Mello (2022) — Centralized Admissions, Affirmative Action and Access of Low-Income Students to Higher Education

Descriptive Note
Economics of Education
Inequality
Brazil
Anotação de literatura: avaliação causal do SISU e da Lei de Cotas sobre a composição socioeconômica do ensino superior público brasileiro.
Published

March 17, 2026

Gerado em: 2026-03-17 | Modelo: Claude Sonnet 4.6 Thinking

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  author  = {Mello, Ursula},
  title   = {Centralized Admissions, Affirmative Action and Access of Low-Income Students to Higher Education},
  journal = {American Economic Journal: Economic Policy},
  year    = {2022},
  volume  = {14},
  number  = {3},
  pages   = {166--197}
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Questão de Pesquisa

Principal: Como a centralização das inscrições via SISU e a expansão das cotas (Lei 12.711/2012) impactaram as matrículas de estudantes de baixo nível socioeconômico no ensino superior público brasileiro? (Natureza: causal-avaliativa)

Questões secundárias:

  1. Por que o SISU desloca estudantes low-SES das vagas menos competitivas? (explicativa-mecanística)
  2. O efeito da AA sobre matrículas é puramente mecânico ou há respostas comportamentais dos candidatos? (descritiva-mecanística)
  3. A adoção simultânea de SISU e AA gera efeitos de interação distintos da adoção isolada de cada política? (causal-avaliativa)

Puzzle

Tip🧩 Tipo: explicativo com componente de avaliação de política pública

O paradoxo central é genuíno: uma política de redução de custos de candidatura (SISU), implementada para ampliar o acesso de grupos vulneráveis, produz efeito distributivo adverso ao criar um mercado mais competitivo e integrado. O puzzle tem validade além do caso brasileiro — qualquer transição de sistema descentralizado para centralizado em mercados educacionais enfrenta o dilema entre eficiência alocativa e equidade distributiva.


Conclusão / Argumento Central

Tese tripla com ambição causal moderada via quasi-experimento:

  1. SISU cria um mercado mais integrado e — contraintuitivamente — desloca estudantes low-SES das vagas menos competitivas, porque estudantes de escola privada local passam a usar informação de cutoffs para competir por vagas antes não disputadas.
  2. AA aumenta matrículas de grupos vulneráveis tanto mecanicamente (reserva de vagas) quanto via respostas comportamentais (mais candidaturas de estudantes PS).
  3. Interação SISU × AA é complementar: a AA protege os grupos vulneráveis do efeito de deslocamento gerado pelo SISU.

Métodos

  • Design: quasi-experimento com painel (2010–2015)
  • Identificação: variação cross-sectional e temporal na adoção progressiva do SISU e da AA por programa-instituição
  • Modelo: regressão linear de probabilidade ao nível do estudante (N ≈ 2,28M), com efeitos fixos de programa-instituição e de tempo, controle de vagas e tendência linear municipal
  • Tratamento: contínuo (% de vagas no SISU; % em AA) com variável de interação
  • Robustez: placebos com variáveis lead (1 e 2 períodos), heterogeneidade por quartil de competitividade, especificações alternativas

Data Generation Process (DGP)

  • Fonte: Censo da Educação Superior (CES) 2010–2015 + microdados do ENEM 2009–2014, acessados via INEP/MEC e vinculados por CPF
  • Unidade de análise: estudante ingressante em programas presenciais de IES públicas federais e estaduais
  • Variáveis de resultado: binárias de perfil (PS = escola pública; PSNW = escola pública + não-branco; PSLI = escola pública + renda familiar total < 1 SM)
  • Variáveis de tratamento: contínuas ao nível do programa-instituição-ano; dados de SISU fornecidos pelo MEC; dados de AA coletados manualmente pela autora

Achados e Contribuições

Política Grupo Efeito (p.p.) Variação relativa
AA (+50% vagas) PS +9,9 +18%
AA (+50% vagas) PSNW +7,0 +29%
AA (+50% vagas) PSLI +2,4 +34%
SISU (adoção plena) PS −3,8 −7%
SISU (adoção plena) PSNW −2,8 −12%
SISU (adoção plena) PSLI −4,1 −59%

Interação SISU × AA: positiva e complementar para todos os grupos — no nível pleno de AA, o efeito negativo do SISU sobre PS desaparece.

