Fichamento: The Ecological Origins of Economic and Political Systems

Stephen Haber, Roy Elis, and Jordan Horrillo (2022)

Annotated Bibliography
Development Economics
Institutional Economics
Historical Political Economy
Geospatial Analysis
Economic Growth
Author

Tales Mançano

Published

April 20, 2026

Haber, S., Elis, R., & Horrillo, J. (2022). The Ecological Origins of Economic and Political Systems (SSRN Scholarly Paper No. 3958073). Social Science Research Network. https://ssrn.com/abstract=3958073

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Última atualização: 2026-04-20
Modelo: Claude 3.7 Sonnet
Gerado em: 2026-04-20T14:30:00-03:00

1 Introdução (pp. 1–4)

1.1 Apresentação do problema e lacuna na literatura [§1–§3]

Os autores abrem o artigo contrastando três grandes correntes de explicação para a desigualdade global de desenvolvimento econômico. A primeira enfatiza os efeitos diretos do ambiente, mobilizando trabalhos como os de Diamond (1997), Bloom e Sachs (1998) e Henderson et al. (2018). Esta abordagem, por tratar clima e geografia como constantes, tende a ignorar a dimensão temporal e não consegue explicar por que sociedades outrora ricas tornaram-se pobres, e vice-versa. A segunda corrente concentra-se nos efeitos das instituições que incentivam o investimento privado, com destaque para os trabalhos sobre o legado institucional das escolhas coloniais europeias (Engerman & Sokoloff, 1997; Acemoglu, Johnson, & Robinson, 2001, 2002; Easterly & Levine, 2003, 2016). Embora o tempo entre nessa abordagem, ele o faz de maneira estática: toma-se a chegada dos europeus como ponto de partida da história, e as escolhas institucionais feitas séculos atrás são consideradas causadoras dos níveis atuais de desenvolvimento. A terceira corrente foca no capital humano independentemente das instituições (Glaeser et al., 2004; Gennaioli et al., 2013), mas não oferece uma teoria que explique a variância nos investimentos em capital humano.

Os autores identificam a ausência de uma teoria unificada que incorpore clima e geografia e que os conecte ao processo pelo qual sociedades ao redor do globo – tanto colônias quanto não colônias – divergiram ao longo do tempo em termos de investimentos em capital humano, emergência de instituições facilitadoras de contratação e capacidade de absorver novas tecnologias propulsoras de crescimento. O artigo propõe oferecer tal teoria, acompanhada de uma bateria de testes empíricos.

1.2 O arcabouço teórico e sua mecânica [§4–§6]

A teoria é representada visualmente na Figura 1 do artigo e inspira-se em abordagens comuns nas ciências físicas e em alguns campos da macroeconomia empírica, focando em propriedades emergentes – resultados endógenos de um sistema que possuem propriedades não encontradas nas partes componentes, devido a interações entre variáveis exógenas e retroalimentações entre variáveis endógenas.

A mecânica da teoria centra-se no problema fundamental de sobrevivência que todas as sociedades humanas enfrentaram antes do século XIX, quando ferrovias, navios a vapor e refrigeração tornaram economicamente viável o transporte de alimentos básicos calóricos e nutritivos a longas distâncias, garantindo seguro contra a fome. O vetor de fatores exógenos consiste nos climas, solos e ambientes de doença locais que condicionaram a forma como as sociedades podiam enfrentar esse desafio. As adaptações foram os comportamentos humanos que emergiram para responder a esse desafio sob as restrições impostas por essas dotações fatoriais locais. Os sistemas foram as formas resultantes de organização social pré-1800: sistemas legais, estoques de capital humano, modos de vida, sistemas morais, estruturas sociais e distribuições de poder.

O choque externo bruto foi a modernidade: um amplo conjunto de tecnologias mutuamente dependentes que emergiu de um processo recursivo multi-países nos séculos XIX e XX e que desencadeou uma competição mundial por dominância geopolítica. As propriedades emergentes dos diferentes caminhos de equilíbrio de desenvolvimento incluem níveis de desenvolvimento econômico, democracia, capital humano e outros indicadores de prosperidade em qualquer ponto após 1800.

1.3 O argumento central e o ponto de partida histórico [§7–§8]

A tese central é que as dotações fatoriais condicionaram como as sociedades podiam responder ao desafio de garantir seguro contra a fome antes de 1800, dando origem a diferentes formas de organização social. Essas formas de organização social, por sua vez, condicionaram a rapidez com que as sociedades podiam responder ao próximo grande desafio de sobrevivência que todas enfrentaram: absorver as tecnologias do mundo moderno (pós-1800) para evitar serem conquistadas, colonizadas ou dominadas por outra sociedade que tivesse se movido mais rapidamente.

O ponto de partida é um fato histórico básico: até que as tecnologias de transporte e refrigeração de meados do século XIX tornassem economicamente viável mover alimentos básicos a longas distâncias, as sociedades tinham que produzir calorias alimentares suficientes – e torná-las disponíveis durante todo o ano – sob as restrições impostas pelas dotações fatoriais locais. A forma como as pessoas podiam garantir seguro contra a fome em um deserto era muito diferente de como podiam fazê-lo em uma floresta tropical. Mesmo na Inglaterra e nos Países Baixos, apontados como importadores de grãos do Báltico, as importações nunca representaram mais de 10% do consumo antes de 1800 (Allen, 2000:14). Hoskins (1964:29) resume a implicação: “Em [Inglaterra]… na qual um terço da população vivia abaixo da linha de pobreza e outro terço mal sobre ela ou ligeiramente acima; na qual a classe trabalhadora gastava de 80 a 90% de sua renda em comida e bebida; em tal país a colheita era o fato fundamental da vida econômica.”

1.4 O papel do Intercâmbio Colombiano e a disseminação de tecnologias alimentares [§9]

Os autores destacam que, por um período que se estendeu do Intercâmbio Colombiano (o movimento global de plantas, animais, ferramentas, pessoas e doenças desencadeado pela chegada de Colombo às Américas em 1492 e pelo estabelecimento de uma rota marítima da Europa para a Índia em 1498) até o início do século XIX, as sociedades enfrentaram o desafio de garantir seguro contra a fome com um estoque comum de conhecimento sobre as tecnologias para produzir, armazenar e transportar alimentos calóricos e nutritivos (Crosby, 1986; Nunn & Qian, 2010). Antes do Intercâmbio Colombiano, não havia batatas na Irlanda, tomates na Itália, mandioca na África ou milho na China. As Américas não apenas careciam de trigo, aveia, arroz e cevada, como também não tinham cavalos ou bois para puxar arados, carroças ou barcaças. Após o Intercâmbio, o conhecimento dessas (e de muitas outras) tecnologias relacionadas à alimentação disseminou-se rapidamente. O que variou entre as sociedades – por um período de aproximadamente três séculos – foram os fatores climatológicos e geográficos que determinavam o que podia ser cultivado, quanto podia ser cultivado, a distância que podia ser transportado, por quanto tempo podia ser armazenado e quanto precisava ser armazenado.

1.5 Primeira hipótese: adaptação incremental e emergência de formas de organização social [§10–§11]

A primeira hipótese dos autores é que os agentes enfrentaram o desafio fundamental de garantir seguro contra a fome adaptando-se de maneira incremental, descoordenada e prolongada. Algumas das adaptações que descobriram foram sociais, como maneiras de se comportar e planejar, e de esperar que os outros se comportassem e planejassem. Algumas dessas adaptações tornaram-se institucionalizadas como sistemas de direitos de propriedade, tributação e governança. Como as combinações complexas de dotações fatoriais variavam, as adaptações sociais e institucionais também variavam. Esse processo não exigiu que ninguém fizesse escolhas conscientes: como Alchian (1950) famosamente apontou, comportamentos que favorecem a sobrevivência podem ser entendidos como o ambiente adotando agentes com comportamentos específicos, em vez de agentes se adaptando ao ambiente.

O que emergiu desse processo de adaptação foram diferentes maneiras de organizar as sociedades. Os autores propõem uma taxonomia de quatro formas básicas de organização social pré-moderna: Ecology Transactional (Transacional), Ecology de Compartilhamento de Riscos (Risk-Pooling), Ecology Autossuficiente (Self-Sufficient) e Ecology Pastoril (Pastoral). Uma quinta possibilidade, uma ecologia de pesca, é mencionada, mas restrições de dados impedem sua operacionalização.

1.6 O choque da modernidade e a segunda hipótese [§12–§14]

O choque de sobrevivência que todas as sociedades enfrentaram no início do século XIX foi a modernidade – um conjunto de novas tecnologias que começaram a se difundir no final do século XVIII, mas que alcançaram fruição nos séculos XIX e XX. As novas tecnologias eram legais, financeiras, educacionais, organizacionais e políticas, além de mecânicas, químicas e elétricas. Cada tecnologia individual foi produto de um processo recursivo multi-países, e cada uma dependia das outras para atingir sua utilidade plena.

Do ponto de vista de qualquer sociedade individual, a modernidade foi um choque exógeno: nenhuma sociedade isolada a gerou; nenhuma sociedade podia detê-la; e nenhuma sociedade podia optar por ignorá-la. Como coloca Kotkin (2014:4-5): “…o pacote de atributos que chamamos de modernidade não foi resultado de algum processo sociológico inerente, um movimento para fora da tradição, mas de uma competição geopolítica viciosa na qual um Estado tinha que igualar as outras grandes potências em produção moderna de aço, forças armadas modernas e um sistema político de massa moderno, ou ser esmagado e potencialmente colonizado.” No entanto, como mostram Gershenkron (1961), Parente e Prescott (1994), Comin e Hobijn (2010) e Comin e Mestieri (2018), as sociedades absorveram as tecnologias da era moderna em taxas dramaticamente diferentes.

Os autores argumentam que as taxas de absorção das tecnologias da modernidade variaram porque as sociedades não podiam descartar suas formas pré-existentes de organização social da noite para o dia sem custo. Elas herdaram estoques de capital humano, sistemas legais, formas de contrato e direitos de propriedade, códigos morais, modos de vida e distribuições de poder que haviam coevoluído ao longo de séculos.

1.7 Terceira hipótese e previsões da teoria [§15–§16]

A terceira hipótese é um corolário das duas primeiras. Como as dotações fatoriais locais (condicionadas às tecnologias pós-Intercâmbio Colombiano) condicionaram as formas de organização social pré-século XIX, e como essas formas de organização social condicionaram as taxas de absorção tecnológica durante os séculos XIX e XX, as distribuições de desenvolvimento econômico, capital humano, consolidação democrática e outros indicadores de prosperidade que observamos entre os países hoje são resultados conjuntamente determinados de diferentes caminhos de equilíbrio de desenvolvimento que foram postos em movimento por essas dotações fatoriais locais.

A teoria gera previsões nítidas sobre o timing da divergência entre países em níveis de desenvolvimento econômico, consolidação democrática, absorção tecnológica, investimentos em capital humano relacionado ao comércio e crescimento dos mercados. Também faz previsões sobre quais países foram colonizadores e quais foram colonizados durante os séculos XIX e XX. Finalmente, gera previsões sobre o agrupamento geográfico do desenvolvimento econômico ao redor do planeta.

1.8 Abordagem empírica e principais descobertas [§17–§20]

Os autores desenvolvem novos conjuntos de dados para testar essas previsões contra evidências. Utilizam ferramentas geoespaciais para recriar, o mais fielmente possível, as características ecológicas que limitavam a produção, transporte e armazenamento de alimentos calóricos e nutritivos por volta de 1800 nos núcleos densamente povoados a partir dos quais os Estados-nação posteriormente emergiram. Constroem um painel de 20.297 cidades e vilas geocodificadas com pelo menos 20.000 habitantes em qualquer dos anos 1500, 1600, 1700, 1800, 1850, 1900, 1950 e 2000.

A análise dos dados emprega abordagens quantitativas (Naïve Bayes e Random Forest) e históricas (estudo de quatro casos canônicos). A principal descoberta é que um vetor de fatores exógenos que eram restrições vinculantes à produção de alimentos, armazenamento pós-colheita e transporte dentro dos núcleos densamente povoados responde por aproximadamente 60% da variância entre países no PIB per capita atual. Crucialmente, esse vetor responde por progressivamente menos da variância nos níveis de desenvolvimento econômico (medidos por taxas de urbanização) à medida que se retrocede no tempo; antes de 1800, responde por quase nada. Resultado materialmente similar é obtido quando se substitui a variável dependente pelo nível de consolidação democrática.

As sociedades que emergiram de ecologias transacionais experimentaram taxas mais rápidas de crescimento econômico pós-1800, maior consolidação democrática, crescimento mais rápido dos mercados de 1500 a 1800, maior investimento em capital humano associado ao comércio e taxas mais rápidas de absorção de uma tecnologia moderna canônica. Elas também foram as mais propensas a serem colonizadoras durante o Novo Imperialismo. Sociedades de ecologias de compartilhamento de riscos estão associadas a taxas mais lentas de crescimento, democratização e absorção tecnológica do que as transacionais, mas experimentaram crescimento mais rápido do que as autossuficientes ou pastoris e foram menos propensas a serem colonizadas.

1.9 Relação com outras teorias e antecedentes [§21–§23]

Um teste poderoso de uma teoria é se ela pode explicar os padrões factuais que sustentam teorias propostas por outros pesquisadores. Os autores introduzem as variáveis exógenas de interesse de Engerman e Sokoloff (1997), Hall e Jones (1999), Acemoglu, Johnson e Robinson (2001, 2002) e Easterly e Levine (2016) em seus modelos. Descobrem que seu vetor de dotações fatoriais responde por mais da variância nos níveis de desenvolvimento econômico atual do que as variáveis de interesse de outras teorias, e que a adição dessas variáveis tem apenas um impacto menor em seus resultados. Isso não implica que essas outras teorias estejam erradas; antes, sugere que os fatores que outros estudiosos hipotetizaram como causais ou são proxies para o vetor de dotações fatoriais ou foram resultados endógenos dos caminhos de desenvolvimento postulados pelo arcabouço dos autores.

A ideia de que resultados econômicos têm origens ecológicas remonta pelo menos a Ibn Khaldun (1377). A ideia informa pesquisas recentes sobre níveis relativos de centralização estatal e desenvolvimento econômico pré-moderno, como Wittfogel (1957), Carneiro (1970), Putterman e Weil (2010), Morris (2010), Ashraf e Galor (2011), Motamed, Florax e Masters (2014), Alsan (2015), Scott (2017), Mayshar et al. (2019) e Dal Bó, Hernández-Lagos e Mazzuca (2019). Spolaore e Wacziarg (2013) fornecem uma revisão da literatura e testes empíricos cujo achado central é consistente com uma abordagem ecológica: características de primeira natureza atuaram indiretamente no desenvolvimento econômico “através de características mais amplas de uma população, e não apenas de instituições…”

1.10 Diferenças em relação a Engerman e Sokoloff (1997) [§24]

O antecedente mais próximo é Engerman e Sokoloff (1997), que propõe três caminhos diferentes de desenvolvimento de longo prazo nas Américas postos em movimento pela variância nas dotações fatoriais relacionadas a solos, climas, depósitos minerais e densidades populacionais nativas americanas no momento da colonização. O artigo difere em dois aspectos importantes: evidência e mecanismos. A evidência apresentada é geoespacial, sistemática e cobre sociedades coloniais e não coloniais ao longo dos últimos cinco séculos. A mecânica em Engerman e Sokoloff foca em como a variância nas dotações fatoriais gerou variância nos níveis de desigualdade durante o período colonial, que então moldou escolhas de políticas e instituições após a independência. A mecânica dos autores enfatiza como as propriedades biofísicas das culturas interagiram com custos de transporte, temperatura e umidade, endemicidade de malária e tripanossomíase, e a escala e frequência de choques climáticos para gerar diferentes formas de organização social, que, por sua vez, condicionaram a capacidade das sociedades de absorver as tecnologias da era moderna como um conjunto amplo.

