Fichamento: Acaparamiento de la tierra, del viento y del sol: la formación de un nuevo régimen
Fernandes et al. (2024)
Fernandes, B. M., Fonseca, R. O. da, Pereira, L. I., Nascimento, M. L., Moura, J. T. V. de, Ferreira, J. E. B., & Sampaio, M. de A. P. (2024). Acaparamiento de la tierra, del viento y del sol: la formación de un nuevo régimen. Revista de Ciencias Sociales, DS-FCS, 37(55), e212.
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1 Introdução (pp. 3–4)
1.1 Apresentação do novo regime e questão de pesquisa [§1]
O artigo, escrito pela Rede Brasileira de Pesquisa de Luchas por Espaços e Territórios (Red DATALUTA), propõe interpretar o processo de acaparamiento de la tierra no Brasil no início do século XXI, focalizando a emergência de um novo processo de territorialização dos ventos e do sol. Esse processo envolve a apropriação de territórios por corporações de diferentes países que investem na produção de energia solar e eólica. Os autores questionam o que há de novo nessa territorialização, que classificam como um “novo regime”. As comunidades tradicionais sofrem impactos diversos, com conflitos que geram tanto desterritorialização quanto resistência.
1.2 Mudança dos dados (2014–2022) e estrutura do artigo [§2]
Desde 2014, os autores investigam o acaparamiento de tierras no Brasil por meio do Banco de Dados de Lutas por Espaços e Territórios (DATALUTA). Os dados de 2014 e 2022 evidenciam uma mudança nos investimentos: antes concentrados na territorialização do extrativismo agrícola, agora direcionam-se ao extrativismo energético (energia eólica e solar), configurando um novo regime de acaparamiento. O artigo analisa esses dados e dois estudos de caso no Ceará e no Rio Grande do Norte. No Ceará, duas comunidades impediram a desterritorialização; no Rio Grande do Norte, uma comunidade sofre os impactos de um parque eólico financiado por fundos e empresas multinacionais.
1.3 Necessidade do conceito de território relacional [§3]
Para compreender essa mudança, os autores argumentam que é necessário superar o conceito de território absoluto (perspectiva plana, útil para extractivismos de superfície como monocultivos). Propõem o conceito de território relacional, multidimensional, capaz de capturar o controle territorial tanto da terra quanto da atmosfera na produção das energias eólica e solar. Os acaparamentos do sol e do vento não são metáforas, mas territórios efetivamente acaparados. As torres eólicas e os painéis solares compõem sistemas de ações e objetos inseparáveis (Santos, 1996).
1.4 Resistência e o movimento dos afetados [§4]
A formação do novo regime está gerando resistência por parte de comunidades tradicionais (povos indígenas, camponeses, quilombolas, pescadores etc.), as quais buscam criar um novo movimento socioterritorial: o Movimento dos Afectados pelas Renováveis (MAR). Esse movimento luta contra a extração — processo de exploração e apropriação dos recursos naturais — e promove encontros entre comunidades e instituições de apoio (sindicatos, partidos, igrejas, movimentos) para ampliar as formas de resistência e superação dos conflitos.
1.5 Organização do artigo [§5]
O artigo está organizado em três apartados. O primeiro apresenta os elementos constitutivos do novo regime de acaparamiento de terras no Brasil, destacando a territorialização dos ventos e do sol, os conflitos gerados e as possíveis consequências: territorialidades emancipadoras (produtoras de territórios de esperança) ou territorialidades de subordinação (que tendem à desterritorialização). O segundo apartado analisa duas comunidades no Ceará (Barra das Moitas e Morro dos Patos) como territórios de esperança. O terceiro examina a comunidade pesqueira de Enxu Queimado (Rio Grande do Norte) como território subalterno ou subordinado. Trata-se de um método original de análise para compreender os regimes de extranjerização.
