Fichamento: Três Gerações de Public Policy para a Rural Development e Formas de Interação entre Sociedade e Estado no Brazil

Catia Grisa e Sergio Schneider (2014)

Annotated Bibliography
Public Policy
Rural Development
Development Economics Rural
State-Society Relations
Reference
Author

Tales Mançano

Published

April 23, 2026

Grisa, C., & Schneider, S. (2014). Três Gerações de Políticas Públicas para a Agricultura Familiar e Formas de Interação entre Sociedade e Estado no Brasil. Revista de Economia e Sociologia Rural, 52(2), 323–348.

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Última atualização: 2026-04-23 Modelo: DeepSeek-R1 Gerado em: 2026-04-23T13:00:00-03:00

1 Resumo e Abstract (pp. 1–2)

1.1 Síntese do conteúdo do resumo e palavras‑chave [§1–§5]

O artigo analisa a trajetória de construção de políticas públicas para a agricultura familiar no Brasil, destacando três “gerações” ou referenciais de política pública que emergem em períodos distintos. O primeiro referencial fortalece o viés agrícola e agrário da categoria; o segundo foca políticas sociais e assistenciais; o terceiro orienta‑se pela construção de mercados voltados à segurança alimentar e à sustentabilidade ambiental. Os autores também mostram que as relações entre Estado e sociedade civil se modificaram e se complexificaram: de posturas críticas e reivindicativas, a sociedade civil passou a ser propositiva e, mais recentemente, parceira na execução e cogestão das políticas públicas. Ressaltam, por fim, que as três gerações e as diversas formas de relacionamento convivem hoje nas arenas públicas. (Palavras‑chaves: políticas públicas, agricultura familiar, referencial, sociedade civil e Estado; Key‑words: public policies, family farming, referential, civil society, State; Classificação JEL: Q18.)

2 1. Introdução (pp. 2–4)

2.1 Contexto histórico‑institucional e a emergência da agricultura familiar como categoria política [§6–§9]

Nas últimas três décadas, o Brasil passou por profundas transformações no cenário político‑institucional. A Constituição de 1988 é o marco inicial de um período em que novas relações entre Estado e sociedade civil foram estabelecidas, espaços de participação social foram criados, novos atores políticos emergiram como sujeitos de direito e novos referenciais globais e setoriais orientaram a ação estatal, afetando as condições socioeconômicas da população rural (§6–§7). A agricultura familiar destaca‑se como protagonista e objeto dessas mudanças: reconhecida pelo Estado em meados dos anos 1990, passou a contar com políticas diferenciadas antes inexistentes. Abramovay e Morello (2010) salientam que o fortalecimento da democracia está na raiz das principais transformações do meio rural brasileiro, responsáveis pela redução da pobreza, melhora na distribuição de renda e início de mudanças no comportamento empresarial voltadas ao bem‑estar das pessoas e à resiliência dos ecossistemas (§8). Historicamente marginalizada, a agricultura familiar foi gradativamente incorporada à agenda pública: a Constituição de 1988 incentivou a participação social; o Pronaf (1995) desencadeou a emergência de outras políticas diferenciadas; a criação do MDA (1999) e da SAF (2001) institucionalizou a dualidade da estrutura agrária; e a Lei da Agricultura Familiar (2006) forneceu o marco legal (§9).

2.2 Abordagem cognitiva de políticas públicas e a noção de “gerações” de referenciais [§10–§14]

O objetivo do artigo é justamente analisar essa trajetória, enfatizando as “gerações” ou referenciais de política pública, o modo como foram construídos e as relações entre Estado e sociedade civil. A análise dialoga com a abordagem cognitiva de política pública, sobretudo as formulações de Pierre Muller, Bruno Jobert e Ève Fouilleux. Nessa perspectiva, as políticas públicas refletem as visões de mundo e as crenças compartilhadas por atores públicos e privados, que definem como os problemas são percebidos e quais respostas são construídas (GRISA, 2012; FOUILLEUX, 2011; 2003; MULLER, 2008; SUREL, 2000; JOBERT; MULLER, 1987) (§10). Três conceitos são centrais: referencial global, quadro geral de interpretação do mundo que hierarquiza as representações setoriais; referencial setorial, representação de um setor, permanentemente em conflito entre concepções concorrentes; e referencial de política pública, imagem da realidade sobre a qual se intervém, que resulta de um duplo movimento de decodificação do real e de recodificação em um programa de ação (MULLER, 2008; FOUILLEUX, 2011, 2003). Esse referencial é objeto de negociação permanente entre os protagonistas das trocas políticas (§11–§13). O uso do termo “gerações” possui sentido heurístico, pois permite identificar “momentos críticos” em que novas formas de ação governamental surgiram. As três gerações não são lineares nem se substituem; continuam em funcionamento e sofrem ajustes, coexistindo nas arenas públicas (§14).

