Fichamento: As Políticas Creditícias no Brasil Sob as Esquerdas
Chaise, M. (2026). As políticas creditícias no Brasil sob as esquerdas: A agenda do crédito popular antes do governo Lula. Dados, 69(1), e20240059. https://doi.org/10.1590/dados.2026.69.1.405
Ficha Analítica Crítica
Esta seção segue o formato IA Planilhando Textos v17.4.
Mapa Argumentativo
| Seção | Título / Tema | Função argumentativa | Contribuição para a tese central |
|---|---|---|---|
| Introdução | Contexto, puzzles, metodologia e estrutura do argumento | Apresentação do puzzle e da tese | Estabelece o debate sobre a “deriva neoliberal” do PT via crédito popular; apresenta o arranjo consignado + microcrédito; anuncia a estratégia genealógica |
| Seção 2 | “Você pagou com traição” — revisão da literatura crítica ao lulismo | Revisão de literatura adversarial | Reconstrói e qualifica o argumento adversário (Paulani, Lavinas, Borges Neto, Sicsú) para depois refutá-lo; delimita o que a literatura crítica afirma e onde ela é vulnerável |
| Seção 3 | O acesso ao crédito popular antes do governo Lula | Análise empírica de contexto histórico | Demonstra que os mais pobres tinham acesso apenas ao mercado informal (agiotagem) ou a iniciativas assistencialistas antes de 2003; caracteriza o modelo do Banco Mundial e mostra que o Brasil já dele divergia desde 1986 |
| Seção 4 | A agenda do crédito popular e o PT “histórico” | Análise empírica central (estudo de caso múltiplo) | Documenta empiricamente a associação PT/microcrédito subnacional (20/37 iniciativas; as 5 mais famosas); descreve o modelo PortoSol e suas extrapolações verticais e horizontais; vincula a agenda ao programa de governo de Lula desde 1998; caracteriza as inovações de 2003 |
| Conclusão | “Pode a política de crédito ser compreendida como uma política social?” | Síntese, qualificação normativa e agenda | Sintetiza os achados empíricos; inverte o argumento de Lavinas; reconhece os limites do crédito como política social; abre duas agendas de pesquisa |
1 Introdução (pp. 4–8)
1.1 O debate sobre o crédito popular e a acusação de conservadorismo [§1–§3]
A abertura do artigo é diretamente confrontacional: a autora elenca, sem mediação, as acusações que foram levantadas contra o primeiro governo Lula (2003–2006) em razão da implementação de um arranjo de políticas de crédito popular — favorecimento aos banqueiros e ao capital financeiro, manipulação das camadas mais vulneráveis, estímulo ao endividamento de trabalhadores, alienação e despolitização das massas e estelionato eleitoral. O alvo não é a identificação empírica do artigo, mas as interpretações que tomaram esses efeitos como evidência da capitulação do PT ao conservadorismo. A justificativa teórica para essas interpretações repousa em uma premissa da literatura crítica: o crédito seria um instrumento eminentemente conservador de política pública, pois não ancora em gasto direto do Estado, não onera sobremaneira os cofres públicos e não promove redistribuição efetiva de renda (Bickers & Stein, 2000). O acesso ao crédito — e, em sua face oposta, à dívida — afetaria os mais pobres no médio e longo prazo, ao passo que beneficiaria os “donos do dinheiro”.
A autora recapitula os fundamentos teóricos que sustentam essa caracterização. Para os estudiosos da financeirização, o alargamento do crédito serviria, por um lado, para compensar a estagnação salarial — sustentando o consumo dos trabalhadores por meio de um alargamento fictício da renda (Boyer, 2000; Krippner, 2011) —, e, por outro, para amortizar os efeitos deletérios dos programas de ajuste estrutural, substituindo sistemas de proteção social pela provisão privada de serviços (Weber, 2004). Para os autores críticos do neoliberalismo, a expansão do crédito seria um instrumento de atomização dos pobres, transferindo-lhes individualmente os riscos inerentes à inclusão capitalista e abrandando as responsabilidades sociais dos Estados (Brown, 2019; Streeck, 2012). Uma vertente mais incisiva classifica as linhas de crédito popular como uma “indústria da pobreza” (Schwittay, 2014; Soederberg, 2014) — que extrai recursos dos mais pobres via dívidas e os transfere para os mais ricos via juros, operando como redistribuição regressiva de renda (Lapavitsas, 2013). Há ainda a perspectiva de que o crédito no Sul Global serviria para estimular circuitos financeiros externos e enriquecer investidores estrangeiros, sem alterar o padrão de vida das populações-alvo (Chiapello et al., 2023).
No Brasil, a partir dessas teses, uma série de estudos recentes argumentou que a implementação de políticas creditícias pelo governo Lula indicaria a descaracterização ideológica do PT a partir dos anos 2000. Apoiados na conexão entre alargamento do crédito e avanço da financeirização, autores sustentaram que o governo petista, a despeito de seus compromissos históricos, teria aquiescido à agenda dos conservadores e aos interesses do empresariado financeiro, incorrendo em uma deriva “neoliberal” (Bahia et al., 2022; Lavinas, 2017; Lavinas et al., 2019; Saad-Filho & Morais, 2018).
1.2 Proposta analítica e estratégia argumentativa [§4–§6]
O artigo propõe desafiar as teses que vinculam as administrações petistas ao conservadorismo político no ponto em que aparentam encontrar maior respaldo: a implementação das políticas de crédito popular. A autora anuncia explicitamente o objetivo de explorar e testar a identidade política do PT em um campo em que seus críticos encontram amplo suporte teórico, oferecendo uma análise contextualizada das estratégias petistas para enfrentar desafios socioeconômicos e contribuindo para uma visão mais completa da trajetória do partido. A estratégia é ao mesmo tempo descritiva e normativa: descrever o que de fato ocorreu para qualificar o que normativamente significa.
Para tanto, a autora anuncia que recuperará e examinará o histórico da relação do PT com o crédito popular desde as primeiras administrações subnacionais, buscando demonstrar qual significado era atribuído ao crédito e quais inovações financeiras foram desenvolvidas por lideranças petistas. O argumento central é que, a despeito das críticas concentradas nas administrações federais, a história do alargamento do crédito no Brasil em direção às camadas mais vulneráveis está intrinsecamente vinculada ao PT — tanto de modo direto quanto indireto. No entanto, os motivos para a promoção da inclusão dos mais pobres nos circuitos financeiros e os formatos em que isso foi realizado divergem das narrativas descritas pela literatura especializada.