2 Nuevo régimen de acaparamiento (pp. 4–8)
2.1 Território relacional versus território absoluto [§6]
Com base em dez anos de estudo do acaparamiento no Brasil (dados DATALUTA e outras fontes), os autores observam uma mudança na territorialização das empresas multinacionais, indicando a formação de um novo regime. Para entendê-lo, propõem uma leitura crítica do conceito de territorio relacional em contraposição ao territorio absoluto. Este último é rígido, plano, monolítico e separado das relações que produzem os territórios, não permitindo compreender os controles territoriais dos regimes de acaparamiento. O conceito relacional, ao contrário, concebe as relações como dimensões constitutivas do território, produzindo uma relação de co‑produção entre territórios e relações sociais.
2.2 Multidimensionalidade e extractivismos [§7]
Compreender a multidimensionalidade dos territórios permite reconhecer as dimensões territoriais dos diversos extractivismos: extractivismo do subsolo (minerais), extractivismo de superfície (agricultura, monocultivo de árvores) e extractivismo de atmosfera (vento e sol).
2.3 Controle territorial e Plantationoceno [§8]
O controle territorial é o conceito central do acaparamiento de tierras para a extração e apropriação de recursos naturais. Trata-se de um processo geográfico do plantacionoceno — conceito que expressa uma era de mais de cinco séculos de modelos hegemônicos de exploração e dependência, associados a processos de territorialização (multiplicação de territórios) e desterritorialização (diminuição de territórios) (Wolford, 2021).
2.4 Diagrama dos processos territoriais [§9]
A Figura 1 (p. 6) apresenta um diagrama dos processos territoriais dos regimes de acaparamiento, destacando o extractivismo energético como parte de um novo regime de extranjerização. Como todos os extractivismos, este também é depredador e destrói parte dos territórios tradicionais onde se territorializa.
2.5 Dados DATALUTA 2014 e a mudança para o novo regime [§10–§12]
Analisando os dados de DATALUTA entre 2014 e 2022, observa-se um novo tipo de territorialização das corporações produtoras de commodities energéticas, denominada territorialização dos ventos e do sol. Em 2014, 73% dos registros de territorialização ocorreram com investimentos em commodities agrícolas, 18% em monocultivo de árvores, 6% em mercados de terras e 3% não informados. As corporações provinham de 22 países (40% europeus, 32% América do Norte, 18% Ásia, 9% América Latina, 1% Oriente Médio).
Em 2022, observa-se a formação de um novo regime: 47% dos registros foram em produtos agrícolas, 36% em energias renováveis, 9% em monocultivos de árvores, 4% em mineração e 4% em mercados de terras. Os percentuais não indicam aumento ou diminuição da territorialização, mas a formação de uma nova territorialização extractiva. As corporações agora provêm de 32 países (40% europeus, 33% América do Norte, 17% Ásia, 7% América Latina, 2% Oriente Médio, 0,5% África, 0,5% Oceania). Entre as que investem em energias renováveis, 50% são europeias, 34% norte‑americanas, 13% asiáticas, 1,5% Oriente Médio e 1,5% América Latina.
Tabela 1. Territorialización del extractivismo, Brasil, 2014-2022
| Extractivismo | 2014 | 2022 |
|---|---|---|
| Agrícola | 73% | 47% |
| Energías renovables | 0% | 36% |
| Monocultivo de árboles | 18% | 9% |
| Minería | 0% | 4% |
| Mercado de tierras | 6% | 4% |
| No informado | 3% | 0% |
Fonte: Red DATALUTA, 2023.
O Gráfico 1 (p. 7) apresenta o número de corporações extractivas com capital internacional por país sede, com destaque para Estados Unidos, Espanha, China, Portugal, Reino Unido, França, Itália, Canadá, Alemanha, Países Baixos, Suíça, entre outros.