3 2. Primeira geração de políticas para a agricultura familiar: referencial agrícola e agrário (pp. 4–10)

3.1 Crise do nacional‑desenvolvimentismo, modernização conservadora e exclusão dos pequenos agricultores [§15–§19]

A política de industrialização por substituição de importações, adotada desde os anos 1950, entrou em crise no início da década de 1960 devido a problemas de abastecimento, inflação, esgotamento da capacidade de importar e críticas ao caráter excludente do padrão industrializante. Da crise resultaram duas opções de referencial setorial: a reforma agrária, defendida por acadêmicos, políticos e movimentos sociais, e a modernização tecnológica da agricultura, apoiada pelas elites agrárias, economistas da USP e militares. Esta última saiu vitoriosa e materializou‑se em um conjunto de instrumentos – crédito rural, garantia de preços mínimos, seguro agrícola, pesquisa, extensão, incentivos fiscais às exportações etc. – que constituiu a “política agrícola ativa” (DELGADO, 2001). Tal modelo beneficiou desproporcionalmente médios e grandes produtores do Sul e Sudeste, produtores de commodities voltadas à exportação ou à agroindústria (DELGADO, 2010; GRAZIANO DA SILVA, 1999; GONÇALVES NETO, 1997; KAGEYAMA et al., 1990; GUEDES PINTO, 1978) (§15–§18). Durante a ditadura militar, os representantes da agricultura familiar ficaram excluídos da arena pública; a Contag, principal entidade dos pequenos agricultores, teve atuação limitada e a construção das políticas resultava basicamente das representações de gestores, acadêmicos e grupos de interesse comprometidos com a modernização (GRISA, 2012) (§19).

3.2 Redemocratização, fortalecimento do sindicalismo e postura propositiva [§20–§25]

No final dos anos 1970, a Contag transitou de um tom conciliador (II Congresso, 1973) para uma postura combativa e reivindicatória (III Congresso, 1979), cobrando reforma agrária e política agrícola diferenciada. O novo sindicalismo rural e novos movimentos sociais – MST (1984), MAB (1991), CNS (1985) – reforçaram a pressão sobre o Estado (PICOLOTTO, 2011; SCHNEIDER, 2010; FAVARETO, 2006; SCHMITT, 1996) (§20). Com a redemocratização e a Constituinte, abriram‑se espaços de participação: Contag e DNTR/CUT elaboraram propostas para a Constituinte e para a Lei Agrícola, adotando estratégias propositivas (§21–§22). Embora a Lei Agrícola tenha reconhecido a diversidade e previsto política diferenciada, as conquistas ficaram aquém das reivindicações; prevaleceu o poder da agricultura patronal e a cultura institucional refratária às demandas dos pequenos (MILITZ NETTO, 2010; DELGADO, 1994) (§23). Paralelamente, a liberalização econômica dos anos 1990 – neoliberalismo como novo referencial global – impôs desregulamentação, privatizações, redução do crédito, criação do Mercosul (1991) e o Plano Real (1994), que derrubou a renda agrícola em 20–30% e agravou as condições de reprodução da agricultura familiar (MATTEI, 2014; PICOLOTTO, 2011; DELGADO, 2010) (§24).

3.3 Construção do Pronaf e institucionalização da política agrícola diferenciada [§26–§27]

Diante das ameaças econômicas e aproveitando as aberturas democráticas, os representantes da agricultura familiar intensificaram a postura propositiva. O documento elaborado pela Comissão Técnica do Pequeno Produtor (MAARA/CONTAG, 1994), fruto do Grito da Terra Brasil, propôs um programa especial de crédito, seguro agrícola específico, medidas de proteção frente ao Mercosul e a definição normativa de pequeno produtor. Essas demandas convergiram com uma mudança paradigmática nos estudos rurais, que passaram a valorizar a agricultura familiar (SCHNEIDER, 2003; LAMARCHE, 1999, 1993; ABRAMOVAY, 1992; VEIGA, 1991), e com o interesse do governo em manter a ordem no campo e influência sobre o sindicalismo (GRISA, 2012). Assim, em 1995, foi criado o Pronaf, um “momento crítico” (MAHONEY, 2001) que reconheceu politicamente a categoria social e abriu caminho para novas políticas. Inicialmente, o Pronaf era uma política de crédito para capitalizar e integrar agricultores “em transição” aos mercados (FAO‑INCRA, 1994), complementada depois pelo Seguro da Agricultura Familiar (2004), PGPAF (2006) e Ater pública (§26–§27).

