Hemerijck, A., & Fernandes, D. (2025). The economic dividend of social investment. In A. Hemerijck & D. Fernandes (Eds.), Beyond the Nordic welfare state (pp. 20–47). Edward Elgar Publishing.
Última atualização: 2026-04-21 Modelo: Perplexity — Claude Sonnet 4.6 Thinking Gerado em: 2026-04-21T21:17:00-03:00
Provisão Pós-Industrial além da Redistribuição (pp. 21–25)
O núcleo normativo e programático da abordagem do investimento social [§4–§6]
O objetivo central da abordagem do investimento social (SIA — social investment approach) é ampliar as oportunidades e capacidades dos indivíduos para lidar com os riscos sociais típicos das sociedades pós-industriais. Destacando a perspectiva de gênero ao longo do curso de vida e a natureza multidimensional dos riscos sociais, a SIA foca na prevenção de desvantagens em pontos cruciais de transição entre etapas da vida (Kvist, 2016, pp. 51–56). Essa abordagem é melhor compreendida como resposta política à expansão gradual do emprego feminino no último quarto do século XX e ao aumento da instabilidade conjugal, demandando provisão política mais sensível ao gênero, que enfatize o acesso igualitário ao emprego como pré-requisito de independência econômica feminina e bem-estar das crianças.
Enquanto a seguridade social do pós-guerra foi desenhada para proteger trabalhadores (predominantemente homens) e suas famílias nucleares contra contingências de mercado, a SIA toma o nexo trabalho-família contemporâneo como eixo central de suas políticas capacitantes. Há forte ênfase em complementar a proteção social tradicional com políticas de capacitação via: educação e cuidado na primeira infância (ECEC — Early Childhood Education and Care), formação profissional ao longo da vida, políticas ativas de mercado de trabalho capacitantes (ALMP — Active Labour-Market Policies), políticas de equilíbrio trabalho-família (WLB — Work-Life Balance) como licença parental remunerada, aprendizagem ao longo da vida (LLL — Lifelong Learning) e cuidado de longa duração (LTC — Long-Term Care). Os autores enfatizam que essas políticas capacitantes vão além, mas não substituem, a lógica compensatória da seguridade social do pós-guerra.
O terceiro parágrafo desta seção trata da dimensão de equidade social. A SIA representa um deslocamento normativo relevante: enquanto o objetivo central do estado de bem-estar do pós-guerra era a “liberdade da necessidade” (freedom from want), a orientação normativa da SIA é mais consistente com a ênfase de Amartya Sen e Martha Nussbaum no “florescimento humano” (human flourishing) (Sen, 1999; Nussbaum & Sen, 1993). O que importa é que os cidadãos sejam dotados de “capacidades” (capabilities) seguras para participar da economia e da sociedade, sustentando a “liberdade de agir” ao longo do curso de vida.
As três solidariedades e os limites do modelo clássico [§7–§9]
Nicholas Barr (2020) distingue dois princípios de solidariedade subjacentes ao estado de bem-estar moderno: a solidariedade Robin Hood — alívio da pobreza mediante redistribuição de renda e riqueza — e a solidariedade cofre de porquinho (piggy bank) — seguro social ao longo do curso de vida baseado em contribuições e rendimentos. A maioria dos sistemas europeus opera sobre um híbrido dessas duas lógicas, que constitui o “cimento indispensável” do estado de bem-estar (Hemerijck, 2013). Contudo, diante da ascensão das economias de conhecimento pós-industriais e do envelhecimento das sociedades, a provisão clássica de seguridade social revela seus limites para enfrentar novos riscos sociais: emprego atípico crescente, mudanças súbitas de carreira, pobreza no trabalho e obrigações de cuidado familiar que limitam oportunidades de emprego.
Diante desse quadro, os autores propõem complementar as solidariedades de Barr com um terceiro tipo — a solidariedade de trampolim (stepping-stone solidarity) —, concebida como o fundamento normativo da SIA. Essa solidariedade é orientada a romper o agrupamento de desvantagens por meio de intervenções que capacitem indivíduos e famílias a responder à natureza mutante dos riscos sociais, assegurando seu bem-estar e igual posição social ao longo do tempo. A metáfora do trampolim opera em duas dimensões: horizontalmente, imagina-se pedras para atravessar um riacho, representando políticas direcionadas a facilitar transições no curso de vida e no mercado de trabalho; verticalmente, imagina-se degraus em uma subida, ou seja, meios para melhorar as condições materiais (Bagadirov et al., 2025).
