Fichamento: The Economic Dividend of Social Investment

Hemerijck, A. & Fernandes, D. (2025)

Annotated Bibliography
Political Economy
Welfare State/Social Policy
Social Investment
Quantitative Methods
Author

Tales Mançano

Published

April 21, 2026

Hemerijck, A., & Fernandes, D. (2025). The economic dividend of social investment. In A. Hemerijck & D. Fernandes (Eds.), Beyond the Nordic welfare state (pp. 20–47). Edward Elgar Publishing.

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Última atualização: 2026-04-21 Modelo: Perplexity — Claude Sonnet 4.6 Thinking Gerado em: 2026-04-21T21:17:00-03:00


1 Introdução (pp. 20–21)

1.1 Contexto e motivação do capítulo [§1–§2]

O capítulo abre situando a trajetória recente dos estados de bem-estar europeus: nas quatro últimas décadas, esses sistemas enfrentaram pressões conjugadas de competição global intensificada, mudança tecnológica e digitalização, envelhecimento demográfico acelerado, transformações pós-industriais na estrutura familiar e aprofundamento da integração europeia (Bonoli, 2013; Garritzmann et al., 2022; Häusermann, 2010; Hemerijck, 2013, 2017; Morel et al., 2012; Taylor-Gooby, 2004). Nesse contexto, a noção de investimento social (social investment) ganhou tração como abordagem integrada a essas mudanças estruturais, centrada em proteção social inclusiva, transições de mercado de trabalho com equidade de gênero e aprendizagem ao longo da vida.

O segundo parágrafo ressalta um dado empírico estruturante: após a Grande Recessão e a crise da dívida soberana (2007–2014), os estados de bem-estar mais ativos e inclusivos dos países nórdicos — orientados ao investimento social — demonstraram capacidade de recuperação mais rápida em termos de emprego (Van Kersbergen et al., 2014; Hemerijck & Matsaganis, 2024). Aproveitando o êxito dos short-time work schemes pós-2009, os países fortaleceram suas redes de proteção, apoiados pela solidariedade fiscal da UE por meio do NextGenerationEU Recovery and Resilience Facility (RRF). O capítulo propõe-se, então, a explorar essa “revolução silenciosa” do investimento social, desde sua origem modesta — expressa pela noção de “política social como fator produtivo”, endossada pela UE no final dos anos 1990 — até a mais elaborada bússola de reforma para “crescimento inclusivo e sustentável” adotada pela UE, pela OCDE (2008, 2015) e pelo Banco Mundial (2023).

1.2 Estrutura do capítulo [§3]

O terceiro parágrafo enuncia a organização do capítulo em cinco seções: (1) apresentação da teoria de política do investimento social e seu fundamento normativo (stepping-stone solidarity); (2) comparação de estados de bem-estar maduros da UE com base em indicadores quantitativos macro do Eurostat; (3) determinantes políticos da reforma de investimento social; e (4) papel da UE na agenda, difusão e aprendizado de políticas de investimento social desde a virada do milênio.


2 Provisão Pós-Industrial além da Redistribuição (pp. 21–25)

2.1 O núcleo normativo e programático da abordagem do investimento social [§4–§6]

O objetivo central da abordagem do investimento social (SIA — social investment approach) é ampliar as oportunidades e capacidades dos indivíduos para lidar com os riscos sociais típicos das sociedades pós-industriais. Destacando a perspectiva de gênero ao longo do curso de vida e a natureza multidimensional dos riscos sociais, a SIA foca na prevenção de desvantagens em pontos cruciais de transição entre etapas da vida (Kvist, 2016, pp. 51–56). Essa abordagem é melhor compreendida como resposta política à expansão gradual do emprego feminino no último quarto do século XX e ao aumento da instabilidade conjugal, demandando provisão política mais sensível ao gênero, que enfatize o acesso igualitário ao emprego como pré-requisito de independência econômica feminina e bem-estar das crianças.

Enquanto a seguridade social do pós-guerra foi desenhada para proteger trabalhadores (predominantemente homens) e suas famílias nucleares contra contingências de mercado, a SIA toma o nexo trabalho-família contemporâneo como eixo central de suas políticas capacitantes. Há forte ênfase em complementar a proteção social tradicional com políticas de capacitação via: educação e cuidado na primeira infância (ECEC — Early Childhood Education and Care), formação profissional ao longo da vida, políticas ativas de mercado de trabalho capacitantes (ALMP — Active Labour-Market Policies), políticas de equilíbrio trabalho-família (WLB — Work-Life Balance) como licença parental remunerada, aprendizagem ao longo da vida (LLL — Lifelong Learning) e cuidado de longa duração (LTC — Long-Term Care). Os autores enfatizam que essas políticas capacitantes vão além, mas não substituem, a lógica compensatória da seguridade social do pós-guerra.

O terceiro parágrafo desta seção trata da dimensão de equidade social. A SIA representa um deslocamento normativo relevante: enquanto o objetivo central do estado de bem-estar do pós-guerra era a “liberdade da necessidade” (freedom from want), a orientação normativa da SIA é mais consistente com a ênfase de Amartya Sen e Martha Nussbaum no “florescimento humano” (human flourishing) (Sen, 1999; Nussbaum & Sen, 1993). O que importa é que os cidadãos sejam dotados de “capacidades” (capabilities) seguras para participar da economia e da sociedade, sustentando a “liberdade de agir” ao longo do curso de vida.

