Fichamento: Political Economy of Skill Formation and Gender Bias in Skills and Employment in Hierarchical Market Economies: The Case of Thailand
Jaewon Kim (2024)
Kim, J. (2024). Political economy of skill formation and gender bias in skills and employment in hierarchical market economies: The case of Thailand. Journal of Labor and Society, 27, 553–577. https://doi.org/10.1163/24714607-bja10155
Última atualização: 2026-05-06
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1 Introdução (pp. 554–556)
1.1 Centralidade das skills e variação institucional [§1–§2]
O texto abre situando o problema das skills como elemento decisivo para o progresso socioeconômico em um contexto de transformação estrutural marcado por economia do conhecimento, digitalização e offshoring. A autora insiste que habilidades não emergem apenas de escolhas individuais, mas de investimentos deliberados realizados por atores como empresas e Estado. Com isso, a discussão já se insere na tradição da economia política da formação de habilidades, segundo a qual a disponibilidade e o tipo de skills dependem fortemente do contexto institucional de cada economia política.
No segundo movimento da introdução, o argumento passa da premissa geral para a comparação entre arranjos nacionais de formação vocacional. A autora lembra que a literatura sobre vocational education and training (vet) mostrou que diferentes países distribuem de maneira distinta os custos e a governança da formação: Alemanha e Suíça exemplificam arranjos colaborativos entre Estado e empregadores, ao passo que o Japão depende mais da disposição de firmas individuais em treinar seus trabalhadores. O ponto central aqui é que o vet não pode ser entendido como esfera educacional autônoma, mas como produto conjunto de estruturas políticas, econômicas e dinâmicas de mercado de trabalho.
1.2 Lacuna sobre economias em desenvolvimento e intervenção proposta [§3–§4]
A autora então formula o puzzle principal: embora a economia política da formação vocacional seja vasta para capitalismo avançado, há escassez notável de pesquisa teórica e empírica sobre economias em desenvolvimento. Esse vazio é especialmente problemático porque países como Tailândia, México e Turquia enfrentam pressões intensas para reconfigurar seus sistemas de skill formation ao tentar subir em cadeias globais de valor. Em vez de tratar esses casos como versões incompletas dos modelos do Norte, o artigo propõe analisá-los em seus próprios termos, levando a sério a complexidade criada pela inserção em global value chains e pelo papel de firmas líderes globais.
A contribuição analítica aparece em duas frentes. Primeiro, o texto sustenta que o sistema tailandês de formação e governança das skills não se encaixa adequadamente nos modelos clássicos de economias capitalistas avançadas, mas pode ser interpretado por meio do modelo de hierarchical market economy (hme). Segundo, a autora anuncia um deslocamento teórico importante: em vez de assumir, como parte da literatura de Varieties of Capitalism (VoC), que políticas de vet derivam de mecanismos cooperativos deliberadamente criados, o artigo adota uma lente orientada por conflito e por disputas distributivas entre atores.
Como explicar a configuração do sistema de formação de habilidades de uma economia emergente como a Tailândia, e de que modo esse arranjo institucional afeta vieses de gênero em skills e ocupações?
A parte final da introdução desloca o foco para as consequências de gênero. Mobilizando trabalhos que articulam estudos feministas do welfare state e literatura de VoC, a autora observa que regimes orientados a general skills tendem a ser mais neutros em relação a gênero do que regimes baseados em firm-specific skills. Como a participação feminina no mercado de trabalho é mais frequentemente intermitente, o investimento em habilidades específicas à firma se torna mais arriscado para mulheres. Daí resulta a pergunta que guiará a segunda metade do artigo: se e como o regime tailandês de skill formation mitiga ou agrava o viés de gênero em skills e emprego. Metodologicamente, a autora anuncia uma triangulação entre análise estatística de educação e emprego na Tailândia e revisão extensa da literatura.