2.6 Acaparamiento como processo geográfico e histórico [§13–§14]
O acaparamiento de tierras é um processo de controle territorial para extração de recursos naturais por meio de relações capitalistas, com narrativas e ideologias que garantem acumulação de capital, especialmente em crises (Pereira, 2019). Em cada fase do desenvolvimento capitalista, a lógica territorial muda (Arrighi, 2008), ampliando a extração de recursos naturais. No Brasil, a formação socioespacial ocorreu por diferentes regimes de exploração desde a colonização portuguesa, e mesmo a independência não alterou a essência do processo (Prado Jr., 1969), que continua dependente da extração de commodities, da desterritorialização de povos tradicionais, das desigualdades e das crises recorrentes. O extractivismo — territorialização da exploração acelerada sem preocupação com sustentabilidade (Dilger e Pereira Filho, 2016) — é cada vez mais central em modelos de desenvolvimento, inclusive em governos progressistas que priorizam a acumulação em larga escala.
2.7 Novo regime no século XXI e consenso da descarbonização [§15–§17]
No século XXI, o boom das matérias‑primas produziu um novo regime de acaparamiento, com investimentos também em produtos energéticos. Como destaca Svampa (2019), grandes empresas mineiras e megarepresas multiplicaram‑se junto com a ampliação da fronteira petrolífera e agrária (monocultivos para biocombustíveis). Este processo é fortalecido por narrativas e ideologias que o justificam como convergência de múltiplas crises (alimentar, ambiental, climática, energética, financeira). A partir da realidade da mudança climática, inaugura‑se um novo regime de proteção, marcado pelo consenso da descarbonização (Bringuel e Svampa, 2023) — um acordo global objetivo apropriado por agentes capitalistas para legitimar a acumulação. Embora a transição energética não seja a única solução para a crise climática, ela é considerada um imperativo (Cataia e Duarte, 2022) porque permite a territorialização do capital para novos territórios e mercados. A expansão de projetos eólicos e solares no Brasil ocorre especialmente na segunda década do século XXI, com territorialização dos ventos e do sol que leva à desterritorialização ou a territórios de esperança.
2.8 Competição entre extractivismos agrícola e energético [§18]
As commodities agrícolas dominaram a territorialização do extractivismo no Brasil por séculos, ampliando a questão agrária com a desterritorialização de povos tradicionais, concentração fundiária e controle de tecnologias e mercados. Agora, competem pela hegemonia com os extractivismos energéticos. Entre 2014 e 2022, do total de investimentos na territorialização do extractivismo agrícola, 35% foram em cana‑de‑açúcar, 35% em grãos (soja e milho), 15% em café, 12% em algodão, 3% em arroz e feijão — confirmando a destinação principalmente para exportação.
2.9 Dados de projetos eólicos e fotovoltaicos (ANEEL, 2023) [§19–§22]
Segundo o SIGA/ANEEL (setembro de 2023), havia 1.588 projetos de energia eólica adjudicados no Brasil, totalizando 53.478.845 kW de potência. Desses, 1.170 (73,67%) eram de empresas de capital estrangeiro. O processo de acaparamento começa quando empresas se aproximam de pequenos proprietários rurais com narrativas de renda extra e usos conjuntos do território (argumentos utilizados por empresas, governos estaduais e a ABEEÓLICA). Diante dessas promessas, famílias camponesas vulneráveis arrendam parte de suas propriedades. Há empresas que fazem apenas a prospecção de terrenos e arrendamento, fomentando a especulação.
Havia também 19.541 projetos de geração fotovoltaica no Brasil, totalizando 138.090.933,14 kW de potência outorgada. A geração fotovoltaica tem caráter centralizado e descentralizado (microgeradores). Considerando projetos acima de 10.000 kW, há 3.224 parques, totalizando 137.639.464,61 kW de potência.
2.10 Mapas de localização [§23–§24]
O Mapa 1 (p. 11) mostra a localização municipal das plantas fotovoltaicas e parques eólicos no Brasil, com destaque para a concentração na região Nordeste. O Mapa 2 (p. 12) localiza as comunidades estudadas: Barra das Moitas (Amontada‑CE), Morro dos Patos (Itarema‑CE) e Enxu Queimado (Pedra Grande‑RN).