A obra coletiva Why We Need a New Welfare State de Esping-Andersen, Gallie, Hemerijck e Myles (2002) é caracterizada como a publicação fundacional do investimento social, conclamando a renovação do estado de bem-estar com vistas a fomentar resiliência ao longo do curso de vida familiar, com a erradicação da pobreza infantil como prioridade. Mercados de trabalho mais flexíveis, mudança tecnológica enviesada por habilidades, maiores taxas de divórcio e monoparentalidade tornam o acesso igualitário ao emprego para as mulheres pré-requisito de independência econômica. Na ausência de suporte externo para cuidado de crianças e idosos, o número crescente de trabalhadoras enfrenta “carreiras interrompidas” e maternidade postergada, resultando em menor fecundidade e, assim, agravando a carga do envelhecimento em pensões e saúde (Esping-Andersen, 2009).
O multiplicador de curso de vida e o tripé stocks-flows-buffers [§10–§12]
A partir de Why We Need a New Welfare State, Anton Hemerijck desenvolveu uma heurística conceitual de política de investimento social em torno de três funções de bem-estar: (1) fomentar o desenvolvimento de capital humano ao longo da vida (stock); (2) facilitar o fluxo (flow) das transições familiares e de mercado de trabalho ao longo do curso de vida; e (3) manter buffers inclusivos de proteção social em tempos de necessidade (Hemerijck, 2017). Em um sentido ideal-típico, stocks de capital humano ao longo da vida, flows com equilíbrio trabalho-família e buffers inclusivos de renda operam como complementaridades institucionais, gerando sinergias positivas de curso de vida tanto no nível micro de indivíduos e domicílios quanto no nível macro da economia agregada em termos de emprego, produtividade e equilíbrio fiscal. Dessa base é possível conjecturar um “multiplicador de curso de vida” do investimento social, pelo qual os retornos colhidos ao longo do tempo geram um ciclo virtuoso de bem-estar.
O ciclo virtuoso parte de investimentos em ECEC de qualidade, que alavancam a melhoria do desempenho educacional, que, junto ao apoio em formação profissional, se traduz em emprego mais alto e produtivo na vida adulta. Quando a participação no emprego é sustentada por provisões de equilíbrio trabalho-família — incluindo creches financiadas e amplamente acessíveis —, podem-se antecipar maiores níveis de emprego feminino e menores lacunas de gênero. Melhores oportunidades para que mulheres e homens combinem parentalidade com trabalho remunerado também pode reduzir o “gap de fecundidade” (diferença entre o número desejado de filhos e a taxa efetiva de fecundidade). Um retorno final diz respeito a carreiras mais longas e uma idade efetiva de aposentadoria mais tardia, sustentadas por políticas de envelhecimento ativo e aprendizagem ao longo da vida.
Os autores reconhecem que, na prática, políticas de stock, flow e buffer nunca estão perfeitamente alinhadas. Podem ocorrer incongruências: por exemplo, quando buffers geram desincentivos financeiros ao flow da busca por emprego — licença maternidade longa pode facilmente minar a equidade de gênero no mercado de trabalho. Da mesma forma, requisitos punitivos de workfare podem frustrar a alocação satisfatória no mercado de trabalho e provocar depleção de capital humano.
Críticas à SIA e a questão dos efeitos Mateus [§13–§15]
O investimento social não está isento de críticas. Brian Nolan (2013), em artigo amplamente citado, questiona as promessas da SIA, especialmente quanto à imagem de políticas “ativas” superiores à provisão “passiva” de seguridade social. A crítica mais perniciosa é que as políticas de investimento social estariam assoladas por uma série de “efeitos Mateus” — em alusão ao Evangelho de São Mateus (“Ao que tem, será dado”). Bea Cantillon e Wim Van Lancker afirmam que investimentos sociais na forma de ECEC e ALMP beneficiam desproporcionalmente domicílios de classe média em detrimento dos grupos mais vulneráveis (Cantillon, 2011; Cantillon & Van Lancker, 2013). Contudo, os autores observam que essas conclusões derivam de medidas de pobreza relativas à renda mediana anual; quando se utiliza um limiar fixo (que não muda ao longo do tempo), maior emprego e redução da pobreza caminham juntos (Gábos et al., 2024).