Mecanismo (evidência sugestiva): em programas do 1º quartil de competitividade, o SISU reduz matrículas de estudantes locais de escola pública em 10,5 p.p., com 71% desse deslocamento atribuído ao aumento de 5,5 p.p. de estudantes de escola privada local.

Contribuições: 1. Primeira avaliação causal de política nacional de AA em larga escala no Brasil 2. Evidência de que centralização de admissões pode aumentar desigualdade de acesso 3. Complementaridade entre os dois tipos de política como achado inédito


Análise Crítica

  • Tendências paralelas: testadas com apenas 1–2 pré-períodos (dados disponíveis só de 2010) — insuficientes para descartar tendências diferenciais de longo prazo
  • SUTVA: tratado no Apêndice G.1; spillovers da AA encontrados no mercado local, mas coeficientes diretos permanecem estáveis — evidência tranquilizadora, não prova formal
  • Endogeneidade da adoção: a autora reconhece e argumenta que exigência é apenas de exogeneidade condicional das tendências
  • Seleção de outcomes: ausência de dados PS/PSLI para parte da amostra em 2010–2012, com disponibilidade correlacionada com adoção do SISU
  • Mecanismo: o argumento sobre estudantes privados locais “aprendendo seu desempenho relativo” via cutoffs não é identificado com dados de candidatura individual — permanece inferência por eliminação
  • Consistência ontológica: variável PSLI usa renda familiar total < 1 SM (≠ renda per capita < 1,5 SM da lei de AA), criando grupo mais restrito que não é o alvo direto da política

Limitações

Reconhecidas pelos autores: - Impossibilidade de testar tendências paralelas com múltiplos pré-períodos - Ausência de dados de candidatura individual - Renda total em vez de per capita (incomparável com critério legal) - Impossibilidade de generalizar mecanismos além do contexto brasileiro

Não reconhecidas: - Assume linearidade dos efeitos das variáveis de tratamento contínuas — não testado nos extremos - Efeito de −59% no grupo PSLI pode refletir parcialmente a definição muito restrita da variável, não só o efeito do SISU - Ausência de outcomes downstream (conclusão do curso, mercado de trabalho) - Análise restrita a IES públicas — excluindo a maioria dos estudantes brasileiros


Perspectiva Teórica

Economia aplicada da educação (education economics), com interface em market design e teoria de correspondência (matching theory). O modelo implícito é de agente racional com restrições de custo e informação. Ausência notável de diálogo com sociologia da educação, ciência política comparada ou literatura institucional sobre cotas — o que empobrece a discussão normativa e comparativa.


Principais Referências

  • Machado e Szerman (2018) — efeitos do SISU sobre mobilidade e matching
  • Francis e Tannuri-Pianto (2012); Estevan, Gall e Morin (2019) — AA no Brasil
  • Hinrichs (2012); Backes (2012) — bans de AA nos EUA
  • Bertrand, Hanna e Mullainathan (2010); Bagde, Epple e Taylor (2016) — cotas de casta na Índia
  • Hoxby e Turner (2015); Bettinger et al. (2012); Pallais (2015) — custos de candidatura
  • Knight e Schiff (2020) — Common Application; Chetty et al. (2017) — mobilidade intergeracional
  • Johnson e Jackson (2019) — identificação de interações

Referências concentradas exclusivamente na economia da educação anglófona. Pouca interlocução com literatura brasileira de ciência política, sociologia da educação ou estudos sobre raça e desigualdade.


Observações

  1. Vulnerabilidade central: o mecanismo de deslocamento por estudantes privados locais é reconstruído por eliminação — sem dados de candidatura individual, não é diretamente testável. Hipótese alternativa não descartada: interação com REUNI.
  2. Interação SISU × AA: achado mais inovador, mas mais dependente de suposições funcionais. A decomposição mecanística permanece sem identificação direta.
  3. Lacuna normativa: o paper não discute se o design SISU+AA é ótimo ou se arranjos alternativos dominariam o status quo.
  4. Validade externa: aplicável a contextos de sistemas centralizados com cotas em países de alta desigualdade com exame nacional único. Generalização para o Common Application ou vestibulares estaduais é problemática.
  5. Relevância comparada: o resultado contra-intuitivo de que centralização sozinha pode aumentar desigualdade de acesso é politicamente relevante e empiricamente robusto nos checks apresentados.