3.4 Conflitos agrários, política de assentamentos e síntese do referencial agrícola‑agrário [§28–§31]

Em meados dos anos 1990, a luta do MST se intensificava; os massacres de Corumbiara (1995) e Eldorado do Carajás (1996) tiveram grande repercussão e impulsionaram a retomada da política de assentamentos, que fora iniciada com o I PNRA (1985) e depois arrefecida. A criação do Pronaf e o incremento dos assentamentos foram, em parte, respostas às pressões das mobilizações sociais (§28). Schneider, Shiki e Belik (2010) caracterizam esse momento como a emergência de uma primeira geração de políticas, orientada por um referencial setorial agrícola (crédito, seguro de produção e de preço) e agrário (assentamentos). Tais políticas demandaram um olhar do Estado para a importância da agricultura familiar e continuam vigentes, sendo permanentemente aperfeiçoadas (§29). O Pronaf tornou‑se a principal política agrícola para a categoria; no Plano Safra 2014/2015, destinou R$ 24,1 bilhões. Contudo, beneficia principalmente unidades familiares em melhores condições socioeconômicas, localizadas no Sul e Sudeste, e promove cultivos de commodities controladas pelas agroindústrias: milho e soja respondem por mais de 50% dos recursos de custeio de lavouras desde 2001 (GRISA, WESZ JR. e BUCHWEITZ, 2014) (§30). A política de assentamentos oscilou: após um pico de 104,2 mil famílias assentadas em 2005, os números caíram, e os governos Lula e Dilma passaram a priorizar a qualificação dos assentamentos existentes, sobretudo pela incorporação de terras públicas no Norte e Nordeste (FERNANDES, 2013; IPEA, 2012; MATTEI, 2012) (§31).

3.5 Atores e ideias na construção do primeiro referencial [§32–§33]

A adoção de estratégias propositivas pelo sindicalismo, associada à pressão dos movimentos sociais e ao respaldo dos estudos rurais, foi decisiva para a emergência da primeira geração de políticas. A participação de representantes dos agricultores e de gestores do MAPA (e, a partir de 1999, do MDA) na formulação explica o referencial agrícola‑agrário dominante. A construção do Pronaf resultou do diálogo entre três “fóruns de produção de ideias”: representantes da agricultura familiar, estudiosos do mundo rural e políticos/gestores públicos (GRISA, 2012). As políticas vinculadas ao Pronaf (Seaf, PGPAF) são fruto das negociações entre gestores e organizações, reforçadas a partir de 2003 pela discussão anual dos Planos Safra da Agricultura Familiar.

4 3. Segunda geração: referencial social e assistencial (pp. 10–13)

4.1 Neoliberalismo, combate à pobreza e primeiras inflexões sociais [§34–§36]

Na década de 1990, o referencial global neoliberal levou à retirada do Estado da economia e à desestruturação de instrumentos de política, como a extinção da Embrater (1990). Nesse ambiente, o Estado deveria apenas “corrigir as falhas de mercado”, especialmente no combate à pobreza rural (BANCO MUNDIAL, 1994). Uma segunda geração de políticas, focada em ações sociais e assistenciais, começou a ganhar corpo no governo FHC com o Programa Comunidade Solidária e se consolidou no governo Lula com o Fome Zero e o Bolsa Família (§34–§35). O Comunidade Solidária conferia “selo de prioridade” a 16 programas em áreas como alimentação, habitação, geração de renda e fortalecimento da agricultura familiar, buscando convergência em municípios com alta concentração de pobreza (MALUF, 2007; TAKAGI, 2006; PELIANO, 2001). A primeira ação nesse sentido voltada à agricultura familiar foi a linha Infraestrutura e Serviços Municipais do Pronaf, que direcionava recursos a municípios mais pobres e com distribuição fundiária pulverizada, distanciando‑se do desenho original do programa. As organizações da agricultura familiar temiam que o Pronaf se transformasse em política assistencial e buscaram afastá‑lo do Comunidade Solidária (ABRAMOVAY; VEIGA, 1999; MARQUES, 2004) (§36).