2 Revisão de literatura e quadro conceitual (pp. 556–562)
2.1 VoC, regimes de skill formation e seus pressupostos [§5–§8]
A seção de revisão começa reconstruindo a contribuição da literatura de Varieties of Capitalism, sobretudo Hall e Soskice, para a compreensão da coordenação institucional entre capital e trabalho. Nesse enquadramento, sistemas de skill formation aparecem como um dos traços institucionais centrais que distinguem liberal market economies (lme) de coordinated market economies (cme). A autora enfatiza que essa tradição repousa, em larga medida, sobre um pressuposto de institucionalismo de escolha racional: instituições de formação são vistas como mecanismos voluntários e cooperativos criados por agentes com interesses compartilhados.
A seguir, o texto sistematiza a tipologia da literatura comparada sobre skills. Primeiro, Crouch, Finegold e Sako distinguem três grandes modalidades de vet segundo quem lidera seu financiamento e administração: sistema de treinamento de mercado centrado na firma, sistema estatal regulado e sistema estatal com forte influência empresarial-corporativa. Depois, Busemeyer e Trampusch refinam a classificação com duas dimensões — engajamento das firmas e compromisso público — para diferenciar quatro regimes: liberal, segmentalist, statist e collective skill formation. O mérito dessa reconstrução, no texto, é mostrar que a combinação entre Estado e firmas produz trajetórias nacionais diversas de formação ocupacional.
2.2 O sistema coletivo e sua fragilidade constitutiva [§9–§11]
Em seguida, a autora se detém no regime de collective skill formation, que recebe atenção destacada na literatura por seus bons resultados e por sua sofisticação institucional. São sublinhadas quatro características recorrentes desse arranjo: disposição empresarial para dividir custos substantivos do vet inicial; presença ativa de intermediários como associações patronais e sindicatos; produção de skills portáveis, certificadas e padronizadas; e desenvolvimento das habilidades sobretudo por esquemas duais e aprendizagens. O texto registra que esse modelo costuma ser elogiado por ampliar o estoque nacional de trabalhadores qualificados e articular formação em escola e empresa.
Mas o artigo rapidamente desloca a ênfase do êxito para a fragilidade. A autora recupera estudos que veem o sistema coletivo como intrinsecamente vulnerável porque depende de equilíbrios difíceis entre benefícios sociais amplos e incentivos empresariais privados. Se empresas entendem que os custos superam os retornos, podem retirar seu apoio; por isso, tais instituições não são soluções estáveis, mas compromissos contestados e sempre passíveis de redesenho. Essa leitura já prepara o argumento central do artigo: sistemas de skill formation devem ser entendidos menos como expressões naturais de eficiência e mais como resultados temporários de relações de poder e conflito.
O artigo rejeita a leitura funcionalista segundo a qual sistemas de formação se estabilizam porque todos os atores reconhecem seus ganhos mútuos. Em seu lugar, sustenta que esses arranjos são continuamente contestados e dependem de sustentação política renovada.
2.3 Limites da literatura para o mundo em desenvolvimento [§12–§13]
O passo seguinte é identificar a insuficiência da literatura existente para explicar economias em desenvolvimento. A autora observa que grande parte dos estudos concentra-se nas economias capitalistas avançadas e, quando trata do Sul global, tende a enfatizar apenas a disfuncionalidade dos sistemas de vet. Isso é considerado limitado porque as tipologias clássicas ajudam a organizar variações observáveis, mas não explicam adequadamente a especificidade contextual de países em desenvolvimento, nem captam como interesses concorrentes moldam institucionalmente seus sistemas de skill formation.
Nesse ponto, a Tailândia surge como caso promissor. O país combinou crescimento econômico expressivo, integração a segmentos relativamente menos qualificados das cadeias globais e aspiração a upgrading produtivo. A autora sustenta que uma marca visível desse contexto é o peso direto de firmas líderes globais na governança de skills, ao lado de relações de poder pouco exploradas entre Estado e empresas. Assim, o objetivo do estudo passa a ser reconstruir o processo de desenvolvimento do vet tailandês e mostrar como esse regime produz forças e fraquezas institucionais no mercado de trabalho.