2 Approximating Factor Endowments (pp. 11–22)

2.1 Definindo a economia e sociedade local relevante: hinterlands da maior cidade [§25–§26]

O primeiro passo metodológico é especificar a área local relevante a partir da qual a forma de organização social de um país emergiu. Os Estados-nação que observamos hoje não existiam durante 1500-1800. Eles emergiram de um processo no qual um núcleo densamente povoado e economicamente poderoso absorveu seus vizinhos por conquista, colonização, diplomacia e assimilação cultural. A Alemanha, por exemplo, até 1871 era um conglomerado de mais de 300 entidades independentes que foram política e culturalmente subordinadas à região ao redor de Berlim ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX. Similarmente, a China emergiu da Planície do Norte da China subordinando regiões ao sul e oeste; o México emergiu do Vale do México; Angola emergiu do Vale do Rio Kwanza. O que todos esses núcleos densamente povoados tinham em comum era uma cidade que, por volta de 1800, já era a maior no território que mais tarde se tornaria um Estado-nação soberano.

Os autores estimam a hinterland (área de influência econômica imediata) da maior cidade em 1800 para 163 países atuais, definindo-a como o raio de transporte terrestre a partir do centroide da cidade que consumiria o equivalente calórico de uma carga de carroça de grãos, seguindo o menor caminho de custo até que a restrição de energia se esgotasse. O limite do menor caminho de custo é então ajustado para o fato de que o transporte aquático era mais barato que o terrestre: eles estendem a hinterland ao longo de rios navegáveis e ao longo de costas oceânicas usando a suposição de que grãos poderiam ser transportados por vários meses por ano em barcos de tamanho similar aos usados por Lewis e Clark no Rio Missouri em 1804. Rápidos e bancos de areia são recolocados nos mapas modernos, e todos os canais são removidos, exceto o Grande Canal da China, construído durante a dinastia Sui (581-618 EC). A Figura 2 exibe mapas de quatro hinterlands (N’shenge, Ulaanbaatar, Beijing, Nova York) mostrando a considerável variância em tamanhos e formas.

2.2 Tipos de culturas, produção calórica e trade-offs risco-retorno [§27–§30]

As centenas de culturas alimentares diferentes se agrupam em cinco categorias de alimentos básicos calórica e nutricionalmente densos: grãos de cereais (frutos secos simples que não abrem na maturidade, como arroz ou trigo); leguminosas (frutos secos simples que abrem ao longo de uma costura na maturidade, como feijões e lentilhas); frutos amiláceos (frutos carnosos com alto teor de amido, como bananas e fruta-pão); tubérculos (órgãos subterrâneos de armazenamento de amido e nutrientes usados por algumas plantas para sobreviver a períodos de seca ou frio, como inhames e batatas); e cormos (similares a tubérculos, mas que não brotam gemas para propagação, como taro e cocoyam). O Intercâmbio Colombiano espalhou os diferentes cultivares dentro desses cinco grupos, bem como o conhecimento sobre como cultivá-los, ao redor do planeta.

Essas cinco categorias podem ser agregadas em dois grupos básicos baseados em propriedades biofísicas: anuais de baixa umidade (grãos de cereais e leguminosas) e perenes de alta umidade (frutos amiláceos, tubérculos e cormos). As principais diferenças são: (1) rendimentos calóricos por hectare, mais altos para anuais de baixa umidade; (2) vida útil pós-colheita, muito mais longa para anuais de baixa umidade devido a diferenças na mecânica reprodutiva; (3) sazonalidade – anuais de baixa umidade têm épocas definidas de plantio e colheita, enquanto perenes de alta umidade tendem a ser autopropagantes e produzem durante todo o ano ou podem ser deixadas no solo até serem necessárias.

Essas propriedades biofísicas implicam um trade-off risco-retorno. Ceteris paribus, um agricultor especializado em anuais de baixa umidade podia obter mais calorias por hectare do que um especializado em perenes de alta umidade, mas as propriedades das anuais de baixa umidade o expunham a maior risco: risco climático (uma cultura com estação definida podia ser perdida por geada, seca ou granizo); risco de saúde (doença do agricultor nos dias prescritos de semeadura ou colheita); risco de deterioração (armazenamento até a próxima colheita, durante o qual mofo e bactérias podiam tornar a cultura não comestível); e risco de expropriação (precisamente porque anuais de baixa umidade podiam ser armazenadas, podiam servir como unidade de conta, reserva de valor e meio de troca – e qualquer coisa com essas características podia ser facilmente apropriada).

No entanto, nem todas as coisas eram iguais. Muitas perenes de alta umidade (inhames, taro, bananas, fruta-pão) podiam ser cultivadas em solos úmidos que apodreceriam as raízes das anuais de baixa umidade. Outras (batatas) podiam ser cultivadas em solos arenosos ou secos demais para anuais de baixa umidade. Diferenças em climas e solos, portanto, afetavam decisões sobre escolhas de culturas, que por sua vez condicionavam formas de organização social.

2.3 Estimando a produção potencial de calorias [§31–§32]

Para cada hinterland, os autores calculam o rendimento calórico potencial máximo de 17 culturas anuais de baixa umidade e 5 culturas perenes de alta umidade usando dados do Global Agro-Ecological Assessment for Agriculture (GAEZ 3.0), um projeto conjunto da FAO e do International Institute for Applied Systems Analysis. O GAEZ 3.0 fornece uma coleção de conjuntos de dados raster cobrindo o globo que estimam o rendimento potencial por hectare de uma variedade de culturas sob várias condições, baseado em características da cultura, do solo e do clima. Para aproximar os rendimentos potenciais usando a tecnologia do século XVIII, as condições do GAEZ 3.0 são configuradas para “rain-fed” (dependente de chuva) e “low inputs” (baixos insumos). Para aproximar os rendimentos potenciais mais altos disponíveis aos agricultores em qualquer ponto da hinterland, os autores utilizam a célula raster com o rendimento mais alto dentro da hinterland para cada cultura.

2.4 As restrições impostas pela estocabilidade [§33–§34]

Há uma grande diferença entre a capacidade de cultivar culturas anuais de baixa umidade e a capacidade de armazená-las. Aumentos na umidade, especialmente quando acompanhados por aumentos na temperatura, reduzem drasticamente o número de dias antes que cereais e leguminosas se tornem impróprios para consumo humano devido ao crescimento de mofo, bactérias e intrusão de insetos. O armazenamento requer duas etapas: (1) redução do teor de umidade da cultura (historicamente por secagem ao ar); (2) armazenamento em um recinto fresco e seco (historicamente um silo ou celeiro). O número de dias de armazenamento possível é, portanto, uma função de duas etapas: o teor de umidade da cultura no momento do armazenamento (função da temperatura e umidade relativa) e a interação entre teor de umidade e temperatura durante o armazenamento.

O algoritmo empregado para estimar o número de dias que culturas anuais de baixa umidade podiam ser armazenadas baseia-se em estudos de estocabilidade do milho (Wilcke & Wyatt, 2002). A literatura sobre outras culturas anuais de baixa umidade indica que, embora suas vidas de armazenamento não sejam idênticas às do milho, as condições de temperatura e umidade que afetam sua estocabilidade são similares (Wilcke et al., 1999; Pushpamma & Vimala, 1985; Howell, Smith, & Dilday, 2003; Wrigley, Batey, & Miskelly, 2017). Os autores empregam dados da National Oceanographic and Atmospheric Agency (NOAA) sobre temperatura e umidade relativa cobrindo o período desde 1850 em nível mensal para estimar o número de dias que o milho poderia ser armazenado em cada hinterland.

2.5 Os efeitos diretos e indiretos da malária [§35–§38]

A malária moldou a disponibilidade e alocação de trabalho na agricultura mais do que qualquer outro patógeno (Marsh & Snow, 1999; Carter & Mendis, 2002; Chima, Goodman, & Mills, 2003; Bleakley, 2010; Hong, 2011; Cowman et al., 2016; McCord & Anttila-Hughes, 2017). Os efeitos diretos sobre a disponibilidade de trabalho operam através de seus sintomas: malária não complicada induz fraqueza, fadiga, prostração, febre, vômitos e dores de cabeça que podem persistir de alguns dias a várias semanas – às vezes por meses ou anos – exigindo que a pessoa infectada cesse o trabalho e que outros membros da família redirecionem esforços para cuidar do doente.

A malária não é um evento único; pode ser um processo vitalício de debilitação progressiva. Duas das cinco espécies de plasmódio transmitido por mosquitos que causam malária – P. vivax e P. ovale – têm parasitas em estágio hepático dormente que podem reativar, causando recorrência da doença meses ou anos após a infecção inicial. Adquirir imunidade à malária tem alto custo. A imunidade inata, que emergiu através de polimorfismos genéticos em regiões onde a malária foi endêmica por milênios, vem ao custo de anemias debilitantes entre homozigotos, incluindo ovalocitose, talassemias, deficiência de G6PD, hemoglobina C e hemoglobina S (traço falciforme). Para a maioria das pessoas, alcançar imunidade contra a malária é uma batalha árdua que requer infecções recorrentes por cada cepa de cada espécie local de plasmódio – e essa imunidade desaparece dentro de um ano a menos que o sujeito continue a ser regularmente “reinoculado” por reinfecções recorrentes. A imunidade só pode ser mantida em regiões de alta endemicidade; em regiões de baixa endemicidade, mudanças de curto prazo em temperatura e umidade que favorecem temporariamente a reprodução de mosquitos podem induzir epidemias devastadoras (Marsh & Snow, 1999; Cowman et al., 2016; McCord & Anttila-Hughes, 2017).

Há também efeitos indiretos substanciais da malária sobre a produtividade do trabalho, que operam através de estratégias de enfrentamento antecipatórias: conservação do esforço de trabalho devido à incerteza sobre o estado de saúde; escolhas de culturas que permitem flexibilidade no esforço de trabalho na expectativa de doença (Chima, Goodman, & Mills, 2003; Dillon, Friedman, & Serneels, 2020); e escolhas de culturas que reduzem a taxa de reprodução dos mosquitos vetores. Vansina (1990) relata que agricultores na África Central optaram por plantar bananeiras em vez de tubérculos porque elas não exigiam o desmatamento da cobertura florestal, reduzindo assim as poças de água parada necessárias para os estágios de ovo, larva e pupa dos mosquitos – estratégia que acarretava um trade-off custoso, pois bananas têm rendimentos calóricos por hectare ainda menores e vidas de armazenamento ainda mais curtas do que tubérculos.

Os efeitos totais diretos e indiretos da malária sobre a produtividade não são simples de calcular, mas as estimativas disponíveis indicam que são consideráveis. Bleakley (2010) estima a perda de produtividade por malária infantil recorrente em 50% da renda adulta. Hong (2011), baseado em preços imobiliários comparativos, estima uma perda de produtividade de 75%.

Para estimar o impacto da malária na produtividade, os autores recorrem a um índice de transmissão de malária desenvolvido por McCord e Anttila-Hughes (2017) que combina fatores ecológicos (precipitação e temperatura) com biológicos, como a taxa de picada humana da espécie de mosquito vetor.

2.6 Os efeitos da tripanossomíase [§39]

A tripanossomíase transmitida pela mosca tsé-tsé afeta não apenas o tamanho da hinterland, mas vai além da capacidade de empregar animais de tração no transporte. A tripanossomíase animal forçou os agricultores a substituir força animal por trabalho humano em outras tarefas agrícolas: enxadas ou paus de cavar em vez de arados; cestos em vez de carroças. A tripanossomíase humana, por sua vez, reduziu a disponibilidade de trabalho. Como não havia cura médica antes da invenção da Suramina em 1916, a doença progredia de um primeiro estágio (febres intermitentes) para um segundo estágio afetando o sistema nervoso central, causando debilitação progressiva com mudanças de personalidade, alteração do ritmo circadiano, confusão, fala arrastada, convulsões e dificuldade para andar e falar – levando finalmente à morte. Para estimar o impacto da tripanossomíase além de seus efeitos no tamanho da hinterland, os autores usam uma distribuição predita de grupos e espécies de mosca tsé-tsé desenvolvida e disponibilizada online em formato raster pela FAO.

2.7 Secas temporalmente e espacialmente correlacionadas [§40–§41]

As populações das sociedades pré-modernas, como coloca Le Roy Ladurie (1971:2), “estavam constantemente à mercê da bênção ou calamidade climática.” A mais aguda – e fácil de medir retrospectivamente – dessas calamidades eram as secas. Onde as secas não eram temporalmente correlacionadas, os agricultores podiam mitigar seus efeitos antecipados plantando uma variedade de culturas com épocas de semeadura e colheita escalonadas. Onde as secas não eram espacialmente correlacionadas, podiam desenvolver relações comerciais com agricultores em comunidades vizinhas. Onde as secas eram temporal e espacialmente correlacionadas, nenhuma dessas estratégias funcionava; todos eram dizimados simultânea e prolongadamente.

As secas são operacionalizadas usando o Palmer Drought Severity Index (PDSI) (Palmer, 1965). Os autores empregam a versão autocalibrante (sc-PDSI), calculada dinamicamente de modo que valores negativos e positivos representem desvios da norma para um local específico em uma época específica do ano. Dados mensais de sc-PDSI em grade com cobertura de 1850 a 2014 e resolução de 2,5° por 2,5° são obtidos de Dai, Trenberth e Qian (2004). Uma seca espacialmente correlacionada é definida como valores ≤ -4 para cada célula raster em uma hinterland de cidade principal. Uma seca temporalmente correlacionada é definida como valores ≤ -4 por um período contínuo de pelo menos seis meses para qualquer célula raster. Uma seca espacial e temporalmente correlacionada – na qual todos os agricultores perderiam todas as colheitas ao longo de uma estação inteira – é, portanto, um evento em que sc-PDSI ≤ -4 para cada célula raster na hinterland por um período contínuo de seis meses. Os autores somam o número de meses de tais eventos extremos de seca para cada hinterland e dividem pelo número total de meses para os quais têm dados sc-PDSI para aquela hinterland. Validam o uso desses dados mundiais mensais de 1850-2012 para o período 1500-1800 usando dados anuais de anéis de árvores PDSI de Cook et al. (2015) para Europa, Oriente Médio e Norte da África.

3 From Factor Endowments to Social and Institutional Ecologies (pp. 22–31)

3.1 Visualizando as interações entre dotações fatoriais [§42–§46]

Os autores empregam técnicas de aprendizado de máquina sobre valores contínuos das variáveis de dotação fatorial na Seção 3.5 para mostrar como combinações complexas delas produzem quatro agrupamentos distintos. Para explicar a intuição, apresentam uma série de gráficos na Figura 3.