Os autores registram que esse debate sobre o efeito Mateus está longe de resolvido: defensores da SIA concentram-se no crescimento do emprego e na sustentabilidade fiscal, enquanto os críticos dirigem sua atenção principalmente às (decepcionantes) tendências de pobreza de renda. O dilema do efeito Mateus é, fundamentalmente, uma questão empírica de desempenho do estado de bem-estar.
A resposta substantiva dos autores à crítica é que ela repousa na ideia equivocada de que o investimento social substitui, em vez de complementar, outras políticas sociais. A SIA assenta-se numa estratégia de política de longo prazo que alinha complementaridades políticas para gerar resultados de soma positiva (Fernandes & Hemerijck, forthcoming). Seguridade social convencional e o novo marco de intervenção-investimento de estilo nórdico fazem parte integrante da intenção abrangente do investimento social. O investimento ex ante de longo prazo possibilita que mais pessoas assegurem melhores posições no mercado de trabalho, reduzindo a dependência de políticas ex post, ao mesmo tempo que amplia a receita fiscal proveniente de uma força de trabalho maior e mais produtiva.
O Impacto da Provisão de Bem-Estar de Investimento Social no Nível Macro (pp. 24–39)
Dois quadros teóricos sobre bem-estar e desempenho econômico [§16–§19]
Na literatura acadêmica, distinguem-se duas inferências teóricas sobre a relação entre esforço de bem-estar, desempenho socioeconômico e chances de vida. A primeira apoia-se na ideia de uma relação negativa entre provisão de bem-estar e desempenho econômico. Em meados dos anos 1970, o economista americano Arthur Okun formulou o intuitivo “grande trade-off” entre equidade e eficiência (Okun, 1975): na medida em que estados de bem-estar generosos são exercidos como estratégia política para reduzir desigualdade e pobreza, Okun presumia que isso inevitavelmente prejudica o crescimento econômico, gerando distorções de renda e mercado de trabalho. Altos níveis de gastos sociais levariam a menor oferta de trabalho, maior desemprego, menos investimento em formação e educação e, consequentemente, estagnação da competitividade.
No final dos anos 1990, os economistas políticos Torben Iversen e Anne Wren argumentaram que os estados de bem-estar avançados não se deparavam tanto com um inevitável trade-off entre igualdade e eficiência, mas sim com a tragédia do “trilema da economia de serviços sociais” (Iversen & Wren, 1998): com a transição de uma economia industrial para uma de serviços, tornou-se inerentemente mais difícil para os estados de bem-estar atingir simultaneamente as três metas de restrição orçamentária, igualdade de salários e crescimento do emprego. Em sua obra sobre desigualdade, Thomas Piketty (2014, 2020) lamenta a ignorância do estado de bem-estar em relação às relações de propriedade e à riqueza, resultando em má alocação perversa de políticas de bem-estar, semelhante à crítica do efeito Mateus de Cantillon e Van Lancker (2013).
A segunda linha teórica baseia-se na SIA, que considera sinergias positivas entre esforço de política social, desempenho econômico e resultados socioeconômicos (Esping-Andersen, 1999; Esping-Andersen et al., 2002; Hemerijck, 2013, 2014, 2017). Segundo esse raciocínio, estados de bem-estar orientados ao investimento social permitem transições graduais dentro e fora do emprego; melhores condições para jovens receberem educação e formação e constituírem família; e maiores oportunidades para trabalhadores mais velhos permanecerem na força de trabalho. Consequentemente, a provisão de bem-estar de investimento social potencialmente contribui para maiores taxas de emprego, menores níveis de pobreza e orçamentos públicos mais equilibrados em sociedades envelhecidas e economias de conhecimento.
Mais de meio século de pesquisa comparativa extensiva sobre o estado de bem-estar por economistas, sociólogos e cientistas políticos invalidou efetivamente a conjectura do trade-off equidade-eficiência. Nas economias avançadas da UE, altos níveis de gastos sociais andam de mãos dadas com a prosperidade econômica, sugerindo que o estado de bem-estar desempenha papéis corretivos e complementares eficazes nas economias de mercado ricas (Lindert, 2004; Kenworthy, 1999, 2008, 2019; Hemerijck, 2013; Iversen & Soskice, 2020; Lindert, 2021; Hemerijck & Matsaganis, 2024).