2.4 Perspectivas de gênero sobre skills e emprego [§14–§17]
A subseção seguinte introduz a crítica feminista à literatura de VoC, sobretudo a partir de Estévez-Abe. O argumento principal é que regimes que valorizam firm-specific skills tendem a produzir mais segregação de gênero do que aqueles orientados a general skills. Como mulheres enfrentam maior probabilidade de interrupções de carreira em razão de cuidado e reprodução social, suas oportunidades de retorno do investimento em habilidades específicas à firma são menores. Assim, elas têm menos incentivo para investir nesse tipo de skill e tendem a preferir qualificações mais portáveis.
A autora explicita que o problema não é a certificação de habilidades em si, já que tanto economias liberais quanto coordenadas podem certificar competências com reconhecimento nacional. O ponto decisivo é o peso relativo que certos mercados de trabalho atribuem a habilidades específicas à firma, as quais se tornam mais difíceis de conservar em trajetórias laborais descontínuas. Desse modo, a literatura sugere que cmes, apesar de frequentemente associadas a maior proteção social, podem gerar segregação ocupacional mais intensa, concentração masculina em postos superiores e desigualdade salarial persistente.
Nos parágrafos seguintes, o texto mostra que essa agenda permanece pequena e concentrada em Europa e América do Norte. Para a autora, isso é especialmente problemático porque desigualdades de gênero em emprego, proteção e salários são muitas vezes mais amplas no mundo em desenvolvimento. A Tailândia, por exemplo, avançou em instrumentos formais de igualdade — como legislação, gender-responsive budgeting e reformas curriculares — e viu crescer a participação feminina no mercado com a integração em cadeias globais. Ainda assim, persistem segregação ocupacional e diferenciais de skills no trabalho. O artigo argumenta, portanto, que não basta atribuir essas desigualdades a um pano de fundo genérico de patriarcado: é preciso inseri-las em um quadro analítico de regime de skills.
3 Breve história do VET na Tailândia (pp. 562–564)
3.1 Formação inicial do VET e institucionalização estatal [§18–§19]
A seção histórica reconstrói as origens do vet tailandês desde o fim do século XIX, quando a transição de parte da população da agricultura tradicional para comércio e artesanato abriu espaço para educação técnica. O primeiro plano educacional, em 1898, já incluía educação técnica como componente importante do sistema. Em 1909, novas reformas distinguiram educação formal e não formal, correspondendo, respectivamente, a ensino geral e vocacional, e em 1910 foram criadas as primeiras escolas comerciais em Bangkok e Ayutthaya.
A institucionalização avança após a Revolução de 1932, quando o esquema educacional nacional passa a incluir níveis primário, secundário inferior, secundário superior e pré-universitário, com oferta vocacional nos níveis secundários. Reformas administrativas posteriores criam estruturas específicas dentro do aparato estatal, culminando, em 1941, no estabelecimento do Department of Vocational Education com divisões próprias. O percurso histórico sugere que o vet foi sendo progressivamente formalizado, mas sem nunca se tornar o eixo dominante da política educacional.
3.2 Expansão no pós-guerra e cooperação internacional [§20–§22]
No pós-Segunda Guerra, o vet torna-se mais integrado ao ensino secundário, com diferenciação entre trilhas acadêmicas, gerais e vocacionais, e começa a tomar forma também um sistema de educação vocacional superior. A autora destaca a criação de instituições técnicas com apoio internacional: o Bangkok Technical Institute, com ajuda dos Estados Unidos; o Patumthani Agriculture Training Center, com apoio alemão; e o Thai-Austrian Technical College, em Chon Buri. Esse processo veio acompanhado de forte escassez de professores qualificados, o que motivou a criação do King Mongkut’s Institute of Technology, em 1971, para formar docentes para instituições vocacionais.
O texto sublinha, contudo, que expansão institucional não significou prestígio equivalente ao da educação geral. Ao longo de mais de um século, o vet permaneceu associado a menor status social, menor qualidade de infraestrutura e materiais e menor prestígio ocupacional, em contraste com a preferência pública por ocupações não técnicas. A autora usa inclusive a evolução administrativa do setor para sugerir que o próprio Estado priorizou muito mais a educação geral e superior do que a formação vocacional. O exemplo mais nítido é o fato de o sétimo plano nacional de desenvolvimento econômico e social, de 1992, não mencionar vet, embora desse alta prioridade ao ensino básico e superior.
