Fichamento: Educational Expansion and Class Mobility Trends in Brazil

Costa Ribeiro (2023)

Annotated Bibliography
Social Mobility
Social Stratification
Educational Inequality
Brazil
Quantitative Methods
Political Economy
Author

Tales Mançano

Published

April 26, 2026

Costa Ribeiro, C. A. (2023). Educational expansion and class mobility trends in Brazil (Project Documents LC/TS.2023/64). Economic Commission for Latin America and the Caribbean (ECLAC).

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Última atualização: 2026-04-26 Modelo: Perplexity — Claude Sonnet 4.6 Gerado em: 2026-04-26T19:10:00-03:00


1 Sumário Executivo (pp. 5–6)

1.1 Apresentação do problema e escopo analítico [§1–§2]

O documento investiga tendências de mobilidade intergeracional de classe para homens e mulheres ao longo de seis coortes de nascimento — de 1921 a 1981 —, observadas em pesquisas domiciliares realizadas em 1973, 1982, 1988, 1996 e 2014. Além de analisar a variação das tendências segundo três dimensões temporais (idade, coorte e período), o texto busca determinar os efeitos da expansão do acesso ao sistema educacional sobre o aumento da mobilidade intergeracional observado — ou seja, a tendência de crescimento da igualdade de oportunidades educacionais e de mobilidade. O impacto da expansão educacional sobre o hiato racial de mobilidade também é analisado para as cinco coortes mais jovens.


2 Introdução (pp. 7–10)

2.1 Mobilidade intergeracional, educação e lacuna empírica [§1–§3]

A mobilidade intergeracional, medida pela associação entre pais e filhos adultos em termos de classe, renda ou qualquer outro indicador socioeconômico, constitui uma medida importante de desigualdade de oportunidades. Quando as condições socioeconômicas da família de origem se associam fortemente à situação socioeconômica dos filhos adultos, ricos permanecem ricos e pobres permanecem pobres — o que configura alta desigualdade de oportunidades. O direito à educação, e portanto o nível educacional alcançado pelos filhos adultos, é a principal via para superar desvantagens e melhorar as chances de mobilidade. Poucos estudos, contudo, analisam como as mudanças educacionais se relacionam com tendências de mobilidade intergeracional ao longo do tempo.

Pesquisas recentes indicam que a mobilidade de classe aumentou em vários países industrializados (EUA, Suécia, França, Alemanha, Suíça, Países Baixos, Itália e Espanha) em razão da substituição de coortes de nascimento mais antigas e menos fluidas por coortes mais jovens e mais fluidas (Breen e Muller, 2020). Esses estudos não se limitam a medir tendências: buscam definir os mecanismos ligados à educação dos filhos que determinam o aumento da mobilidade intergeracional associada à substituição de coortes ao longo do tempo. A maior parte dessas pesquisas, contudo, concentra-se em nações industrializadas avançadas, onde as mudanças históricas foram significativas mas não dramáticas, ao contrário do Brasil (Blanden, 2011; Solís e Boado, 2016; Torche, 2014).

2.2 Contribuições e avanços do estudo [§4–§8]

O documento analisa os efeitos da educação sobre as tendências de mobilidade intergeracional de classe no Brasil — país em que expansão educacional, urbanização e desenvolvimento econômico avançaram rapidamente desde meados do século XX.

O texto apresenta quatro contribuições principais. Primeiro, oferece a mais longa série histórica de mobilidade intergeracional já analisada para qualquer país da América Latina, utilizando dados das PNADs de 1973 a 2014. Segundo, demonstra que o nível educacional alcançado é o principal fator explicativo das tendências de aumento da mobilidade, operando por meio de quatro mecanismos: (i) expansão composicional do ensino médio e superior (Educ. Expansion); (ii) equalização das oportunidades educacionais (Equalize); (iii) retornos de classe à educação no mercado de trabalho (Educ. Return); e (iv) efeito direto da classe de origem sobre a classe de destino, independente da educação (Origin Return).

Terceiro, apesar de todos os impactos da expansão educacional, a vantagem dos brancos sobre os não brancos (negros e pardos) em mobilidade intergeracional permanece inalterada para as coortes nascidas entre 1931 e 1981. Ao menos metade do efeito da raça sobre a mobilidade depende do nível educacional alcançado; a outra metade decorre de desvantagens no mercado de trabalho, incluindo discriminação racial e redes de emprego. Quarto, o documento apresenta evidências sobre os impactos da expansão educacional nas tendências de mobilidade de homens e mulheres separadamente, algo analiticamente necessário dado o padrão distinto de inserção feminina no mercado de trabalho ao longo das décadas.

2.3 Distinção entre mobilidade absoluta e relativa [§9–§10]

Note

Mobilidade absoluta representa o volume total de mobilidade ascendente, descendente e imobilidade observado, bem como as percentagens de indivíduos de diferentes origens de classe que alcançam cada nível educacional. Mobilidade relativa (ou fluidez social) mede a associação entre a classe parental e o nível educacional alcançado ou a classe de destino dos filhos adultos, calculada por meio de razões de chance (odds ratios) estimadas via modelos log-lineares. Em suma, a mobilidade relativa mensura a desigualdade de oportunidades educacionais e de mobilidade intergeracional.

O documento utiliza as PNADs para investigar mudanças na mobilidade intergeracional ao longo de seis coortes nascidas entre 1921 e 1981, observadas em 1973, 1982, 1988, 1996 e 2014. As implicações para formuladores de políticas são destacadas: políticas educacionais que promovam a expansão do ensino superior são o principal fator de aumento da mobilidade social e fluidez; políticas que promovam a igualdade de acesso ao ensino superior para grupos desfavorecidos também são essenciais; e políticas de redução da desigualdade econômica na geração presente impactam as oportunidades de mobilidade da geração futura, pois as chances de mobilidade são determinadas tanto pelo nível educacional quanto pelo contexto socioeconômico familiar.


