunto de instrumentos.

Nas regressões de segundo estágio, governança e acesso à justiça mostram coeficientes positivos e significativos. Na especificação que inclui apenas essas duas variáveis (coluna 5), o coeficiente de governance é 0,361 (significativo a 1%) e o de access to justice é 0,310 (significativo a 1%). O Gini fundiário e a persistência política não são significativos. Os autores quantificam os efeitos: um aumento exógeno na governança do percentil 25 para o percentil 75 da distribuição elevaria a renda per capita em 43%; um movimento análogo no acesso à justiça a elevaria em 62% (a diferença de renda entre os percentis 25 e 75 é de 120%).

A inclusão das instituições instrumentadas reduz a magnitude e a significância de vários controles geográficos (latitude, precipitação, insolação, temperaturas, solos), sugerindo que parte da correlação entre geografia e desenvolvimento dentro do Brasil é mediada pelas diferentes experiências coloniais. Contudo, a geografia mantém poder explicativo residual, o que os autores interpretam como evidência de que não se pode descartar completamente um efeito causal direto das dotações geográficas sobre o desenvolvimento.

Provisão de bens públicos como desenvolvimento institucional [§49–§50]

A Tabela 8 (p. 45) explora a provisão de bens públicos como uma medida mais abrangente de desenvolvimento institucional. Os autores estimam a especificação principal para cinco indicadores: percentual de domicílios conectados à rede de esgoto, número de centros de saúde por 10.000 habitantes, gasto público per capita em educação e cultura (ln), existência de biblioteca pública e existência de estação de rádio local.

Os resultados mostram que o ciclo da cana está associado a menor provisão de saneamento e menor número de centros de saúde. O ciclo do ouro está associado a menor provisão de todas as dimensões de bens públicos consideradas, exceto gasto com educação e cultura (para o qual o coeficiente não é significativo). Os autores interpretam esse padrão como consistente com a caracterização do Estado rentista: um governo não responsivo às demandas públicas e desligado da população local, que falha em prover bens públicos básicos.

Considerações Finais (p. 34)

Síntese e contribuições [§51]

Os autores concluem que o artigo investiga os determinantes de longo prazo das instituições locais no Brasil, rastreando a variação atual até as origens coloniais dos municípios. A abordagem permite controlar por um amplo conjunto de características geográficas e explorar a variação institucional dentro de um arcabouço de jure constante. A estratégia explora duas características do ambiente empírico: (1) os ciclos da cana e do ouro podem ser vistos como choques históricos ao desenvolvimento institucional local, bem definidos no tempo e no espaço e marcando a ocupação inicial de certas áreas; (2) a análise intranacional permite investigar quatro características institucionais e políticas distintas dos municípios, fornecendo diferentes caminhos pelos quais a influência de episódios extrativistas pode se materializar.

Os principais resultados mostram que municípios com origens no ciclo da cana exibem maior desigualdade na distribuição de terras, enquanto municípios com origens no ciclo do ouro exibem piores práticas de governança e menor acesso à justiça. Esses episódios coloniais de rent-seeking também estão correlacionados com menor provisão de bens públicos e, no caso do ouro, menor renda per capita. Uma porção significativa da correlação entre geografia e desenvolvimento dentro do Brasil parece estar relacionada às histórias coloniais experimentadas por diferentes áreas do país.

1 Argumento Sintético

Nota

Tese central: A variação contemporânea em instituições de facto e na distribuição de poder político nos municípios brasileiros é parcialmente herdada de episódios coloniais específicos de rent-seeking — o ciclo da cana-de-açúcar (legado de concentração fundiária) e o ciclo do ouro (legado de má governança e baixo acesso à justiça) — mesmo sob um arcabouço macro-institucional de jure uniforme.

Natureza do argumento: Causal (persistência histórica), com suporte empírico correlacional robusto e interpretação histórica.

O que o texto demonstra: (1) Forte associação condicional entre exposição ao ciclo da cana e maior Gini fundiário atual, especialmente em áreas mais próximas de Portugal. (2) Forte associação condicional entre exposição ao ciclo do ouro e piores indicadores de governança e acesso à justiça, também com gradiente de distância a Portugal. (3) Associação entre os ciclos coloniais e menor provisão de bens públicos e (para o ouro) menor renda per capita. (4) Em análises IV exploratórias, governança e acesso à justiça mostram efeito positivo sobre a renda.

O que fica como hipótese ou agenda: O mecanismo exato de persistência institucional não é testado diretamente, permanecendo como uma inferência baseada na historiografia. A ausência de dados institucionais históricos impede a verificação da trajetória de path dependence. A validade externa para outros contextos nacionais com diversidade geográfica e legados coloniais variados requer investigação adicional. A endogeneidade potencial da localização dos ciclos em relação a fatores geográficos não observados sugere cautela na interpretação causal.

Contribuição para o debate: O artigo fornece evidência concreta de que a variação em instituições de facto dentro de um país pode replicar padrões cross-country, refinando a literatura de instituições e desenvolvimento ao distinguir diferentes tipos de legado colonial e seus efeitos diferenciados. Ao trazer a discussão para o nível subnacional com controles geográficos finos, o estudo oferece uma ponte entre as literaturas macro e micro sobre persistência histórica, destacando a importância de considerar a dimensão de facto das instituições mesmo em contextos de homogeneidade formal.