Outro componente importante dessa trajetória foi a assistência bilateral e multilateral ao desenvolvimento desde os anos 1950. Além de ajudar a fundar instituições, atores internacionais contribuíram para diversificar currículos e cursos, como nos casos da seato, unesco e undp. Segundo a autora, essa combinação entre políticas domésticas e apoio internacional ampliou rapidamente a matrícula vocacional, especialmente em comércio e formação técnica-industrial durante a década de 1970.
3.3 Reformas recentes e problemas persistentes [§23]
O parágrafo final da seção histórica trata do arranjo atual, moldado sobretudo pela National Education Act de 1999, reformada em 2002. O antigo Department of Vocational Education passa a ser a Office of the Vocational Education Commission (ovec), sob a qual se organizam programas regulares de três anos com estágio em local de trabalho e programas duais com formação em instituição e empresa. O sistema também prevê continuidade em diploma vocacional, diploma superior técnico e bacharelado tecnológico.
Apesar dessas reformas, a autora sustenta que a Tailândia continua convivendo com carência pronunciada de técnicos e trabalhadores qualificados em praticamente todos os setores. Persistem tanto o viés sociocultural favorável à trajetória acadêmica — vista como caminho para ocupações respeitáveis — quanto o desinteresse relativo pela educação vocacional. Em vez de uma narrativa linear de modernização, a seção histórica produz a imagem de um vet expandido, mas social e politicamente secundarizado.
4 Economia política da formação de skills na Tailândia (pp. 564–569)
4.1 Relação entre educação geral e VET [§24–§26]
A autora inicia esta seção afirmando que a orientação geral do sistema educacional — mais voltada à educação geral ou ao vet — e o grau de articulação vertical entre essas trilhas são decisivos para os processos nacionais de skill formation. A Tailândia, diferentemente de regimes statist, não integrou fortemente vet e educação geral; ao contrário, a transição entre programas vocacionais e gerais é difícil. Somada à percepção negativa do vet como segunda opção ou até como beco sem saída, essa fraca integração ajuda a explicar sua desvalorização pública e a centralidade da educação secundária e superior geral na produção de capital humano genérico.
No parágrafo seguinte, o texto aproxima a Tailândia do modelo liberal norte-americano. Em ambos os casos, a educação geral é vista como meio de fornecer conhecimentos amplos e habilidades básicas passíveis de aprofundamento posterior no trabalho. A autora contrapõe essa lógica à crença europeia de que habilidades mais específicas, cultivadas em arranjos vocacionais mais integrados, podem elevar produtividade e facilitar a entrada no mercado. O dado apresentado reforça a consequência institucional dessa opção: a participação de adultos com certificado ou diploma vocacional permanece baixa em todas as regiões da Tailândia, oscilando entre 6% e 11%.
O terceiro parágrafo aprofunda o problema da fraca permeabilidade entre trilhas educacionais. Em várias economias avançadas, sistemas de ensino superior e community colleges compensam o vet secundário limitado, abrindo pontes entre formação geral e vocacional. Na Tailândia, porém, essas pontes são estreitas: apenas 6% e 3% dos estudantes do ensino superior vêm, respectivamente, de programas de diploma e certificado vocacional, e somente 25% dos estudantes de diploma vocacional haviam cursado antes o secundário geral. O contraste com a Holanda — onde cerca de metade dos universitários em ciências aplicadas tem origem em vet — serve para mostrar como a escassez de instrumentos coordenados de transição reforça a dependência de treinamento no trabalho tanto para egressos da educação geral quanto para aqueles com habilidades setoriais adquiridas no vet.
A relação entre educação geral e vet na Tailândia produz um regime em que a escola gera sobretudo habilidades amplas ou setoriais iniciais, enquanto a formação mais avançada fica deslocada para o interior do mercado de trabalho e para iniciativas empresariais.