3 I. O Triângulo Básico da Estratificação e os Mecanismos da Mobilidade Intergeracional (pp. 11–12)

3.1 O modelo O-E-D e seus quatro mecanismos [§11–§13]

A relação entre classes de origem (O), educação (E) e classes de destino (D) pode ser resumida no triângulo básico da estratificação O-E-D. Décadas de estudos de mobilidade de classe (Breen, 2005; Breen e Muller, 2020; Erikson e Goldthorpe, 1992) revelaram que o desempenho educacional desempenha papel significativo na mediação da associação entre as classes de origem e de destino. Segundo a teoria da modernização (Treiman, 1970), a sociedade industrial tenderia a ser mais meritocrática porque a educação mediaria completamente o processo de mobilidade. Os estudos de estratificação refutaram essa teoria: décadas de pesquisa demonstram que a classe de origem está associada ao acesso à educação e que existem diversas formas de transmissão intergeracional que não passam pelo sistema educacional (Hout e Di Prete, 2006; Di Prete, 2020).

Os estudos atuais buscam mostrar em que medida a classe de destino depende da classe de origem e da educação alcançada, a fim de analisar o grau de fluidez social que caracteriza o sistema de estratificação de uma dada sociedade. Para tanto, definem-se quatro mecanismos básicos, tomando a educação alcançada como mediadora central da relação entre origem e destino (OD):

  • Equalização das Oportunidades Educacionais (OE): redução da vantagem de indivíduos de classes mais altas em progredir no sistema educacional; se essa desigualdade diminui, observa-se redução na associação OD.
  • Expansão Composicional (Educ. Expansion): efeito de composição decorrente do aumento da proporção de pessoas com ensino médio e superior, níveis em que a associação OD é mais fraca.
  • Retornos de Classe à Educação (Educ. Return): se o valor relativo da educação no mercado de trabalho (DE) cai, pode ocorrer redução na associação OD — mecanismo análogo ao que alguns autores denominam “inflação credencial”.
  • Efeito Direto da Origem (Origin Return): influência da classe parental sobre a classe de destino dos filhos que não passa pelo sistema educacional (redes sociais, financiamento de negócios etc.).

4 II. Dados (pp. 13–14)

4.1 Estrutura da amostra e design observacional [§14–§16]

Os dados provêm da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (PNAD-IBGE), coletada em 1973, 1982, 1988, 1996 e 2014. Foram selecionados todos os homens e mulheres residentes em áreas urbanas e rurais, com idades entre aproximadamente 30 e 50 anos, cujas classe de origem (O), educação (E) e classe de destino (D) são conhecidas. A amostra analítica total é de 132.789 homens e 65.959 mulheres. Seis coortes de nascimento (C) foram definidas a partir das cinco pesquisas: C1 (1921–1930), C2 (1931–1940), C3 (1941–1950), C4 (1951–1960), C5 (1961–1970) e C6 (1971–1981).

Coortes 1973 1982 1988 1996 2014
C1: 1921–1930 41–50
C2: 1931–1940 30–40 41–50 51–60
C3: 1941–1950 30–40 41–50 51–60
C4: 1951–1960 30–40 41–50
C5: 1961–1970 30–40 41–50
C6: 1971–1981 30–40

4.2 Classificação de classes e variáveis [§17–§19]

As classes de origem e destino são classificadas segundo o esquema EGP (Erikson e Goldthorpe, 1992) em seis categorias: (i) I+II – Profissionais e administradores; (ii) III – Trabalhadores não manuais de rotina; (iii) IVab – Autônomos e pequenos empregadores; (iv) V+VI – Trabalhadores manuais qualificados; (v) VIIa – Trabalhadores manuais não qualificados; (vi) VIIb+IVc – Trabalhadores rurais e pequenos agricultores. Essas seis classes são hierarquizadas em três grandes grupos — topo (I+II), intermediário (III, IVab, V+VI) e base (VIIa, VIIb+IVc) —, sendo apenas a mobilidade entre esses três grandes grupos considerada mobilidade vertical.

A educação é medida em cinco categorias: (1) 0–3 anos de estudo; (2) 4–7 anos; (3) 8 anos (ensino fundamental completo); (4) 9–11 anos (ensino médio); (5) 12 ou mais anos (ensino superior). A variável raça (branca vs. não branca) é utilizada nas seções finais; a única pesquisa sem informação sobre raça é a de 1973. A participação feminina no mercado de trabalho aumentou substancialmente entre as coortes — de 43% na C1 para 69% na C6 —, o que impossibilita a comparação direta das tendências de mobilidade de homens e mulheres, pois a classe de origem está associada às chances de inserção laboral das mulheres (mas não dos homens).


5 III. Metodologia (pp. 15–17)

5.1 Medidas de mobilidade absoluta e fluidez social [§20–§22]

As medidas de mobilidade absoluta são calculadas pela contagem de casos em combinações específicas de classes de origem e destino: mobilidade ascendente (destino hierarquicamente superior à origem), mobilidade descendente (destino inferior) e imobilidade (destino igual à origem). A soma das três deve ser igual a 1 (ou 100%). A estatística fundamental da fluidez social é a razão de chances (odds ratio): compara as chances de indivíduos de duas classes de origem diferentes de alcançar uma mesma classe de destino. Os modelos log-lineares estimados neste trabalho utilizam o logaritmo das razões de chance (log-odds-ratio). Uma razão de chances igual a 1 (log = 0) indica ausência de vantagem relativa de classe; quanto maior a razão, mais forte é a associação entre origem e destino.