3 Las comunidades tradicionales de Barra das Moitas (Amontada‑Ceará) y Morro dos Patos (Itarema‑Ceará): territorios de esperanza (pp. 13–17)
3.1 Contexto da energia eólica no Ceará [§25–§28]
O Ceará foi o primeiro território brasileiro a ter uma torre eólica, devido à força dos ventos alísios identificada pelo Atlas do Potencial Eólico Brasileiro (Ministério de Minas e Energia, 2021), em tempos de apagões e crise energético‑elétrica. Em 2023, o estado contava com 100 parques eólicos construídos ou em construção (ANEEL, 2023), distribuídos pelo litoral, montanhas e semiárido, com potência de 3.308.830 kW, sendo o quarto produtor nacional (atrás da Bahia, Rio Grande do Norte e Piauí). Grande parte desses parques tem capital de empresas estrangeiras, com impactos e conflitos em territórios historicamente ocupados por pescadores artesanais, mariscadores, caiçaras, quilombolas e indígenas. Mais da metade dos parques eólicos cearenses estão sob controle estrangeiro, produzindo uma transição energética guiada por capital internacional com apoio estatal.
3.2 Conflitos e resistência no Ceará [§29–§31]
A territorialização dos ventos na costa cearense não foi passiva, mas repleta de conflitos. As maiores resistências são produto das disputas territoriais e de direitos dos povos afetados. Estudos (Gorayeb et al., 2019) indicam que a criação de parques geralmente ocorre com base em acordos político‑estratégicos entre elites locais, que muitas vezes utilizam ilegalidades (apropriação ilegal de terras, consultorias falsificadas ou tendenciosas). As empresas inventam territórios “vazios”, obrigando povos tradicionais a demonstrar sua existência. Como aborda Fernandes (2019), as corporações instrumentalizam mecanismos de dominação nos quais o capital transnacional determina a permanência das políticas de desenvolvimento territorial.
Os autores realizaram trabalho de campo em Amontada e Itarema (costa oeste do Ceará), focando duas comunidades tradicionais que resistiram e superaram a territorialização dos ventos — casos que definem como territórios de esperança.
3.3 Barra das Moitas: resistência e título comunitário [§32–§36]
Barra das Moitas e Morro dos Patos são comunidades tradicionais centenárias, hoje rodeadas por parques eólicos da CPFL Renováveis (pertencente ao Estado chinês). Pescadores, mariscadores, artesãos e o povo caiçara, cuja cosmovisão se constituiu na interação entre mar, mangue e rio Aracatiaçu, viram seus mundos atacados pelas torres de vento. Em Barra das Moitas, onde o rio encontra o mar da Praia de Moitas, a resistência de mais de trinta anos garantiu o título de propriedade comunitária da terra, impedindo a construção do Parque Eólico Icaraizinho (Figura 2, p. 15) entre dunas móveis, lagoas interdunares e o rio — embora tenham se tornado vizinhos do parque.
Em entrevistas, os pescadores revelaram o problema central da chamada transição energética “limpa”: o desenvolvimento predatório. Este faz parte de uma miríade de conceitos criados para validar as narrativas e soluções do capitalismo para suas próprias crises. O desenvolvimento predatório tem uma agenda de apropriação e destruição de territórios e povos tradicionais, utilizando uma máscara de sustentabilidade baseada na mitigação do dano climático. Na realidade, é uma agenda capitalista que cria territórios e zonas de sacrifício, como a desterritorialização de pescadores para a construção de parques eólicos. Um pescador afirmou: “El desarrollo para nosotros es sólo un engaño… es un proyecto de muerte para nosotros” (Nascimento, 2023, p. 88).