4.2 Transferência de renda e programas sociais nos governos Lula e Dilma [§37–§41]

A partir de 1998, surgiram programas de transferência de renda como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação e Auxílio Gás, unificados no Bolsa Família em 2003. O Fome Zero deu novo impulso às políticas sociais e ao combate à pobreza rural, sendo posteriormente potencializado pelo Plano Brasil Sem Miséria (governo Dilma), com aumento do Bolsa Família, criação do Brasil Carinhoso, do Bolsa Verde e do crédito de fomento (R$ 2.400/família) acompanhado de assistência técnica diferenciada (§37). Em 2002, foi estabelecido o Garantia Safra, voltado ao segmento mais vulnerável do Nordeste, norte de Minas e Espírito Santo, para garantir renda em caso de perda de safra (§38). Em 2003, o Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR) passou a subsidiar materiais para construção ou reforma de moradias de agricultores familiares, integrado depois ao Minha Casa, Minha Vida (§39). No mesmo ano, o Pronaf Infraestrutura foi substituído pelo Pronat (Desenvolvimento Sustentável de Territórios Rurais), que priorizava territórios com maior concentração de agricultores familiares e baixo IDH (DELGADO; LEITE, 2011; ECHEVERRI, 2009) (§40). Em 2008, o Programa Territórios da Cidadania (PTC) reforçou a perspectiva territorial, articulando várias políticas em territórios economicamente fragilizados, com baixo acesso a serviços e estagnação de renda (§41).

4.3 Ambiguidades e efeitos territoriais do referencial social [§42]

Ao longo do tempo, o referencial social passou a apresentar ambiguidades: setores da agricultura familiar, gestores e estudiosos passaram a reivindicar que o Estado olhasse mais para os grupos vulneráveis, oferecendo políticas sociais que garantissem reprodução social e, ao mesmo tempo, criassem condições para que esses atores pudessem interagir nos mercados. Programas como Pronaf B, Garantia Safra, PNHR, políticas territoriais e o Fomento do Brasil Sem Miséria são exemplos dessa dupla orientação. Nem sempre de forma deliberada, as políticas sociais e assistenciais tiveram repercussões positivas sobre o desenvolvimento rural, especialmente no semiárido nordestino, gerando melhorias de renda que dificilmente teriam sido alcançadas apenas pelas políticas agrícolas e agrárias da primeira geração.

5 4. Terceira geração: mercados para segurança alimentar e sustentabilidade (pp. 13–18)

5.1 Mudança política de 2002 e a entrada dos atores da segurança alimentar [§43–§44]

A eleição de Lula em 2002 provocou alterações nas relações Estado‑sociedade. Atores até então marginais – vinculados ao PT, ao campo agroecológico e, principalmente, ao tema da segurança alimentar e nutricional – tornaram‑se dominantes e abriram oportunidades para institucionalizar novas ideias. Esses atores já vinham propondo políticas desde o início dos anos 1990: o “Governo Paralelo” elaborou a Política Nacional de Segurança Alimentar (1991); a Ação da Cidadania Contra a Fome, liderada por Betinho, e o Consea (1993) colocaram a fome na agenda e defenderam a agricultura familiar como meio de acesso a alimentos e de construção de um sistema agroalimentar mais equitativo. Durante o governo FHC, o tema perdeu espaço e esses atores migraram para a militância em conselhos e fóruns (§44).

5.2 Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a expansão dos mercados institucionais [§45–§48]

O Projeto Fome Zero resgatou experiências locais e destacou o potencial do mercado institucional – alimentação escolar, hospitais, presídios etc. – para fortalecer a agricultura familiar, gerar renda, dinamizar economias locais e atender populações vulneráveis (INSTITUTO CIDADANIA, 2001). Dessa ideia nasceu o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), em 2003, que articula a compra de produtos da agricultura familiar com ações de segurança alimentar. Embora inicialmente tímido, o PAA ganhou projeção ao demonstrar impactos nas dinâmicas locais e no fortalecimento das organizações (§45–§46). Após romper barreiras como a Lei de Licitações, o programa abriu caminho para uma nova trajetória de mercados institucionais, fortalecida em 2009 pela Lei n. 11.947, que exige que no mínimo 30% dos recursos federais da alimentação escolar sejam destinados à compra de alimentos da agricultura familiar. Em 2012, a modalidade Compra Institucional ampliou as possibilidades, permitindo que estados e municípios adquiram alimentos da agricultura familiar com dispensa de licitação para hospitais, quartéis, restaurantes universitários etc. (§47). Essas iniciativas estimulam a criação de mecanismos estaduais e a demanda por novos mercados, ao mesmo tempo em que valorizam a produção local, ecológica e orgânica, conferindo aos produtos da agricultura familiar atributos de qualidade como justiça social, artesanalidade e tradição (§48).