1.3 O arranjo petista de crédito popular: consignado e microcrédito [§7–§9]
O que a autora denomina “arranjo” de políticas de crédito popular petista engloba um conjunto de medidas implementadas logo no primeiro ano do primeiro mandato de Lula. A mais comentada delas — integrando o que Singer (2012) e Anderson (2019) consideram um arranjo mais amplo de “políticas públicas lulistas” — é a expansão do crédito consignado, anteriormente restrito a alguns funcionários públicos de poucos estados, agora estendido a (i) trabalhadores celetistas, (ii) funcionários públicos, (iii) aposentados e pensionistas do INSS. Paralelamente, foram adotadas medidas para o estímulo ao microcrédito — dotação de empréstimos de pequena monta aos muito pobres e excluídos do mercado formal. A proposição de uma dessas medidas esteve vinculada à proposição da outra, conformando o “arranjo”. A inspiração para o estímulo ao microcrédito desde o nível federal, conforme a autora argumentará, veio de experiências estaduais e municipais a cargo de lideranças petistas — um laboratório para o “modo petista de governar” (Bezerra, 2019): a forja de uma marca das gestões partidárias que simultaneamente estabelecia diretrizes para a atuação do partido e o diferenciava dos demais.
Para contextualizar o alcance do arranjo, a autora mobiliza dados de Soares & Sobrinho (2008): o microcrédito no Brasil logo após a implementação das políticas lulistas era direcionado às classes de renda E e H, abarcando indivíduos que recebiam até três salários mínimos em valores de 2005. Em valores de 2003, esse público incluía quem ganhava até R$ 801,71 por mês — equivalente a menos de quatro cestas básicas mensais. Os dados por faixa de renda são apresentados em tabela: a faixa H (sem rendimento, 11,5% da população em 2005) e as faixas G (até 1 salário mínimo, 30,5%) e F (entre 1 e 2 salários mínimos, 28,6%) eram os públicos-alvo do microcrédito, enquanto a faixa E (entre 2 e 3 salários mínimos, 10,0%) constituía uma zona de concorrência. As faixas D (3–5 salários, 9,4%) eram atendidas principalmente pelo cooperativismo de crédito, C (5–10 salários, 5,9%) por outra zona de concorrência, e as faixas B e A (acima de 10 salários mínimos, 3% da população) pelos bancos tradicionais. O microcrédito, portanto, atingia potencialmente 80,6% da população brasileira em 2005.
A metodologia do artigo é anunciada de forma transparente. A autora realizou pesquisa exploratória em fontes secundárias e coletou dados junto à Abcred — Associação Brasileira de Entidades Operadoras de Microcrédito e Microfinanças. Além de dados do Banco Central e do Ministério da Fazenda, foram conduzidas 12 entrevistas em profundidade com mais de 30 horas de material gravado, divididas em três grupos-chave: (i) participantes — fomentadores e implementadores — de iniciativas de microcrédito anteriores às administrações federais petistas; (ii) especialistas em microcrédito; (iii) representantes do setor bancário e do mercado financeiro. Finalmente, os programas de governo de Lula desde o final dos anos 1980 foram analisados para rastrear a posição da agenda creditícia nos debates do partido.
2 “Você Pagou com Traição”: as Primeiras Críticas ao Lulismo desde o Estímulo ao Crédito Popular (pp. 8–14)
2.2 A genealogia das interpretações críticas: de Paulani a Lavinas [§13–§16]
Duas coletâneas escritas “no calor da hora” buscaram refutar a narrativa então corrente de que o novo governo apenas hesitava na implementação de sua agenda histórica ao optar por uma transição gradual. Para esses intérpretes, o governo Lula já estava claramente alinhado à continuidade. Paulani (2003) e Paulani & Pato (2005) destacaram a manutenção dos princípios da agenda macroeconômica do governo Fernando Henrique Cardoso pela neófita administração Lula. Essa interpretação ganhou aceitação generalizada, inclusive entre a crítica liberal e conservadora. O economista Samuel Pessoa, por exemplo, ironicamente apelidou o período abarcando as gestões dos ministros Pedro Malan (FHC) e Antônio Palocci (Lula) de “Era Malocci”.
Para Leda Paulani (2003), apesar de criticar durante anos a condução da política macroeconômica pelos tucanos, os petistas estariam utilizando como justificativa a necessidade de recuperar a credibilidade do país para manter o mesmo tripé consagrado por organizações internacionais — baseado em superávits primários generosos, câmbio flutuante e pagamento de juros elevados aos credores. O objetivo seria preparar o Brasil para um projeto de financeirização econômica, e nada seria indício maior do sucesso dos capitalistas brasileiros que a capitulação do partido que organizava os interesses dos trabalhadores ao discurso único neoliberal. Para Borges Neto (2005), a orientação geral do governo Lula já poderia ser considerada “explicitamente neoliberal”.
Para Sicsú (2003), o governo petista não apenas dava continuidade, mas aprofundava o “neoliberalismo tucano” para garantir a governabilidade — pois Lula havia optado voluntariamente por gerir uma base de apoio conservadora, elegendo-se pela esquerda mas governando “enquanto a direita” (Sicsú & Maringoni, 2005). Em uma interpretação alternativa, Coutinho (2003) argumentou que essa conversão dos petistas ao neoliberalismo teria ocorrido simplesmente porque a antiga oposição nunca teve um projeto minimamente consistente de política econômica. Paula (2005) concordou com a evidência do neoliberalismo, mas a promoção de algumas políticas sociais focalizadas permitia classificar o governo como “social-liberal” — uma pequena concessão.
A tese sustentada pelas autoras e autores críticos era, portanto, a da capitulação do governo Lula aos agentes financeiros, com reveses para o emprego, a renda e as condições de vida de ampla parcela da população. Os petistas estariam rendidos a interesses externos aos anseios de sua base, a qual seria — em realidade — prejudicada pela natureza de suas decisões. A hipótese era a da degeneração do partido, dando origem a um governo de caráter “regressivo” (Oliveira, 2003). Centralizando especificamente a política de expansão do crédito consignado, Cardim de Carvalho (2005:101) assim descreveu essa interpretação: o governo Lula não buscou nenhum meio de concretizar as demandas mínimas da esquerda democrática; pelo contrário, apresentava como vitória a reintrodução do crédito consignado para promover a expansão do consumo, estimulando o endividamento das famílias a taxas excepcionalmente altas e fragilizando sua posição financeira.