Evidência macro: gastos sociais, PIB e competitividade [§20–§21]
Em clara defiance do trade-off de Okun entre equidade e eficiência, os maiores gastadores de bem-estar da Europa de hoje provam o contrário, sendo os melhores desempenhos em termos de PIB per capita e competitividade. As Figuras 3.1 e 3.2 mostram que prosperidade e crescimento econômico claramente não são obstados por provisão generosa de bem-estar; ao contrário, há evidências de que ambos andam juntos. Países que destinam maior proporção de seu orçamento a provisões de seguridade social são mais ricos e mais competitivos. De forma similar, em desafio à crítica do efeito Mateus à SIA, as Figuras 3.3 e 3.4 correlacionam PIB per capita e competitividade econômica com taxas de risco de pobreza, revelando que os estados de bem-estar mais competitivos são mais capazes de manter níveis adequados de equidade.
Não obstante, há também estados de bem-estar da UE de alto gasto que, apesar de generosidade elevada, não alcançam crescimento econômico estável, altos níveis de emprego e orçamentos públicos saudáveis. Esse achado incongruente exige tomar a sério os detalhes mais finos do desenho de políticas e suas estruturas políticas de suporte circundantes como variáveis intervenientes entre o esforço de política de bem-estar e os resultados socioeconômicos. Para tanto, os autores remetem de volta à lógica do multiplicador de curso de vida: no nível micro, o multiplicador sugere como investimentos sociais — desde a primeira infância — melhoram o bem-estar material dos domicílios e ajudam a mitigar riscos sociais posteriormente na vida; no nível macro, sugere uma variedade de benefícios sociais, desde melhoria de produtividade e maior emprego até menor pobreza e aposentadoria mais tardia.
Educação e cuidado na primeira infância (ECEC) [§22–§26]
Da perspectiva do investimento social, a educação e o cuidado na primeira infância (ECEC) desempenha papel crítico na fase inicial do curso de vida familiar por três razões. Do ponto de vista dos pais, o acesso a serviços de creche acessíveis e de qualidade melhora as oportunidades de emprego parental, permitindo-lhes sustentar o emprego e reduzir interrupções, reforçando progressão de carreira mais estável e com equilíbrio de gênero (Bonoli, 2013; Hemerijck et al., 2016). Gênero desempenha papel crítico nessa fase, pois ter filhos penaliza geralmente as mulheres em termos de participação no mercado de trabalho — as mulheres, portanto, têm mais a ganhar com os serviços de creche. De fato, evidências macro de estados de bem-estar maduros mostram correlação positiva e significativa entre participação em serviços de creche e horas semanais de trabalho das mulheres (Figura 3.5). A expansão dos serviços de creche nas últimas duas décadas foi acompanhada por um aumento acentuado na participação feminina no emprego (Esping-Andersen & Billari, 2015). Ainda assim, persistem diferenças de gênero no emprego e na lacuna salarial, especialmente após o nascimento dos filhos.
Do ponto de vista das crianças, o investimento em cuidado infantil é esperado para reduzir taxas de pobreza infantil (Bonoli, 2013; Finch & Bradshaw, 2021): ao possibilitar que os pais permaneçam no emprego, a provisão de creche indiretamente estabiliza a renda familiar, mitigando o risco de pobreza (Hufkens et al., 2020). Os autores reconhecem que a evidência aqui é menos conclusiva, pois não encontram associação clara entre participação em creche e taxas de pobreza infantil (Figura 3.6), possivelmente porque medem o impacto direto sem considerar como o ECEC interage com outras políticas. A literatura existente mostra que políticas passivas combinadas com ECEC tendem a ser mais eficazes na redução de riscos de pobreza do que isoladamente — esse padrão se mantém mesmo para grupos mais economicamente vulneráveis, em que ECEC generoso combinado com suporte de renda leva à menor probabilidade de cair na pobreza (Hemerijck et al., 2024).