5.2 O Modelo Unidiff [§23–§24]

Para comparar a fluidez social entre múltiplas tabelas de mobilidade, o documento utiliza o Modelo Unidiff (uniform differences model, Xie, 1992; Erikson e Goldthorpe, 1992), também conhecido como modelo log-multiplicativo de efeito de camada. A ideia central é que o padrão dos log odds ratios é o mesmo entre tabelas comparadas, mas o tamanho geral (a força da associação) varia para cima ou para baixo. A fórmula é:

[_{ijk} = k {ij}]

Onde (_k) é o parâmetro Unidiff específico da tabela k (coorte, grupo etário ou período), relativo à tabela de referência (coorte mais antiga e grupo etário mais jovem), onde (_k = 1). Se (_k < 1), a fluidez social aumentou (a origem associa-se menos fortemente ao destino); se (_k > 1), a fluidez diminuiu.

5.3 Simulações contrafactuais e mediação educacional [§25–§26]

A abordagem de simulações contrafactuais (Breen, 2010; Vallet, 2017) estima o que a fluidez social “teria sido” caso apenas um dos quatro mecanismos houvesse mudado ao longo das coortes e grupos etários, mantendo os demais fixos nos valores da coorte mais antiga e do grupo etário mais jovem. Isso permite decompor a contribuição relativa de cada mecanismo às tendências observadas de aumento da fluidez.

Para a análise do hiato racial de mobilidade, utiliza-se a comparação de modelos aninhados para dados categóricos desenvolvida por Karlson, Holm e Breen (2012; 2013; 2018). O método permite estimar a proporção da associação total entre raça e classe de destino que é mediada pelo nível educacional, controlando pela classe de origem.


6 IV. Industrialização, Estrutura de Classe e Expansão Educacional (pp. 19–24)

6.1 Crescimento econômico e transformação da estrutura ocupacional [§27–§29]

Entre 1960 e 1980, o Brasil foi o país cuja economia mais cresceu no mundo (Abreu e Verner, 1997). A estrutura de classes brasileira se transformou enormemente ao longo das décadas, principalmente porque industrialização e urbanização transformaram rapidamente a estrutura ocupacional: o trabalho rural tradicional foi rapidamente suplantado pelo trabalho nos setores industrial e de serviços urbanos. Como a expansão educacional foi mais lenta que o crescimento econômico, muitos trabalhadores com baixa qualificação encontraram empregos em ocupações que demandavam mais conhecimento técnico, dada a escassez de mão de obra qualificada (Cardoso, 2008). Nesse contexto, os diplomas escolares eram altamente valorizados, mesmo que fossem apenas credenciais de ensino fundamental.

O crescimento econômico até 1980 — média de 7,7% de crescimento anual do PIB entre 1948 e 1980 — e a continuidade do crescimento populacional ao longo do século XX tornaram cada vez mais necessária mão de obra mais qualificada na indústria e, especialmente, nos serviços. A principal consequência da rápida industrialização e urbanização é que a maioria das pessoas no mercado de trabalho é filha de trabalhadores rurais (classe VIIb): entre os nascidos em 1921–1930 (C1), cerca de 80% tinham origens rurais, enquanto na coorte mais jovem (C6: 1971–1981) esse percentual caiu para 40%.

6.2 Distribuição de classes de origem e destino ao longo das coortes [§30–§32]

O processo de industrialização combinou, por um lado, expansão de indústrias de baixa tecnologia e de um setor industrial mais moderno (classes V-VI e VIIa) e, por outro, crescimento do setor de serviços (classes III e IVab) e de um setor profissional e gerencial mais sofisticado (classe I-II). O exame da Figura 1 revela que o acentuado declínio de homens e mulheres com origens na classe rural (VIIb) foi acompanhado por um acentuado declínio do destino nessa classe rural e por um significativo crescimento do destino em todas as classes urbanas — reflexo da rápida urbanização das décadas de 1960 e 1970. As destinos nas classes profissionais (I+II) expandiram significativamente entre coortes: de 8,7% (homens) e 6,8% (mulheres) na coorte mais antiga (C1) para 21% (homens) e 26% (mulheres) na mais jovem (C6).

As posições de classe de trabalho urbano (V+VI e VIIa) cresceram continuamente para os homens, passando de 35% na C1 para 50% na C6, enquanto permaneceram praticamente inalteradas para as mulheres (cerca de 40% em todas as coortes). A taxa de mulheres em trabalho não manual de rotina (classe III) aumentou de 8,4% na C1 para 20% na C6, refletindo a crescente segregação sexual da estrutura ocupacional (Silveira e Leão, 2020).

6.3 Expansão do sistema educacional [§33–§36]

Note

Expansão educacional no Brasil: A mudança mais crítica foi implementada em 1971, quando a educação obrigatória foi ampliada do ensino fundamental menor (4 anos) para o fundamental completo (8 anos). As políticas mais importantes para o acesso ao ensino primário e médio foram implementadas após 1961; as políticas de expansão do ensino superior intensificaram-se após a década de 1980.