2.3 A natureza dual do crédito e as especificidades do arranjo de 2003 [§17–§21]
A autora interrompe a revisão crítica para introduzir uma qualificação técnica sobre o crédito. O crédito possui duas especificidades que, como instrumento de combate à pobreza, efetivamente impõem limites à sua potência. A primeira é o risco — a probabilidade de a credora ou o credor incorrer em perdas devido ao não pagamento da dívida, o que ranqueia os empréstimos entre os mais seguros e os mais incertos. A segunda, evocando formulação de Marx (2011), é que não se trata de “dinheiro presenteado”, mas de “dinheiro emprestado”, ancorado em um contrato que prevê a contrapartida do juro. Quanto mais incerta a liquidação da dívida, mais caro é o empréstimo. Como consequência, existem assimetrias inerentes ao mercado creditício: empréstimos para tomadores de “alto risco” — como indivíduos sem recursos, sem estabilidade empregatícia e sem garantias críveis — costumam ter taxas várias vezes mais elevadas que as aplicadas às classes médias (Ingham, 2004).
A expansão do crédito consignado foi aprovada ao final do primeiro ano do mandato de Lula, em uma concertação que envolveu atores ideologicamente díspares: sindicalistas vinculados à Central Única dos Trabalhadores (CUT), banqueiros organizados na Febraban e burocratas alocados na Fazenda (Chaise, 2023). Por sua tecnologia específica — reduzindo sobremaneira o risco arcado pelos bancos, pois o desconto é feito diretamente na folha de pagamento —, o consignado tornou-se rapidamente a modalidade mais ofertada de crédito pessoal no Brasil, atingindo 49,1% do total de concessão de crédito à pessoa física com recursos livres em setembro de 2024. Dois meses antes de sua proposição, contudo, o governo Lula propôs medidas para o alargamento do microcrédito pessoal.
Tanto o microcrédito quanto o consignado são modalidades de crédito popular e sem destinação específica — são créditos ofertados para fins amplos, o que se convencionou chamar de “crédito ao consumo”. Ambos se desenvolveram no Brasil e na América Latina por meio de políticas públicas durante o mesmo período temporal (Guthrie, 2013), sendo implementados sob a mesma retórica de instrumentos de combate à pobreza e inclusão social, tendo o Governo Federal como indutor.
As diferenças, porém, são significativas. Em primeiro lugar, o consignado exige contracheques ou benefícios previdenciários — é uma modalidade limitada à economia formal, não disponível aos extremamente pobres (que não têm rendimentos comprováveis), ao passo que o microcrédito não requer garantias. Em segundo lugar, o consignado tem baixo risco de inadimplência e não demanda estrutura paralela de operações. Para o microcrédito, há possibilidade de inadimplência e tecnologias adaptadas ao segmento (como agentes de crédito que vão até o público-alvo) são necessárias, impondo custos adicionais aos provedores.
Nota 3: A inclusão dos titulares do Benefício de Prestação Continuada (BPC) — famílias no segmento mais vulnerável — na política de consignado ocorreu somente em 2022, por meio do Programa Renda e Oportunidade do governo Bolsonaro, o que evidencia os limites originais do arranjo de 2003 na cobertura dos extremamente pobres.
Quando esse arranjo de políticas foi proposto, 50,1% da população brasileira estava ocupada e 42,9% inativa. O consignado se destinaria aos aposentados e à praticamente metade dos ocupados: os empregados com carteira assinada e os funcionários públicos teriam acesso a partir da promulgação da MP 130 em dezembro de 2003, e os aposentados/pensionistas do INSS desde o início de 2004. À outra metade dos ocupados — e àqueles excluídos do mercado formal — se destinaria o microcrédito. A autora sintetiza: “neste arranjo de políticas, portanto, uma se dirigia aos incluídos, e a outra, aos excluídos do mercado de trabalho.”
2.4 Lavinas, a financeirização e a réplica de Chaise (2023) [§22–§27]
Este subconjunto do debate é especialmente relevante para dissertações que trabalham com ProUni e FIES, pois Lavinas (2017) utiliza explicitamente esses programas como exemplos de “políticas sociais mercadorizadas” — o mesmo enquadramento que o artigo de Chaise busca contestar para o microcrédito.
Na sequência das primeiras obras críticas, Lena Lavinas desenvolveu uma interpretação mais radical sobre a deriva neoliberal do PT. Em Lavinas (2017), o quadro é pessimista: as políticas sociais “mercadorizadas” instituídas pelo governo Lula — como o ProUni e o FIES — aliadas ao subfinanciamento dos serviços públicos básicos, estimulariam os circuitos financeiros privados. Os benefícios assistenciais em formato de transferências financeiras poderiam servir como colateral para a dotação de crédito ao consumo popular pelos bancos. Em qualquer dos casos, sempre em benefício dos banqueiros e representantes de instituições financeiras. O endividamento das famílias no Brasil seria, segundo Lavinas, uma opção deliberada do governo em prol do lucro do setor financeiro.
A peculiaridade do caso brasileiro era o fato de essa opção ter sido tomada por um governo de centro-esquerda — em tese não alinhado aos interesses dos banqueiros ou à agenda creditícia no período histórico imediatamente anterior à eleição de 2002. Lavinas (2017:87) argumentou que o Brasil havia assistido ao “impulso, autonomização e legitimação dos mercados financeiros — tudo à luz do dia e sob o comando do Partido dos Trabalhadores.”
A autora replica esse argumento mobilizando seu próprio trabalho anterior (Chaise, 2023). Nele, teria demonstrado o papel que os movimentos organizados de trabalhadores — uma das mais importantes bases político-eleitorais do PT — tiveram na proposição do crédito consignado, a política mais citada por Lavinas. O apoio dos sindicatos à expansão do consignado orientava-se por um cenário em que, sem acesso aos bancos tradicionais, seus associados estavam endividados no mercado informal de crédito — ou seja, com a agiotagem —, contraindo dívidas tanto mais caras quanto mais inseguras. Não havia ausência de endividamento, mas esse endividamento simplesmente não era capturado em dados oficiais. Chaise (2023) também teria detalhado os efeitos da expansão do consignado para a redução dos juros e dos prazos no mercado creditício de maneira ampla.