A Figura 3 exibe o trade-off risco-retorno entre os dois grupos básicos de culturas. O eixo X representa a produção calórica potencial de culturas anuais de baixa umidade (em logs naturais). O eixo Y representa a razão entre produção calórica potencial de perenes de alta umidade e anuais de baixa umidade. Movendo-se da esquerda para a direita, a produção total potencial de anuais de baixa umidade aumenta; de baixo para cima, a capacidade de substituir por perenes de alta umidade aumenta.

Cada um dos seis painéis da Figura 3 exibe a distribuição de outras dotações fatoriais usando cores e formas: tamanho da hinterland (painel superior esquerdo), produção potencial de anuais de baixa umidade por hectare (superior direito), estocabilidade de anuais de baixa umidade (meio esquerdo), endemicidade de malária (meio direito), endemicidade de tsé-tsé (inferior esquerdo) e frequência de secas espacial e temporalmente correlacionadas (inferior direito). A gama de variação é imensa: mover-se da hinterland de Walvis Bay, Namíbia, para Buenos Aires, Argentina, produz um aumento de 400.000 vezes na produção calórica potencial de anuais de baixa umidade; mover-se de N’shenge (RDC) para Cairo, Egito, produz uma queda de 1.000 vezes na capacidade de substituir perenes de alta umidade por anuais de baixa umidade.

3.2 Ecologias Autossuficientes (Self-Sufficient Ecologies) [§47–§49]

Observando o quadrante superior esquerdo da Figura 3 (acima da linha horizontal pontilhada, à esquerda da vertical), várias dotações fatoriais tendem a co-ocorrer: baixa produção potencial de anuais de baixa umidade; capacidade de substituir por perenes de alta umidade (embora com perda calórica); tamanho pequeno da hinterland; climas que dificultam o armazenamento; alta endemicidade de malária; alta endemicidade de tsé-tsé. Muitos dos mesmos fatores co-ocorrem no quadrante superior direito.

A natureza empurrava os agricultores para longe das anuais de baixa umidade em direção às perenes de alta umidade nesses quadrantes. Por que um agricultor cultivaria uma anual de baixa umidade cujo rendimento estava sujeito aos caprichos do clima e ao seu próprio estado de saúde malárica, quando essa colheita provavelmente se perderia para mofo, bactérias e insetos em pouco tempo? Por que não, em vez disso, garantir seguro contra a fome cultivando culturas perenes como tubérculos e cormos resistentes à seca que podem ser deixados no solo até serem necessários, ou frutos amiláceos que produzem o ano todo? Esses incentivos seriam ampliados em hinterlands com alta endemicidade de tsé-tsé; a tração animal não poderia substituir o trabalho humano durante os períodos fixos de aração, plantio e colheita de anuais de baixa umidade.

A decisão racional de focar em perenes de alta umidade gerou pressões que afetaram a forma de organização social. Mais diretamente, limitou o tamanho e a densidade populacional: na média da razão (linha horizontal pontilhada), um agricultor especializado em perenes de alta umidade incorria em uma perda de produção calórica potencial de 70%. O incentivo para focar em perenes de alta umidade também limitou a extensão de atividades econômicas não agrícolas, pois o trabalho dedicado à manufatura, mineração e comércio precisa ser financiado por excedentes agrícolas – mas perenes de alta umidade, uma vez colhidas, eram ativos de rápida depreciação, não podendo servir como unidade de conta, meio de troca ou reserva de valor. Finalmente, limitou investimentos em instituições relacionadas ao comércio (direito comercial, tribunais especializados) e em capital humano útil para o comércio (numeramento, alfabetização). Por que fazer esses investimentos custosos se havia pouco para comercializar? Um agente racional nesse ambiente era um produtor autossuficiente.

A unidade básica de organização social que emergiu desse sistema de produção autossuficiente não era um mercado, mas uma aldeia composta por unidades domésticas autônomas. Criar um Estado a partir de tal sociedade não era impossível, mas a baixa capacidade fiscal limitava o grau de centralização do poder. Um Estado em uma Ecologia Autossuficiente tinha que ser financiado pela captura de um fluxo contínuo de alimentos de rápida deterioração.

3.3 Ecologias Pastorais (Pastoral Ecologies) [§50–§52]

No quadrante inferior esquerdo (abaixo da linha horizontal, à esquerda da vertical), outro conjunto de dotações tende a co-ocorrer: hinterlands mal adaptadas ao cultivo de qualquer tipo, tendendo a ser caracterizadas por ausência de malária, ausência de tsé-tsé e boa adequação ao armazenamento das poucas anuais de baixa umidade que podiam ser cultivadas. Algumas (como Bergen, Noruega) deviam-se a climas frios; a maioria, no entanto, devia-se à aridez.

Onde os climas eram frios ou áridos demais para cultivar qualquer tipo de cultura, os humanos adaptaram-se subindo na cadeia alimentar. Domesticaram grandes herbívoros – ovelhas, cabras, camelos, cavalos ou gado – que podiam converter grama selvagem em tecido muscular e leite. Subir na cadeia alimentar vinha, porém, com um grande custo em termos de produção calórica potencial por hectare: como regra geral da ecologia, cada passo acima na cadeia alimentar implica uma perda de energia para o metabolismo de aproximadamente 90%.

A sobrevivência através do pastoralismo gerou pressões que afetaram a forma de organização social. Mais diretamente, implicava mobilidade; as pessoas garantiam seguro contra a fome movendo seus animais para pastagens mais verdes. Também implicava baixa densidade populacional; a maioria das calorias produzidas era consumida pelo metabolismo animal. Finalmente, implicava baixo nível de centralização política. Como aponta Barfield (1989:45), animais como reserva de riqueza não podiam ser concentrados: precisavam ser dispersos para aproveitar grama e água. A menos que os animais pudessem ser convertidos em algum produto mais estável, um governante não podia tributar com sucesso.

A unidade básica de organização social que emergiu em uma Ecologia Pastoril era um acampamento móvel baseado em parentesco, limitado em tamanho pelo número de animais que podiam pastar em uma área. Acampamentos agregavam-se em clãs e tribos baseados em linhagem comum. Havia fortes incentivos para competir por acesso a pastagens e apropriar-se dos animais uns dos outros. Conflitos entre tribos tinham que ser resolvidos com violência – porque uma Ecologia Pastoril não gerava a base fiscal para um Estado que pudesse arbitrar direitos de propriedade (Barfield, 1989).

Um agente racional em uma Ecologia Pastoril era incentivado a investir em capital humano relacionado à mobilidade e potencial de violência – no contexto de 1500-1800, a capacidade de atirar com arco e flecha do lombo de um cavalo a galope. Até que melhorias em armas de fogo e artilharia gradualmente desfizessem a vantagem da arqueiria montada, as Ecologias Pastorais representavam sérias ameaças militares às ecologias vizinhas, desde que um líder carismático conseguisse forjar uma coalizão de tribos em conflito.

3.4 Ecologias Transacionais (Transactional Ecologies) [§53–§56]

No quadrante inferior direito (abaixo da linha horizontal, à direita da vertical), outro conjunto de fatores tende a co-ocorrer: hinterlands bem adaptadas ao cultivo de anuais de baixa umidade e mal adaptadas à substituição por perenes de alta umidade; tendiam a ser grandes, ter solos altamente produtivos, capacidade de armazenar anuais de baixa umidade por períodos prolongados e serem livres de malária e tsé-tsé.

As pressões geradas pela natureza nessas hinterlands dependiam do fator que varia significativamente nesse quadrante: a frequência de secas espacial e temporalmente correlacionadas. Focando primeiro nas hinterlands onde tais secas nunca ocorriam, os agricultores podiam produzir, armazenar e mover grandes quantidades de anuais de baixa umidade. Isso não significava um idílio; a natureza sazonal dessas culturas os expunha ao risco de quebra de safra por eventos climáticos idiossincráticos. Eles podiam, no entanto, garantir seguro contra tais riscos plantando uma mistura de culturas anuais com períodos de semeadura e colheita escalonados, e depois compensar déficits negociando com agricultores em comunidades vizinhas.

O seguro através do comércio local gerou um conjunto único de pressões e tensões. Calorias alimentares armazenáveis podiam servir como unidade de conta, reserva de valor e meio de troca, financiando assim atividades não agrícolas como mineração e manufatura. O seguro através do comércio também incentivava investimentos em estruturas legais que facilitassem o comércio – registros de propriedade, códigos comerciais, tribunais – bem como investimentos em capital humano relacionado ao comércio, como numeramento e alfabetização. Agentes com capital humano especializado tinham incentivos para economizar custos de transação colocalizando-se, dando origem a cidades e vilas.

Um sistema de seguro através do comércio também criou pressões quanto à distribuição de poder. Qualquer coisa que possa servir como unidade de conta, reserva de valor e meio de troca é um alvo atraente para apropriação. Uma entidade com poder policial que pudesse arbitrar direitos de propriedade e contrato entre agentes internos à sociedade, e que pudesse defendê-los contra sociedades vizinhas, era, portanto, necessária. O problema era que qualquer entidade com poder para realizar essas tarefas também era forte o suficiente para apropriar o excedente que deveria proteger. O seguro através do comércio, portanto, gerou uma tensão entre a necessidade de um governo forte e um governo limitado em sua autoridade e discrição. As instituições políticas que sustentavam uma economia de mercado – parlamentos, judiciários independentes – eram resultados endógenos de uma combinação complexa particular de dotações fatoriais.

3.5 Ecologias de Compartilhamento de Riscos (Risk-Pooling Ecologies) [§57–§58]

Como mudavam as dinâmicas que deram origem a uma Ecologia Transacional se secas espacial e temporalmente correlacionadas ocorriam com alta frequência? Quando todas as colheitas falhavam simultaneamente em toda uma hinterland por um período prolongado, não havia excedentes de colheitas escalonadas para comercializar; os agricultores tinham que depender de estoques que haviam acumulado em anos anteriores em antecipação a tais catástrofes. Um estoque, no entanto, incentivava comportamento oportunista e predatório. Por que o Agricultor A deveria limitar seu consumo hoje para poupar para amanhã, quando poderia apropriar-se do estoque do Agricultor B amanhã? Por que, então, o Agricultor B deveria poupar para amanhã, sabendo que seu estoque será apropriado pelo Agricultor A?

Uma solução para esse problema de coordenação é o compartilhamento de riscos – a criação de um estoque centralizado para o qual todos contribuem durante os bons tempos e fazem reivindicações durante os maus tempos. Sistemas de compartilhamento de riscos geram, no entanto, um clássico problema de bens públicos; os participantes têm incentivos para pegar carona. Assim, para ser viável, um sistema de compartilhamento de riscos precisa de poder policial para compelir o pagamento de prêmios. Também precisa de capacidade administrativa para acomodar reivindicações rapidamente durante os maus tempos; caso contrário, os agentes não terão incentivos para pagar prêmios durante os bons tempos.

Uma Ecologia de Compartilhamento de Riscos, portanto, gerou pressões e tensões que favoreceram a emergência de entidades com considerável poder coercitivo e autoridade administrativa. Ao contrário de uma Ecologia Transacional, onde era do interesse dos agentes descentralizar o poder para restringir a autoridade e discrição dos governantes, em uma Ecologia de Compartilhamento de Riscos era do interesse dos agentes centralizar o poder.

3.6 Classificação Naïve Bayes [§59–§60]

Para mostrar que as dotações fatoriais não variam ao longo de um único contínuo, mas tendem a formar agrupamentos, os autores usam um classificador Naïve Bayes. Os autores primeiro codificam manualmente 20 hinterlands canônicas nos quatro tipos de ecologia, e então deixam o algoritmo calcular a distribuição de probabilidade sobre o conjunto de quatro classes para todas as 163 hinterlands com base nos pesos de suas dotações fatoriais. O processo de classificação é realizado por uma distribuição probabilística sobre o conjunto de quatro classes: 135 das 163 hinterlands são colocadas em uma única classe com probabilidade maior que 95%, e 150 com probabilidade maior que 75%; não há hinterlands colocadas em mais de duas classes com probabilidade maior que 75%.

A Figura 4 exibe as classes de ecologia distribuídas sobre os mesmos eixos X e Y da Figura 3. Os autores codificam cada hinterland pela classe de ecologia com a maior probabilidade. A figura mostra que as classes de ecologia se distribuem ao longo das linhas hipotetizadas: Ecologias Autossuficientes agrupam-se no topo; Ecologias Pastorais no canto inferior esquerdo; e Ecologias de Compartilhamento de Riscos e Transacionais estão intercaladas no canto inferior direito.

4 Outlier Analysis (pp. 31–47)

4.1 Seleção de casos canônicos [§61]

As ecologias não são entidades reificadas com limites nítidos, mas contínuos; casos adjacentes podem ser apenas marginalmente diferentes, mas os extremos são bastante distintos. Uma maneira de testar as previsões da teoria contra evidências é focar em hinterlands nos extremos das distribuições de dotações fatoriais. Os autores selecionam quatro hinterlands como casos canônicos: N’shenge (Autossuficiente), Nova York (Transacional), Beijing (Compartilhamento de Riscos) e Ulaanbaatar (Pastoril). A Figura 5 apresenta um gráfico de barras mostrando os valores de suas variáveis de dotação fatorial.

4.2 A hinterland de N’shenge como Ecologia Autossuficiente [§62–§66]

A maior cidade em 1800 na atual República Democrática do Congo era N’shenge, capital do Reino Kuba. Aninhada entre os rios Sankuru, Lulua e Kasai, no ponto onde a grande floresta equatorial da África Centro-Ocidental encontra a savana seca do leste de Angola, a localização de N’shenge no interior do continente a colocava fora do comércio atlântico de escravos (Vansina, 1978:236; 2010:14-16). Essa localização permitia que os agricultores de N’shenge cultivassem anuais de baixa umidade nas regiões mais secas próximas à savana e perenes de alta umidade nas regiões mais úmidas próximas à floresta tropical. N’shenge estava aninhada entre três rios, mas não situada à beira-rio, e devido à alta endemicidade de tsé-tsé, os agricultores não podiam mover alimentos básicos para as margens dos rios usando carroças puxadas por cavalos ou bois. Esses fatores geraram uma hinterland muito pequena. Combinada à baixa produtividade de seus solos, a produção calórica potencial de N’shenge a partir de anuais de baixa umidade era aproximadamente seis, 200 e 700 vezes menor do que as hinterlands de Ulaanbaatar, Beijing e Nova York, respectivamente – mesmo antes de considerar os efeitos dos altos níveis de malária e tsé-tsé sobre a produtividade do trabalho. O clima quente e úmido de N’shenge dificultava o armazenamento; anuais de baixa umidade armazenadas em N’shenge deterioravam-se cerca de três vezes mais rápido do que em Nova York, seis vezes mais rápido do que em Beijing e 17 vezes mais rápido do que em Ulaanbaatar. Os agricultores de N’shenge podiam, no entanto, substituir anuais de baixa umidade por perenes de alta umidade com apenas 1% de perda na produção calórica, comparado a perdas de 60%, 83% e 95% em Ulaanbaatar, Nova York e Beijing, respectivamente.

As dotações fatoriais de N’shenge implicavam que seus agricultores não podiam garantir seguro contra secas frequentes – aproximadamente uma a cada 20 anos – estocando alimentos ou dependendo do comércio. Não surpreende que o registro histórico forneça evidência abundante sobre a existência de mercados para bens de luxo no Reino Kuba, mas seja silente quanto a mercados de alimentos (Vansina, 1978:187, 191). De fato, o rei Kuba e os numerosos titulares residentes em sua corte em N’shenge eram alimentados por aldeias obrigadas a transportar um suprimento contínuo de alimentos, não por comida comprada no mercado (Vansina, 1978:140, 184).