Os dados da PNAD mostram que 70% dos homens e 75% das mulheres nascidos na década de 1920 (C1) nunca completaram o ensino primário (0–3 anos de estudo). Esse percentual caiu para 13,5% entre os homens e 8,3% entre as mulheres nascidos na década de 1970 (C6). Por outro lado, entre os nascidos na década de 1920, apenas 3,6% dos homens e 1,9% das mulheres haviam frequentado o ensino superior; entre os nascidos na década de 1970, cerca de 19,5% dos homens e 28% das mulheres já haviam frequentado o ensino superior. Embora tardia em comparação com países industrializados (Shavit e Blossfeld, 1993) e mesmo com vizinhos latino-americanos menos industrializados (Silva e Hasenbalg, 2000), a expansão do sistema educacional brasileiro foi rápida: em seis décadas, o país passou de uma situação em que o sistema excluía a maioria da população relevante para uma em que conseguia atendê-la razoavelmente.

Quanto à desigualdade racial na educação, Figuras 3A e 3B mostram que, em todas as coortes, a proporção de brancos com ensino médio e superior é superior à de negros, enquanto as proporções com ensino fundamental incompleto e completo são mais altas entre os negros. As políticas de ação afirmativa para negros foram implementadas no Brasil apenas após 2002, impactando positivamente a redução da desigualdade racial na educação para jovens nascidos no final dos anos 1990 — gerações não analisadas neste documento (Mello, 2021).


7 V. Tendências das Taxas de Mobilidade Absoluta (pp. 25–26)

7.1 Crescimento da mobilidade vertical e suas duas componentes [§37–§38]

As taxas de mobilidade absoluta medem a oportunidade total de mobilidade intergeracional que caracteriza cada coorte. O documento foca na mobilidade vertical total e em seus dois componentes: mobilidade ascendente e descendente. Dentro da estrutura de classes EGP, são consideradas verticais apenas as mobilidades entre os três níveis hierárquicos: base (VIIa e VIIb), intermediário (V-VI, IVab, III) e topo (I-II). Mobilidades entre classes dentro do mesmo nível são tratadas como mobilidade horizontal.

As Figuras 4A e 4B apresentam as tendências de mobilidade vertical total e seus dois componentes para homens e mulheres nas seis coortes nascidas entre 1921 e 1981. Para ambos os sexos, a mobilidade vertical aumentou: quanto mais jovem a coorte, maiores as chances de mobilidade. Tanto a mobilidade ascendente quanto a descendente aumentaram, sendo a primeira mais comum. Embora as tendências de mobilidade vertical crescente estejam diretamente ligadas às melhorias na estrutura de classes decorrentes da industrialização e urbanização, constituem também um indício de que a mobilidade relativa ou fluidez social também aumentou.


8 VI. Taxas Relativas e Desigualdade de Oportunidades: Resultados Empíricos (pp. 27–36)

8.1 Mudanças na associação origem-destino (OD) [§39–§43]

Embora as taxas de mobilidade absoluta indiquem crescimento das oportunidades, é necessário investigar tendências de mobilidade relativa — medida padrão de desigualdade de oportunidades. As perguntas centrais desta seção são: as taxas de mobilidade relativa acompanham a mobilidade absoluta? Qual dimensão temporal melhor explica a tendência — coorte, ciclo de vida (efeito de idade) ou período?

Para investigar as tendências da fluidez social ao longo do tempo e distinguir entre efeitos de idade, período e coorte, utilizam-se modelos log-multiplicativos (Xie, 1992). Cinco modelos aninhados são estimados e comparados via estatística BIC (critério de informação Bayesiano). O Modelo 3 — que permite variação da associação OD ao longo das coortes de nascimento e dos grupos etários (βCβAOD) — é o preferido para descrever tendências tanto para homens quanto para mulheres, por apresentar o BIC mais negativo. Os parâmetros Unidiff estimados pelo Modelo 3 (Figura 5) revelam uma tendência de declínio na associação OD ao longo das coortes e dos grupos etários, indicando que a fluidez social aumentou. Por exemplo, os filhos de profissionais (I-II) nascidos na C1 tinham sete vezes mais chances de se tornarem profissionais do que filhos de trabalhadores manuais qualificados (V-VI) nascidos na mesma coorte; entre os nascidos na C6, essa vantagem diminuiu para três vezes.

8.2 Mudanças na desigualdade de oportunidades educacionais (OE) [§44–§48]

A “equalização das oportunidades educacionais” é um dos mecanismos centrais que poderia explicar o aumento da fluidez observado. Os modelos estimados (Tabela 3) revelam redução na desigualdade de oportunidades educacionais para homens e mulheres. Para homens, o Modelo 3 oferece o melhor ajuste: os parâmetros Unidiff revelam declínio contínuo na associação OE da C1 à C5, com leve aumento na C6. A associação OE é mais forte para pessoas mais jovens dentro de uma mesma coorte, indicando efeito de idade. Um exemplo ilustrativo: as filhas de profissionais e administradores (I-II) nascidas na década de 1920 tinham 40 vezes mais chances de transitar do ensino fundamental para o médio do que filhas de trabalhadores manuais qualificados (V-VI); entre as nascidas na década de 1970, essa vantagem caiu para 12 vezes. Para mulheres, o parâmetro Unidiff cai de 1 (C1) para 0,640 (C6), confirmando a tendência de redução da desigualdade de oportunidades educacionais.

8.3 Mudanças na associação educação-destino (ED) [§49–§52]

O declínio nos retornos de classe à educação ao longo do tempo é o segundo mecanismo que poderia explicar o aumento da fluidez social. Para homens, o Modelo 3 apresenta o melhor ajuste (Tabela 4, painel a): observa-se tendência de declínio na associação ED ao longo das coortes. Isso indica que os retornos decrescentes à educação são mecanismos que explicam parte da tendência de aumento da fluidez social. Adicionalmente, a associação ED diminui à medida que os homens envelhecem na mesma coorte — evidência de que os retornos à educação diminuem com a experiência no mercado de trabalho. O mesmo padrão é observado para mulheres (Tabela 4, painel b): os parâmetros Unidiff revelam que o valor das credenciais educacionais diminui ao longo das coortes e à medida que as mulheres envelhecem.