2.2 As três solidariedades e os limites do modelo clássico [§7–§9]

Nicholas Barr (2020) distingue dois princípios de solidariedade subjacentes ao estado de bem-estar moderno: a solidariedade Robin Hood — alívio da pobreza mediante redistribuição de renda e riqueza — e a solidariedade cofre de porquinho (piggy bank) — seguro social ao longo do curso de vida baseado em contribuições e rendimentos. A maioria dos sistemas europeus opera sobre um híbrido dessas duas lógicas, que constitui o “cimento indispensável” do estado de bem-estar (Hemerijck, 2013). Contudo, diante da ascensão das economias de conhecimento pós-industriais e do envelhecimento das sociedades, a provisão clássica de seguridade social revela seus limites para enfrentar novos riscos sociais: emprego atípico crescente, mudanças súbitas de carreira, pobreza no trabalho e obrigações de cuidado familiar que limitam oportunidades de emprego.

Diante desse quadro, os autores propõem complementar as solidariedades de Barr com um terceiro tipo — a solidariedade de trampolim (stepping-stone solidarity) —, concebida como o fundamento normativo da SIA. Essa solidariedade é orientada a romper o agrupamento de desvantagens por meio de intervenções que capacitem indivíduos e famílias a responder à natureza mutante dos riscos sociais, assegurando seu bem-estar e igual posição social ao longo do tempo. A metáfora do trampolim opera em duas dimensões: horizontalmente, imagina-se pedras para atravessar um riacho, representando políticas direcionadas a facilitar transições no curso de vida e no mercado de trabalho; verticalmente, imagina-se degraus em uma subida, ou seja, meios para melhorar as condições materiais (Bagadirov et al., 2025).

A obra coletiva Why We Need a New Welfare State de Esping-Andersen, Gallie, Hemerijck e Myles (2002) é caracterizada como a publicação fundacional do investimento social, conclamando a renovação do estado de bem-estar com vistas a fomentar resiliência ao longo do curso de vida familiar, com a erradicação da pobreza infantil como prioridade. Mercados de trabalho mais flexíveis, mudança tecnológica enviesada por habilidades, maiores taxas de divórcio e monoparentalidade tornam o acesso igualitário ao emprego para as mulheres pré-requisito de independência econômica. Na ausência de suporte externo para cuidado de crianças e idosos, o número crescente de trabalhadoras enfrenta “carreiras interrompidas” e maternidade postergada, resultando em menor fecundidade e, assim, agravando a carga do envelhecimento em pensões e saúde (Esping-Andersen, 2009).

2.3 O multiplicador de curso de vida e o tripé stocks-flows-buffers [§10–§12]

A partir de Why We Need a New Welfare State, Anton Hemerijck desenvolveu uma heurística conceitual de política de investimento social em torno de três funções de bem-estar: (1) fomentar o desenvolvimento de capital humano ao longo da vida (stock); (2) facilitar o fluxo (flow) das transições familiares e de mercado de trabalho ao longo do curso de vida; e (3) manter buffers inclusivos de proteção social em tempos de necessidade (Hemerijck, 2017). Em um sentido ideal-típico, stocks de capital humano ao longo da vida, flows com equilíbrio trabalho-família e buffers inclusivos de renda operam como complementaridades institucionais, gerando sinergias positivas de curso de vida tanto no nível micro de indivíduos e domicílios quanto no nível macro da economia agregada em termos de emprego, produtividade e equilíbrio fiscal. Dessa base é possível conjecturar um “multiplicador de curso de vida” do investimento social, pelo qual os retornos colhidos ao longo do tempo geram um ciclo virtuoso de bem-estar.

O ciclo virtuoso parte de investimentos em ECEC de qualidade, que alavancam a melhoria do desempenho educacional, que, junto ao apoio em formação profissional, se traduz em emprego mais alto e produtivo na vida adulta. Quando a participação no emprego é sustentada por provisões de equilíbrio trabalho-família — incluindo creches financiadas e amplamente acessíveis —, podem-se antecipar maiores níveis de emprego feminino e menores lacunas de gênero. Melhores oportunidades para que mulheres e homens combinem parentalidade com trabalho remunerado também pode reduzir o “gap de fecundidade” (diferença entre o número desejado de filhos e a taxa efetiva de fecundidade). Um retorno final diz respeito a carreiras mais longas e uma idade efetiva de aposentadoria mais tardia, sustentadas por políticas de envelhecimento ativo e aprendizagem ao longo da vida.

Os autores reconhecem que, na prática, políticas de stock, flow e buffer nunca estão perfeitamente alinhadas. Podem ocorrer incongruências: por exemplo, quando buffers geram desincentivos financeiros ao flow da busca por emprego — licença maternidade longa pode facilmente minar a equidade de gênero no mercado de trabalho. Da mesma forma, requisitos punitivos de workfare podem frustrar a alocação satisfatória no mercado de trabalho e provocar depleção de capital humano.

2.4 Críticas à SIA e a questão dos efeitos Mateus [§13–§15]

O investimento social não está isento de críticas. Brian Nolan (2013), em artigo amplamente citado, questiona as promessas da SIA, especialmente quanto à imagem de políticas “ativas” superiores à provisão “passiva” de seguridade social. A crítica mais perniciosa é que as políticas de investimento social estariam assoladas por uma série de “efeitos Mateus” — em alusão ao Evangelho de São Mateus (“Ao que tem, será dado”). Bea Cantillon e Wim Van Lancker afirmam que investimentos sociais na forma de ECEC e ALMP beneficiam desproporcionalmente domicílios de classe média em detrimento dos grupos mais vulneráveis (Cantillon, 2011; Cantillon & Van Lancker, 2013). Contudo, os autores observam que essas conclusões derivam de medidas de pobreza relativas à renda mediana anual; quando se utiliza um limiar fixo (que não muda ao longo do tempo), maior emprego e redução da pobreza caminham juntos (Gábos et al., 2024).