Quanto ao microcrédito — pensado em arranjo com o consignado, mas receptor de muito menos atenção da literatura —, a autora registra que essa modalidade nunca se massificou, correspondendo a apenas 0,02% do total do crédito consignado em setembro de 2024. Seu pico foi de 1,9% em dezembro de 2012, no governo Dilma Rousseff. O argumento substantivo é direto: “não é possível alegar que a expansão do crédito no Brasil em direção às camadas sociais mais desfavorecidas — seja aos informais por meio do microcrédito, seja às trabalhadoras e aos trabalhadores formais de baixos salários por meio do crédito consignado — seja uma agenda descolada da proposta petista. Em realidade, pode ser considerada uma das pautas históricas do partido, aliada aos interesses de suas bases de apoio.”
3 O Informal, o Subterrâneo e o Assistencialista: o Acesso ao Crédito Popular antes do Primeiro Governo Lula (pp. 15–18)
3.1 A exclusão estrutural do mercado bancário brasileiro [§28–§30]
A análise do mercado bancário brasileiro realizada por Soares & Sobrinho (2008) revelou que, no princípio do primeiro governo Lula, os bancos comerciais tradicionais atendiam clientes que recebiam a partir de cinco salários mínimos (R$ 1.500 em valores de 2005). Mesmo este grupo poderia ter dificuldades em acessar serviços bancários: para a abertura de uma simples caderneta de poupança — considerada um produto de entrada no sistema financeiro —, os bancos brasileiros cobravam depósitos iniciais de até dois mil reais, a depender da instituição e da agência. Paradoxalmente, as regiões mais pobres das cidades exigiam os valores mais altos; nos anos 1990, os depósitos mínimos mais elevados eram verificados em um banco público (O Estado de S. Paulo, 1996). Uma clientela considerada segura para empréstimos — que, ao contrário de uma conta poupança, envolvem o risco de perdas para a instituição bancária — recebia no mínimo dez salários mínimos, o que correspondia a três mil reais em valores de 2005: uma faixa de renda na qual se encontrava apenas 3% da população brasileira à época.
Trabalhadores da informalidade não conseguiam comprovar renda conforme as exigências dos bancos tradicionais; e indivíduos que morassem em favelas ou zonas irregulares não tinham sequer como comprovar residência para firmar contratos de empréstimo. O mercado financeiro mantinha-se, portanto, altamente seletivo e restritivo.
Sem crédito formal, restava recorrer à família, aos amigos ou à informalidade. A autora evoca uma imagem concreta do período: um curto passeio pela Rua São Bento, no centro de São Paulo, ou pela Rua Borges de Medeiros, no centro de Porto Alegre, no Brasil dos anos 1990, seria suficiente para cruzarmos com pequenos escritórios na porta dos quais indivíduos em coletes amarelos ofereciam “venda de dinheiro”. As páginas de classificados de qualquer jornal exibiam facilmente ofertas de crédito produtivo ou pessoal — com ou sem garantias, com ou sem fiador —, sem burocracia e sem consulta a serviços de informações de crédito.
3.2 O mercado informal de crédito e o contexto do microcrédito [§31–§34]
Desde 1995, a Anefac — Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade — realizava pesquisas sobre juros informais no Brasil. Em estudo publicado no ano 2000, os pesquisadores da entidade ligaram para cinquenta agiotas que anunciavam em jornais, fingindo ser potenciais clientes, com o objetivo de calcular a taxa média de juros cobrada no segmento. O resultado foi expressivo: de 14,5% a 35,04% ao mês, correspondendo a 407,44% e 3.577,47% ao ano. O diretor executivo de estudos da Anefac, Miguel José Ribeiro — entrevistado para a pesquisa —, detalhou que a taxa anunciada pelo atendente diferias da taxa efetiva para o empréstimo, e que ainda se cobrava uma taxa de cadastro de até cem reais. Esse mercado de escritórios de agiotagem atendia aproximadamente dois milhões de brasileiros, segundo a Anefac — estimativa certamente subestimada.
O microcrédito emergiu como uma alternativa mais acessível e, sobretudo, mais segura de empréstimo para os mais pobres em comparação com a agiotagem. O microcrédito — créditos de pequena monta destinados especificamente aos mais vulneráveis — já foi descrito como a novidade mais fortemente promovida, amplamente elogiada e difundida de toda a história das finanças transnacionais (Galbraith, 2017). A Assembleia Geral da ONU proclamou 2005 o “Ano Internacional do Microcrédito”; em 2006, o banqueiro bengali Muhammad Yunus foi agraciado com o Nobel da Paz pelo Grameen Bank; e, treze anos depois, Abhijit Banerjee e Esther Duflo receberam o Nobel de Economia por seu trabalho sobre o acesso popular ao mercado creditício.
Nota 7: A autora distingue os “bancos de primeiro piso” — aqueles que repassam recursos diretamente ao beneficiário final (o microempreendedor formal ou informal) — dos bancos de segundo piso, que operam por intermédio de outras instituições financeiras. O Banco do Nordeste, com o CrediAmigo, é exemplo de banco público de primeiro piso.
O debate em torno do microcrédito, no entanto, está fortemente vinculado a um modelo promovido globalmente pelo Banco Mundial. De acordo com suas diretrizes (CGAP, 2004), a concessão de microcréditos deve ser conduzida por instituições privadas dedicadas exclusivamente a esse propósito, autossuficientes em termos de gestão e financiamento, independentes de doações de governos e com taxas de juros determinadas comercialmente — levando em conta os custos necessários para alcançar o público-alvo e operar com grande volume de empréstimos de pequena monta.
A história específica do microcrédito no Brasil, no entanto, aproxima-se e afasta-se da “história das microfinanças” genericamente contada. A agenda do microcrédito surge no país nos anos 1970 por meio de ONGs — sendo as pioneiras aquelas relacionadas a redes internacionais. Outros atores também se envolveram: movimentos sociais e grupos comunitários locais. A partir dos anos 1980, também atores estatais. Esses novos atores apresentavam motivações distintas e dotavam as operações de instrumentos não previstos no modelo do Banco Mundial. O envolvimento de atores estatais — especificamente de governos subnacionais — concorreu para a promoção do que a autora denomina “políticas de crédito popular”, já em meados dos anos 1990.