Important

O valor da educação não é absoluto, mas relativo: depende da oferta de pessoas educadas. Se a oferta cresce, o valor da educação pode declinar. A expansão educacional aumenta essa oferta, tendendo a reduzir o valor da educação e, consequentemente, o impacto do nível educacional sobre a mobilidade intergeracional.

8.4 Associação OD por nível educacional (OD sobre E) [§53–§55]

A hipótese de um efeito composicional da expansão educacional sobre a fluidez social é investigada por meio de modelos que analisam se a força da associação “direta” entre origem e destino (OD) varia conforme o nível educacional alcançado. Para homens e mulheres, o Modelo 5 — que permite variação da associação OD ao longo dos níveis educacionais — apresenta o melhor ajuste (BIC mais negativo, Tabela 5). Como esperado, em níveis educacionais mais altos, a influência da classe parental sobre a classe de destino dos filhos é menos intensa. Pessoas de classes de origem mais baixas que alcançaram o ensino médio e superior conseguem escapar das desvantagens de sua classe de origem, o que confirma o efeito composicional da expansão educacional.


9 VII. Simulações Contrafactuais: A Contribuição dos Diferentes Mecanismos (pp. 37–40)

9.1 Resultados para homens [§56–§60]

A Figura 9A apresenta os resultados das simulações para homens, mostrando as parcelas da tendência decrescente da associação OD que se devem a cada um dos quatro mecanismos. Para as coortes C2 (1931–1940) e C3 (1941–1950), o aumento da fluidez social é principalmente consequência do declínio nos “Retornos de Origem” (OriginReturn) — redução da associação líquida entre origem e destino, descontando o efeito da educação —, com contribuição adicional do mecanismo de “declínio dos retornos educacionais” (EducReturn).

A partir da coorte C4 (1951–1960), há um forte efeito do mecanismo de “Equalização das Oportunidades Educacionais” (Equalize), que passa a explicar a tendência melhor do que os outros dois efeitos (EducReturn e OriginReturn). A coorte C4 já começava a se beneficiar da expansão do ensino primário e fundamental impulsionada pelas reformas educacionais de 1961 e 1971 — cuja principal mudança foi a expansão do ensino fundamental para 8 anos. A partir da coorte C5 (1961–1970), o mecanismo de equalização permanece o mais importante, mas o mecanismo composicional de “expansão educacional” (Expand) também se torna altamente relevante: mais de 50% dos nascidos na década de 1960 (C5) já tinham ensino médio ou superior, e nessas faixas a associação OD é mais fraca.

Para a coorte mais jovem (C6: 1971–1981), os efeitos da educação tornam-se ainda mais significativos, especialmente o efeito composicional (Expand), pois mais de 63% dos homens dessa coorte já tinham ensino médio ou superior. Os mecanismos de equalização (Equalize) e declínio dos retornos educacionais (EducReturn) também continuaram contribuindo para a queda na associação OD. Em síntese, a expansão do sistema educacional contribuiu para reduzir a associação OD (aumentar a fluidez) ao longo das coortes principalmente via os mecanismos de “Equalização das Oportunidades Educacionais” e, a partir da C4, de “Expansão Educacional”.

9.2 Resultados para mulheres [§61–§62]

Tip

Para mulheres, os padrões são similares aos dos homens quanto à contribuição dos mecanismos, com a ressalva de que a tendência de aumento da fluidez social também está relacionada à crescente participação feminina no mercado de trabalho ao longo das coortes — fator que introduz um viés de seleção na análise da mobilidade feminina.

Para as mulheres, as simulações (Figura 9B) confirmam o mesmo padrão geral: os mecanismos de equalização das oportunidades educacionais e de expansão educacional são os principais responsáveis pelo aumento da fluidez social ao longo das coortes mais jovens. No entanto, como as mulheres que ingressam no mercado de trabalho provêm crescentemente de famílias mais abastadas, a tendência de aumento da fluidez para mulheres é parcialmente confundida pela composição cada vez mais seletiva da amostra feminina.


10 VIII. O Hiato Racial de Mobilidade Ascendente (pp. 41–46)

10.1 Persistência das disparidades raciais na mobilidade de classe [§63–§67]

Important

Apesar do notável aumento da mobilidade intergeracional de classe observado para as coortes mais jovens, o hiato racial de mobilidade ascendente não se alterou entre as coortes nascidas entre os anos 1930 (C2) e os anos 1970 (C6). Homens e mulheres brancos têm cerca de 25% e 30% a mais de mobilidade ascendente do que homens e mulheres não brancos em todas as cinco coortes analisadas.

O Brasil é uma sociedade multirracial em que as divisões raciais e de cor de pele moldam padrões e tendências de estratificação social. O país foi a maior sociedade escravista das Américas durante o período colonial, e sua população com origens africanas é a maior das Américas — segundo o Censo de 2010, 50,7% da população brasileira se classificou como negra ou parda. Desde o fim da escravidão em 1888, os níveis de desigualdade racial permaneceram elevados até hoje. A pesquisa acumulada indica que a desigualdade racial — em termos de renda, educação, distribuição regional da população e muitos outros aspectos — permaneceu elevada e não se alterou de forma significativa (Osório, 2009; Silva, 1988; Telles, 2004). Estudos anteriores (Osório, 2009; Ribeiro, 2020) já mostravam que o hiato racial de mobilidade de renda e de status ocupacional não se alterou entre coortes.