A corveia alimentar de N’shenge emergiu com o Intercâmbio Colombiano. Até a introdução de milho, batata-doce e mandioca do Novo Mundo, a região ao redor de N’shenge não podia sustentar uma grande população. Quando essas culturas substituíram milheto, sorgo, inhames e plátanos, a produtividade da terra e do trabalho saltou dramaticamente (Vansina, 1978:176, 236). Um resultado foi o aumento populacional; outro, que grupos etnolinguísticos foram incentivados a conquistar uns aos outros para escravizar ou sujeitar suas populações e apropriar-se de suas terras (Vansina, 1978:191). Os Bushong prevaleceram nessa competição, e o que fora uma sociedade de aldeias independentes tornou-se por volta de 1620 o Reino Kuba, governado por um rei Bushong com capital em N’shenge (Vansina, 1978:49).

Altos custos de transporte, baixa produtividade agrícola e dificuldade de armazenamento traduziram-se em baixo nível de desenvolvimento econômico. A unidade básica era a aldeia, com populações de 10 a 400 ocupantes, que se moviam a cada cinco anos porque os solos finos se esgotavam facilmente (Vansina, 1978:169). O reino era composto por aglomerados de assentamentos com grandes extensões desabitadas entre eles (Vansina, 2010:49). Embora o reino se estendesse por uma área de dois terços do tamanho da Bélgica, sua população totalizava apenas 120.000 a 160.000 pessoas, quase todas engajadas em agricultura de subsistência (Vansina, 1978:3). A única cidade de algum tamanho era N’shenge, com 5.000 a 10.000 habitantes.

Um sistema tributário baseado na apropriação de trabalho no contexto de uma população pequena implicava uma base tributária pequena e, portanto, capacidade limitada de centralizar autoridade política. O rei Kuba obtinha receita principalmente do monopólio real sobre o marfim, cuja alta razão valor/volume permitia comércio à distância (Vansina, 2010:30, 47). O baixo nível de centralização política é evidenciado pela estrutura decisória: o rei governava em consulta com conselhos compostos por mais de 100 titulares eleitos pelas aldeias Bushong; o parentesco colava o sistema político junto. O rei era o chefe de uma confederação de aldeias, não um monarca absoluto (Vansina, 2010:46-47).

Esse sistema econômico e político perdurou por mais de 250 anos, mas não gerou um mercado que pudesse coordenar, nem uma autoridade política centralizada que pudesse arquitetar, a rápida absorção das tecnologias da era moderna como um conjunto amplo. Quando uma pequena força belga chegou a N’shenge em 1900, rapidamente subjugou a cidade, forçou o reino a submeter-se ao domínio estrangeiro e inaugurou a tragédia do Estado Livre do Congo de Leopoldo II.

4.3 A hinterland de Nova York como Ecologia Transacional [§67–§73]

Os solos, clima e ambiente de doença da hinterland de Nova York eram os opostos dos de N’shenge. A hinterland de Nova York é interessante por duas razões adicionais. Primeiro, seu sistema agrícola por volta de 1800 era produto do Intercâmbio Colombiano. Antes do contato europeu, não havia animais de tração para puxar barcaças, arar campos ou puxar carroças, nem barcos movidos a vento, nem ferramentas de ferro para limpar as florestas de madeira de lei da região, nem trigo, aveia, cevada ou centeio para semear. Também não havia tuberculose, cólera, influenza, sarampo ou varíola. O Intercâmbio Colombiano resultou em um aumento dramático na produtividade agrícola e no dizimamento da população nativa americana.

Segundo, as estruturas políticas iniciais da hinterland de Nova York não foram estabelecidas com o objetivo de criar uma sociedade democrática. Jaime, Duque de York, irmão do Rei Carlos II, financiou a captura de Nova Holanda dos holandeses com o objetivo de recriar o sistema senhorial inglês. O que fora Nova Holanda foi concedido a Jaime como colônia proprietária, tornando-o essencialmente um monarca em seu próprio domínio. Jaime, por sua vez, vendeu a atual Nova Jersey a dois amigos, Lord Berkeley e Sir George Carteret, que já eram Lordes Proprietários da Carolina. O que é hoje o leste da Pensilvânia e Delaware foi concedido a William Penn como propriedade. A porção sul da hinterland de Nova York – o atual estado de Maryland – já era uma colônia proprietária administrada por Cecil Calvert, 2º Barão Baltimore, que recebera a concessão de Carlos I em 1632.

A visão senhorial dos Lordes Proprietários rapidamente se mostrou incompatível com os incentivos gerados pelas dotações fatoriais da hinterland de Nova York. Uma vez que suas florestas de madeira de lei foram desmatadas e a terra arada por pesados arados, a hinterland de Nova York possuía imensas quantidades de terra adequada para trigo, centeio, aveia, cevada e milho. Cultivar essas culturas não era atraente para os cavalheiros que os Lordes Proprietários esperavam que estabelecessem solares rurais, mas era atraente para agricultores livres que podiam reivindicar a propriedade plena da terra que cultivavam. O sistema de “headright” adotado para incentivar a imigração concedia 50 hectares de terra para cada pessoa trazida à colônia. Os Lordes Proprietários recebiam um “quitrent” anual dos concessionários (Land, 1981:25).

Em algumas colônias, como Maryland, Nova Jersey e Pensilvânia, a resistência das assembleias coloniais ao Lorde Proprietário ocorreu quase imediatamente (Land, 1981; Murrin, 1984). A carta inicial para Nova York não incluía uma assembleia colonial, mas os agricultores agitaram por uma e foram bem-sucedidos em 1691. Restrições formais ao sufrágio começaram a ser estabelecidas no final do século XVII, mas não eram onerosas (Morgan, 1975:145). O sufrágio masculino adulto era generalizado; 40 a 50% dos colonos brancos do sexo masculino do início do século XVIII eram elegíveis para votar nas assembleias coloniais da região do Médio Atlântico (Keysaar, 2000:7). Dados do primeiro censo populacional dos EUA em 1790 mostram que escravos representavam 1% da população na hinterland de Nova York.

Os excedentes agrícolas da hinterland de Nova York financiaram a emergência de especialistas em comércio, finanças e manufatura. No início do século XVIII, a região tinha “comerciantes no pleno sentido do termo: possuindo e administrando navios, fornecendo serviços bancários e de seguros para outros negociantes, financiando indústrias locais e comprando e vendendo em uma multitude de mercados diferentes” (Vickers, 1996:230). A industrialização estava bem encaminhada em meados do século XVIII; serrarias, moinhos de grãos, fábricas de papel, tecelagens, cervejarias, destilarias, curtumes e fundições de ferro pontilhavam a região (Scranton, 1983:75-83). A colocalização de comerciantes e manufatureiros deu origem a cidades crescentes; o primeiro censo dos EUA em 1790 mostrou 21 cidades e vilas com pelo menos 2.500 habitantes na hinterland de Nova York.

Uma característica marcante da população da hinterland de Nova York era seu investimento em capital humano específico para transações; o nível de alfabetização era provavelmente o mais alto do mundo (Galenson, 1996). Não surpreende que essa sociedade independente, comercialmente orientada e alfabetizada tenha dado origem à primeira rebelião bem-sucedida do mundo contra o domínio colonial britânico.

Também não surpreende que a sociedade que emergiu na hinterland de Nova York tenha absorvido rapidamente o amplo conjunto de tecnologias da era moderna. Bancos por ações foram estabelecidos no início da década de 1780, incluindo o Bank of North America, o Massachusetts Bank e o Bank of New York. Esses bancos foram seguidos pela fundação das bolsas de valores da Filadélfia e de Nova York para negociar suas ações, bem como as de outras empresas. Novas tecnologias legais também foram absorvidas, mais particularmente o U.S. Patent Act de 1793, que melhorou o sistema britânico de patentes simplificando o processo de obtenção de patente e reduzindo os custos para 5% do nível britânico (Khan, 2008). Manufatureiros, artesãos e comerciantes na hinterland de Nova York criaram, por ato da legislatura do Estado de Nova York, a primeira lei geral de incorporação do mundo em 1811 (Seavoy, 1972). Artesãos também conseguiram tornar a manufatura de peças intercambiáveis – um conceito francês, empregado pelos britânicos para fazer polias de madeira – uma realidade prática. A invenção de gabaritos e fresadoras para cortar metal com tolerâncias precisas veio de oficinas em Connecticut, Rhode Island, Nova York e Pensilvânia na década de 1810. A combinação de peças intercambiáveis e produção em massa veio a ser conhecida como o “sistema americano” e serviu como modelo para a industrialização do final do século XIX ao redor do mundo (Engerman & Sokoloff, 2000).

4.4 A hinterland de Beijing como Ecologia de Compartilhamento de Riscos [§74–§82]

A hinterland de Beijing era muito mais semelhante à de Nova York do que à de N’shenge, com uma exceção: era altamente sujeita a secas espacial e temporalmente correlacionadas. O registro arquivístico é consistente com os dados: crises de mortalidade induzidas por seca na Planície do Norte da China eram consideradas ocorrências regulares e inevitáveis (Li, 2007:5, 24-25, 33).

Não é difícil encontrar evidência de um sistema político e econômico de Compartilhamento de Riscos. O conceito do “Mandato do Céu” data da dinastia Zhou Ocidental (1045-771 AEC). Compras governamentais de grãos e a venda ou empréstimo a preços reduzidos desses estoques ao público quando secas ou inundações causavam aumento de preços começaram no período dos Reinos Combatentes (século V AEC). Durante a dinastia Sui (581-618 EC), o Estado estabeleceu um sistema imperial de celeiros de alívio à fome. Os Sui também construíram o Grande Canal para ligar sua capital Luoyang com a região produtora de arroz do baixo Vale do Yangtzé ao sul. O canal foi ampliado durante a dinastia Yuan (1271-1368 EC) para que o arroz pudesse ser transportado por 1.200 milhas até a capital Yuan, Beijing (Von Glahn, 2016:55, 178, 183-84; Li, 2007:15-16).

Esse sistema de seguro administrado pelo Estado gerava excedente que podia facilmente ser direcionado ao consumo de luxo pelas elites políticas, criando assim um alvo para apropriação pelos povos nômades e seminômades da Mongólia e Manchúria. A tecnologia militar da estepe, o arqueiro montado, provou-se tão superior à infantaria no terreno plano e aberto da planície do Norte da China que as dinastias chinesas do século III AEC ao século XVII EC foram forçadas a “comprar a paz” pagando tributo às confederações pastoris em sua fronteira norte. Exércitos Xianbei, Jurchen e Mongóis invadiram a China e estabeleceram dinastias imperiais próprias em cinco ocasiões: Wei do Norte (386-534 EC), Liao (916-1125 EC), Jurchen Jin (1115-1234 EC), Yuan (1271-1368 EC) e Qing (1644-1911 EC). Ao fazê-lo, transformaram-se de extorsionários militares em governantes coletores de impostos não muito diferentes das dinastias Han que substituíram.

Até a conquista da Mongólia pela China no final do século XVIII – e com a notável exceção da dinastia Yuan, que era parte do Império Mongol – todas as dinastias chinesas enfrentaram o mesmo problema estratégico de invasão por pastoralistas, e todas chegaram à mesma solução: um muro ao longo da fronteira norte. Ao final da dinastia Ming (1368-1644 EC), a Grande Muralha era uma estrutura de 3.900 milhas com milhares de torres de vigia guarnecidas por 600.000 tropas. O exército da França em tempos de paz nessa época – o maior exército permanente da Europa – contava com 22.000 homens (Robinson, 2017a:303, 318-19). Os requisitos de provisionamento dessa força eram imensos. Os governos chineses atendiam parte da demanda alimentar criando fazendas militares; terras estatais eram alocadas a soldados em troca de uma parte do grão produzido. A dinastia Yuan expandiu esse sistema criando lares militares hereditários. Na dinastia Ming, esse sistema respondia por 10 a 20% de todos os lares registrados (Robinson, 2017a).

O crescimento populacional exigiu que a dinastia Ming estendesse o sistema de aquisição governamental de grãos para cobrir a população civil. Financiou essas compras vendendo títulos oficiais, graus da academia nacional imperial e outros privilégios, além de cobrar impostos sobre o arroz. Em meados do século XV, 11.775 barcaças tripuladas por 121.500 oficiais e soldados transportavam o arroz tributado do Vale do Yangtzé para Beijing pelo Grande Canal (Perkins, 1998:188).

A dinastia Qing (1644-1911 EC) enfrentou pressões semelhantes: uma população de 150 milhões em 1700 inchou para 300 milhões em 1800 (Li, 2007:3). Os Qing responderam com uma expansão do sistema de celeiros públicos. Como Will e Wong (1991) mostram, o sistema de celeiros “sempre normal” dos Qing era incrivelmente sofisticado; construía celeiros em nível de condado, cobrava impostos em grãos, vendia estoques mais antigos para evitar deterioração, conduzia auditorias anuais e coletava informações sobre preços de grãos e clima para prever escassez. Estimativas do volume de grãos comandado por instrumentos governamentais no século XVIII variam de 20% do grão distribuído pelo mercado (Rowe, 2002:479, 512) a 5-10% da produção total de grãos alimentícios (Myers & Wang, 2002:602). Shiue (2004:105) estima que na década de 1750 os estoques anuais civis de grãos somavam em média 1,5 bilhão de litros de arroz descascado, equivalente a um quinto da receita do governo.

A lógica inerente a esse sistema de compartilhamento de riscos administrado pelo governo exigia que ele reprimisse intermediários do mercado privado; oportunidades de arbitragem por agentes privados eram efetivamente eliminadas. Como Li (2007:161-164, 175-180) documenta, oficiais do governo forçavam comerciantes a vender seu grão aos celeiros estatais a preços abaixo do mercado e limitavam o tamanho e a localização das lojas de grãos.

O sistema que emergiu – produção intensiva em trabalho por pequenos agricultores com direitos de usufruto à terra, tributação em grãos, compra adicional de grãos por agentes governamentais, armazenamento em celeiros governamentais, repressão de comerciantes privados de grãos e suavização de choques de oferta por meio de empréstimos, doações e vendas a preços abaixo do mercado – implicava um alto grau de centralização política. A China não tinha assembleias representativas nem votação de qualquer tipo. Havia um imperador, escolhido por regras de sucessão dinástica, e sua corte. Nas províncias, governadores nomeados pelo imperador serviam como vice-reis. Uma burocracia de prefeitos, magistrados e seus funcionários reportava-se ao governador, recrutava homens para o serviço militar, coletava impostos sobre a produção agrícola e mantinha o controle do grão armazenado.