No longo prazo, o desenvolvimento na primeira infância também se traduz em oportunidades de emprego mais produtivas por meio do desenvolvimento de stock de capital humano, fomentando motivação mais forte e maiores níveis de produtividade no mercado de trabalho de entrada (OCDE, 2023; Esping-Andersen, 2015; Nelson & Stephens, 2012). Ao equipar crianças com habilidades sociais essenciais, o ECEC potencialmente reduz a necessidade de buffers mais tarde na vida. James Heckman argumenta que os retornos globais do ECEC superam em muito quaisquer retornos de provisões de investimento social posteriores na vida, tanto em termos de ganhos imediatos de emprego feminino quanto de ganhos de capital humano de longo prazo, particularmente para crianças socioeconomicamente desfavorecidas (Heckman, 2006; Burger, 2010; Hanushek et al., 2003).
Investimentos em educação [§27–§29]
A fase seguinte no modelo do multiplicador de curso de vida centra-se na qualidade da educação. Para jovens adultos de 18 a 25 anos, a transição para o trabalho adulto é mais longa devido à educação terciária prolongada e à alternância entre formação e emprego. Em economias pós-industriais, onde os resultados socioeconômicos estão crescentemente ligados a educação e habilidades, ter um sistema educacional sólido que prepare os jovens para o mercado de trabalho é muito importante. A evidência existente sugere que educação de qualidade inclusiva e formação profissional melhoram as competências profissionais dos jovens indivíduos, facilitando uma transição mais suave da escola para o primeiro emprego (OCDE, 2023). A Figura 3.7 compara as habilidades numéricas de jovens adultos — um proxy para qualidade da educação — com taxas de emprego nos primeiros três anos após a conclusão dos estudos; a correlação positiva sugere que países que investem em educação de qualidade também apoiam transições mais suaves para o emprego para jovens adultos.
Educação de alta qualidade e formação profissional fortalecem ainda mais as habilidades dos jovens, ajudando-os a avançar da escola para o trabalho (OCDE, 2023). Isso é importante para evitar externalidades negativas dessas transições — como desajustes entre emprego e educação ou desemprego juvenil. Essas questões são mais pronunciadas em países onde o investimento em educação fica para trás e o acesso à boa educação é mais desigual (Plavgo, 2023). Em contraste, sistemas eficazes funcionam como elevadores sociais, em que a educação está ligada a maiores taxas de emprego, maior produtividade no início da carreira, menor pobreza e transições menos precárias no mercado de trabalho (Nelson & Stephens, 2012).
Políticas ativas de mercado de trabalho (ALMP) [§30–§34]
As políticas ativas de mercado de trabalho (ALMPs) desempenham papel crucial na criação e mobilização de capital humano entre a população em idade ativa (Garritzmann, 2021). Para o desenvolvimento de capital humano, a formação profissional é a medida mais eficaz para aumentar a participação econômica (Kluve, 2010; Ko & Bae, 2020; Bakker & van Vliet, 2022) e reduzir a pobreza (Taylor-Gooby et al., 2015). No entanto, esses efeitos positivos são mais fortes no médio e longo prazo (Card et al., 2010; Vooren et al., 2019). A eficácia desses programas tende geralmente a ser menor entre os grupos mais desfavorecidos — conundrum referido na literatura como efeito Mateus (Gal, 1998; Cantillon, 2011; Bonoli et al., 2017). Os resultados para populações vulneráveis dependem fortemente do desenho, implementação e da disponibilidade de proteção social generosa (Bonoli, 2020).
Quanto à mobilização de capital humano, os impactos de política são mais visíveis no curto prazo. A assistência à procura de emprego tem efeitos positivos de curto prazo ao ajudar indivíduos a reentrar no mercado de trabalho (Card et al., 2018), embora também possa prolongar a pobreza no trabalho (Taylor-Gooby et al., 2015). Esses programas são mais eficazes na promoção do emprego quando combinados com formação de competências e componentes motivacionais (Liu et al., 2014; Card et al., 2018). As Figuras 3.8 e 3.9 apresentam evidências de correlação entre investimento em programas de educação e formação e, respectivamente, redução das taxas de pobreza no trabalho e menores níveis de desemprego de longa duração. Países que alocam investimentos substanciais nessas políticas exibem consistentemente as menores taxas de desemprego em ambas as métricas.