10.2 O papel da educação no hiato racial de mobilidade [§68–§72]

As Tabelas 6 e 7 mostram que o nível educacional depende tanto da classe de origem quanto da raça, e que ao longo das coortes as disparidades racial e de classe de origem na educação diminuíram consideravelmente, mas ainda persistem na coorte mais jovem. Para os homens da C6 de baixa classe de origem, por exemplo, 41,5% dos negros e 54,4% dos brancos têm educação de nível médio ou superior; para a classe de origem alta, esses percentuais são de 83,4% para negros e 92,6% para brancos (Tabela 6).

As Tabelas 8 e 9 apresentam a decomposição do efeito total da raça sobre a classe de destino em efeito direto e efeito indireto (via educação), controlando pela classe de origem. Para homens brancos (vs. não brancos): as chances de alcançar a classe intermediária são 2,1 vezes maiores; dessa associação total, cerca de 45–50% passa pela educação (efeito indireto), enquanto o restante é direto (discriminação e redes no mercado de trabalho). Para alcançar a classe alta, as chances dos brancos são 3,2 vezes maiores; cerca de 52–55% passa pela educação. Para mulheres, o padrão é similar: 2,2 vezes mais chances para a classe intermediária (35,5% via educação) e 3,5 vezes mais para a classe alta (52,7% via educação). Esses padrões não se alteram entre as coortes de nascimento.

Tip

A persistência do hiato racial de mobilidade, mesmo no contexto de crescente fluidez social geral, confirma a hipótese de persistência da desigualdade racial no Brasil (Hasenbalg, 1979). Políticas de aumento da mobilidade ascendente de não brancos devem combinar ação afirmativa no sistema educacional com políticas de combate à discriminação no mercado de trabalho.


11 IX. Conclusão (pp. 47–48)

11.1 Síntese dos resultados e implicações para políticas [§73–§75]

As evidências apresentadas no documento baseiam-se em dados de alta qualidade e comparáveis das PNADs para analisar sistematicamente como a mobilidade e a fluidez intergeracional de classe mudaram para homens e mulheres trabalhadores nascidos entre 1921 e 1981. Durante esse extenso período, a estrutura de classes foi completamente transformada pela urbanização, industrialização e modernização da sociedade brasileira. A distribuição de realizações educacionais dos indivíduos também foi drasticamente alterada por diversas reformas educacionais ao longo do século XX e início do XXI: enquanto mais da metade dos nascidos na década de 1920 não havia completado o ensino primário (4 anos), mais da metade dos nascidos na década de 1970 já havia ingressado no ensino médio (9 ou mais anos de educação).

Os resultados principais indicam que as três coortes mais recentes (C4, C5 e C6) são mais fluidas intergeracionalmente do que as mais antigas (C1, C2 e C3), principalmente porque a expansão educacional levou a uma considerável diminuição da associação entre origem e destino para as três coortes mais jovens. Para as duas coortes mais jovens (C5 e C6), o efeito da expansão educacional (Expand) foi o mais importante de todos — o que era esperado, dado que essas coortes foram diretamente afetadas pelas reformas educacionais que mais contribuíram para expandir o sistema a partir dos anos 1970. A democratização do acesso ao sistema educacional — aumento da igualdade de oportunidades educacionais — e a expansão do ensino médio e superior — mecanismo composicional — desempenham papéis críticos na explicação da tendência de crescimento da fluidez e igualdade de oportunidades no Brasil. Em contraste, homens e mulheres autodeclarados brancos mantiveram melhores chances de mobilidade ascendente do que os não brancos, vantagem que permaneceu constante entre os nascidos na década de 1930 (C2) e os nascidos na década de 1970 (C6).


12 Argumento Sintético

Note

Tese central: A expansão educacional brasileira entre as coortes nascidas de 1921 a 1981 é o principal mecanismo causal do aumento da fluidez social intergeracional de classe, operando sobretudo via equalização das oportunidades educacionais (para as coortes C4–C6) e efeito composicional do crescimento do ensino médio e superior (para as coortes C5–C6); contudo, essa expansão não reduziu o hiato racial de mobilidade ascendente, que permanece constante ao longo das mesmas coortes.

Natureza do argumento: Predominantemente descritivo-explicativo, com orientação causal analítica: decomposição contrafactual da contribuição de quatro mecanismos ao declínio da associação origem-destino ao longo das coortes.

O que o texto demonstra: (i) aumento consistente da fluidez social ao longo das coortes e do ciclo de vida; (ii) predominância dos mecanismos de equalização e expansão educacional no período recente; (iii) declínio moderado dos retornos de classe à educação (inflação credencial); (iv) persistência do hiato racial de mobilidade, com metade dele dependendo de disparidades educacionais e a outra metade de discriminação no mercado de trabalho.

O que fica como hipótese ou agenda: A análise causal das reformas educacionais específicas sobre a mobilidade é declarada impossível com os dados disponíveis. Os efeitos das políticas de ação afirmativa pós-2002 sobre coortes nascidas nos anos 1990 e 2000 ficam explicitamente fora do escopo. A relação entre desigualdade racial no mercado de trabalho e mobilidade intergeracional para coortes mais jovens permanece como agenda de pesquisa.

Contribuição para o debate mais amplo: O texto posiciona-se no diálogo com a literatura de mobilidade comparada (Breen e Muller, 2020; Erikson e Goldthorpe, 1992) ao demonstrar que, mesmo em um contexto de transformação estrutural dramática — diferentemente das nações industrializadas avançadas estudadas por essa literatura —, os mecanismos educacionais operam de forma análoga. Ao mesmo tempo, inova ao articular análise de coortes com decomposição de mecanismos e análise do hiato racial para o caso brasileiro.