3.3 As primeiras iniciativas públicas de microcrédito: da Badep ao CrediAmigo [§35–§38]
Ainda em 1986, o Banco de Desenvolvimento do Paraná (Badep), instituição bancária pública estadual, lançou o Promicro (Banco do Microcrédito), destinado a micro e pequenos empresários. Um ano depois, ocorreu a primeira experimentação com microcrédito por parte de uma instituição federal: a Caixa Econômica Federal (CEF) lançou seu próprio programa Promicro como projeto piloto, organizado com o apoio da Secretaria Econômica do Trabalho do Distrito Federal (Guimarães & Magalhães, 1997). Em 1991, a CEF ampliou essa experiência ao criar o “Balcão de Ferramentas” — um programa destinado a prover o ferramental necessário para que profissionais brasileiros se desenvolvessem. O Balcão de Ferramentas deu suporte a diversos programas de microcrédito em todo o Brasil e aproximou prefeitos e governadores da agenda microcreditícia. A primeira iniciativa a receber recursos da CEF foi o Pró-Renda, implementada pelo Governo do Ceará com o apoio da Sociedade Alemã de Cooperação Técnica (GTZ), visando à integração produtiva de populações rurais e urbanas (Valente, 2010).
Em 1996, o BNDES deu início à disponibilização de linhas de crédito acessíveis e de longo prazo para projetos de microcrédito por meio do Programa de Crédito Produtivo Popular (PCPP). Poucos anos depois, o BNDES firmou convênio de cooperação com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a criação do Programa de Desenvolvimento Institucional (PDI), voltado ao fortalecimento institucional do setor microfinanceiro brasileiro.
Em 1998, foi o Banco do Nordeste lançar uma experiência pioneira: o Programa de Microcrédito Produtivo Orientado — CrediAmigo. Com a breve experiência do Badep como antecedente, o Banco do Nordeste tornou-se, a partir de então, o mais antigo banco público de primeiro piso do Brasil a ter um modelo de dotação direta de pequenos créditos a microempreendedores vulneráveis, estando até hoje operante (Buchmann & Neri, 2008). Sua tecnologia inovadora inclui os chamados “correspondentes bancários” — agentes de crédito que operam em locais de grande fluxo, como padarias e lotéricas —, possibilitando o acesso sem a necessidade de deslocamento até o banco. A economista Gláucia Campregher, entrevistada para a pesquisa, descreveu essa metodologia como uma “fusão da ONG com o banco.”
4 A Agenda do Crédito Popular e o PT “Histórico”: uma Agenda Programática (pp. 18–30)
4.1 Os governos subnacionais como ator inédito no microcrédito [§39]
Três anos antes da criação do CrediAmigo, outro tipo de ator emergia no cenário de crescimento da atividade microfinanceira no Brasil. Assim como os bancos públicos, esse ator tampouco estava previsto no paradigma de boas práticas promovido pelo Banco Mundial, afastando em definitivo a experiência brasileira da linha do tempo tradicionalmente descrita e singularizando-a no contexto das experiências mundiais: os governos subnacionais. A partir deste ponto, a autora trata esses entes não como apoiadores de iniciativas lideradas por instituições financeiras ou por representantes da sociedade civil, mas como propositores e também financiadores de efetivas políticas públicas creditícias.
4.2 PortoSol: a inovação institucional petista [§40–§48]
O marco inicial para políticas públicas de fomento ao microcrédito é a fundação, em novembro de 1995, da Instituição Comunitária de Crédito PortoSol (ICC) — fruto de uma parceria entre a prefeitura de Porto Alegre, o governo do Estado do Rio Grande do Sul e duas entidades civis: a Federasul e a Associação dos Jovens Empresários de Porto Alegre (AJE). Sob o lema de que o crédito seria um “direito da cidadania”, a PortoSol tinha como objetivo a dotação de pequenos empréstimos — com ou sem garantias e a baixas taxas de juros, entre 2% e 5,5% —, para os micro e pequenos empresários e empresárias, em sua maioria informais, da região metropolitana de Porto Alegre, visando à inserção social e à geração de emprego e renda.
A iniciativa recebeu, ao longo de sua história, o apoio técnico do BNDES (em uma de suas primeiras parcerias com governos locais), da CEF e do BID (Monzoni, 2008). O aporte inicial para a constituição da PortoSol veio dos governos municipal e estadual do Rio Grande do Sul: a Prefeitura de Porto Alegre contribuiu com R$ 700.000; o Governo do Estado do RS com R$ 350.000; e doações da GTZ (R$ 306.400) e da IAF (R$ 223.700) completaram o total de R$ 1.508.100. A utilização de recursos públicos do orçamento de estado e município — e não apenas de doações de organizações internacionais — representou, na avaliação da autora, “uma completa novidade”. Além desse financiamento inicial, a PortoSol operava com autonomia e autossuficiência financeira.
No início da década de 1990, a região metropolitana de Porto Alegre — então a quarta maior do país — experienciava níveis elevados de desemprego, atingindo 13,1% da população economicamente ativa em 1996, especialmente devido à perda de empregos na indústria em contexto de desindustrialização relativa (Chaves, 1997), agravada pelo contexto inflacionário nacional. Apenas em seu primeiro ano e meio de funcionamento, a PortoSol ofereceu 2.961 empréstimos a microempreendedores informais de diversos ramos. Seus resultados foram reconhecidos: em 1997, a instituição recebeu o Prêmio Gestão Pública e Cidadania da Fundação Getúlio Vargas e da Fundação Ford; e em 1999 foi premiada pelo Banco Mundial como uma das dez iniciativas mais bem-sucedidas de combate à pobreza no Brasil.
A constituição da PortoSol foi viabilizada pela aprovação, em 1992, de uma legislação municipal proposta pelo vereador Clóvis Ilgenfritz, do PT, que autorizava a criação de um “banco municipal” voltado ao fomento das atividades produtivas em Porto Alegre (OIT, 2005). Após consultas ao Banco Central e ao Tribunal de Contas do Estado, optou-se, no entanto, pelo formato mais simples de associação civil sem fins lucrativos — que não poderia captar recursos do público, mas receberia fundos de doações públicas e privadas repassados como contribuição social (Silva, 2006). Não se trataria, portanto, de um banco supervisionado pelo Banco Central, mas de uma instituição microfinanceira não regulada — semelhante às ONGs que então se espalhavam pelo país.
Quando as discussões começaram na Câmara de Vereadores, a prefeitura estava sob a gestão de Olívio Dutra (1989–1993), um dos primeiros prefeitos eleitos pelo PT no Brasil, bancário do Banrisul, sindicalista e co-fundador do partido no estado. Quando a PortoSol foi efetivamente inaugurada, a capital gaúcha já vivia sob a gestão de Tarso Genro (1993–1997), que assumiria — no início do primeiro governo Lula — a posição de secretário especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). Esse CDES reuniria banqueiros e sindicalistas para debater, entre outros temas, a implementação do arranjo de políticas de crédito popular petista: uma inédita negociação entre essas partes sobre juros e limites creditícios.