5.3 Biodiesel, sociobiodiversidade e agregação de valor [§49–§51]

Em 2004, o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB) instituiu o selo “Combustível Social”, concedido a produtores que adquiram matéria‑prima e deem assistência técnica a agricultores familiares, beneficiando‑os com incentivos fiscais e comerciais. Embora controverso por concentrar‑se na soja, o programa ampliou mercados para a categoria (FLEXOR; KATO, 2014) (§49). Complementarmente, a PGPM‑Bio (2008) subvenciona diretamente extrativistas que vendem produtos da sociobiodiversidade abaixo do preço mínimo; apesar de ainda pouco expressiva (50 mil beneficiários e R$ 16 milhões desde 2009), auxilia na preservação ambiental e na reprodução social dos extrativistas (§50). Paralelamente, foram ampliadas ações de agregação de valor: apoio a agroindústrias, sistemas de inspeção sanitária, selos de diferenciação (Selo da Agricultura Familiar, Selo Quilombos do Brasil, Indicações Geográficas) e certificação orgânica, inclusive via sistemas participativos de garantia (§51).

5.4 Síntese da terceira geração e novas formas de cogestão [§52–§57]

A terceira geração contou com a participação proeminente de atores da segurança alimentar (Consea), organizações agroecológicas, entidades da agricultura familiar, gestores e estudiosos. A entrada desses atores provocou um redirecionamento das políticas para a construção de mercados vinculados à segurança alimentar e à sustentabilidade, sem deixar de reforçar a afirmação política da categoria (§52). A análise da relação Estado‑sociedade civil evidencia que, a partir dos anos 1990, uma “confluência perversa” entre o projeto neoliberal e o projeto participativo/democratizante fez com que ambos requeressem uma sociedade civil ativa e propositiva. Nesse contexto, os movimentos sociais e sindicais da agricultura familiar passaram de propositores a parceiros na execução das políticas. A criação das OSs (1998) e OSCIPs (1999) e o crescente volume de recursos públicos transferidos para essas organizações indicam a intensidade do processo (DAGNINO, 2002) (§53). Exemplos de cogestão no desenvolvimento rural incluem o Projeto Lumiar, o Programa Um Milhão de Cisternas, o PAA, o PNHR, o PNAE e a Política Nacional de Ater (BOLTER, 2013; DIESEL; NEUMANN, 2012; SILVA; SCHMITT, 2012) (§54). Assim, se na década de 1980 as políticas eram objeto de reivindicação, na década de 2000 sua implementação se tornou um campo de atuação prioritário para muitas organizações (§55). Embora a permeabilidade do Estado não seja nova – Cardoso (1970) já identificara “anéis burocráticos” e Marques (1999) redes de relação público‑privado na política de saneamento –, o que distingue o período recente é a proximidade entre Estado e organizações da sociedade civil na formulação e na cogestão das políticas. Essa abordagem relacional, em lugar de perspectivas dicotômicas de autonomia versus institucionalização, ainda precisa ser melhor investigada (BOLTER, 2013; SILVA; SCHMITT, 2012) (§56–§57).

6 5. Considerações finais (pp. 18–19)

6.1 Síntese das três gerações, dependência de trajetória e coexistência de referenciais [§58–§60]

[§58 – início do parágrafo não recuperável do original, mas o conteúdo indica a recapitulação das três gerações:] A análise evidenciou a emergência de três gerações de políticas para a agricultura familiar: a primeira, agrícola e agrária; a segunda, social e assistencial; e a terceira, orientada pela construção de mercados para a segurança alimentar e nutricional e para a sustentabilidade. A partir de uma análise cronológica, os autores mostram que esses referenciais surgiram em contextos específicos, subsidiados por reflexões acadêmicas, mudanças políticas, mobilizações sociais e pela entrada de novos atores e ideias nas arenas públicas. Retrospectivamente, as gerações produziram efeitos de path dependence e, como as demandas dos atores sociais não foram inteiramente atendidas e as mobilizações persistem, as políticas foram se ampliando e novos instrumentos se agregaram (§59). As formas de ação coletiva – protesto, proposição e cogestão – variam ao longo da trajetória temporal e coexistem na contemporaneidade, ainda que com diferentes intensidades e formatos (§60).