3.4 Morro dos Patos: território de esperança e medo [§37–§41]
Em Morro dos Patos (Itarema), a realidade cria um território de miedo. A comunidade está completamente rodeada pelo Complexo Eólico Pedra Cheirosa (State Grid/CPFL Renováveis). Torres de vento cercam o quintal da última casa; à noite, luzes vermelhas acendem, formando um cerco luminoso. Atravessando o rio Aracatiaçu, dois universos e formas de territorialidade se chocam, manifestando diferentes concepções de buen vivir. Enquanto Barra das Moitas sofre hipervisibilidade devido ao turismo, especulação imobiliária e parques eólicos, Morro dos Patos é vulnerabilizado pelo esquecimento intencional e invisibilização. Um pescador relatou: “Y de ahí surge el miedo… Si sólo es suficiente para ellos, no será suficiente para que nosotros vivamos… si alguien quiere tomarlo, que lo tome, ¡pero nadie se lo dio!” (Nascimento, 2023, p. 120).
O que as duas comunidades têm em comum, além da resistência, é a luta contra um enemigo invisible. As decisões globais chegam a territórios mascarados; as comunidades não sabem quem são nem de onde vêm o dinheiro, o nome e a empresa que se territorializa. Nenhuma das duas comunidades sabia que a CPFL Renováveis pertence à State Grid (capital chinês). Essa “invisibilidade” é a realidade da transição energética no Ceará: inimigos invisíveis, desterritorialização e pescadores resistentes.
4 La comunidad tradicional pesquera de Enxu Queimado (Pedra Grande‑Rio Grande do Norte): territorio subordinado (pp. 17–20)
4.1 Contexto e expansão eólica no Rio Grande do Norte [§42–§43]
O Rio Grande do Norte é o maior produtor de energia eólica do Brasil, com 261 projetos em operação (8.455.236 kW outorgados – ANEEL, 2023). O primeiro parque foi aprovado em 2001 (Rio do Fogo), mas a expansão começou em 2010, com 23 projetos adjudicados. A região Mato Grande concentra 51,72% dos projetos. Atualmente, há expansão para a serra e o semiárido. A primeira subvenção em Pedra Grande foi em 2011, e o primeiro parque entrou em operação em 2014. Com a implementação, a comunidade viu dunas, lagos e áreas de lazer destruídos ou cercados (Medeiros, 2021).
4.2 Narrativas e licenciamento [§44]
As narrativas utilizadas por agentes públicos e privados para persuadir pequenos proprietários a alugar ou vender são as mesmas de outros estados. Nos primeiros projetos foram comuns: 1) licenciamento ambiental simplificado (impactos futuros); 2) falta de consulta pública e participação informada, sem respeito ao Convênio 169 da OIT; 3) ampla aceitação dos projetos pelos argumentos de instituições. Quando a construção começou, os impactos, conflitos e conflitualidades aumentaram.
4.3 A comunidade de Enxu Queimado [§45–§47]
Enxu Queimado, em Pedra Grande (costa potiguar), formou‑se em meados da década de 1920 e tem cerca de 500 famílias. Composta principalmente por pescadores e mulheres artesãs, obtém sustento da pesca, mas também cultiva mandioca e batata. Desde meados de 2001, sofre com a especulação imobiliária e a territorialização da energia eólica (iniciada em 2011). Os autores focam nesta última, que provocou uma série de conflitos. Embora as subvenções da ANEEL tenham começado em 2011, as empresas já faziam prospecções antes dessa data, pois a legislação exige 36 meses de medições anemométricas para solicitar a subvenção. Há 14 parques eólicos em funcionamento no município, sendo que Enxu Queimado é diretamente afetada por 10 projetos da Serveng Energias Renováveis SA.
4.4 Trabalho de campo e impactos [§48–§51]
Em trabalho de campo (maio de 2023), observou‑se que não houve consultas públicas. A única informação fornecida pela empresa era de que o parque geraria empregos e a terra não seria cercada. A criação de empregos (temporária, apenas na fase de construção) foi o principal argumento usado pelas autoridades municipais. Os parques foram construídos em áreas de dunas fixas e móveis (ambientalmente frágeis), com licenciamento simplificado do IDEMA. O Relatório Ambiental Simplificado (RAS) não está disponível; solicitado via Lei de Acesso à Informação (agosto de 2023), o IDEMA não o enviou devido à alta demanda do setor.