Esse sistema serviu bem à China no sentido de permitir uma grande população, manter a estabilidade social e permitir o florescimento de uma alta cultura urbana, mas veio a um custo para a taxa de crescimento econômico. Durante a dinastia Song (960-1279 EC), uma economia comercial crescente impulsionou inúmeras inovações, como o uso de carvão na fundição de ferro e aço, relógios movidos a água, pólvora e canhão. O fardo fiscal de defender a China contra invasões Jurchen e Mongóis no final dos Song, no entanto, desacelerou o ritmo dessa revolução comercial. A dinastia Yuan então a interrompeu expandindo o número de monopólios governamentais, aumentando a tributação e induzindo uma hiperinflação através da emissão de moeda fiduciária (Rosabi, 1994). Imperadores Ming continuaram a sufocar a economia comercial. Em 1371, o primeiro imperador Ming decretou que todo comércio exterior deveria ser conduzido por “missões de tributo” oficiais; o comércio exterior privado era punível com morte. Entre 1613 e 1684, o governo proibiu o comércio costeiro mesmo entre chineses ao norte e ao sul do Rio Yangtzé, com o objetivo de forçar todo o comércio Norte-Sul através do Grande Canal, onde poderia ser tributado (Myers & Wang, 2002:587).

A história do mercado de certificados de sal, explorada por Faure (2006), fornece um exemplo de como os imperadores Ming predavam os mercados. No final do século XV, o imperador hipotecou seu monopólio sobre a produção de sal para financiar o transporte de arroz do baixo Vale do Yangtzé para as tropas que protegiam a fronteira norte. Comerciantes do baixo Yangtzé especializados em transporte de grãos recebiam um certificado de sal na entrega do arroz ao norte, que então vendiam a comerciantes especializados em distribuição de sal. Os certificados de sal tornaram-se, na prática, um título do governo com preço de mercado. Precisamente porque eram valiosos, o governo concedia certificados a membros da corte imperial sem exigir que transportassem grão algum. Em 1617, o imperador aboliu os certificados completamente, efetivamente dando calote na dívida nacional.

Há debate entre historiadores chineses sobre o grau em que as políticas Ming que reprimiam a empresa privada continuaram durante a última dinastia da China, a Qing (1644-1911). Uma visão sustenta que as políticas da era Qing eram semelhantes às dos Ming: o sistema de celeiros de compartilhamento de riscos impedia a emergência de comerciantes de grãos de grande escala (Li, 2007); o imperador desencorajava a emergência de uma classe mercantil robusta e independente forçando todo comércio exterior a passar por Cantão, onde era manuseado por guildas mercantis com direitos exclusivos (Meyers & Wang, 2002); e um sistema legal construído em torno da ideia de que empresas eram extensões de famílias limitava a mobilização de fontes impessoais de capital (Kirby, 1995; Faure, 2006). Outra visão é que os Qing eram muito mais amigáveis à empresa privada: restrições ao comércio de commodities foram relaxadas ao longo do tempo (Zhang, 2021); o zihao (entidade similar a uma sociedade de responsabilidade limitada) mobilizava fontes impessoais de capital para casas comerciais multi-filiais, bancos, cervejarias e operações de mineração de sal (Zelin, 1988, 2006, 2019); e trustes de linhagem frequentemente atuavam como investidores institucionais (Pomeranz, 1997; Miller, 2020; Zhang, 2021). Além disso, como Lowenstein (2021) mostra, a economia Qing ostentava uma ampla gama de bancos privados.

Há, no entanto, um conjunto de fatos sobre os quais não há debate, e eles apontam para uma economia de crescimento lento e uma resposta bastante limitada ao desafio da modernidade. As melhores estimativas sugerem que o PIB per capita da China caiu cerca de 40% de 1700 a 1850, ponto em que era apenas um quinto do da Grã-Bretanha (Broadberry, Guan, & Li, 2018). Essa divergência no desenvolvimento econômico refletiu-se em derrotas esmagadoras nas Guerras do Ópio de 1839-42 e 1856-60. Essas perdas induziram as elites chinesas a tomar nota do amplo conjunto de novas tecnologias que compreendiam a modernidade. O “Movimento de Autofortalecimento” da China foi, no entanto, perfunctório quando comparado à resposta do Japão. O Japão Meiji adotou o sistema de patentes dos EUA (Kahn, 2008), o sistema bancário britânico (Calomiris & Haber, 2014), o direito civil e societário alemão (Kirby, 1995), a organização militar alemã (Ravina, 2017) e o governo parlamentar no modelo alemão (Ramseyer & Rosenbluth, 1998). A China construiu algumas fábricas, principalmente voltadas para a produção de armamentos. O desenvolvimento industrial em larga escala foi contido pela doutrina Qing de “supervisão oficial e gestão mercantil”, sob a qual atores privados deveriam fornecer o capital e assumir todo o risco, mas “eram obrigados a trabalhar sob o polegar de oficiais governamentais supervisores que frequentemente seguiam suas próprias agendas de negócios, não necessariamente dirigidas pelo governo, e que introduziam subornos, corrupção e gestão inflexível nessas empresas” (Goetzmann & Koll, 2005). Ferrovias foram ativamente desencorajadas; a construção ferroviária só começou na década de 1890, seis décadas após as primeiras linhas terem sido assentadas na Grã-Bretanha, Estados Unidos, Bélgica, França e Alemanha. A reforma do sistema educacional da China foi similarmente tímida; o sistema fora moldado ao longo de séculos para treinar jovens para serem burocratas imperiais, com ênfase na preparação para um exame de três dias sobre “os Quatro Livros e Cinco Clássicos do Confucionismo” (Ferguson, 2011:43). Em vez de ampla reforma educacional, o governo chinês enviou 120 estudantes para estudar nos Estados Unidos em 1872, chamando-os de volta três anos depois por se tornarem excessivamente familiarizados com ideias políticas ocidentais (Kuo, 1978). Subjacente a todos esses passos em falso estava um sistema decisório que dependia de um grau muito alto de competência de um grupo muito pequeno de pessoas governando uma entidade política muito grande. O resultado foi uma série de rebeliões internas, derrota na Guerra Sino-Japonesa de 1894-95 e a derrubada do sistema dinástico em 1911.

4.5 A hinterland de Ulaanbaatar como Ecologia Pastoril [§83–§87]

Poucas ecologias pastoris sobreviveram ao desafio da modernidade; a maioria foi conquistada e absorvida pelos Estados-nação baseados em ecologias transacionais ou de compartilhamento de riscos que emergiram em suas fronteiras. O conjunto de dados fornece alguns exemplos de países atuais que emergiram de ecologias pastoris, um dos quais é a Mongólia, cuja maior cidade em 1800 era Ulaanbaatar.

Ulaanbaatar foi fundada em 1639 como um centro monástico budista móvel baseado em yurts, e só se tornou um assentamento permanente em 1778, quando o centro monástico se estabeleceu na cidade de Khuriye, que emergira como um ponto de parada para comerciantes ao longo da Rota do Chá conectando as áreas produtoras de peles da Rússia com os mercados de seda e chá da China. Sua localização na borda do Deserto de Gobi a tornava um lugar conveniente para caravanas descarregarem cargas de cavalos para camelos. A proximidade com a montanha Bogd Khan ao sul protegia-a dos ventos frios do inverno, enquanto as florestas ao norte forneciam madeira. Sua localização perto da confluência dos rios Tuul e Selbe fornecia fonte de água e possibilitava alguma agricultura (Christian, 2018:293, 297) – embora a hinterland de Ulaanbaatar pudesse produzir apenas quantidades triviais de alimentos básicos agrícolas. A principal fonte de calorias vinha do gado, especialmente ovelhas, que podiam digerir uma ampla variedade de gramíneas, reproduziam-se rapidamente e forneciam leite e carne para alimentação, lã para vestuário e tendas, e esterco para combustível (Barfield, 1989:20-21). O resultado foi uma hinterland caracterizada por baixa densidade populacional; por volta de 1820, Ulaanbaatar tinha apenas 7.000 habitantes (Christian, 2018:293, 297).

A unidade social básica que emergiu na hinterland de Ulaanbaatar – e em outros lugares no Planalto Mongol – era uma família extensa de pastores. Embora houvesse propriedade privada de animais, não era possível para uma única pessoa cuidar de rebanhos separados de pequeno e grande porte simultaneamente. Animais de espécies similares eram, portanto, combinados em rebanhos maiores que eram manejados coletivamente. Um grupo também estava mais apto a proteger os rebanhos de roubo e a fazer valer reivindicações sobre o uso de pastagens específicas em épocas específicas do ano. Tanto mulheres quanto homens desenvolveram notável proficiência com arco e flecha (Barfield, 1989:24-25).

O sistema político refletia a estrutura social baseada em parentesco. Acampamentos agregavam-se em clãs e clãs em tribos através de descendência patrilinear. A autoridade política era função da proximidade genealógica ao ancestral masculino comum, e disputas internas eram resolvidas com base em uma complexa carta genealógica. Disputas com outras tribos eram resolvidas por violência coletiva; a pertença a um clã ou tribo vinha com obrigações militares (Barfield, 1989:26-27).

Esse sistema político tendia a ser instável: irmãos de baixo status tinham incentivos para assassinar irmãos mais velhos; homens de baixo status, mas carismáticos, tinham incentivos para criar seus próprios seguidores; e clãs de baixo status tinham incentivos para desertar para outras tribos fabricando laços genealógicos fictícios. A instabilidade provou ser um problema ainda maior na formação de confederações estáveis de tribos (Christian, 2018:293, 297). O Império Mongol criado por Genghis Khan e seus descendentes nos séculos XIII e XIV – o maior império territorial da história mundial – é uma exceção que prova a regra. O império não foi moldado a partir de uma confederação tribal; Genghis Khan destruiu os laços tribais existentes e construiu uma organização baseada em seguidores pessoais (Barfield, 1989:188-97).

A instabilidade inerente dificultou que as tribos mongóis coordenassem uma resposta social ampla à ameaça representada pelas crescentes ecologias de compartilhamento de riscos a noroeste e sudeste, os impérios Russo e Chinês. Melhorias graduais em armas de fogo e artilharia durante os séculos XVI e XVII erodiram as vantagens militares da arqueiria montada mongol – tanto que quando a fronteira entre Mongólia e Rússia foi estabelecida pelo Tratado de Kiakhta em 1727, seus signatários foram emissários do Tsar Pedro, o Grande, e do Imperador Yongzheng da dinastia Qing; os mongóis não foram representados (Perdue, 2005). Esse mesmo tratado também regulava o comércio ao longo da Rota do Chá, sem o qual Ulaanbaatar não teria emergido como uma cidade de caravanas.

A emergência da Mongólia como Estado-nação no século XX, com Ulaanbaatar como capital, foi, de fato, um subproduto de sua localização entre China e Rússia. A Mongólia foi conquistada pela dinastia Qing no século XVIII. O colapso do sistema dinástico chinês em 1911 criou, no entanto, uma oportunidade para nacionalistas mongóis declararem independência. Exércitos chineses enviados para recapturar a Mongólia em 1919 foram repelidos com a ajuda de forças russas, que então arquitetaram a criação de um Estado satélite pró-soviético, a República Popular da Mongólia (Christian, 2018).

5 Statistical Tests (pp. 47–64)

5.1 Níveis atuais de desenvolvimento econômico: Regressões Naïve Bayes [§88–§90]

Uma implicação da teoria é que os países que cresceram a partir de hinterlands de maior cidade com ecologias transacionais deveriam ser mais prósperos do que todos os outros. Também deveria ser o caso que países que emergiram de ecologias de compartilhamento de riscos deveriam ser mais prósperos do que aqueles que emergiram de ecologias autossuficientes ou pastoris.

Um teste dessa hipótese é estimar o efeito médio de estar em uma classificação de ecologia em vez de outra. Um desafio é que as ecologias não são entidades reificadas com limites nítidos; são contínuos. Os autores, portanto, executam uma série de regressões OLS que estimam o efeito médio de estar em cada tipo de ecologia, nas quais as classificações de cada hinterland variam com base nas probabilidades atribuídas pelo algoritmo Naïve Bayes. Executam 10.000 iterações para cada modelo, de modo que uma observação como Copenhague, Dinamarca, que o algoritmo classifica como transacional com 100% de probabilidade, entra em todas as 10.000 iterações como transacional, enquanto uma observação como Potosí, Bolívia, que o algoritmo classifica como pastoril com 70% de probabilidade e compartilhamento de riscos com 30%, entra em 7.000 iterações como pastoril e 3.000 como compartilhamento de riscos. Essa abordagem, denominada regressão Naïve Bayes, gera uma estimativa do efeito médio de estar em uma das quatro classificações de ecologia, um erro padrão robusto médio para cada coeficiente e um R² ajustado médio ao longo das 10.000 iterações.

A Tabela 1 apresenta os resultados desse procedimento onde a variável dependente é o log do PIB per capita, e cada coluna representa os resultados para os anos 2014, 2000 e 1990. As variáveis independentes são dummies para ecologias Transacional, Compartilhamento de Riscos e Pastoril (ecologias Autossuficientes são a categoria de referência, capturada pelo intercepto). São mostrados dois resultados para cada ano, um incluindo o log natural da produção de petróleo per capita na década anterior e outro sem esse controle.

Os resultados são amplamente consistentes com as previsões. Focando na especificação que inclui produção de petróleo per capita, o coeficiente para Transacional é aproximadamente 1,6 a 1,8 pontos de log natural (dependendo do ano) acima do coeficiente do grupo de referência (Autossuficiente) de 7,5 a 8,7, e é estatisticamente significativo a 1%. O coeficiente para Compartilhamento de Riscos é aproximadamente 0,5 a 0,6 pontos de log acima do coeficiente do grupo de referência e é estatisticamente significativo a 5%. Convertendo logs para números naturais: o PIB per capita médio em 2014 para um país não produtor de petróleo que emergiu de uma Ecologia Autossuficiente é de $3.562 (dólares de 1990), enquanto o de uma Ecologia Pastoril é $4.573, o de uma Ecologia de Compartilhamento de Riscos é $5.943, e o de uma Ecologia Transacional é $17.275. O coeficiente para Compartilhamento de Riscos, embora de maior magnitude, não é estatisticamente diferente do de Pastoril em níveis convencionais de significância.

5.2 Níveis atuais de desenvolvimento econômico: Random Forests [§91–§93]

Uma limitação da regressão Naïve Bayes é que ela impõe uma estrutura aos dados. Os autores, portanto, empregam uma Random Forest, um método de aprendizado de máquina ensemble, que permite ser agnóstico quanto às distribuições das variáveis e à forma funcional. Estimam a Random Forest sobre os valores contínuos das variáveis para cada ano duas vezes – uma incluindo produção de petróleo per capita na década anterior e outra sem esse controle.

Os resultados, exibidos na Tabela 2, indicam que o vetor de variáveis ecológicas exógenas relacionadas à hinterland da maior cidade em 1800 responde por aproximadamente metade a três quintos da variância no PIB per capita entre países nas décadas recentes. A inclusão da variável de petróleo per capita melhora o ajuste do modelo, conforme medido pelo declínio no erro quadrático médio out-of-bag. As VIMs (Variable Importance Measures) para cada modelo, reportadas no Apêndice I, indicam que todas as variáveis contribuem para o resultado.

A Figura 6 apresenta os valores preditos pela Random Forest (usando o modelo que inclui petróleo per capita) contra os valores observados (reais) para o log do PIB per capita em 2014, colorindo cada observação com base no tipo de ecologia dominante do classificador Naïve Bayes. Há duas características notáveis na Figura 6. A primeira é que a maioria das observações cai próxima à linha de regressão. A segunda é que a Random Forest e a regressão Naïve Bayes produzem resultados amplamente similares. Exceto por um pequeno número de países que emergiram de ecologias pastoris e produzem quantidades prodigiosas de petróleo per capita (ex.: Qatar), os países que se agrupam nos níveis mais altos de desenvolvimento econômico predito e observado tendem a ser classificados como Transacionais pelo algoritmo Naïve Bayes. Os países que se agrupam nos níveis mais baixos tendem a ser classificados como Autossuficientes ou Pastoris, enquanto os países classificados como Compartilhamento de Riscos tendem a se agrupar entre os dois extremos.