6.2 Continuidade das formas de ação e desafios da relação Estado‑sociedade civil [§61–§63]

Os movimentos sociais e sindicais da agricultura familiar continuam acionando estratégias de protesto (Gritos da Terra, Marcha das Margaridas, Abril Vermelho, ocupações de prédios públicos), se instrumentalizam para propor formatos institucionais e reivindicam a cogestão na execução das políticas, seja para adaptá‑las às realidades locais, seja para empoderar as próprias organizações (§61). Em um contexto de avanço da transição democrática, os atores da sociedade civil ocupam um espaço que lhes confere maior legitimidade, mas também impõe desafios relativos à relação institucionalizada com o Estado e à governança de suas organizações. O artigo encerra com questões que demandam futuras pesquisas: quais os limites e possibilidades de que as organizações da sociedade civil confrontem futuras mudanças conjunturais, como as climáticas, e enfrentem amarras estruturais, como o acesso à terra e à infraestrutura, com a mesma criatividade demonstrada nas gerações anteriores? Que mudanças ocorrem nas políticas e em seus resultados quando executadas pela sociedade civil organizada? Quais as repercussões da cogestão na governança e na estrutura administrativa do Estado? Como operam os mecanismos de controle social? (§62–§63).

7 Argumento Sintético

Note

Tese central: A trajetória das políticas públicas para a agricultura familiar no Brasil pode ser compreendida a partir da emergência e coexistência de três gerações de políticas, cada qual ancorada em um referencial distinto – agrícola‑agrário, social‑assistencial e de mercados para segurança alimentar e sustentabilidade –, cuja construção foi moldada pela evolução das relações entre Estado e sociedade civil, que passaram da crítica reivindicativa à proposição e, mais recentemente, à cogestão.

Natureza do argumento: O argumento é predominantemente descritivo‑interpretativo, com forte componente histórico‑institucional. Ele não estabelece uma relação causal estrita, mas reconstrói a sequência de eventos, ideias e coalizões de atores que conformaram cada referencial.

Demonstração vs. agenda: O artigo demonstra, por meio de uma narrativa cronológica apoiada em vasta literatura e em evidências documentais, a emergência temporalmente situada dos três referenciais e a transformação dos padrões de interação Estado‑sociedade. Contudo, a definição dos limites entre as gerações, a explicação precisa dos mecanismos de transição de um referencial a outro e a generalização para outros setores permanecem como agenda de pesquisa.

Contribuição para o debate mais amplo: Ao aplicar a abordagem cognitiva de políticas públicas ao caso brasileiro, o texto oferece uma periodização inovadora que articula ideias, atores e instituições, contribuindo para os estudos de desenvolvimento rural, para a análise de políticas públicas e para o entendimento das transformações da relação Estado‑sociedade civil em contextos de redemocratização.

Ficha Analítica Crítica

Note

Esta seção segue o formato IA Planilhando Textos v14.0.