As dunas eram áreas privadas, mas utilizadas por toda a comunidade como espaço comum (os proprietários não as usavam nem cercavam). A empresa comprou e arrendou a área, cercando‑a e impedindo acesso e circulação dos residentes. Anteriormente, essas terras eram usadas para socialização, lazer, passagem, atalhos, produção agrícola e criação de pequenos animais. Além da cerca, a empresa construiu um canal ao lado para impedir o acesso (Figura 4, p. 19). O cerco resulta em aumento da insegurança alimentar (as lagoas interdunares eram fonte de alimento e renda), perda de acesso a áreas de criação e perda de espaços de socialização. Embora ainda não haja desterritorialização, a perspectiva é que a perda de território se materialize no futuro.
4.5 Projetos eólicos offshore e risco de desterritorialização [§52–§54]
A comunidade de Enxu Queimado também será afetada pela futura instalação de parques eólicos marinhos (offshore). O Complejo Eólico Marino Ventos Potiguar prevê cinco plantas com 2,7 GW e 207 geradores, localizadas entre as praias de Touros e Galinhos. As linhas de transmissão passarão por São Bento do Norte, Pedra Grande (Praia de Enxu Queimado), Touros e São Miguel do Gostoso. Esses lugares podem sofrer impactos ainda mais severos (Medeiros, 2021, p. 160). Os projetos estão em licenciamento ambiental; as empresas já dialogam com o governo municipal, mas a comunidade ainda não foi consultada. Instituições públicas e privadas afirmam que a atividade pesqueira não será afetada — narrativa falaz, pois a pesca é artesanal, não industrial. Se os projetos se materializarem, será o fim de um grupo tradicional que preservou seu território por séculos (Vital, 2023). Essas são características de resistência de um território subordinado: a subordinação está relacionada a políticas externas que envolvem diferentes níveis de governo. Se a situação persistir, a comunidade será desterritorializada — destruída.
5 Conclusiones (p. 21)
5.1 Síntese do novo regime [§55–§56]
A formação de um regime de acaparamiento de terras ocorre com o controle territorial para a exploração de algum tipo de recurso natural. É a exploração predatória que contribui para o desenvolvimento desigual em escala nacional e para a desterritorialização das comunidades tradicionais em escala local. O artigo buscou mostrar a formação do novo regime de extranjerização de terras mediante o controle territorial para a produção de energia solar e eólica, iniciado na primeira década do século XXI. Essa compreensão foi possível graças aos dados da DATALUTA sobre a territorialização de corporações de capital internacional no Brasil. Os processos de expansão territorial das corporações foram denominados territorialização dos ventos e territorialização do sol — entendidos como a multiplicação dos territórios corporativos para produção de energia solar e eólica, analogamente ao que ocorre com commodities agrícolas, florestais ou explorações mineiras.
5.2 Territorialidade emancipadora versus subalterna [§57–§58]
Foram escolhidos dois estudos de caso para analisar a resistência das comunidades afetadas pela territorialização de projetos de energias renováveis. Utilizaram‑se os conceitos de territorialidade subalterna (ou subordinada) e territorialidade emancipadora. Os casos representam: de um lado, a territorialidade subalterna que pode conduzir à desterritorialização das comunidades pelas corporações (Enxu Queimado); de outro, a territorialidade emancipadora que conduz à criação de um território de esperança, garantindo a continuidade da comunidade em seus territórios (Barra das Moitas e Morro dos Patos). Essas disputas territoriais ocorrem em todo o mundo, mas trata‑se de um novo fato, um processo extractivo que começou no século XXI.
6 Argumento Sintético
Ficha Analítica Crítica
Esta seção segue o formato IA Planilhando Textos v12.0.