A PortoSol foi concebida como parte do Plano de Desenvolvimento Econômico (PDE) da capital gaúcha, elaborado no início da gestão de Tarso Genro e que refletia um debate travado nos anos 1980 quanto às potencialidades das gestões subnacionais no desenvolvimento econômico (Hamel, 1990; Harvey, 1989). Esse debate repousava em duas ideias fundamentais: que os governos locais poderiam induzir políticas de desenvolvimento mesmo sem deter o controle sobre instrumentos macroeconômicos; e que a participação da sociedade civil era importante para o sucesso dessas iniciativas (Moura et al., 2000). O PDE listava projetos de intervenção econômica com três diretrizes básicas: (i) a dinamização da economia local; (ii) a dotação de níveis mínimos de qualidade de vida às populações excluídas; (iii) a qualificação para a cidadania (Baraldi, 1995). A agenda econômica se amarrava, portanto, à agenda social em um arranjo amplo de objetivos.
Porto Alegre contou com quatro mandatos petistas consecutivos — totalizando dezesseis anos —, o que auxiliou na manutenção e maturação de diversas iniciativas. A cidade foi ainda sede das três primeiras edições do Fórum Social Mundial (2001, 2002 e 2003), encontro internacional de movimentos sociais voltado para a formulação de projetos alternativos ao capitalismo neoliberal — com espaços dedicados à Economia Solidária.
A prática da PortoSol foi inovadora em duas dimensões complementares: além da inédita participação dos governos subnacionais como promotores e financiadores, a PortoSol incluía em seu desenho uma interface também inovadora entre governo e sociedade. Para garantir o controle social na dotação dos recursos e a transparência nas operações, a direção da instituição competia a um conselho de oito membros, no interior do qual a prefeitura ocupava apenas duas cadeiras e o governo do Estado do Rio Grande do Sul mais uma. Os demais postos eram distribuídos entre a Associação dos Jovens Empresários de Porto Alegre, dois acadêmicos, um empresário local e um representante do Orçamento Participativo da cidade. Essa tecnologia participativa é uma das principais bandeiras defendidas e desenvolvidas pelo PT ao longo de sua história, presente em todos os programas de governo do candidato Lula desde a primeira candidatura presidencial ao final dos anos 1980.
Nota 11: A composição detalhada do conselho de administração da PortoSol está documentada em documento da Fundação Perseu Abramo (disponível em fpabramo.org.br).
Em depoimento registrado pela autora (Utzig, 1997 — o primeiro presidente do conselho de administração da PortoSol), o projeto refletia a oposição ao neoliberalismo dominante de duas maneiras. Em primeiro lugar, porque o papel ativo da prefeitura e do governo estadual na articulação econômica se opunha à proposta do Estado “mínimo”. Em segundo lugar, porque — ao elencar o desenvolvimento urbano, comunitário e a qualificação para a cidadania enquanto resultados visados — a iniciativa se distanciava do paradigma do Banco Mundial, segundo o qual a inclusão financeira e o acesso aos instrumentos financeiros seriam fins em si mesmos.
4.3 A difusão vertical e horizontal do modelo petista [§49–§58]
A dinâmica de extrapolação vertical (da prefeitura para o governo estadual) e extrapolação horizontal (entre diferentes municípios e estados) descrita pela autora é o mecanismo central de difusão do modelo petista de microcrédito — e tem estrutura análoga à difusão de políticas educacionais entre os níveis de governo no Brasil.
Antes da constituição da PortoSol, Porto Alegre havia sido berço do pujante Centro de Apoio aos Pequenos Empreendimentos (Ceape), inicialmente uma ONG microcreditícia apoiada pela Acción Internacional, pelo BID e pela Fundação Interamericana (IAF). O Rio Grande do Sul já possuía ainda uma expertise local relacionada ao crédito popular, herdada do desenvolvimento do cooperativismo nas décadas de 1950 e 1960. O que a experiência de Porto Alegre destaca, porém, é que quando o PT moveu a política no interior desse segmento em franco crescimento, o fez a partir de abordagens inovadoras — novos atores, novas formas de gestão participativa e novos arranjos de objetivos que não se coadunavam com o modelo globalmente promovido.
Os resultados políticos da experiência são comentados em entrevistas com o ex-prefeito Tarso Genro e a economista Gláucia Campregher. Questionado sobre o papel das políticas creditícias para a agenda política do primeiro governo Lula, Tarso Genro respondeu “empiricamente” a partir de sua própria experiência com a PortoSol: “Eu tenho absoluta convicção que esse tipo de política é do tipo possível de ser implementada e que faz uma grande diferença. As pessoas que não entendem essa questão são pessoas que não tem problemas com crédito. (…) As pessoas que enfrentam problemas cotidianos de sobrevivência têm no crédito um elemento fundamental de sua sobrevivência digna. E isso teve muita influência no prestígio do governo Lula.” (comunicação pessoal, 11 de abril de 2021). Dados do Banco Mundial para 2021 corroboram essa perspectiva: ricos e pobres têm a mesma necessidade de acessar crédito no Brasil, mas enquanto entre os 60% mais ricos metade declarou ter contraído empréstimos de instituições formais no ano anterior, entre os 40% mais pobres menos de um terço relatou o mesmo acesso.
A economista Gláucia Campregher — apelidada de “madrinha do microcrédito” pelo então governador Olívio Dutra e pelo vice-governador Miguel Rossetto (PT) — foi observadora ativa da extrapolação da PortoSol da cidade de Porto Alegre para o governo do Rio Grande do Sul. Durante o governo de Olívio Dutra (1999–2003), como parte do Programa Estadual de Microcrédito Produtivo Popular, foram estabelecidas mais cinco Instituições Comunitárias de Crédito (ICC) nos mesmos moldes da original porto-alegrense, com financiamento do Estado, para abranger todas as mesorregiões gaúchas: ICC Pelotas (1999), ICC Bagé (2001), ICC Santa Maria (2001), ICC Serra Gaúcha (2002) e ICC Frederico Westphalen (2002).