Os autores registram que esse debate sobre o efeito Mateus está longe de resolvido: defensores da SIA concentram-se no crescimento do emprego e na sustentabilidade fiscal, enquanto os críticos dirigem sua atenção principalmente às (decepcionantes) tendências de pobreza de renda. O dilema do efeito Mateus é, fundamentalmente, uma questão empírica de desempenho do estado de bem-estar.

A resposta substantiva dos autores à crítica é que ela repousa na ideia equivocada de que o investimento social substitui, em vez de complementar, outras políticas sociais. A SIA assenta-se numa estratégia de política de longo prazo que alinha complementaridades políticas para gerar resultados de soma positiva (Fernandes & Hemerijck, forthcoming). Seguridade social convencional e o novo marco de intervenção-investimento de estilo nórdico fazem parte integrante da intenção abrangente do investimento social. O investimento ex ante de longo prazo possibilita que mais pessoas assegurem melhores posições no mercado de trabalho, reduzindo a dependência de políticas ex post, ao mesmo tempo que amplia a receita fiscal proveniente de uma força de trabalho maior e mais produtiva.


3 O Impacto da Provisão de Bem-Estar de Investimento Social no Nível Macro (pp. 24–39)

3.1 Dois quadros teóricos sobre bem-estar e desempenho econômico [§16–§19]

Na literatura acadêmica, distinguem-se duas inferências teóricas sobre a relação entre esforço de bem-estar, desempenho socioeconômico e chances de vida. A primeira apoia-se na ideia de uma relação negativa entre provisão de bem-estar e desempenho econômico. Em meados dos anos 1970, o economista americano Arthur Okun formulou o intuitivo “grande trade-off” entre equidade e eficiência (Okun, 1975): na medida em que estados de bem-estar generosos são exercidos como estratégia política para reduzir desigualdade e pobreza, Okun presumia que isso inevitavelmente prejudica o crescimento econômico, gerando distorções de renda e mercado de trabalho. Altos níveis de gastos sociais levariam a menor oferta de trabalho, maior desemprego, menos investimento em formação e educação e, consequentemente, estagnação da competitividade.

No final dos anos 1990, os economistas políticos Torben Iversen e Anne Wren argumentaram que os estados de bem-estar avançados não se deparavam tanto com um inevitável trade-off entre igualdade e eficiência, mas sim com a tragédia do “trilema da economia de serviços sociais” (Iversen & Wren, 1998): com a transição de uma economia industrial para uma de serviços, tornou-se inerentemente mais difícil para os estados de bem-estar atingir simultaneamente as três metas de restrição orçamentária, igualdade de salários e crescimento do emprego. Em sua obra sobre desigualdade, Thomas Piketty (2014, 2020) lamenta a ignorância do estado de bem-estar em relação às relações de propriedade e à riqueza, resultando em má alocação perversa de políticas de bem-estar, semelhante à crítica do efeito Mateus de Cantillon e Van Lancker (2013).

A segunda linha teórica baseia-se na SIA, que considera sinergias positivas entre esforço de política social, desempenho econômico e resultados socioeconômicos (Esping-Andersen, 1999; Esping-Andersen et al., 2002; Hemerijck, 2013, 2014, 2017). Segundo esse raciocínio, estados de bem-estar orientados ao investimento social permitem transições graduais dentro e fora do emprego; melhores condições para jovens receberem educação e formação e constituírem família; e maiores oportunidades para trabalhadores mais velhos permanecerem na força de trabalho. Consequentemente, a provisão de bem-estar de investimento social potencialmente contribui para maiores taxas de emprego, menores níveis de pobreza e orçamentos públicos mais equilibrados em sociedades envelhecidas e economias de conhecimento.

Mais de meio século de pesquisa comparativa extensiva sobre o estado de bem-estar por economistas, sociólogos e cientistas políticos invalidou efetivamente a conjectura do trade-off equidade-eficiência. Nas economias avançadas da UE, altos níveis de gastos sociais andam de mãos dadas com a prosperidade econômica, sugerindo que o estado de bem-estar desempenha papéis corretivos e complementares eficazes nas economias de mercado ricas (Lindert, 2004; Kenworthy, 1999, 2008, 2019; Hemerijck, 2013; Iversen & Soskice, 2020; Lindert, 2021; Hemerijck & Matsaganis, 2024).

3.2 Evidência macro: gastos sociais, PIB e competitividade [§20–§21]

Em clara defiance do trade-off de Okun entre equidade e eficiência, os maiores gastadores de bem-estar da Europa de hoje provam o contrário, sendo os melhores desempenhos em termos de PIB per capita e competitividade. As Figuras 3.1 e 3.2 mostram que prosperidade e crescimento econômico claramente não são obstados por provisão generosa de bem-estar; ao contrário, há evidências de que ambos andam juntos. Países que destinam maior proporção de seu orçamento a provisões de seguridade social são mais ricos e mais competitivos. De forma similar, em desafio à crítica do efeito Mateus à SIA, as Figuras 3.3 e 3.4 correlacionam PIB per capita e competitividade econômica com taxas de risco de pobreza, revelando que os estados de bem-estar mais competitivos são mais capazes de manter níveis adequados de equidade.

Não obstante, há também estados de bem-estar da UE de alto gasto que, apesar de generosidade elevada, não alcançam crescimento econômico estável, altos níveis de emprego e orçamentos públicos saudáveis. Esse achado incongruente exige tomar a sério os detalhes mais finos do desenho de políticas e suas estruturas políticas de suporte circundantes como variáveis intervenientes entre o esforço de política de bem-estar e os resultados socioeconômicos. Para tanto, os autores remetem de volta à lógica do multiplicador de curso de vida: no nível micro, o multiplicador sugere como investimentos sociais — desde a primeira infância — melhoram o bem-estar material dos domicílios e ajudam a mitigar riscos sociais posteriormente na vida; no nível macro, sugere uma variedade de benefícios sociais, desde melhoria de produtividade e maior emprego até menor pobreza e aposentadoria mais tardia.