5.3 Desenvolvimento econômico ao longo do tempo: Regressões Naïve Bayes [§94–§95]

As séries de PIB que fornecem cobertura transversal antes de 1950 tendem a ser de confiabilidade duvidosa, enquanto aquelas com cobertura de 1950 a 1990 tendem a ser caracterizadas por missingness não aleatório. Os autores, portanto, empregam as razões de urbanização que desenvolvem no Apêndice A, cobrindo 1500, 1600, 1700, 1800, 1850, 1900, 1950 e 2000, nos modelos.

A Tabela 3 e a Figura 7 (com a especificação que controla para produção de petróleo per capita e testes t bicaudais para estimar intervalos de confiança de 95%) revelam três padrões. Primeiro, em 1500, não há diferenças estatisticamente significativas nos níveis de desenvolvimento entre os tipos de ecologia. Em 1600 e 1700, países que emergiram de ecologias transacionais exibem níveis mais altos de desenvolvimento do que o grupo de referência (Autossuficientes) e do que países que emergiram de ecologias pastoris, mas não são estatisticamente diferentes das ecologias de compartilhamento de riscos. Em 1800, países que emergiram de ecologias transacionais exibem níveis mais altos de desenvolvimento do que países que emergiram de todos os tipos de ecologia – uma divergência que cresce em magnitude ao longo do tempo. Crucialmente, países que emergiram de ecologias de compartilhamento de riscos exibem níveis mais altos de desenvolvimento do que o grupo de referência (Autossuficientes) em 1850, 1900 e 1950 – isto é, durante o período após o choque tecnológico da modernidade. A diferença entre países de ecologias de compartilhamento de riscos e pastoris só atinge níveis convencionais de significância em 1850.

5.4 Desenvolvimento econômico ao longo do tempo: Random Forests [§96–§97]

A Tabela 4 apresenta os resultados da Random Forest para as razões de urbanização ao longo do tempo. Os resultados são materialmente similares aos obtidos com regressões Naïve Bayes. A Random Forest indica que o vetor de dotações fatoriais ecológicas responde por menos de 10% da variância nos níveis de desenvolvimento em 1500, 1600 e 1700. Em 1800, no entanto, essas dotações fatoriais respondem por 10% da variância, e então saltam para 34% em 1850, 25% em 1900, 43% em 1950 e 33% em 2000. Quando os dados de cada cross-section são grafados seguindo o mesmo procedimento da Figura 6 para validar cruzadamente os resultados da Random Forest e do classificador Naïve Bayes, os autores encontram que, exceto por países que produzem quantidades prodigiosas de petróleo per capita, os países classificados como Transacionais tendem a se agrupar nos níveis mais altos de desenvolvimento econômico em 1950 e 2000, os países classificados como Autossuficientes ou Pastorais tendem a se agrupar nos níveis mais baixos, e os países classificados como Compartilhamento de Riscos caem entre os outros grupos. Esse padrão se deteriora progressivamente quando os dados são grafados para cross-sections anteriores, de modo que não há padrão claro antes de 1800.

5.5 Absorção tecnológica, mercados e capital humano [§98–§100]

Para que o arcabouço se sustente, é necessário mostrar que países que emergiram de ecologias transacionais estavam mais bem preparados por volta de 1800 para absorver as tecnologias da era moderna como um conjunto amplo porque uma rede de mercados havia emergido endogenamente para coordenar as atividades de agentes que haviam sido incentivados a investir em capital humano específico para transações. Também é necessário mostrar que países que emergiram de ecologias de compartilhamento de riscos estavam mais bem preparados do que aqueles que emergiram de ecologias pastoris ou autossuficientes – mas não porque uma rede de mercados havia emergido endogenamente ou porque os agentes haviam investido em capital humano específico para transações.

Os autores estimam regressões Naïve Bayes sobre variáveis que proxyam o crescimento dos mercados de 1500 a 1800, investimentos em capital humano relacionado a transações por volta de 1800 e a taxa de absorção de tecnologias pós-1800. O crescimento dos mercados é estimado de duas maneiras: o número de novas cidades e vilas secundárias com pelo menos 20.000 habitantes que emergiram entre 1500 e 1800 dentro da hinterland da maior cidade de cada país; e a mudança na população dessas novas cidades e vilas de 1500 a 1800. Os investimentos em capital humano relacionado a transações são estimados empregando duas medidas diferentes: o Índice de Whipple para 1820 de Crayen e Baten (2010) como medida de numeramento; e a porcentagem da população matriculada na escola primária em 1820 de Lee e Lee (2016). A taxa de absorção de tecnologias modernas é operacionalizada estimando o ano em que os países começaram a operar uma rede ferroviária de pelo menos 250 quilômetros dentro de suas fronteiras atuais, expandindo dados de Comin e Hobijn (2009).

A Tabela 5 apresenta os resultados das regressões Naïve Bayes. Primeiro, os resultados indicam crescimento mais rápido de mercados em hinterlands com ecologias transacionais. A hinterland média com ecologia transacional adicionou quase três cidades secundárias ao longo do período 1500-1800, enquanto o número de cidades secundárias que emergiram em hinterlands pastoris, de compartilhamento de riscos e autossuficientes não foi estatisticamente diferente de zero. Resultados materialmente similares são obtidos quando se substitui o crescimento populacional das cidades secundárias como variável dependente.

Segundo, investimentos em capital humano relacionado a transações, medidos pela porcentagem da população matriculada na escola primária, foram significativamente mais altos em países que emergiram de ecologias transacionais, comparados a países que emergiram de ecologias pastoris, de compartilhamento de riscos e autossuficientes. O efeito é de grande magnitude: aproximadamente 22 pontos percentuais mais alto. Os resultados para o Índice de Whipple não apontam para a mesma conclusão, no entanto; não há diferença entre os tipos de ecologia, um resultado que os autores atribuem ao pequeno número de observações.

Finalmente, países que emergiram de ecologias transacionais absorveram a ferrovia 41 anos mais cedo, em média, do que países que emergiram de ecologias pastoris (grupo de referência). Países que emergiram de ecologias de compartilhamento de riscos absorveram a ferrovia mais lentamente do que aqueles que emergiram de ecologias transacionais (aproximadamente 25 anos mais tarde, significativo a 5%), mas ainda mais rápido do que aqueles que emergiram de ecologias pastoris ou autossuficientes (aproximadamente 16 anos mais cedo, significativo a 5%). Os dados são consistentes com as previsões.

5.6 Consolidação democrática: Regressões Naïve Bayes [§101–§102]

O arcabouço faz previsões nítidas sobre a consolidação da democracia. Países que emergiram de ecologias transacionais deveriam ser mais democráticos hoje do que aqueles que emergiram de ecologias de compartilhamento de riscos, autossuficientes ou pastoris. Além disso, essa diferença deveria emergir ao longo do tempo. Finalmente, o nível de consolidação democrática de países que emergiram de ecologias de compartilhamento de riscos não deveria ser mais alto do que o de países que emergiram de ecologias autossuficientes e pastoris, mesmo que exibam níveis mais altos de desenvolvimento econômico.

Os autores operacionalizam o nível de consolidação democrática combinando duas variáveis do conjunto de dados Polity IV: Polity2 (uma medida do nível de democracia/autocracia) e Durable (o número de anos desde a mudança de regime mais recente), que é convertido em logs naturais e adicionado a Polity2 quando este atinge o limiar para democracia (valor de 7). A medida, Durable Polity, captura tanto diferenças transversais em instituições democráticas quanto o tempo que um país tem sido democrático. A cobertura do Polity IV só existe desde 1800, e até 1850 há muito poucos países reportantes. Os modelos são estimados para 1850, 1900, 1960, 2000 e 2017.

A Tabela 6 e a Figura 8 apresentam os resultados das regressões Naïve Bayes. Eles revelam quatro padrões. Primeiro, em 1850 e 1900, o nível de consolidação democrática em países que emergiram de ecologias transacionais não é diferente daqueles que emergiram de outros tipos de ecologia. Segundo, em 1960, 2000 e 2017, países que emergiram de ecologias transacionais demonstram níveis muito mais altos de consolidação democrática do que todos os outros. A média estimada de Transacional em 2000 de 10,6 (coeficiente Transacional mais intercepto) é aproximadamente o dobro das outras médias estimadas. Terceiro, os coeficientes para países que emergiram de ecologias de compartilhamento de riscos nunca são estatisticamente diferentes da categoria de referência (Autossuficientes).

5.7 Consolidação democrática: Random Forests [§103–§104]

A Tabela 7 apresenta os resultados da Random Forest para Durable Polity ao longo do tempo. Os resultados são materialmente similares aos obtidos com regressões Naïve Bayes. A Random Forest indica que o vetor de dotações fatoriais ecológicas responde por virtualmente nada da variância nos níveis de Durable Polity em 1850, mas então responde por progressivamente mais ao longo do tempo – 20% em 1900, 21% em 1960, 29% em 2000 e 27% em 2017.

As Figuras 9A e 9B apresentam os valores preditos pela Random Forest contra os valores observados para Durable Polity em 1850 e 2017, respectivamente, colorindo cada observação com base no tipo de ecologia dominante do classificador Naïve Bayes. Elas indicam que as variáveis ecológicas fazem um trabalho muito melhor explicando a variância nos níveis de consolidação democrática em 2017 do que em 1850, e que os países classificados como Transacionais se agrupam nos níveis mais altos de consolidação democrática tanto observada quanto predita em 2017, mas não em 1850.

5.8 A geografia do “Novo Imperialismo” [§105–§106]

Os historiadores dividem a história do imperialismo em dois períodos. No primeiro, de aproximadamente 1500 a 1800, Espanha, Portugal, Suécia, Países Baixos, Inglaterra, França e Rússia colonizaram as Américas e a Sibéria, dependendo principalmente de empresas privadas devido às suas capacidades fiscais limitadas. Essas empresas também estabeleceram entrepostos comerciais nas costas da África, Sul da Ásia e Sudeste Asiático, mas suas tentativas de expandir para o interior foram repelidas pela mortalidade por doenças tropicais e por exércitos de reinos e impérios indígenas. No segundo período, de aproximadamente 1800 a 1945 – frequentemente chamado de Novo Imperialismo – Grã-Bretanha, França, Alemanha, Bélgica, Países Baixos, Portugal, Suécia, Itália, Espanha, Rússia, Japão e Estados Unidos recorreram às tecnologias da era moderna para colonizar a África, Ásia Central, Sul da Ásia, Sudeste Asiático, Leste Asiático e Australásia.

A teoria gera previsões sobre quem colonizou quem durante o Novo Imperialismo. Se países que emergiram de ecologias transacionais puderam absorver as tecnologias da era moderna mais rapidamente do que os outros, segue-se que deveriam ter sido mais propensos a serem colonizadores. Inversamente, países que emergiram de ecologias pastoris ou autossuficientes deveriam ter sido mais propensos a serem colonizados. Países que emergiram de ecologias de compartilhamento de riscos deveriam ter caído entre os grupos transacional e pastoril/autossuficiente; sua capacidade de arquitetar a absorção tecnológica de cima deveria tê-los permitido resistir à colonização melhor do que países que emergiram de ecologias pastoris ou autossuficientes, ao mesmo tempo que lhes permitia empreender projetos imperiais próprios.

Os dados correspondem às previsões. A probabilidade condicional de ser um colonizador foi de 33% para países que emergiram de uma ecologia transacional, versus 6% para compartilhamento de riscos, 0% para pastoril e 0% para autossuficiente. A probabilidade condicional de ser colonizado foi de 0% para países que emergiram de uma ecologia transacional, 35% para compartilhamento de riscos, 83% para pastoril e 92% para autossuficiente.

5.9 O agrupamento geográfico do desenvolvimento econômico [§107–§112]

Estudiosos há muito observam que países com altos níveis de desenvolvimento econômico estão localizados nas latitudes temperadas (35° a 66° N/S do Equador), enquanto aqueles com baixos níveis estão localizados próximos ao Equador. Há, no entanto, numerosas exceções: Rússia, China, Mongólia, Cazaquistão, Tajiquistão, Quirguistão, Uzbequistão, Chile e Argentina estão todos em latitudes temperadas, mas são países de renda média e média-baixa.

O arcabouço não apenas explica o padrão geral, mas também explica as exceções a ele. A Figura 10 apresenta uma projeção de Mercator na qual os países são coloridos pela classificação de ecologia dominante de sua hinterland de maior cidade a partir do procedimento Naïve Bayes. As ecologias autossuficientes, que tendem a ter baixa renda per capita, agruparam-se próximas ao Equador. Isso foi consequência de um motor de calor equatorial conhecido como Célula de Hadley. A luz solar constante e direta próxima ao Equador produz altas temperaturas, que por sua vez causam a evaporação da água do oceano, com o ar quente e úmido subindo por convecção para a atmosfera. Uma vez lá, ele esfria, produzindo um cinturão de nuvens e chuvas pesadas de várias centenas de milhas de largura que circunda o planeta, conhecido como Zona de Convergência Intertropical (ITCZ). O clima quente e úmido resultante deu origem a solos úmidos adequados para culturas perenes de alta umidade, encurtou a vida de armazenamento de culturas anuais de baixa umidade e favoreceu a reprodução de mosquitos portadores de malária – fatores que geraram pressões e tensões que favoreceram a emergência de ecologias autossuficientes.

A prevalência de ecologias pastoris nos subtrópicos (região logo ao sul da linha demarcando 35° Norte e região logo ao norte da linha demarcando 35° Sul) também foi impulsionada pela Célula de Hadley. O ar quente e úmido que sobe próximo ao Equador atinge uma altitude de 10 a 15 quilômetros, ponto em que esfria, não pode mais subir e é empurrado em direção aos polos pelo ar ascendente atrás dele. Esse ar frio, seco e de alta altitude começa a descer a aproximadamente 30° Norte e 30° Sul. Ao cair, é comprimido pelo ar acima dele, fazendo com que aqueça, diminuindo assim sua umidade relativa. Esse ar agora quente e seco é puxado de volta em direção ao Equador em baixa altitude pela mesma corrente de convecção que o empurrou para a atmosfera quando estava carregado de água. O resultado é uma região de desertos e savanas seca demais para sustentar a produção de culturas, mas úmida o suficiente para sustentar pastagens – e, portanto, sustentar ecologias pastoris – nos limites da ITCZ. O Deserto do Saara e o Veld Sul-Africano, de cada lado da Floresta Tropical Centro-Africana, são exemplos canônicos. Como o eixo da Terra é inclinado 23,5 graus em relação ao plano de sua órbita ao redor do sol, os limites da ITCZ, e portanto os limites das pastagens subtropicais, deslocam-se para norte e sul com as estações, criando pressões e tensões que favorecem o nomadismo ou seminomadismo.