Ficha Analítica Crítica

Note

Esta seção segue o formato IA Planilhando Textos v13.0.

Dimensão Raciocínio analítico Conteúdo
Questão de Pesquisa A premissa central é que a educação media a relação entre origem e destino, mas que os efeitos específicos de cada mecanismo educacional sobre a fluidez não são empiricamente decompostos para o Brasil em perspectiva longitudinal longa. A interpretação alternativa seria que transformações estruturais (urbanização, industrialização) explicam a mobilidade independentemente da educação. O ponto mais vulnerável é a impossibilidade de identificar causalmente o efeito de reformas educacionais específicas com os dados disponíveis. Como e em que medida a expansão educacional brasileira explica o aumento da fluidez social intergeracional de classe ao longo de seis coortes (1921–1981)? E em que medida essa expansão reduziu o hiato racial de mobilidade? Natureza: explicativa. Pergunta sobre o hiato racial é secundária mas explicitada.
Questões Secundárias Essas perguntas derivam da principal e articulam-se à decomposição analítica dos mecanismos do triângulo O-E-D. A relação é de complementaridade: juntas, estruturam a agenda empírica do documento. (1) Quais são as tendências de mobilidade absoluta e relativa ao longo das coortes? (2) Qual dos quatro mecanismos (expansão, equalização, retornos educacionais, retornos de origem) contribui mais para o aumento da fluidez? (3) Há efeito de idade, período ou coorte sobre a mobilidade? (4) Como a raça se relaciona com a mobilidade e qual o papel da educação nessa relação?
Puzzle-Type O puzzle é genuíno: a lacuna empírica é real (ausência de séries longas e decomposição de mecanismos para o Brasil). A generalizabilidade é razoável para países em rápido processo de industrialização tardia, mas as scope conditions são específicas ao contexto de transformação estrutural dramática do Brasil. O puzzle sobre a persistência do hiato racial é ainda mais relevante teoricamente: testa se a expansão educacional universal pode superar a desigualdade racial estrutural. Gap descritivo combinado com puzzle explicativo: ausência de análise longitudinal longa e de decomposição de mecanismos educacionais para a mobilidade de classe no Brasil. O puzzle racial tem elementos de debate normativo (persistência vs. mudança da desigualdade racial).
Conclusão / Argumento Central A tese é sustentada por evidências empíricas sistemáticas via modelos Unidiff e simulações contrafactuais. O claim of discovery — que a expansão composicional e a equalização são os principais mecanismos — é bem sustentado pelos resultados das simulações. O argumento sobre a persistência racial é corroborado por múltiplas análises (absoluta, relativa e decomposição). A expansão educacional brasileira é o principal fator explicativo do aumento da fluidez social intergeracional ao longo das coortes, operando via equalização das oportunidades educacionais e efeito composicional da expansão do ensino médio e superior. Contudo, essa expansão não reduziu o hiato racial de mobilidade, que permanece constante entre as coortes C2 e C6, com metade de sua origem na desigualdade educacional e metade na discriminação no mercado de trabalho. Argumento causal-descritivo com decomposição de mecanismos.
Métodos O design observacional multi-coorte é bem-adequado às perguntas. A escolha do Modelo 3 (BIC) é razoável mas a comparação entre BIC e L² pode mascarar diferenças substantivas pequenas entre modelos. A limitação de identificação mais crítica é a impossibilidade de separar causalmente efeitos de reformas específicas dos efeitos estruturais. O uso do KHB para decomposição racial é metodologicamente sofisticado para o contexto. Estudo quantitativo observacional de tendências em dados cross-sectional replicados (PNADs 1973–2014). Modelos log-lineares Unidiff para estimação de tendências de fluidez social (associações OD, OE, ED). Simulações contrafactuais (Breen 2010; Vallet 2017) para decomposição de mecanismos. Método KHB (Karlson-Holm-Breen) para mediação via educação do efeito racial. Seleção de modelo por BIC.
Data Generation Process (DGP) O fenômeno real (mobilidade intergeracional) é observado via surveys retrospectivos que captam a ocupação do pai. A principal limitação do DGP é que a ocupação do pai é medida retrospectivamente (quando o respondente tinha ~14 anos) e que o momento de observação do respondente varia por coorte — o que o autor reconhece e aborda via modelos com efeitos de idade e coorte. A seletividade da amostra feminina é reconhecida mas tratada apenas descritivamente. Fenômeno: mobilidade intergeracional de classe → Observação: dados domiciliares PNAD (retrospectivos) → Coleta: surveys nacionais (IBGE) em cinco pontos no tempo (1973, 1982, 1988, 1996, 2014) → Operacionalização: esquema EGP de 6 classes, 5 categorias educacionais, 3 grupos etários → Análise: modelos log-lineares Unidiff → Inferência: descritivo-causal (decomposição de mecanismos). Unidade de análise: indivíduos (30–50 anos, no mercado de trabalho). Nível: indivíduo, agregado por coorte. N = 132.789 homens; 65.959 mulheres.
Achados e Contribuições Os achados são sólidos empiricamente. A principal contribuição metodológica — a adaptação do método de simulação contrafactual (Breen 2010) ao contexto brasileiro com dados de séries longas — é genuína. O achado sobre a persistência racial é teoricamente importante mas metodologicamente menos identificado (sem controles para discriminação laboral direta). A contribuição sobre o ciclo de vida (efeito de idade sobre a fluidez) é inovadora para o caso brasileiro. (1) Fluidez social aumentou consistentemente da C1 à C6 para homens e mulheres (cohort e age effects; sem period effect). (2) Para C4–C6, equalização de oportunidades educacionais é o mecanismo predominante; para C5–C6, o efeito composicional também se torna central. (3) Retornos de origem e retornos educacionais explicam o aumento da fluidez para as coortes mais antigas. (4) O hiato racial de mobilidade é estável entre as 5 coortes analisadas; ~50% do efeito racial passa pela educação e ~50% é direto (mercado de trabalho). (5) Primeira série longa de mobilidade para a América Latina com decomposição de mecanismos.