Dimensão Raciocínio analítico Conteúdo
Questão de Pesquisa A pergunta não é enunciada explicitamente, mas emerge da introdução: como se deu a trajetória de construção de políticas para a agricultura familiar e como evoluíram as relações entre Estado e sociedade civil nesse processo? Reconstruí-la é necessário para avaliar se a evidência mobilizada responde adequadamente. Como se construiu a trajetória das políticas públicas para a agricultura familiar no Brasil, quais os referenciais que a orientaram em diferentes momentos e de que modo as relações entre Estado e sociedade civil se transformaram ao longo desse processo? (Pergunta reconstruída, de natureza descritiva e explicativa).
Questões Secundárias As questões secundárias não são formalizadas, mas podem ser inferidas da estrutura do texto: (a) quais atores e ideias responderam pela emergência de cada geração? (b) como os referenciais globais e setoriais se articularam em cada período? (c) que formas de interação Estado‑sociedade civil predominaram em cada fase? Essas derivações são consistentes com o quadro analítico adotado. (a) Quais coalizões de atores e ideias sustentaram cada geração de políticas? (b) Como os referenciais globais (nacional‑desenvolvimentismo, neoliberalismo, participacionismo) se articularam com os referenciais setoriais? (c) Que padrões de interação (protesto, proposição, cogestão) caracterizaram cada período?
Puzzle-Type O puzzle é essencialmente um gap descritivo: faltava uma periodização que integrasse a dimensão cognitiva das políticas com as transformações da relação Estado‑sociedade. É genuíno porque a literatura anterior tratava as políticas de forma fragmentada. Sua generalização para outros países depende da existência de processos similares de reconhecimento de uma categoria social e de mudança de regime político. Classificação: gap descritivo combinado com um puzzle explicativo (por que emergem referenciais distintos e como se influenciam mutuamente?). O puzzle é genuíno no contexto brasileiro e pode inspirar análises comparativas, mas sua transferibilidade exige scope conditions claras: presença de movimentos sociais fortes, transição democrática, dualidade da estrutura agrária.
Conclusão / Argumento Central A conclusão afirma a existência de três gerações de políticas, cada uma com um referencial, e a transformação das relações Estado‑sociedade. O claim of discovery é que essas gerações não são etapas sucessivas, mas referenciais que coexistem e se sobrepõem. O argumento é sustentado pela narrativa cronológica e pelo uso da noção de “momentos críticos”, mas a identificação de cada geração depende de uma seleção de políticas que pode ser contestada (omissão de políticas ambientais, por exemplo). A tese é a de que três referenciais – agrícola‑agrário, social‑assistencial e de mercados para segurança alimentar/sustentabilidade – emergiram em contextos específicos e hoje coexistem, enquanto as relações Estado‑sociedade civil evoluíram de protesto para proposição e cogestão. O argumento é interpretativo; a evidência não permite afirmar que se trata de gerações “puras”, nem descarta a influência de outros referenciais transversais.
Métodos O estudo é qualitativo, baseado em análise documental e em extensa revisão de literatura, combinada com a mobilização da abordagem cognitiva. A periodização é construída a partir de marcos legais e institucionais. Não há explicitação de técnicas de coleta ou de critérios de seleção dos casos de política, o que limita a possibilidade de replicação. A análise de processo (process tracing) é implícita, mas não sistemática. Estudo histórico‑interpretativo, apoiado em análise documental, pesquisa bibliográfica e na experiência de pesquisa anterior dos autores. A estratégia argumentativa combina a reconstrução cronológica com a aplicação dos conceitos de referencial global, setorial e de política pública. Limitação: ausência de um protocolo de seleção das políticas analisadas e de critérios para demarcar o início e o fim de cada geração.
Data Generation Process (DGP) O fenômeno real (mudanças nas políticas para a agricultura familiar) é observado por meio de documentos oficiais, legislação, relatórios, discursos de atores e produção acadêmica. A coleta não é descrita, mas presume‑se que os autores acumularam conhecimento ao longo de suas pesquisas. A operacionalização consiste na atribuição de cada política a um referencial com base no conteúdo programático e nos atores envolvidos. A inferência é de natureza narrativa: estabelece‑se uma sequência temporal e se identificam “momentos críticos”. A unidade de análise são as políticas públicas federais voltadas à agricultura familiar, agregadas em gerações; o nível de análise é meso. Fenômeno: formulação e implementação de políticas públicas federais para a agricultura familiar. Observação: documentos, bibliografia, entrevistas prévias dos autores. Coleta: não explicitada. Operacionalização: classificação das políticas em três gerações a partir do referencial dominante. Análise: reconstrução cronológica com identificação de atores, ideias e eventos críticos. Inferência: descritiva e interpretativa, sem testes de causalidade. Unidade de análise: gerações de políticas. Nível de agregação: nacional.
Achados e Contribuições O principal achado é a periodização tripartite, que organiza a trajetória das políticas e evidencia a transformação da relação Estado‑sociedade civil. A contribuição teórica reside na aplicação da abordagem cognitiva a um campo pouco explorado por ela no Brasil, mostrando como as ideias e as coalizões de atores moldam os referenciais. A contribuição empírica é a sistematização de um grande volume de informações sobre as políticas. Entretanto, a atribuição de políticas a gerações específicas é às vezes forçada (ex.: o Pronaf é tratado na primeira geração, mas seus desdobramentos sociais e ambientais atravessam as outras). Achados: (1) identificação de três gerações de políticas; (2) demonstração de que as relações Estado‑sociedade civil se complexificaram (protesto → proposição → cogestão); (3) constatação da coexistência das três gerações. Contribuições: aplicação original da abordagem cognitiva ao caso brasileiro; produção de uma narrativa integrada que articula ideias, atores e instituições. O design permite identificar com força a emergência temporal dos referenciais, mas a explicação dos mecanismos de transição entre eles permanece especulativa.