4.2 Divisão de trabalho entre Estado, empresas e sindicatos [§27]
Na subseção seguinte, a autora abandona qualquer leitura consensual do sistema e enfatiza que a formação de skills está atravessada por conflitos sobre quem paga, quem provê, quem controla e como conectar treinamento à educação superior. A Tailândia aparece como caso de vet relativamente mais padronizado que o de países vizinhos, mas com governança dominada sobretudo por firmas, enquanto o Estado cumpre papel de apoio. O ponto crucial, entretanto, é que essas firmas não são “as empresas” em abstrato, mas grandes conglomerados.
A autora argumenta que a influência extensiva dos conglomerados ajuda a explicar por que o regime tailandês privilegia mais a educação geral do que o vet como sistema público robusto. Como operam em múltiplos setores — da manufatura às finanças e serviços —, eles tendem a apoiar investimento público em capital humano genérico, ao mesmo tempo em que formam internamente trabalhadores mais qualificados ou com skills específicas. O exemplo citado é o conglomerado cp, que administra a Panyapiwat Techno Business School com programa dual de três anos. Em contraste, smes permanecem outsiders do regime dominante e os sindicatos são praticamente invisíveis. O resultado é uma estrutura hierárquica de poder, com Estado forte, empregadores dominantes e trabalhadores fracamente organizados, deixando a formação das skills amplamente entregue ao mercado.
4.3 A Tailândia como HME e as limitações do VoC [§28–§31]
A terceira subseção apresenta o passo conceitual decisivo do artigo: interpretar o caso tailandês pelo modelo de hierarchical market economy. Retomando Schneider, a autora recorda quatro características centrais desse tipo de capitalismo: mão de obra pouco qualificada, relações de trabalho atomizadas, dominância de conglomerados e influência de multinacionais. O argumento do artigo é que esse quadro também permite compreender a lógica da skill formation.
Primeiro, a autora relaciona a orientação do sistema educacional à especificidade das skills demandadas no mercado de trabalho. A Tailândia cresceu como polo manufatureiro de baixo custo em segmentos inferiores das cadeias globais, o que gerou demanda por trabalhadores com habilidades gerais, abundantes e de baixo a médio nível. Como essas skills são amplamente transferíveis, empregadores têm pouco incentivo para oferecer seguros mais robustos contra desemprego ou demissão e, em muitos casos, preferem recorrer a treinamento externo em vez de investir internamente. Relações trabalhistas frouxas, alta rotatividade e fraca coordenação horizontal entre trabalhadores reforçam esse equilíbrio de baixa especificidade.
O segundo mecanismo é a dominância dos conglomerados. A autora descreve essas estruturas como piramidais e diversificadas setorialmente, não limitadas a ramos produtivos conexos. Esse traço importa porque conglomerados que operam em múltiplas áreas tendem a valorizar habilidades gerais que possam ser deslocadas entre subsidiárias, setores e linhas de negócio. O artigo acrescenta um dado forte: mais de 85% da receita corporativa total estaria concentrada no top 5% das empresas por meio de redes lideradas por conglomerados. Assim, a governança hierárquica das relações empresariais difunde uma orientação pró-general skills por toda a cadeia de fornecedores e subsidiárias, enquanto formas mais específicas de vet tendem a ser organizadas internamente.
O terceiro mecanismo é o peso das multinational corporations (mncs), especialmente em setores como automotivo e eletrônicos. Segundo a autora, essas firmas líderes de cadeias regionais ou globais também podem investir em escolas técnicas ou vocacionais próprias, certificadas pelo governo, quando necessário. Mas, em geral, como as tarefas deslocadas para países hospedeiros exigem frequentemente skills de baixo a médio nível e podem ser realocadas para outros destinos, as multinacionais têm incentivos limitados para investir em firm-specific skills profundas. A facilidade de acesso a ampla oferta de trabalho relativamente homogêneo, combinada à baixa proteção trabalhista doméstica, alta rotatividade e competição intensa nas cadeias globais, desestimula também fornecedores locais a treinar trabalhadores por medo de poaching.