Forças climatológicas de grande escala interagindo com características geográficas geraram ecologias de compartilhamento de riscos, que tendem a cair no meio da distribuição de rendas per capita. Desequilíbrios de temperatura produzidos por taxas diferenciais de aquecimento e resfriamento de oceanos e grandes massas terrestres, e que se invertem com as estações à medida que a ITCZ se desloca para norte e sul, dão origem a climas de monções: ar carregado de umidade move-se do oceano para a terra no verão, e ar seco move-se da terra para o oceano durante o inverno. Quando os ventos de verão carregados de umidade são empurrados para altitudes mais elevadas por cadeias de montanhas, eles esfriam e descarregam sua umidade. Os verões chuvosos resultantes no lado de barlavento das montanhas permitem o cultivo de culturas anuais de baixa umidade. Quando os ventos se invertem, os invernos frios e secos resultantes facilitam seu armazenamento. O norte da Índia, no lado de barlavento do Himalaia, e a Planície do Norte da China, no lado de barlavento das Montanhas Yan, são exemplos canônicos. Pequenas perturbações na rotação da Terra em torno de seu eixo, no entanto, produzem variação interanual nos limites da ITCZ e, portanto, variação na força das monções do Oceano Índico, Leste Asiático, Indo-Australiano, Oeste Africano e Mexicano. Essa variação na intensidade das monções produziu as secas espacial e temporalmente correlacionadas que afetaram as hinterlands de maior cidade no Sul da Ásia, Leste Asiático, Leste da África, Sahel, Norte da África, Oriente Médio, México, América Central e Costa Leste da América do Sul, dando origem às ecologias de compartilhamento de riscos que ali se agrupam.

Os mesmos sistemas climáticos de grande escala que deram origem a ecologias de compartilhamento de riscos no lado de barlavento das cadeias de montanhas produziram ecologias pastoris no lado de sotavento. Como quase toda a umidade já havia sido descarregada nas montanhas, os solos no lado de sotavento eram secos demais para culturas, mas úmidos o suficiente para sustentar gramíneas selvagens. Um caso canônico é o planalto mongol, no lado de sotavento da Cordilheira Yan.

Há, de fato, apenas algumas regiões no planeta que são temperadas (entre 35° e 66° N/S) e, portanto, comparativamente bem adaptadas ao cultivo e armazenamento de culturas anuais de baixa umidade, e que são apenas minimamente afetadas por sistemas climáticos de grande escala que geram secas espacial e serialmente correlacionadas. Muitas dessas regiões também são caracterizadas por terrenos planos, rios de fluxo lento e longas linhas costeiras que facilitavam o transporte antes das tecnologias movidas a vapor do século XIX. Não é acidente que formas de organização social caracterizadas por mercados descentralizados – o que os autores chamam de ecologias transacionais – tenham emergido onde essas características climatológicas e geográficas co-ocorreram: as regiões do Médio Atlântico e Nova Inglaterra dos Estados Unidos; as províncias do Alto e Baixo Canadá; Europa Ocidental e Central; Escandinávia, Báltico e Japão. Como a Tabela 1 mostra, hinterlands de maior cidade localizadas nessas regiões tenderam a dar origem a Estados-nação com rendas per capita muito altas hoje.

6 Robustness Tests (pp. 64–66)

6.1 Excluindo colonizadores do Novo Mundo [§113]

O insight sobre forças climatológicas de grande escala oferece uma explicação para o agrupamento geográfico dos níveis atuais de desenvolvimento econômico, mas também representa um desafio para a inferência estatística. Como saber que combinações complexas de dotações fatoriais, e suas ecologias associadas, explicam a variância nos resultados de desenvolvimento de longo prazo, em vez de algum outro fator que se correlaciona com a localização geográfica?

A “Economia Atlântica” oferece uma dessas teorias alternativas. Um conjunto de Estados-nação europeus emergentes que enfrentavam o Oceano Atlântico colonizou o Hemisfério Ocidental durante os séculos XVI, XVII e XVIII e enriqueceu explorando os recursos naturais do Novo Mundo, seus povos nativos e os escravos africanos transportados para lá. Os autores, portanto, reestimam as regressões Naïve Bayes e Random Forests excluindo hinterlands localizadas em países europeus atuais que detiveram colônias no Novo Mundo: Grã-Bretanha, França, Países Baixos, Bélgica, Espanha e Portugal. Os resultados são apresentados no Apêndice L. Na medida em que diferem dos resultados principais, é que os autores não detectam mais uma diferença pequena, mas estatisticamente significativa, entre países que emergiram de ecologias transacionais e aqueles que emergiram de ecologias pastoris ou autossuficientes em 1600 e 1700; mas ainda detectam esse resultado em 1800 e em todos os anos posteriores. Os outros resultados são materialmente os mesmos. Isso não significa que a Economia Atlântica não teve efeito; antes indica que os resultados são robustos ao controle por ela.

6.2 Excluindo hinterlands afetadas pelo tráfico de escravos africanos [§114]

O tráfico de escravos africanos também poderia explicar resultados de desenvolvimento geograficamente agrupados. As sociedades das quais os escravos foram exportados à força não apenas sofreram uma perda populacional; a confiança social pode ter sido minada e instituições extrativas implantadas (Nunn, 2008). Os autores, portanto, reestimam as regressões Naïve Bayes e Random Forests excluindo hinterlands localizadas em países africanos atuais que, segundo Nunn (2008), exportaram mais de 10.000 escravos durante o período 1400-1900. Os resultados, apresentados no Apêndice M, tendem a ser materialmente os mesmos dos resultados principais. Na medida em que diferem, é que o coeficiente para Compartilhamento de Riscos nas regressões Naïve Bayes sobre PIB per capita em 2000 e 2014, bem como o coeficiente para Compartilhamento de Riscos nas regressões Naïve Bayes sobre ferrovias, embora mantenham o mesmo sinal, não atingem mais significância estatística em níveis convencionais. Isso não significa que o tráfico de escravos africanos não teve efeito; antes indica que os resultados são robustos ao controle por ele.

6.3 Segundas maiores cidades [§115]

Uma preocupação adicional é que os resultados possam ser sensíveis à escolha dos núcleos densamente povoados a partir dos quais os Estados-nação modernos emergiram. Os autores, portanto, repetem os procedimentos e análises das seções 5.1 a 6.2, mas, quando disponível, substituem a segunda maior cidade em 1800 para estimar tamanhos, formas e dotações fatoriais das hinterlands. Os resultados, apresentados no Apêndice N, tendem a ser materialmente os mesmos dos resultados principais. Na medida em que diferem, é que o coeficiente para Compartilhamento de Riscos nas regressões Naïve Bayes sobre Durable Polity em 2000 e 2017 atinge níveis convencionais de significância estatística, embora permaneça de menor magnitude do que o coeficiente para Transacional.

7 Accommodating other Theories (pp. 66–69)

7.1 Testando variáveis de outras teorias [§116–§118]

Um teste poderoso de uma teoria é se ela pode dar conta das teorias propostas por outros pesquisadores e dos padrões factuais que sustentam essas teorias. Hall e Jones (1999) hipotetizam que instituições que incentivam o crescimento são um produto da emergência do capitalismo e dos direitos de propriedade privada na Europa Ocidental e, portanto, empregam latitude como variável instrumental para capturar a extensão da influência europeia ocidental sobre o resto do mundo. Engerman e Sokoloff (1997) argumentam que caminhos diferenciais de desenvolvimento nas Américas foram impulsionados por solos e climas, distinguindo entre lugares bem adaptados ao cultivo de cana-de-açúcar versus aqueles bem adaptados ao cultivo de cereais. Acemoglu, Johnson e Robinson (2002) argumentam que escolhas institucionais feitas por europeus séculos atrás explicam a variância nos níveis de desenvolvimento hoje; desenvolvem um índice de mortalidade de colonos como instrumento para dar conta do componente endógeno das instituições. Easterly e Levine (2016) hipotetizam que instituições de direitos de propriedade foram transportadas por pessoas e, portanto, constroem uma medida da porcentagem da população de origem europeia ocidental.

Os autores introduzem as variáveis de interesse dessas teorias em seus modelos. Primeiro estimam seu efeito independente sobre os resultados de desenvolvimento hoje por meio de regressões OLS. Em seguida, estimam seus modelos ecológicos Random Forest, mas truncam as amostras para corresponder àquelas empregadas nas análises de latitude, açúcar versus cereais, mortalidade de colonos e parcela populacional europeia. Depois, reestimam os modelos Random Forest, mas incluem, serial e independentemente, latitude, produção potencial de açúcar, mortalidade de colonos e parcela populacional europeia. Finalmente, grafam os valores preditos pelo modelo ecológico contra aqueles preditos pelos modelos mais cada uma das variáveis alternativas.

Três coisas deveriam ser verdadeiras se uma teoria alternativa é acomodada pelo arcabouço ecológico: (1) a porcentagem da variância nos resultados de desenvolvimento atuais explicada pela variável alternativa sozinha deveria ser menor do que a porcentagem explicada pelo modelo ecológico; (2) a porcentagem da variância explicada quando a variável alternativa é adicionada ao modelo ecológico não deveria aumentar substancialmente, e o erro quadrático médio out-of-bag não deveria diminuir substancialmente; e (3) um gráfico que compara os resultados preditos pelo modelo ecológico contra os resultados preditos pelo modelo mais a variável alternativa deveria exibir pontos de dados caindo sobre a linha de 45 graus.

A Tabela 8 apresenta os resultados para três variáveis dependentes – PIB per capita em 2014, razão de urbanização em 2000 e consolidação democrática em 2017. As Figuras 11A, 11B, 11C e 11D grafam os valores preditos de PIB per capita em 2014 do modelo ecológico contra os valores preditos do modelo ecológico mais a(s) variável(is) de outras teorias. Os autores encontram que: nenhuma das variáveis alternativas sozinha responde por mais da variância nos resultados de desenvolvimento do que os modelos ecológicos; a adição dessas variáveis aos modelos não melhora a qualidade do ajuste; e os pontos de dados dos valores preditos dos modelos versus aqueles dos modelos mais as variáveis alternativas tendem a se situar ao longo da linha de 45 graus. Os resultados, em suma, sugerem que o arcabouço ecológico acomoda as teorias que foram propostas por outros pesquisadores.

8 Discussion and Conclusion (pp. 69–70)

8.1 Implicações para as três escolas de pensamento [§119–§120]

Três escolas de pensamento dominam a literatura que explica a variância nos níveis de desenvolvimento econômico entre países. Uma foca nos efeitos diretos do clima e da geografia, outra no impacto de escolhas institucionais feitas no passado, e uma terceira nos investimentos em capital humano.

Os achados são inconsistentes com a visão de que instituições ou capital humano, independentemente do clima e da geografia, moldaram os resultados de desenvolvimento. Se assim fosse, o vetor de fatores ecológicos exógenos para as hinterlands econômicas da maior cidade em 1800 dos países modernos (condicionado às tecnologias do século XVIII) não responderia por aproximadamente 60% da variância nos níveis de PIB per capita hoje. Os achados também são inconsistentes com a visão de que clima e geografia moldam os resultados de desenvolvimento diretamente. Se assim fosse, o vetor responderia por mais da variância nos níveis de desenvolvimento no passado do que hoje, em vez do contrário.

Os resultados são, no entanto, consistentes com a visão de que clima e geografia operaram indiretamente sobre o desenvolvimento econômico de longo prazo, gerando pressões e tensões que deram origem a diferentes formas de organização social ao redor do planeta entre o Intercâmbio Colombiano e a modernidade. Ninguém escolheu essas formas de organização social em nenhum sentido significativo da palavra. Antes, em um mundo no qual a fome sempre espreitava, e no qual as soluções precisavam ser encontradas localmente, os seres humanos experimentaram. Algumas das coisas que fizeram – a escolha de uma cultura em vez de outra, um acordo feito com um vizinho, um apelo a um indivíduo poderoso – mantiveram a fome afastada até a próxima colheita. As pessoas não podiam, no entanto, experimentar da maneira que quisessem – pelo menos se quisessem viver para ver a próxima colheita. O resultado de incontáveis agentes tomando decisões ao longo de centenas de anos sob as duras restrições impostas pela natureza produziu sistemas legais, estoques de capital humano, estruturas sociais, modos de vida, sistemas morais e distribuições de poder muito diferentes. Como essas características das sociedades co-evoluíram umas com as outras, as sociedades não podiam descartá-las da noite para o dia sem custo uma vez que enfrentaram um novo desafio à sobrevivência: o choque tecnológico do mundo moderno. As sociedades, portanto, absorveram as novas tecnologias mutuamente dependentes a taxas muito diferentes, dando origem à divergência no desenvolvimento econômico.

8.2 Abertura para contingência e ação humana [§121]

Para que argumentos isolados não sejam mal interpretados, os resultados não devem ser lidos como sugerindo que clima e geografia determinaram os caminhos de longo prazo do desenvolvimento econômico, no sentido de que estabeleceram trilhos dos quais as sociedades não podiam desviar. Se assim fosse, o vetor de dotações fatoriais responderia por mais de 60% da variância nos níveis atuais de desenvolvimento econômico. A interpretação dos autores é que a variância que permanece inexplicada é produto de eventos idiossincráticos, ação individual e previsão humana. De que outra forma explicar casos muito distantes da linha de regressão na Figura 6, como Botsuana, cujo sucesso apesar de suas dotações fatoriais foi estudado por Acemoglu, Johnson e Robinson (2003)?

Seria um erro, no entanto, ignorar o peso do passado na compreensão de por que as coisas são como são. Um simples experimento mental talvez ilustre o ponto. Nas numerosas decisões, pequenas e grandes, que você toma – onde morar, o que pedir de seus colegas de trabalho, quais instituições de caridade apoiar – com que frequência você leva em conta como elas posicionarão sua sociedade de modo que ela possa absorver um choque tecnológico futuro cujos parâmetros você não conhece? Adam Ferguson, escrevendo em 1782, foi talvez atemporal em seu insight: “A multidão da humanidade é dirigida em seus estabelecimentos e medidas pelas circunstâncias nas quais está colocada; e raramente é desviada de seu caminho para seguir o plano de qualquer projetista isolado. CADA passo e cada movimento da multidão, mesmo no que são chamadas eras iluminadas, são feitos com igual cegueira para o futuro; e as nações tropeçam em estabelecimentos que são de fato o resultado da ação humana, mas não a execução de qualquer desígnio humano.”

9 Argumento Sintético

Note

A tese central do texto é que as dotações fatoriais locais – climas, solos, ambientes de doença e características geográficas que condicionavam a produção, transporte e armazenamento de alimentos básicos antes do século XIX – geraram pressões e tensões que, ao longo de séculos, deram origem a quatro formas distintas de organização social pré-moderna (Transacional, Compartilhamento de Riscos, Autossuficiente e Pastoril). Essas formas de organização social, por sua vez, condicionaram a capacidade diferencial das sociedades de absorver o conjunto amplo e mutuamente dependente de tecnologias que emergiu a partir de 1800 (a “modernidade”), resultando nos padrões atuais de divergência em desenvolvimento econômico, consolidação democrática e outros indicadores de prosperidade que observamos ao redor do globo.

O argumento é de natureza causal e histórica, propondo uma cadeia causal indireta: dotações fatoriais → adaptações incrementais → emergência de formas de organização social específicas (ecologias) → taxas diferenciais de absorção tecnológica pós-1800 → níveis atuais de desenvolvimento. A natureza do argumento não é determinista; os autores enfatizam que as ecologias são propriedades emergentes de sistemas complexos, não trilhos fixos.