Nesse contexto, a economista Tereza Campello — que havia trabalhado como assessora econômica na prefeitura de Porto Alegre durante a primeira das gestões petistas — assumiu o cargo de secretária-geral de Governo do Estado. Ela incumbiu sua equipe de monitorar os programas com maior potencial de popularização, sendo a PortoSol um dos escolhidos. Tanto a prefeitura de Porto Alegre quanto o Estado do Rio Grande do Sul se tornaram, assim, espaços de experimentação em governança para o próprio Partido dos Trabalhadores.
Os anos 1990 marcam uma fase de “profissionalização” do PT (Hunter, 2010), de fortalecimento de sua estrutura partidária e de acúmulo de experiência em gestão pública. O crescimento eleitoral do partido é expressivo: de 36 prefeitos e 16 deputados federais entre 1986–1988 para, entre 2002–2004, 410 prefeitos, 91 deputados federais, 12 senadores e 3 governadores. Para um partido que nascera voltado para a mobilização social, o trabalho de monitoramento de Campello era, na avaliação da autora, nada mais que o trabalho de criação de uma identidade governista para o PT. O sociólogo Celso Rocha de Barros (2022) havia abordado os enormes desafios enfrentados pelas primeiras prefeituras petistas nos anos 1980 — faltavam um programa claro, experiência administrativa e sobravam conflitos entre as gestões e o partido. O primeiro prefeito petista eleito, Gilson Menezes (Diadema, 1982), desligou-se da sigla antes de concluir seu mandato. Para seguir vencendo eleições, o PT precisava de um “repertório de políticas públicas” bem-sucedidas e identificadas com suas gestões.
Os dois primeiros governadores eleitos pelo PT foram Victor Buiaz (Espírito Santo) e Cristovam Buarque (Distrito Federal), ambos nas eleições de 1994. O Distrito Federal também apresentava altas taxas de desemprego e informalidade. O governo Buarque (1995–1999) criou o programa “Mais e Melhores Empregos”, que incluiu o célebre Bolsa Escola — que rapidamente se tornaria símbolo do “modo petista de governar” e mais tarde serviria de base para o Bolsa Família (Zucco & Power, 2013). Outra iniciativa, bem menos conhecida, do mesmo programa foi o BRB Trabalho — um programa de microcrédito lançado pelo governo do Distrito Federal em 1996, diretamente inspirado pelo processo de formulação da PortoSol porto-alegrense.
Além da extrapolação “vertical” da política da prefeitura de Porto Alegre para o governo do Rio Grande do Sul, ocorreu, portanto, uma extrapolação “horizontal” da mesma ideia entre prefeituras e governos de estados de todo o país — constituindo uma segunda fase de proliferação de políticas públicas baseadas no microcrédito ao longo dos anos 1990, após a fase das ONGs nos anos 1980. A autora pondera que nem todas as iniciativas se basearam na PortoSol: o modelo do Grameen Bank era amplamente reconhecido, o Programa Balcão de Ferramentas já estava em operação, e algumas ONGs microfinanceiras eram bem-sucedidas. Mas a inclusão do ente público como financiador e articulador do microcrédito foi uma inovação ocorrida em Porto Alegre.
4.4 Os dados subnacionais e a representatividade petista [§59–§64]
A partir da análise exploratória de todas as iniciativas de microcrédito implementadas até 2003, e com o auxílio dos dados coletados junto à Abcred, a autora buscou identificar especificamente quais eram as experiências que partiram de iniciativa pública — seja de prefeituras, seja de governos estaduais. Das 37 iniciativas públicas detectadas entre 1995 (fundação da PortoSol) e o início de 2003, nada menos que 20 foram implementadas por gestões petistas. O PT controlava entre 111 e 187 prefeituras ao longo desse período, enquanto o PMDB controlava 1.253 entre 1998 e 2002; em 2002, havia 5.560 municípios no Brasil. A concentração petista — especialmente em proporção ao número de municípios controlados — é, portanto, expressiva. Ainda mais relevante: as cinco iniciativas mais famosas, mais estudadas e mais citadas pela literatura especializada provinham de gestões petistas — Blusol (Décio Lima, Blumenau), Casa do Empreendedor (Luiz Eduardo Cheida, Londrina), ICC Conquista Solidária (Guilherme Menezes, Vitória da Conquista), Instituição de Crédito Solidário de Maringá (José Cláudio Pereira Neto, Maringá) e São Paulo Confia (Marta Suplicy, São Paulo). A distribuição por partidos dos demais casos é: PMDB (6), PSDB (4), PFL (2), PSB (2), PDT (1), PCdoB (1), PPB (1).
O caso do prefeito Luiz Eduardo Cheida (PT, Londrina, 1993–1996) ilustra com clareza a dinâmica de difusão horizontal. Eleito no mesmo ano que Tarso Genro em Porto Alegre, Cheida formulou um Plano de Desenvolvimento Industrial, e — diretamente inspirado na experiência porto-alegrense — criou em 1994 uma incubadora para microempreendedores, seguida em 1997 pela Casa do Empreendedor, com aportes da prefeitura e apoio de empresários parceiros. O mesmo modelo foi replicado por outros municípios paranaenses, culminando no Fomento Paraná, programa de microcrédito instituído pelo governo do Estado sob a gestão do governador Jaime Lerner (PDT). Cheida enfrentou críticas dentro de seu próprio partido, em razão de suas alianças interpartidárias e do apoio que recebia do empresariado local — críticas que guardavam semelhança com as que o próprio Lula enfrentaria em seu primeiro mandato uma década depois. O secretário da Indústria e Comércio de Londrina à época, Abílio Medeiros — filiado ao PFL e diretamente responsável pela formulação da Casa do Empreendedor —, foi também entrevistado para a pesquisa, evidenciando a flexibilidade ideológica que caracterizava a agenda microcreditícia.
A autora destaca que, embora a associação entre prefeituras petistas e políticas de crédito popular seja forte, gestões de outros partidos também as instituíram — muitas operando com recursos do BNDES ou do Banco do Nordeste. Assim, além de sua contribuição direta, o PT desempenhou um papel de estímulo indireto: mesmo por via da “imitação” de políticas percebidas como viáveis ou bem-sucedidas, outros partidos as debateram e as implementaram, colhendo também seus benefícios. Essa ampla difusão partidária da agenda teve uma consequência concreta: quando o microcrédito foi debatido no Congresso Nacional por meio de duas Medidas Provisórias apresentadas por Lula em 2003, poucos parlamentares conseguiram se opor — mesmo havendo forte lobby contrário dos bancos, cujas preferências normalmente se coadunam com a ação dos conservadores.