3.3 Educação e cuidado na primeira infância (ECEC) [§22–§26]

Da perspectiva do investimento social, a educação e o cuidado na primeira infância (ECEC) desempenha papel crítico na fase inicial do curso de vida familiar por três razões. Do ponto de vista dos pais, o acesso a serviços de creche acessíveis e de qualidade melhora as oportunidades de emprego parental, permitindo-lhes sustentar o emprego e reduzir interrupções, reforçando progressão de carreira mais estável e com equilíbrio de gênero (Bonoli, 2013; Hemerijck et al., 2016). Gênero desempenha papel crítico nessa fase, pois ter filhos penaliza geralmente as mulheres em termos de participação no mercado de trabalho — as mulheres, portanto, têm mais a ganhar com os serviços de creche. De fato, evidências macro de estados de bem-estar maduros mostram correlação positiva e significativa entre participação em serviços de creche e horas semanais de trabalho das mulheres (Figura 3.5). A expansão dos serviços de creche nas últimas duas décadas foi acompanhada por um aumento acentuado na participação feminina no emprego (Esping-Andersen & Billari, 2015). Ainda assim, persistem diferenças de gênero no emprego e na lacuna salarial, especialmente após o nascimento dos filhos.

Do ponto de vista das crianças, o investimento em cuidado infantil é esperado para reduzir taxas de pobreza infantil (Bonoli, 2013; Finch & Bradshaw, 2021): ao possibilitar que os pais permaneçam no emprego, a provisão de creche indiretamente estabiliza a renda familiar, mitigando o risco de pobreza (Hufkens et al., 2020). Os autores reconhecem que a evidência aqui é menos conclusiva, pois não encontram associação clara entre participação em creche e taxas de pobreza infantil (Figura 3.6), possivelmente porque medem o impacto direto sem considerar como o ECEC interage com outras políticas. A literatura existente mostra que políticas passivas combinadas com ECEC tendem a ser mais eficazes na redução de riscos de pobreza do que isoladamente — esse padrão se mantém mesmo para grupos mais economicamente vulneráveis, em que ECEC generoso combinado com suporte de renda leva à menor probabilidade de cair na pobreza (Hemerijck et al., 2024).

No longo prazo, o desenvolvimento na primeira infância também se traduz em oportunidades de emprego mais produtivas por meio do desenvolvimento de stock de capital humano, fomentando motivação mais forte e maiores níveis de produtividade no mercado de trabalho de entrada (OCDE, 2023; Esping-Andersen, 2015; Nelson & Stephens, 2012). Ao equipar crianças com habilidades sociais essenciais, o ECEC potencialmente reduz a necessidade de buffers mais tarde na vida. James Heckman argumenta que os retornos globais do ECEC superam em muito quaisquer retornos de provisões de investimento social posteriores na vida, tanto em termos de ganhos imediatos de emprego feminino quanto de ganhos de capital humano de longo prazo, particularmente para crianças socioeconomicamente desfavorecidas (Heckman, 2006; Burger, 2010; Hanushek et al., 2003).

3.4 Investimentos em educação [§27–§29]

A fase seguinte no modelo do multiplicador de curso de vida centra-se na qualidade da educação. Para jovens adultos de 18 a 25 anos, a transição para o trabalho adulto é mais longa devido à educação terciária prolongada e à alternância entre formação e emprego. Em economias pós-industriais, onde os resultados socioeconômicos estão crescentemente ligados a educação e habilidades, ter um sistema educacional sólido que prepare os jovens para o mercado de trabalho é muito importante. A evidência existente sugere que educação de qualidade inclusiva e formação profissional melhoram as competências profissionais dos jovens indivíduos, facilitando uma transição mais suave da escola para o primeiro emprego (OCDE, 2023). A Figura 3.7 compara as habilidades numéricas de jovens adultos — um proxy para qualidade da educação — com taxas de emprego nos primeiros três anos após a conclusão dos estudos; a correlação positiva sugere que países que investem em educação de qualidade também apoiam transições mais suaves para o emprego para jovens adultos.

Educação de alta qualidade e formação profissional fortalecem ainda mais as habilidades dos jovens, ajudando-os a avançar da escola para o trabalho (OCDE, 2023). Isso é importante para evitar externalidades negativas dessas transições — como desajustes entre emprego e educação ou desemprego juvenil. Essas questões são mais pronunciadas em países onde o investimento em educação fica para trás e o acesso à boa educação é mais desigual (Plavgo, 2023). Em contraste, sistemas eficazes funcionam como elevadores sociais, em que a educação está ligada a maiores taxas de emprego, maior produtividade no início da carreira, menor pobreza e transições menos precárias no mercado de trabalho (Nelson & Stephens, 2012).

3.5 Políticas ativas de mercado de trabalho (ALMP) [§30–§34]

As políticas ativas de mercado de trabalho (ALMPs) desempenham papel crucial na criação e mobilização de capital humano entre a população em idade ativa (Garritzmann, 2021). Para o desenvolvimento de capital humano, a formação profissional é a medida mais eficaz para aumentar a participação econômica (Kluve, 2010; Ko & Bae, 2020; Bakker & van Vliet, 2022) e reduzir a pobreza (Taylor-Gooby et al., 2015). No entanto, esses efeitos positivos são mais fortes no médio e longo prazo (Card et al., 2010; Vooren et al., 2019). A eficácia desses programas tende geralmente a ser menor entre os grupos mais desfavorecidos — conundrum referido na literatura como efeito Mateus (Gal, 1998; Cantillon, 2011; Bonoli et al., 2017). Os resultados para populações vulneráveis dependem fortemente do desenho, implementação e da disponibilidade de proteção social generosa (Bonoli, 2020).