Por fim, a autora usa o caso para criticar a literatura de VoC. O peso das multinacionais desafia o nacionalismo metodológico dos modelos ideal-típicos que tratam o Estado nacional como unidade relativamente fechada. Além disso, as tensões entre conglomerados, multinacionais, pequenas empresas e governo indicam que a recusa do conflito de classe e das disputas distributivas é analiticamente inadequada para economias hierárquicas de mercado. O artigo, portanto, não apenas aplica o conceito de hme à Tailândia, mas o expande para repensar a própria teoria de skill formation.
5 Viés de gênero em skills e emprego na Tailândia (pp. 569–574)
5.1 Presença feminina no mercado de trabalho e em posições de liderança [§32–§34]
A seção empírica sobre gênero começa destacando um fato que, para a autora, é teoricamente significativo: a participação feminina no mercado de trabalho tailandês é alta em comparação com outras economias em desenvolvimento de perfil semelhante. O artigo informa taxa de participação feminina de 59,2% na Tailândia, acima de Brasil, Indonésia e Filipinas, e também ligeiramente superior à de Estados Unidos e Alemanha. A razão entre participação feminina e masculina chegaria a 78%, acima da média mundial. A integração às cadeias globais teria criado oportunidades para mulheres tanto na manufatura — vestuário, processamento de alimentos, automotivo, eletrônicos — quanto em serviços de menor valor agregado, como contact centers.
A autora liga esse resultado ao desenho institucional do sistema de formação. Como a Tailândia valoriza mais general skills do que habilidades específicas à firma, e como tais skills podem ser adaptadas a várias tarefas e empregadores, haveria menor tendência à segregação ocupacional de gênero do que em regimes centrados em especificidade. Ainda assim, o texto nota que a própria escolha entre educação geral e vet, bem como entre campos dentro do vet, é fortemente marcada por gênero.
Os dados educacionais mostram essa diferenciação com clareza. Em 2019, apenas 40% dos estudantes de vet no nível secundário superior eram mulheres, ao passo que elas representavam 60% na educação geral. Além disso, as estudantes se concentram em administração e comércio, entendidos como campos mais próximos de habilidades genéricas, enquanto a presença feminina em áreas industriais fica abaixo de 13%; entre os homens, essa proporção chega a 75%. Com base nesses padrões e na literatura revisada, a autora sustenta que a Tailândia tenderia a reproduzir algo semelhante ao padrão norte-americano: menor viés de gênero em skills e menor segregação ocupacional.
5.2 General skills, HME e neutralidade relativa de gênero [§35–§37]
O texto então apresenta indicadores de inserção feminina em posições de alto status. A Tailândia aparece com participação excepcionalmente alta de mulheres em cargos gerenciais e de liderança. O artigo menciona estudo do Credit Suisse Research Institute segundo o qual o país ocupava a segunda posição global em participação feminina na alta gestão, em torno de 30%. Outro relatório, da Grant Thornton, indicaria 43% de mulheres em cargos de chief financial officer em empresas de médio porte. Também se registra presença feminina próxima de 44% em ocupações de stem, acima de vários países desenvolvidos e em desenvolvimento, além de baixa proporção de empresas sem mulheres em posições seniores e elevada presença feminina em conselhos.
A autora é cuidadosa, porém, em afastar uma interpretação institucionalista simples baseada em cotas ou forte regulação pró-igualdade no emprego. Segundo o texto, a Tailândia não possui leis robustas de equal employment opportunity nem sistema obrigatório de cotas para mulheres comparável ao de alguns países desenvolvidos. Ademais, no índice de lacuna de gênero do Fórum Econômico Mundial de 2020, o país figurava muito mal em igualdade política, apesar de bom desempenho relativo nas dimensões educacional e econômica. Portanto, a explicação proposta não repousa em coerção jurídica igualitária, mas no tipo de skills que o regime educacional e produtivo privilegia.