4.5 Mais experiências petistas e a agenda programática nos programas de governo [§65–§70]
Duas outras experiências petistas merecem destaque pela importância de seus atores. Em 1998, em Santo André (SP), foi instituído o Banco do Povo de Santo André — O Crédito Solidário, durante a gestão de Celso Daniel (PT), uma das administrações que serviriam de “vitrine” ao partido. Em sua tese de mestrado pela FGV, José Caetano Lavorato (2001) — fundador e ex-presidente da Abcred, coordenador do São Paulo Confia, sindicalista e filiado ao PT — afirma que a iniciativa de Santo André foi diretamente inspirada na PortoSol. Celso Daniel havia prometido em campanha a formação de um banco de crédito popular como parte de uma estratégia de desenvolvimento e combate ao desemprego; mas foi somente após uma visita técnica à PortoSol e ao BRB Trabalho que optou pelo mesmo formato institucional — a prefeitura assumindo a organização, aportando recursos e atuando como catalisadora dos órgãos da sociedade civil para a criação de uma entidade autônoma sem fins lucrativos. O Banco do Povo de Santo André inovou ao incluir o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC entre seus associados — uma novidade no contexto microcreditício. Também criou o “Banco do Povo Itinerante”, que operava dentro de um ônibus da prefeitura para alcançar tomadores nas periferias da cidade.
A segunda experiência é o Crescer Crédito Solidário, instituído em 2002 em Ribeirão Preto sob a gestão de Antônio Palocci (PT). No mesmo ano, Palocci foi escolhido por Lula para redigir a famosa Carta ao Povo Brasileiro — destinada a tranquilizar o mercado financeiro quanto aos impactos econômicos de uma possível vitória petista — e foi posteriormente nomeado ministro da Fazenda, em grande parte devido ao seu bom trânsito com o empresariado nacional.
Um argumento recorrentemente levantado pelos críticos das políticas creditícias era o suposto caráter não programático dessas iniciativas. A análise dos quatro programas de governo do candidato Lula anteriores a 2003, contudo, fortalece o argumento contrário. Dois elementos creditícios emergem desses programas. Desde a campanha de 1998, destaca-se a proposta de criação dos “Bancos do Povo” — emprestando a micro e pequenos empreendedores conforme as experiências subnacionais aqui destacadas. As justificativas: essas empresas são intensivas em mão de obra e o estímulo aos pequenos produtores visava à redução da desigualdade no acesso ao financiamento. Nessa perspectiva, o crédito, quando não massificado, seria antes de tudo um privilégio dos grandes empresários, reforçando sua posição dominante. O segundo elemento é a criação de um mercado consumidor de massas no Brasil como meio de impulsionar um crescimento econômico acompanhado de inclusão social.
“Assim, é seguro afirmar que a agenda de fomento ao crédito popular é, de fato, uma agenda programática do partido, embora tenha sofrido ajustes ao chegar ao Executivo Nacional.” Em 2003, duas Medidas Provisórias buscaram regular o microcrédito: a primeira criou um banco múltiplo especializado em microfinanças; a segunda obrigou bancos múltiplos, cooperativas de crédito e a CEF a direcionar 2% de seus depósitos compulsórios a operações de microfinanças, incluindo a oferta de microcréditos de até R$ 1.000 a juros máximo de 2%, reduzindo o risco de inadimplência para as tomadoras e os tomadores. Esse microcrédito seria oferecido tanto a micro e pequenos empreendedores quanto a pessoas físicas de baixa renda — um padrão de operações muito mais amplo que o das ONGs microfinanceiras ou das experiências municipais e estaduais, o que Barone (2008) considerou uma “ruptura” promovida pelo lulismo.
4.6 As inovações do modelo federal e a comparação internacional [§71–§74]
Essa expansão do microcrédito do universo estritamente produtivo para o universo mais amplo do consumo foi uma ruptura não apenas com as práticas petistas anteriores testadas em prefeituras e governos ao longo dos anos 1990, mas com a própria prática mundial em microcrédito até então estabelecida. Lula antecipou em dois anos um debate que ocorreria na França apenas em 2005, quando os franceses começaram a discutir a destinação dos microcréditos não apenas aos “profissionais” mas a todos os indivíduos em necessidade — o que chamaram de microcrédito “social” (Lazarus, 2022). O próprio Grameen Bank, a referência mundial em microcrédito, expandiria sua gama de serviços para incluir empréstimos utilizáveis para despesas de consumo (educação, saúde, emergências); em 2003, contudo, quando as operações são lançadas no Brasil, o banco bengali ainda estava exclusivamente voltado ao segmento de microcrédito produtivo.
Nota 8: Autores críticos consideram que o “Sul Global” teria servido como “laboratório” para a agenda do microcrédito proveniente do “Norte”. Na cronologia dessa perspectiva, o laboratório político-econômico teria iniciado com a promoção das microfinanças nos anos 1970 (Chiapello et al., 2023). O argumento de Chaise inverte essa perspectiva para o caso brasileiro, mostrando que o modelo petista dos anos 1990 era simultaneamente simultâneo e distinto da agenda internacional.
Outra tecnologia inovadora introduzida em 2003 foi a previsão de que os recursos não aplicados em microfinanças permaneceriam sob posse do Banco Central — indisponíveis e sem remuneração —, o que estimularia, em teoria, a oferta do serviço independentemente das margens de lucro obtidas pelas instituições financeiras. A imobilização do compulsório contrariava interesses históricos dos bancos, cujo objetivo sempre fora a eliminação dessa figura, de modo que a Febraban posicionou-se contrariamente à medida. A criação de novas estruturas institucionais, a utilização de bancos públicos para o provimento de microcrédito e, particularmente, a fixação das taxas de juros não estavam de acordo com os princípios do Banco Mundial. O arranjo creditício do primeiro governo Lula — que incluía ainda a regulamentação das cooperativas de crédito — “não era a simples implementação no Brasil das propostas de organizações internacionais ou da agenda de quaisquer grupos externos ao esforço do partido no governo.”
Finalmente, agrupando os partidos políticos brasileiros em uma escala da esquerda à centro-esquerda e da centro-direita à direita, verifica-se que 64% das iniciativas de fomento ao crédito popular anteriores a 2003 partiram das esquerdas brasileiras — considerando ainda que, dependendo da administração, as gestões do PMDB e do PSDB poderiam ter um forte componente progressista. Os argumentos revisados quanto ao caráter conservador ou neoliberal dessas medidas, conclui a autora, “precisariam ser mais bem qualificados e elaborados para sustentarem-se.”