As ALMPs também fortalecem o dinamismo do mercado de trabalho: embora possam não reduzir diretamente os níveis de desemprego, facilitam transições rápidas de retorno ao emprego. As políticas ativas de mercado de trabalho, ao enfatizarem a aprendizagem ao longo da vida, tornam o mercado de trabalho mais adaptável às mudanças tecnológicas. Do ponto de vista macroeconômico, essa adaptabilidade se mostra vantajosa para mercados de trabalho que experienciam mudanças rápidas nas estruturas ocupacionais, levando a maior participação no mercado de trabalho e, consequentemente, maior produtividade econômica.
Investimentos em envelhecimento ativo [§35–§38]
Nas fases conclusivas do curso de vida, a ênfase de política se desloca para o cuidado de longa duração com o objetivo primário de promover o envelhecimento ativo. Três políticas específicas são críticas: primeiro, o acesso à formação profissional nas fases posteriores da vida laboral, promovendo emprego sustentado e aprimorando a produtividade mediante atualização contínua de habilidades; segundo, opções de aposentadoria flexível, prolongando o emprego ao oferecer variedade de rotas de aposentadoria; e terceiro, provisões de cuidado de longa duração, reduzindo a necessidade de membros da família — predominantemente mulheres — sairem prematuramente do mercado de trabalho por responsabilidades de cuidado (Esping-Andersen, 2016).
Em termos relativos, os investimentos sociais mais tardios na vida são menos eficazes do que os investimentos precoces em jovens. Contudo, os retornos ainda são positivos e dignos de nota. A evidência macro mostra que países com maior participação em programas de formação têm maiores taxas de emprego entre trabalhadores mais velhos (Figura 3.10). Igualmente, uma correlação positiva é encontrada entre o acesso ao cuidado de longa duração formal e a taxa de emprego das mulheres, sugerindo que a disponibilidade de serviços de cuidado reduz o efeito negativo das responsabilidades de cuidado sobre o emprego feminino (Figura 3.11).
Países escandinavos — Dinamarca, Suécia e Finlândia — são os melhores desempenhos tanto em provisão de cuidado de longa duração quanto em taxas de emprego feminino. No entanto, países do sul da Europa — Grécia, Espanha e Itália — apresentam baixa provisão de cuidado de longa duração e baixas taxas de emprego feminino. Esse padrão é consistente com a ideia de que a provisão de cuidado de longa duração tem um duplo dividendo: possibilita que os receptores de cuidado permaneçam no trabalho por mais tempo e, ao mesmo tempo, libera os cuidadores informais — predominantemente mulheres — para buscar ou manter o emprego.
Síntese macro: dividendo econômico e tipologia de estados de bem-estar [§39–§43]
A análise macro apoia amplamente as sinergias positivas previstas pela lógica do multiplicador de curso de vida. Em suma, os resultados macro apresentados confirmam que os estados de bem-estar investidores são mais produtivos, exibem maiores taxas de emprego, menores lacunas de gênero, menores taxas de pobreza e orçamentos públicos mais equilibrados. Esses estados de bem-estar são, simultaneamente, mais prósperos e mais igualitários, em claro desafio à conjectura do trade-off equidade-eficiência.
Os autores apresentam uma tipologia de quatro grupos de estados de bem-estar da UE com base em seu desempenho em seis indicadores de resultados socioeconômicos (taxa de emprego, taxa de emprego feminino, taxa de pobreza no trabalho, taxa de desemprego de longa duração, taxa de pobreza infantil e saldo fiscal) e seu nível de gastos sociais: (1) investidores de alto desempenho (Nordic and Benelux: Dinamarca, Suécia, Finlândia, Países Baixos, Bélgica, Áustria, Alemanha, Luxemburgo); (2) investidores de desempenho médio (Continental: França, Irlanda); (3) não-investidores de baixo desempenho (Southern Europe: Espanha, Portugal, Itália, Grécia); e (4) gastadores de alto desempenho mas não investidores — estados que gastam muito mas não investem estrategicamente. Tabela 3.1 sintetiza esses resultados.
| Alto desempenho investidor |
DK, SE, FI, NL, BE, AT, DE, LU |
Alto gasto + bom desempenho socioeconômico em todas as dimensões |
| Desempenho médio investidor |
FR, IE |
Gasto moderado-alto + desempenho razoável |
| Baixo desempenho não-investidor |
ES, PT, IT, EL |
Gasto crescente sem retornos equivalentes de investimento |
| Alto gasto sem investimento estratégico |
— |
Alto gasto mas design inadequado das políticas |