O raciocínio é o seguinte: como general skills são portáveis e podem ser comprovadas por diplomas e certificações formais, mercados que valorizam habilidades adquiridas na escola em vez de treinamento longo no interior das firmas oferecem melhores condições para que mulheres entrem, saiam, retornem e ascendam na hierarquia ocupacional. Nessa chave, a relativa neutralidade de gênero do mercado tailandês decorre do caráter escolarizável e transferível das habilidades mais valorizadas. O argumento não é que a Tailândia tenha superado desigualdades de gênero, mas que seu regime de skills reduz um mecanismo específico de segregação: aquele ancorado em dependência de firm-specific skills.
5.3 Conglomerados, multinacionais e limites do argumento [§38–§40]
Nos parágrafos seguintes, a autora aprofunda o papel distintivo das hmes. A dominância de conglomerados sobre a atividade econômica intensificaria a priorização da educação geral, porque grupos empresariais diversificados conseguem realocar trabalhadores com habilidades gerais entre subsidiárias e setores, inclusive quando expandem para novos mercados. O texto aproxima essa lógica da valorização crescente de general managerial skills em posições de liderança, já que essas competências seriam mais transferíveis entre empresas do grupo e setores conectados. Com o aumento da escolaridade feminina e a expansão de ocupações que demandam habilidades gerais, abre-se espaço para maior presença de mulheres em gestão e negócios.
As mncs e seus fornecedores também contribuiriam para esse padrão por outra via. Como tendem a evitar treinamento extensivo em skills específicas à firma, dadas a fluidez das redes de suprimento, a abundância de fornecedores potenciais e o risco de poaching em ambiente de baixa proteção trabalhista, disseminam-se antes industry-specific skills portáveis dentro de determinados setores. Como essas habilidades podem ser adquiridas em formação escolar baseada em vet, mulheres também podem investir nelas individualmente sem depender tanto de longas trajetórias contínuas na mesma firma. Isso reforçaria a tese de que o regime tailandês reduz certas barreiras estruturais à promoção feminina.
No entanto, a autora não encerra a análise em tom triunfalista. Um exame mais detido da manufatura revela persistente segregação de gênero: mulheres aparecem sobrerrepresentadas em ocupações monótonas e elementares, como montagem e certos trabalhos artesanais, enquanto posições gerenciais e atividades mais intensivas em tecnologia e conhecimento continuam masculinizadas. O texto reconhece que esse padrão não é bem explicado nem pela oposição clássica entre lme e cme, nem, isoladamente, pelo modelo de hme. Entram então em cena explicações associadas a estereótipos de gênero na indústria — por exemplo, a visão de trabalhadoras como dóceis, não agressivas e dotadas de destreza manual —, o que aponta para agenda futura mais refinada.
5.4 Diferenciação entre tipos de skill e agenda futura [§41]
O último parágrafo substantivo do artigo explora justamente essa agenda. A autora argumenta que é preciso distinguir com mais cuidado entre general skills, firm-specific skills e industry-specific skills, bem como entre diferentes formatos de formação vocacional, especialmente educação escolar e aprendizagem. A razão é que programas de aprendizagem tendem a envolver mais diretamente empregadores e, por isso, podem gerar efeitos mais discriminatórios em contextos onde continuidade no emprego e manutenção de skills específicas importam para a decisão empresarial.
Nessa linha, o crescimento de programas de aprendizagem no vet tailandês é interpretado como indício de que o desenho institucional concreto da formação importa tanto quanto o grau abstrato de portabilidade das skills. Mesmo quando as habilidades são transferíveis ou podem ser adquiridas por investimento individual, configurações distintas de relação entre escola e empresa podem ampliar ou distorcer a forma como capacidades femininas são avaliadas no mercado de trabalho. A implicação interpretativa é importante: o próprio sucesso parcial da tese da neutralidade de gênero sob regime de general skills produz novas perguntas sobre variação setorial e institucional fina.
6 Argumento Sintético
Ficha Analítica Crítica
Esta seção segue o formato IA Planilhando Textos v12.0.