O texto demonstra empiricamente que um vetor de fatores ecológicos exógenos medidos nas hinterlands das maiores cidades em 1800 responde por aproximadamente 60% da variância no PIB per capita atual entre países, e que esse poder explicativo cresce ao longo do tempo a partir de 1800 (antes do qual explica virtualmente nada). Demonstra também que ecologias transacionais estão associadas a crescimento mais rápido de mercados pré-1800, maior investimento em capital humano relacionado a transações, absorção mais rápida da ferrovia e maior consolidação democrática pós-1800. O texto deixa como hipótese ou agenda futura a exploração mais detalhada dos mecanismos microfundamentados de adaptação institucional e a quantificação precisa dos efeitos de canais específicos (ex.: papel exato da desigualdade versus coordenação de mercado).

A contribuição para o debate mais amplo é oferecer uma teoria unificada que integra as literaturas sobre geografia, instituições e capital humano, mostrando que fatores geográficos operam indiretamente através da formação de sistemas sociais de longo prazo, e que teorias institucionalistas e de capital humano podem ser acomodadas como resultados endógenos desse processo ecológico mais fundamental. O artigo fornece evidência geoespacial sistemática cobrindo cinco séculos e incluindo tanto sociedades coloniais quanto não coloniais, superando limitações de estudos anteriores.

Ficha Analítica Crítica

Note

Esta seção segue o formato IA Planilhando Textos v12.0.

Dimensão Raciocínio analítico Conteúdo
Questão de Pesquisa Premissa: explicar a variância global no desenvolvimento econômico e seu agrupamento geográfico, bem como o timing da divergência pós-1800. Interpretação alternativa considerada: fatores institucionais ou de capital humano isolados são insuficientes. Ponto vulnerável: a pergunta é extremamente ampla e exige um modelo que acomode múltiplos níveis de análise. Por que os níveis de desenvolvimento econômico variam entre países e se agrupam geograficamente, e por que esses padrões só emergiram após 1800? A pergunta é explicativa (busca causa) e avaliativa (testa teorias concorrentes).
Questões Secundárias Premissa: o mecanismo ecológico proposto deve gerar previsões testáveis sobre dimensões correlatas. Ponto vulnerável: as previsões secundárias são derivadas da mesma lógica central; o teste conjunto pode sofrer de viés de confirmação se os mesmos dados forem usados para gerar e testar a tipologia. 1. As ecologias pré-1800 condicionaram o crescimento de mercados, investimento em capital humano e absorção tecnológica pós-1800? 2. Elas predizem quem colonizou quem durante o Novo Imperialismo? 3. Elas explicam exceções ao padrão de desenvolvimento latitudinal?
Puzzle-Type Premissa: o puzzle existe porque teorias existentes ou ignoram a dimensão temporal (geografia direta) ou tratam o tempo de forma estática (institucionalismo colonial) ou não explicam a variância em capital humano. Ponto vulnerável: a classificação como “gap descritivo e puzzle explicativo” depende de aceitar que as teorias existentes são insatisfatórias; os autores constroem esse contraste de forma persuasiva, mas é uma premissa contestável. Gap descritivo (falta uma teoria unificada que explique a divergência temporal e geográfica) e puzzle explicativo (por que a geografia explica mais a variância hoje do que no passado?). O puzzle é genuíno e generalizável, pois o padrão de divergência pós-1800 é um fato estilizado robusto na história econômica global.
Conclusão / Argumento Central Premissa: a cadeia causal é indireta e emergente, não determinista. Claim of discovery: a identificação de quatro ecologias a partir de dotações fatoriais e sua associação com trajetórias divergentes pós-1800. Sustentação: testes estatísticos robustos (Naïve Bayes, Random Forest) e narrativas históricas canônicas. Ponto vulnerável: a força do claim repousa na validade da operacionalização das hinterlands e das variáveis ecológicas; a narrativa histórica é ilustrativa, não um teste causal rigoroso dos mecanismos. Dotações fatoriais locais condicionaram formas de organização social pré-1800 (ecologias transacional, compartilhamento de riscos, autossuficiente, pastoril), que por sua vez condicionaram taxas diferenciais de absorção das tecnologias da modernidade, resultando nos padrões atuais de desenvolvimento econômico e político. O argumento é causal-histórico, com ênfase em propriedades emergentes.
Métodos Premissa: a combinação de métodos (geoespacial quantitativo, machine learning, estudo de caso histórico) visa triangulação e robustez. Ponto vulnerável: o classificador Naïve Bayes é inicializado com 20 casos codificados manualmente pelos autores, introduzindo potencial viés de seleção e circularidade (as ecologias são definidas pelos autores e depois “descobertas” pelo algoritmo). A Random Forest é mais agnóstica, mas sua interpretação causal é limitada. Estudo misto: construção de datasets geoespaciais inéditos (hinterlands, produção potencial de culturas, estocabilidade, malária, tsé-tsé, secas); análise quantitativa com regressões Naïve Bayes (10.000 iterações) e Random Forests; análise qualitativa de quatro casos históricos canônicos (N’shenge, Nova York, Beijing, Ulaanbaatar). Limitação de identificação: os modelos quantitativos são preditivos/correlacionais, não estabelecem causalidade estrita devido à natureza observacional dos dados históricos.
Data Generation Process (DGP) Premissa: o fenômeno real é a organização social e desenvolvimento econômico; a observação é indireta via proxies geoespaciais e históricas. Ponto vulnerável: a unidade de análise (hinterland da maior cidade em 1800) impõe uma homogeneidade interna que pode mascarar variação subnacional importante. A inferência é sobre países atuais a partir de núcleos históricos, assumindo que o núcleo determinou a trajetória nacional – uma suposição forte para países formados por agregação tardia (ex.: Itália, Alemanha). Fenômeno real: Organização social e desenvolvimento econômico de sociedades. Observação: Dados geoespaciais sobre clima, solo, doenças, hidrografia (fontes: GAEZ 3.0, NOAA, FAO). Coleta: Construção de hinterlands via análise de menor custo de caminho com base em restrições calóricas de transporte pré-ferrovia. Operacionalização: Variáveis contínuas de produção potencial, estocabilidade, índices de malária/tsé-tsé, frequência de secas (PDSI). Análise: Machine learning (classificação Naïve Bayes, regressão Random Forest) e OLS iterativo. Inferência: Correlacional/preditiva; alegações causais baseadas em teoria e timing (antes/depois de 1800). Unidade de análise: Hinterland da maior cidade em 1800 (n=163). Nível de agregação: Nacional (país atual).
Achados e Contribuições Premissa: os achados empíricos são robustos dentro das escolhas metodológicas. Ponto vulnerável: a afirmação de que o vetor ecológico “accommodates” outras teorias baseia-se em comparações de R² e gráficos de predição; não é um teste formal de aninhamento ou de causalidade. A contribuição teórica (tipologia de ecologias) é heuristicamente rica, mas sua correspondência com a complexidade histórica real pode ser estilizada. Achados empíricos: 1) Vetor ecológico explica ~60% da variância no PIB/c atual, mas progressivamente menos no passado (quase 0% antes de 1800). 2) Ecologias transacionais têm crescimento mais rápido pós-1800, maior desenvolvimento de mercados pré-1800, mais capital humano comercial, absorção mais rápida de ferrovias, maior consolidação democrática e maior probabilidade de serem colonizadores. 3) Os resultados são robustos a controles e especificações alternativas. 4) O arcabouço acomoda variáveis de outras teorias (latitude, açúcar, mortalidade de colonos, euroshare). Contribuições: a) Teoria unificada ligando geografia, instituições e crescimento de longo prazo. b) Dataset geoespacial original abrangendo 5 séculos. c) Demonstração de que o efeito da geografia é indireto e temporalmente condicionado.
Análise Crítica dos Achados Premissa: a pergunta central é ampla e ambiciosa. Ponto vulnerável: o design não permite identificar causalidade no sentido de manipulação contrafactual; a inferência baseia-se em padrões de covariância e timing. A identificação do mecanismo é mais forte nos casos históricos, mas estes são selecionados nos extremos (viés de seleção). A generalizabilidade para países formados por processos distintos de state-building (ex.: federações, Estados pós-coloniais artificiais) merece cautela. Scope conditions declaradas: período pós-Intercâmbio Colombiano, tecnologias pré-ferrovia/refrigeração. Omitidas: a suposição de que o núcleo densamente povoado em 1800 determina a trajetória nacional pode não valer para países onde o centro econômico se deslocou (ex.: Brasil, de Salvador/Rio para São Paulo). O autor responde à pergunta central com evidência robusta de associação e timing, mas a inferência causal é limitada pela natureza observacional dos dados. Pontos fortes: A convergência de métodos quantitativos e qualitativos; a demonstração de que o poder explicativo do modelo cresce após 1800 é um teste poderoso da teoria (se geografia agisse diretamente, o padrão seria oposto). Pontos vulneráveis: 1) O classificador Naïve Bayes depende de uma codificação manual inicial, potencialmente circular. 2) A unidade de análise (hinterland da maior cidade em 1800) pode não capturar adequadamente a formação do Estado em casos de múltiplos núcleos ou deslocamento do centro dinâmico. 3) A Random Forest, embora flexível, não estima efeitos causais; a interpretação dos autores sobre “acomodar” outras teorias é baseada em ajuste preditivo, não em testes de mecanismo. Generalizabilidade: Alta para Estados-nação formados a partir de um núcleo histórico claro; requer cautela para Estados artificiais pós-coloniais ou federações. Scope conditions: O modelo se aplica ao período pós-1500 (Intercâmbio Colombiano) e pré-1850 (ferrovias/refrigeração); sua extensão para períodos anteriores ou para ecologias não agrícolas (ex.: pesca) é limitada.
Limitações Premissa: os autores são transparentes sobre várias limitações, mas algumas decorrem das escolhas metodológicas fundamentais. Ponto vulnerável: a não inclusão de ecologias de pesca e a dependência de dados climáticos pós-1850 para períodos anteriores são reconhecidas; a questão da mudança do centro econômico nacional não é diretamente endereçada. Reconhecidas pelos autores: 1) Impossibilidade de operacionalizar ecologias de pesca por falta de dados. 2) Dependência de dados climáticos pós-1850 para inferir condições pré-1800 (embora validados com dados de anéis de árvores para algumas regiões). 3) Missingness não aleatória em séries de PIB pré-1950, contornada com dados de urbanização. 4) Sensibilidade potencial à escolha da cidade (testada com segunda maior cidade).
Não reconhecidas ou subestimadas: 1) Circularidade potencial na inicialização manual do classificador Naïve Bayes. 2) Suposição forte de que o núcleo de 1800 determina a trajetória nacional, ignorando deslocamentos posteriores do centro econômico (ex.: São Paulo sobre Salvador/Rio; Milão sobre Roma/Florença; Xangai sobre Beijing em termos econômicos). 3) A classificação de ecologias como discretas (4 tipos) a partir de um contínuo multidimensional pode simplificar excessivamente a variação; a abordagem probabilística mitiga, mas não elimina, essa limitação. 4) O mecanismo causal específico que liga ecologia a instituições (ex.: por que exatamente ecologias transacionais geram parlamentos?) é mais sugerido do que demonstrado; a análise histórica é ilustrativa, não um process-tracing rigoroso.
Perspectiva Teórica Premissa: o arcabouço é materialista/ecológico, com ênfase em emergência e path dependence. Ponto vulnerável: a ontologia implícita trata agentes como adaptativos, mas com racionalidade limitada e sem intencionalidade coletiva; isso pode subestimar o papel de ideias, ideologias e ação política contingente. A coerência entre ontologia e método é alta para a parte quantitativa (fatores exógenos → resultados), mas a narrativa histórica introduz agência e contingência de forma mais eclética. O artigo se insere na tradição da economia política histórica e da geografia econômica de longo prazo, dialogando diretamente com a literatura sobre origens institucionais do desenvolvimento (Acemoglu et al., Engerman & Sokoloff) e sobre o papel da geografia (Diamond, Sachs, Nunn). A moldura teórica é ecológico-evolutiva, enfatizando adaptação, propriedades emergentes e path dependence. A adequação da moldura ao tipo de pergunta é alta, pois busca explicar padrões de longuíssima duração que transcendem escolhas políticas de curto prazo. A coerência entre ontologia implícita (sistemas complexos, agentes adaptativos) e método (machine learning, análise geoespacial) é razoável, embora a análise histórica de casos introduza elementos mais interpretativos.
Principais Referências Premissa: o diálogo com a literatura é amplo e atualizado. Ponto vulnerável: o tratamento de teorias alternativas (ex.: Acemoglu et al.) é feito principalmente via inclusão de suas variáveis instrumentais em modelos preditivos; um engajamento mais aprofundado com os mecanismos institucionais específicos propostos por esses autores poderia fortalecer a alegação de “acomodação”. O diálogo com a literatura sobre formação do Estado (ex.: Tilly, Mann) é limitado, embora relevante para o argumento sobre centralização. Autores/obras centrais: Diamond (1997); Engerman & Sokoloff (1997, 2011); Acemoglu, Johnson & Robinson (2001, 2002); Easterly & Levine (2003, 2016); Nunn & Qian (2010); Comin & Hobijn (2010); Vansina (1978, 1990, 2010); Barfield (1989); Li (2007); Will & Wong (1991). O diálogo com a literatura é amplo e bem referenciado, cobrindo economia, história, ciência política e climatologia. Um possível desequilíbrio é a menor atenção a teorias sociológicas clássicas sobre formação do Estado e burocracia (Weber, Tilly, Mann), que poderiam enriquecer a discussão sobre ecologias de compartilhamento de riscos.
Observações Premissa: a ambição do artigo é sua força e sua fraqueza. Ponto vulnerável: a validade externa para contextos pré-Colombianos ou para sociedades que não seguiram o padrão de Estado-nação territorial é limitada. A omissão de uma discussão mais profunda sobre o papel do comércio de longa distância (ex.: Rota da Seda, comércio do Oceano Índico) como modulador das ecologias locais pode subestimar fatores exógenos. Para o leitor interessado em desenvolvimento, o artigo oferece uma moldura poderosa, mas requer cuidado para não ser lido como determinismo geográfico. Vulnerabilidades adicionais: 1) A definição de hinterland baseada em custo calórico de transporte terrestre/fluvial assume que o comércio de alimentos básicos era o principal integrador econômico; isso pode subestimar o papel do comércio de bens de alto valor (sedas, especiarias, metais preciosos) na integração de regiões mais amplas antes de 1800. 2) A classificação de países como “colonizadores” ou “colonizados” no Novo Imperialismo é binária e pode obscurecer gradações (ex.: dominação informal, protetorados). 3) A variável de secas (PDSI) usa dados de 1850-2014; embora validada para algumas regiões, a extrapolação para 1500-1800 em escala global carrega incerteza. Lacunas teóricas: O mecanismo exato pelo qual ecologias transacionais geram “governo limitado” (parlamentos, judiciário independente) é mais sugerido do que demonstrado; a análise histórica de Nova York descreve o resultado, mas não testa variação contrafactual. Validade externa: O modelo é mais aplicável a sociedades agrárias sedentárias; sua extensão para sociedades nômades ou marítimas é limitada (ecologia pastoril é incluída, mas com menos observações). Implicações para pesquisa futura: O artigo abre caminho para estudos que desagreguem o nível subnacional e investiguem a interação entre múltiplos núcleos dentro de um mesmo país, bem como para testes mais diretos dos mecanismos institucionais usando variação dentro de ecologias similares.