Análise Crítica dos Achados O autor responde adequadamente à pergunta principal. Os pontos mais sólidos: uso de modelos comparativos rigorosos (Unidiff), simulações contrafactuais e série histórica longa. Pontos mais vulneráveis: (1) impossibilidade de causalidade para reformas específicas; (2) seletividade amostral das mulheres não integralmente modelada; (3) categorias de raça autodeclaradas podem ter variabilidade entre surveys; (4) a ausência de 1973 nas análises raciais reduz a cobertura histórica. Generalizabilidade: razoável para países em industrialização tardia com expansão educacional rápida. O autor responde adequadamente à questão principal. A identificação dos mecanismos por simulação contrafactual é descritiva-analítica, não causal no sentido Potential Outcomes. A ameaça de viés de seleção na amostra feminina é reconhecida mas não completamente resolvida. A scope condition implícita — contexto de rápida transformação estrutural — não é formalizada. A conclusão sobre o hiato racial é forte mas a decomposição via KHB assume exogeneidade da educação em relação à discriminação racial, o que pode não se sustentar.
Limitações O autor reconhece explicitamente a limitação de não poder identificar o efeito causal de reformas educacionais específicas e a impossibilidade de comparação direta entre tendências de mobilidade de homens e mulheres por conta da seletividade feminina. Não reconhecidas ou subestimadas: a endogeneidade potencial da variável educação na mediação racial; a ausência de variáveis sobre qualidade educacional (não apenas quantidade); a impossibilidade de distinguir efeitos de discriminação de efeitos de redes sociais na transmissão direta de vantagens de classe; a limitação da PNAD de 1973 à região urbana para algumas análises. Reconhecidas pelos autores: impossibilidade de identificar efeito causal de reformas específicas; não comparabilidade direta entre séries de mobilidade masculina e feminina; ausência de dados de raça para 1973.
Não reconhecidas ou subestimadas: endogeneidade da educação na decomposição racial (KHB assume sequencialidade causal); ausência de controles para qualidade educacional; impossibilidade de distinguir efeitos de redes sociais vs. discriminação no mecanismo “Origin Return”; truncamento das séries para a coorte C6 (observada apenas aos 30–40 anos).
Perspectiva Teórica A moldura do triângulo O-E-D é bem estabelecida e adequada à pergunta. A coerência entre ontologia implícita (estruturalismo de classes neo-weberiano) e método (modelos log-lineares baseados em tabelas de mobilidade) é alta. A teoria da modernização (Treiman 1970) é usada como baseline a ser refutada, o que é apropriado. Contudo, mecanismos institucionais (políticas educacionais específicas) e mecanismos de classe (Bourdieu, capital cultural) ficam subteorizados. Tradição neo-weberiana de análise de classes (Erikson e Goldthorpe, 1992); sociologia quantitativa da estratificação e mobilidade (Breen 2005; Breen e Muller 2020). Diálogo com literatura de mobilidade comparada para países industrializados e com literatura sobre desigualdade racial no Brasil (Hasenbalg 1979; Telles 2004). A moldura é adequada ao tipo de pergunta e evidência.
Principais Referências A literatura de mobilidade comparada internacional (Breen, Erikson-Goldthorpe, Xie) é bem mobilizada. A literatura brasileira de estratificação (Ribeiro 2007, 2009; Torche e Ribeiro 2010) é integralmente incorporada. Lacuna: a literatura de políticas educacionais brasileiras é citada de forma pontual (Arretche 2018; Senkevics 2021), sem explorar os mecanismos institucionais que ligam reformas específicas a resultados de mobilidade. A literatura de economia da educação (Carneiro e Heckman 2002) é mencionada perifericamente. Erikson e Goldthorpe (1992); Breen (2005, 2010); Breen e Muller (2020); Xie (1992); Torche (2010, 2014, 2015); Hasenbalg (1979); Telles (2004); Ribeiro (2007, 2009, 2020); Arretche (2018); Mello (2021); Vallet (2017); Karlson-Holm-Breen (2012). Diálogo predominantemente equilibrado entre literatura internacional e brasileira.
Observações Para o leitor com interesse em políticas educacionais e desigualdade no Brasil, o documento é referência incontornável para contextualizar mecanismos de mobilidade intergeracional no longo prazo. A análise do hiato racial, embora descritiva, levanta questões diretamente relevantes para pesquisa sobre afirmativas raciais e mercado de trabalho. Conexões com a literatura de class ceiling e desigualdade horizontal no ensino superior (Carvalhaes e Ribeiro 2019) poderiam enriquecer a análise para as coortes mais jovens. O recorte temporal que exclui coortes pós-1981 é uma limitação importante para avaliação das políticas de ação afirmativa. Vulnerabilidade adicional: a análise assume estabilidade do esquema EGP ao longo de cinco décadas de rápida transformação estrutural, o que pode subestimar a heterogeneidade intraclasse crescente (ex.: polarização dentro da classe I+II). A validade externa é razoável para contextos de industrialização tardia com expansão educacional acelerada (China, Índia, países africanos). O trabalho dialoga diretamente com pesquisa sobre desigualdade educacional e mobilidade no Brasil, sendo útil como baseline empírico para análises de políticas pós-2002.