Quanto à mobilização de capital humano, os impactos de política são mais visíveis no curto prazo. A assistência à procura de emprego tem efeitos positivos de curto prazo ao ajudar indivíduos a reentrar no mercado de trabalho (Card et al., 2018), embora também possa prolongar a pobreza no trabalho (Taylor-Gooby et al., 2015). Esses programas são mais eficazes na promoção do emprego quando combinados com formação de competências e componentes motivacionais (Liu et al., 2014; Card et al., 2018). As Figuras 3.8 e 3.9 apresentam evidências de correlação entre investimento em programas de educação e formação e, respectivamente, redução das taxas de pobreza no trabalho e menores níveis de desemprego de longa duração. Países que alocam investimentos substanciais nessas políticas exibem consistentemente as menores taxas de desemprego em ambas as métricas.

As ALMPs também fortalecem o dinamismo do mercado de trabalho: embora possam não reduzir diretamente os níveis de desemprego, facilitam transições rápidas de retorno ao emprego. As políticas ativas de mercado de trabalho, ao enfatizarem a aprendizagem ao longo da vida, tornam o mercado de trabalho mais adaptável às mudanças tecnológicas. Do ponto de vista macroeconômico, essa adaptabilidade se mostra vantajosa para mercados de trabalho que experienciam mudanças rápidas nas estruturas ocupacionais, levando a maior participação no mercado de trabalho e, consequentemente, maior produtividade econômica.

3.6 Investimentos em envelhecimento ativo [§35–§38]

Nas fases conclusivas do curso de vida, a ênfase de política se desloca para o cuidado de longa duração com o objetivo primário de promover o envelhecimento ativo. Três políticas específicas são críticas: primeiro, o acesso à formação profissional nas fases posteriores da vida laboral, promovendo emprego sustentado e aprimorando a produtividade mediante atualização contínua de habilidades; segundo, opções de aposentadoria flexível, prolongando o emprego ao oferecer variedade de rotas de aposentadoria; e terceiro, provisões de cuidado de longa duração, reduzindo a necessidade de membros da família — predominantemente mulheres — sairem prematuramente do mercado de trabalho por responsabilidades de cuidado (Esping-Andersen, 2016).

Em termos relativos, os investimentos sociais mais tardios na vida são menos eficazes do que os investimentos precoces em jovens. Contudo, os retornos ainda são positivos e dignos de nota. A evidência macro mostra que países com maior participação em programas de formação têm maiores taxas de emprego entre trabalhadores mais velhos (Figura 3.10). Igualmente, uma correlação positiva é encontrada entre o acesso ao cuidado de longa duração formal e a taxa de emprego das mulheres, sugerindo que a disponibilidade de serviços de cuidado reduz o efeito negativo das responsabilidades de cuidado sobre o emprego feminino (Figura 3.11).

Países escandinavos — Dinamarca, Suécia e Finlândia — são os melhores desempenhos tanto em provisão de cuidado de longa duração quanto em taxas de emprego feminino. No entanto, países do sul da Europa — Grécia, Espanha e Itália — apresentam baixa provisão de cuidado de longa duração e baixas taxas de emprego feminino. Esse padrão é consistente com a ideia de que a provisão de cuidado de longa duração tem um duplo dividendo: possibilita que os receptores de cuidado permaneçam no trabalho por mais tempo e, ao mesmo tempo, libera os cuidadores informais — predominantemente mulheres — para buscar ou manter o emprego.

3.7 Síntese macro: dividendo econômico e tipologia de estados de bem-estar [§39–§43]

A análise macro apoia amplamente as sinergias positivas previstas pela lógica do multiplicador de curso de vida. Em suma, os resultados macro apresentados confirmam que os estados de bem-estar investidores são mais produtivos, exibem maiores taxas de emprego, menores lacunas de gênero, menores taxas de pobreza e orçamentos públicos mais equilibrados. Esses estados de bem-estar são, simultaneamente, mais prósperos e mais igualitários, em claro desafio à conjectura do trade-off equidade-eficiência.

Os autores apresentam uma tipologia de quatro grupos de estados de bem-estar da UE com base em seu desempenho em seis indicadores de resultados socioeconômicos (taxa de emprego, taxa de emprego feminino, taxa de pobreza no trabalho, taxa de desemprego de longa duração, taxa de pobreza infantil e saldo fiscal) e seu nível de gastos sociais: (1) investidores de alto desempenho (Nordic and Benelux: Dinamarca, Suécia, Finlândia, Países Baixos, Bélgica, Áustria, Alemanha, Luxemburgo); (2) investidores de desempenho médio (Continental: França, Irlanda); (3) não-investidores de baixo desempenho (Southern Europe: Espanha, Portugal, Itália, Grécia); e (4) gastadores de alto desempenho mas não investidores — estados que gastam muito mas não investem estrategicamente. Tabela 3.1 sintetiza esses resultados.