Análise Crítica dos Achados O artigo responde à pergunta de pesquisa ao oferecer uma periodização coerente e uma análise da evolução das relações Estado‑sociedade. Os pontos fortes são a riqueza empírica e a clareza conceitual. As principais vulnerabilidades residem na classificação das gerações: o Pronaf, por exemplo, nasce como política agrícola, mas incorpora posteriormente componentes sociais e ambientais; o PAA e o PNAE são mercados institucionais, mas também cumprem função assistencial. A demarcação rígida em gerações pode ocultar sobreposições e hibridismos. Quanto à generalização, as scope conditions são implícitas: o modelo supõe um Estado que reconhece uma categoria social após pressão de movimentos fortes, em regime democrático, condições que podem não se replicar. A resposta à pergunta é satisfatória dentro dos limites de um estudo interpretativo. Pontos fortes: robustez histórica, articulação teoria‑evidência. Pontos vulneráveis: (a) risco de reificação dos referenciais; (b) seleção de políticas que confirma a tese; (c) pouca atenção a políticas que não se encaixam claramente nas gerações (ex.: políticas de infraestrutura hídrica, de regularização fundiária). A ameaça à validade interna é moderada: o rastreamento do mecanismo de mudança de referencial não é detalhado; a influência de atores internacionais (Banco Mundial, FAO) é mencionada mas não aprofundada. A generalizabilidade depende de scope conditions não declaradas.
Limitações Reconhecidas pelos autores: As gerações são uma construção heurística; elas não são lineares nem sucessivas, continuam em funcionamento e sofrem ajustes; a definição de gerações não implica ampliação de escala ou redirecionamento de enfoque.
Não reconhecidas ou subestimadas: (a) ausência de critérios claros para alocar políticas híbridas; (b) omissão de políticas que não ganharam status de geração (ex.: políticas de crédito fundiário, de regularização ambiental); (c) a narrativa é retrospectiva e pode superestimar a coerência dos referenciais; (d) não se discute como as dinâmicas subnacionais (estados e municípios) afetam a configuração das gerações; (e) a voz dos próprios agricultores familiares, para além de suas organizações, está ausente da evidência.
Perspectiva Teórica A teoria adotada é a abordagem cognitiva de políticas públicas, em especial os trabalhos de Muller, Jobert e Fouilleux. A ela se soma, implicitamente, uma perspectiva histórico‑institucional (momentos críticos, path dependence). A moldura é adequada ao tipo de pergunta, pois valoriza o papel das ideias e das representações. Há coerência entre a ontologia implícita (os atores agem orientados por referenciais que são socialmente construídos) e o método histórico‑interpretativo. Tradição: abordagem cognitiva/ idéias de políticas públicas (Muller, Jobert, Fouilleux) com elementos de neoinstitucionalismo histórico (Mahoney, Pierson). A escolha é pertinente, pois permite integrar a dimensão simbólica à análise institucional. A ontologia implícita é construtivista moderada.
Principais Referências O diálogo teórico central se dá com Muller (2008, 2005), Jobert e Muller (1987) e Fouilleux (2003, 2011). A literatura sobre agricultura familiar brasileira é bem representada (Abramovay, Veiga, Schneider, Delgado, Picolotto). Contudo, há um diálogo pobre com a literatura internacional sobre policy change, policy feedback e com os estudos comparativos de welfare rural. As referências a organizações internacionais (Banco Mundial) são breves e não sistemáticas. Autores centrais: Muller, Jobert, Fouilleux (teoria); Schneider, Delgado, Picolotto, Abramovay (agricultura familiar). O diálogo com a literatura de policy change e com estudos comparativos de políticas agrárias em outras democracias recentes é limitado. As referências empíricas são majoritariamente brasileiras.
Observações A principal vulnerabilidade adicional é a ausência de uma discussão sobre o poder relativo dos atores em cada geração: quem ganha e quem perde com a predominância de um referencial? A categoria “mercados para segurança alimentar e sustentabilidade” agrega dimensões potencialmente contraditórias (biodiesel versus agroecologia). Para pesquisas futuras, seria produtivo examinar como as três gerações se manifestam no nível local e como interagem com as dinâmicas de gênero e geração. A omissão das políticas de assistência técnica como um campo transversal que perpassa todas as gerações merece nota, pois a Ater é tratada de forma periférica. Por fim, a conclusão poderia ter explicitado melhor em que medida a cogestão fortalece ou enfraquece a autonomia da sociedade civil – uma questão que os próprios autores reconhecem como agenda de pesquisa. Vulnerabilidades: (a) falta de análise distributiva dos efeitos de cada referencial; (b) tensão não resolvida entre sustentabilidade e expansão de commodities na terceira geração; (c) ausência de discussão sobre gênero e geração. Lacuna teórica: a abordagem cognitiva poderia ter sido combinada com teorias de policy feedback para explicar a persistência das gerações. Validade externa: o caso brasileiro é singular, mas o modelo de gerações pode inspirar tipologias em outros países latino‑americanos. Relação com pesquisa do leitor: útil para quem estuda políticas agrárias, segurança alimentar ou relações Estado‑sociedade em democracias recentes.