NoteTipologia de estados de bem-estar por desempenho em investimento social
Grupo Países Característica central
Alto desempenho investidor DK, SE, FI, NL, BE, AT, DE, LU Alto gasto + bom desempenho socioeconômico em todas as dimensões
Desempenho médio investidor FR, IE Gasto moderado-alto + desempenho razoável
Baixo desempenho não-investidor ES, PT, IT, EL Gasto crescente sem retornos equivalentes de investimento
Alto gasto sem investimento estratégico Alto gasto mas design inadequado das políticas

4 Os Determinantes Políticos da Reforma do Investimento Social (pp. 39–42)

4.1 Partidos, eleitorados e a nova política do bem-estar [§44–§47]

A seção 4 analisa os determinantes políticos da reforma do investimento social, questionando por que alguns países avançaram mais do que outros nessa agenda. Os autores identificam que a nova política do bem-estar (new politics of the welfare state) difere fundamentalmente da velha política: enquanto as reformas clássicas de bem-estar eram ancoradas em coalizões de trabalhadores industriais e sindicatos, as reformas de investimento social apelam a novas coalizões de eleitores de serviços profissionais e trabalhadores altamente qualificados (Garritzmann et al., 2022; Häusermann, 2010). Partidos de centro-esquerda e trabalhistas, tradicionais defensores do estado de bem-estar, têm gradualmente incorporado a agenda do investimento social, mas frequentemente enfrentam tensões entre os interesses de seus antigos eleitorados industriais e as demandas dos novos eleitores pós-industriais.

A composição do eleitorado e a estrutura de clivagem política importam para explicar a variação na extensão e no ritmo da reforma do investimento social. Países com forte participação feminina no mercado de trabalho, setores de serviços altamente qualificados dominantes e sistemas de partido com competição mais centrista tendem a avançar mais na agenda do investimento social. Em contraste, países onde partidos de centrodireita com eleitorados de orientação mais familialista dominam tendem a reformar mais lentamente e de forma mais seletiva. O peso dos sindicatos também importa: onde os sindicatos são fortes e abrangem trabalhadores de serviços qualificados, eles frequentemente apoiam as reformas do investimento social; onde os sindicatos representam principalmente trabalhadores industriais de colarinho azul, podem resistir a reorientações do gasto de bem-estar.

4.2 Legados institucionais e path dependence [§48–§50]

Os legados institucionais dos regimes de bem-estar (Esping-Andersen, 1990) moldam o espaço de possibilidade para a reforma do investimento social. Estados de bem-estar conservadores continentais herdaram sistemas de seguro social baseados em contribuições e fortemente familialistas, criando dependências de trajetória (path dependence) que dificultam a reorientação para serviços de capacitação. Estados de bem-estar social-democratas nórdicos, em contraste, já dispunham de fortes serviços públicos universais e alta participação feminina no mercado de trabalho, facilitando a transição para o paradigma do investimento social. Estados de bem-estar liberais, embora potencialmente abertos à ativação, frequentemente carecem da base de serviços públicos necessária para o investimento social genuíno.

Os autores reconhecem que o argumento de path dependence tem limites: países como a Alemanha e a Holanda, originalmente classificados como conservadores-corporativistas, realizaram reformas substanciais de investimento social nos anos 2000 e 2010. Isso sugere que as janelas de oportunidade política — crises econômicas, mudanças eleitorais, pressões da UE — podem proporcionar as condições para superar as inercias institucionais. A trajetória de reforma, portanto, é moldada tanto pelos legados institucionais quanto pelos contextos políticos conjunturais.


5 O Papel da UE na Promoção do Investimento Social (pp. 42–47)

5.1 Da política social produtiva ao pilar europeu [§51–§54]

A seção final aborda o papel da União Europeia na promoção da agenda do investimento social. Os autores traçam a evolução desde a noção de “política social como fator produtivo”, endossada pela UE no final dos anos 1990, até o mais elaborado marco de “crescimento inclusivo e sustentável” incorporado na Estratégia Europa 2020 e, posteriormente, no Pilar Europeu dos Direitos Sociais (PEDS) de 2017. Esse percurso reflete uma aprendizagem política gradual, em que as instituições europeias foram progressivamente reconhecendo que a sustentabilidade econômica e a coesão social são complementares, não rivais.

O Pacote de Investimento Social da Comissão Europeia de 2013 marcou um ponto de inflexão importante, ao fornecer orientação explícita aos estados-membros para reorientar seus gastos de bem-estar em direção ao investimento social, equilibrando os imperativos de austeridade fiscal com a necessidade de proteger investimentos em capital humano (European Commission, 2013). Mais recentemente, a Estratégia de Competitividade da Comissão Europeia (2023) e o relatório Draghi aprofundaram esse quadro, posicionando o investimento em habilidades, educação e cuidado como pré-condições para a competitividade europeia em um contexto de transição digital e verde.

5.2 NextGenerationEU e aprendizagem de política no contexto da pandemia [§55–§57]

A pandemia de COVID-19 e a resposta política de NextGenerationEU constituem, para os autores, um momento transformador para a agenda do investimento social europeu. O Recovery and Resilience Facility (RRF) operacionalizou, em escala sem precedentes, o princípio de solidariedade europeia em apoio ao investimento em capital humano, transição digital e transição climática. Os estados-membros foram encorajados a alocar recursos para educação, formação, saúde e medidas de apoio à família, reforçando a lógica do investimento social.

Os autores reconhecem, no entanto, que a eficácia do RRF em promover a reforma do investimento social depende amplamente da capacidade administrativa dos estados-membros de desenhar e implementar programas de qualidade, bem como dos incentivos políticos para fazê-lo. Há riscos de que os recursos sejam utilizados de maneira procíclica ou para financiar gastos de consumo corrente, em vez de investimentos estruturais de longo prazo. A aprendizagem política europeia é, portanto, um processo gradual, desigual e contingente, moldado tanto por pressões supranacionais quanto por capacidades e incentivos domésticos.


6 Argumento Sintético

NoteSíntese do argumento central

Tese central: A provisão de bem-estar orientada ao investimento social gera um “dividendo econômico” positivo — em termos de maior emprego, produtividade, equidade de gênero, sustentabilidade fiscal e redução da pobreza —, desde que as políticas de stock, flow e buffer sejam desenhadas de maneira complementar ao longo do curso de vida, refutando empiricamente o trade-off clássico entre equidade e eficiência.

Natureza do argumento: O argumento é predominantemente descritivo-correlacional com elementos causais invocados via teoria do multiplicador de curso de vida. Os autores não realizam inferência causal formal (sem controles, instrumentos ou quase-experimentos), mas sustentam sua tese combinando teoria de médio alcance com correlações macro baseadas em dados do Eurostat para estados de bem-estar maduros da UE.

O que o texto demonstra: (a) A correlação positiva entre gastos sociais e PIB per capita, competitividade e equidade — em desafio ao trade-off de Okun; (b) correlações específicas de políticas (ECEC e emprego feminino, ALMP e desemprego de longa duração, cuidado de longa duração e emprego feminino, PISA e emprego juvenil); (c) a lógica teórica do multiplicador de curso de vida como mecanismo explicativo das complementaridades institucionais.

O que fica como hipótese ou agenda: A microfundamentação causal do multiplicador de curso de vida permanece largamente hipotética neste capítulo; o texto reconhece a necessidade de investigação empírica mais refinada que leve em conta complementaridades interativas entre políticas, efeitos distributivos diferenciais e variação no desenho institucional.

Contribuição para o debate: O capítulo contribui para o debate sobre a compatibilidade entre estado de bem-estar e desempenho econômico, oferecendo síntese teórica atualizada e evidência macro sistemática a favor da abordagem do investimento social; ao mesmo tempo, dialoga com os críticos dos efeitos Mateus (Cantillon, Van Lancker, Nolan) e com o debate europeu mais amplo sobre reforma do estado de bem-estar pós-pandemia.


Ficha Analítica Crítica

Note

Esta seção segue o formato IA Planilhando Textos v13.0.

Dimensão Raciocínio analítico Conteúdo
Questão de Pesquisa A questão não é explicitada como pergunta de pesquisa formal, mas pode ser reconstruída a partir dos objetivos declarados. A premissa central é que o investimento social gera dividendo econômico; a interpretação alternativa seria de que a causalidade reversa (países ricos investem mais socialmente) explica as correlações. O ponto mais vulnerável é a ausência de controle para endogeneidade. Pergunta reconstruída: Em que medida e por quais mecanismos a provisão de bem-estar orientada ao investimento social gera retornos econômicos positivos (dividendo econômico) nos estados de bem-estar maduros da UE? Natureza: descritivo-avaliativa, com pretensão causal via mecanismo teórico.
Questões Secundárias As questões secundárias emergem da estrutura do capítulo e têm relação instrumental com a questão central: cada uma testa um elo do multiplicador de curso de vida. A fragmentação em questões de política específica é coerente com a estratégia de triangulação macro por política. (1) Qual é o impacto do ECEC sobre o emprego feminino e a pobreza infantil? (2) Como a qualidade da educação afeta transições escola-trabalho? (3) Qual a eficácia das ALMPs no desemprego de longa duração e na pobreza no trabalho? (4) Como o cuidado de longa duração afeta o emprego feminino de meia-idade? (5) Quais são os determinantes políticos da reforma de investimento social? (6) Qual o papel da UE na agenda do investimento social?
Puzzle-Type O puzzle combina um gap descritivo (falta de síntese macro sistemática do dividendo do investimento social) com um debate normativo (SIA versus críticos dos efeitos Mateus e do trade-off equidade-eficiência). O puzzle é genuíno e generalizável para além do contexto europeu, embora as evidências se restrinjam a estados de bem-estar maduros da UE. Puzzle híbrido: debate normativo-empírico sobre se o investimento social produz sinergias positivas ou compromete redistribuição; e gap descritivo sobre quais dimensões do multiplicador de curso de vida têm suporte empírico macro. O puzzle é generalizável para economias de conhecimento em geral, mas com limitações de transferibilidade para países em desenvolvimento.
Conclusão / Argumento Central Os autores sustentam que a evidência macro invalida o trade-off de Okun. O claim of discovery é a demonstração empírica sistemática do dividendo econômico via correlações Eurostat, articulada com a teoria do multiplicador. O risco de superestimação do claim está na limitação correlacional do design. Tese: estados de bem-estar orientados ao investimento social produzem dividendos econômicos positivos — maior emprego, competitividade, equidade e sustentabilidade fiscal — desde que políticas de stock, flow e buffer sejam complementares. Argumento descritivo-causal de médio alcance; o claim de descoberta é parcialmente sustentado por correlações macro, com mecanismos causais invocados teoricamente mas não identificados empiricamente.
Métodos O design correlacional é adequado para um capítulo de livro de síntese, mas insuficiente para estabelecer causalidade. A ausência de controles multivariados é a principal limitação de mensuração. Para um trabalho teórico-normativo de síntese, a estratégia argumentativa é apropriada. Estudo descritivo-correlacional baseado em dados de painel macro do Eurostat (médias 2000–2023 ou subperíodos). Estratégia argumentativa: triangulação entre teoria do multiplicador de curso de vida e correlações bivariadas sistemáticas para múltiplas dimensões de política social. Limitações: ausência de controles multivariados, potencial de causalidade reversa, correlações bivariadas não controladas por heterogeneidade dos países.
Data Generation Process (DGP) O DGP é transparente, mas limitado: correlações bivariadas agregadas no nível do país são vulneráveis a confundidores não observados e à hetereogeneidade composicional dos países. A unidade de análise é o estado de bem-estar nacional; o nível de agregação é macro; a inferência é descritivo-associativa. Fenômeno: relação entre provisão de bem-estar e desempenho socioeconômico. Observação: indicadores macro de Eurostat. Coleta: dados administrativos-estatísticos nacionais harmonizados pelo Eurostat. Operacionalização: gastos sociais como % do PIB; taxas de emprego, pobreza, competitividade, etc. Análise: correlações bivariadas com coeficientes de regressão simples. Inferência: associativa-descritiva. Unidade de análise: estados-membros maduros da UE. Nível: nacional-macro.
Achados e Contribuições Os achados são importantes como síntese sistemática de evidências macro. A distinção entre o que o design identifica com força (associação macro) e o que é especulativo (causalidade micro via multiplicador) é fundamental para avaliar a contribuição. Principais achados: (1) correlação positiva entre gasto social e PIB per capita/competitividade; (2) correlação negativa entre competitividade e pobreza; (3) ECEC positivamente correlacionado com emprego feminino; (4) PISA positivamente correlacionado com emprego juvenil pós-escolar; (5) ALMPs negativamente correlacionadas com desemprego de longa duração. Contribuições: síntese teórica atualizada da SIA; evidência macro triangulada; tipologia de estados de bem-estar por desempenho de investimento social; articulação entre debate acadêmico e agenda política europeia.
Análise Crítica dos Achados O design correlacional bivariado é inadequado para estabelecer o claim causal do multiplicador. A causalidade reversa é uma ameaça séria (países ricos gastam mais e têm melhor desempenho). A ausência de controles não permite isolar o efeito do investimento social de outros determinantes (qualidade institucional, capital social, abertura econômica). Os autores reconhecem parcialmente isso ao alertar sobre casos incongruentes. O argumento teórico é internamente coerente, mas o design empírico subespecifica a causalidade: (a) causalidade reversa não controlada (países ricos investem mais); (b) correlações bivariadas não controlam por heterogeneidade nacional; (c) o mecanismo do multiplicador é invocado teoricamente sem microfundamentação empírica neste capítulo; (d) a Figura 3.6 (ECEC e pobreza infantil sem correlação significativa) é tratada como exceção metodológica, não como evidência problemática para a tese. Generalizabilidade: limitada a estados de bem-estar maduros da UE; transferibilidade para países em desenvolvimento é problemática.
Limitações Os autores reconhecem a limitação correlacional explicitamente em alguns pontos, mas não a articulam de forma sistemática como limitação do capítulo. Há limitações não reconhecidas relevantes. Reconhecidas pelos autores: correlações bivariadas sem controle de complementaridades entre políticas; casos incongruentes de alto gasto sem bom desempenho; evidência menos conclusiva para pobreza infantil e ECEC.
Não reconhecidas ou subestimadas: (1) causalidade reversa não tratada; (2) ausência de controles multivariados sistematicamente discutida; (3) viés de seleção nos países analisados (apenas UE madura); (4) potencial de falácia ecológica nas inferências sobre indivíduos a partir de dados macro; (5) dependência de dados Eurostat com limitações de comparabilidade histórica; (6) a heterogeneidade interna dos grupos tipológicos é subestimada.
Perspectiva Teórica A moldura SIA é adequada ao tipo de pergunta e coerente com o método macro-comparativo. A ontologia implícita é funcionalista-institucionalista: instituições moldam incentivos e capacidades, gerando complementaridades. Há coerência entre ontologia e método, mas a moldura é normativa quanto às implicações de política, o que pode colorir a seleção e apresentação das evidências. Tradições teóricas: (1) social investment approach (Esping-Andersen, Hemerijck); (2) economia política comparada (Iversen, Soskice); (3) abordagem das capacidades (Sen, Nussbaum); (4) teoria do curso de vida (Kvist). Adequação: a moldura SIA é bem adequada à pergunta descritivo-normativa; menos adequada para identificação causal rigorosa. Coerência ontologia-método: razoável, dado o escopo de síntese do capítulo. Tensão: a orientação normativa pró-SIA pode enviesar a apresentação seletiva das evidências.
Principais Referências O diálogo com a literatura crítica (Cantillon, Van Lancker, Nolan) é presente mas assimétrico: os críticos são mencionados e respondidos de forma relativamente breve. O diálogo com a literatura de inferência causal sobre eficácia de políticas (Angrist, Imbens, Card) é ausente, o que é uma omissão relevante dado o claim causal. Centrais: Esping-Andersen (1990, 1999, 2002, 2009, 2015); Hemerijck (2013, 2017, 2023); Iversen & Wren (1998); Okun (1975); Cantillon & Van Lancker (2013); Heckman (2006); Lindert (2004); Kenworthy (1999, 2008, 2019); Card et al. (2010, 2018); Nelson & Stephens (2012). Diálogos ausentes ou subdesenvolvidos: literatura de avaliação de impacto de políticas sociais com identificação causal; literatura sobre economias de bem-estar emergentes e transferibilidade para o Sul Global; Piketty é mencionado brevemente mas não integrado.
Observações O capítulo é valioso como síntese de orientação para pesquisadores e policy-makers, mas a linha entre síntese descritiva e argumento causal é frequentemente tênue. Para pesquisadores de bem-estar em países em desenvolvimento (como o Brasil), a transferibilidade é limitada e deve ser tratada criticamente: os mecanismos do multiplicador podem operar de forma diferente em contextos de alta informalidade laboral, baixa capacidade administrativa e diferentes trajetórias de legado institucional. Vulnerabilidades adicionais: a tipologia de estados de bem-estar apresentada (Tabela 3.1) não é derivada de análise multivariada formal, o que limita sua robustez classificatória. A seção sobre determinantes políticos é mais descritiva e menos analítica do que as seções de política. Implicações para o leitor: o capítulo é um ponto de entrada excelente para a SIA, mas deve ser complementado com literatura de avaliação de impacto (Card et al., Kluve, Heckman) e com críticas distributivas mais robustas (Cantillon, Nolan) para uma leitura crítica equilibrada.