Fichamento: The Comparative Political Economy of Inequality: The Maturation of an Emerging Field
Busemeyer, M. R. (2026). The comparative political economy of inequality: The maturation of an emerging field. West European Politics. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/01402382.2026.2662882
Ficha Analítica Crítica
Esta seção segue o formato IA Planilhando Textos v17.4.
Mapa Argumentativo
| Seção | Título / Tema | Função argumentativa | Contribuição para a tese central |
|---|---|---|---|
| Introdução | Campo CPEI, objetivos e estrutura | Apresentação do puzzle e dos objetivos | Define o doom loop como fio condutor; anuncia dupla agenda: revisão retrospectiva de 25 anos e proposta prospectiva de pesquisa |
| Seção 1a | Determinantes macro-institucionais da desigualdade | Revisão de literatura (1ª fase do campo) | Documenta as raízes da CPEI na power resource theory e no institucionalismo comparado; poder sindical e partidos de esquerda como determinantes de menor desigualdade |
| Seção 1b | Microfundamentos da política da desigualdade | Revisão de literatura (2ª fase do campo) | Explica por que o crescimento da desigualdade não gerou pressão redistributiva proporcional: misperceptions, aceitação, desengajamento eleitoral, competição partidária |
| Seção 1c | Responsividade desigual do policy-making | Revisão de literatura (3ª fase do campo) | Fecha o ciclo do doom loop: responsividade enviesada em favor dos ricos, por mecanismos eleitorais, de elite e de percepção |
| Síntese preliminar | A dinâmica autorreforçante | Síntese argumentativa | Consolida o doom loop como achado cumulativo do campo; abre espaço para a agenda prospectiva questionando como sair do ciclo |
| Seção 2a | Partidos políticos e responsividade democrática | Fundamento teórico da agenda | Distingue representação dinâmica (modelo americano) de teoria partidária (modelo europeu); propõe integração como tarefa teórica prioritária |
| Seção 2b | Trade-offs temporais na responsividade | Extensão do argumento | Conecta dimensão temporal à desigualdade; identifica lacuna sobre o longo prazo e mais uma expressão do doom loop no eixo do tempo |
| Seção 2c | Contextos locais e multidimensionalidade | Agenda emergente | Sinaliza tópicos complementares — desigualdade entre regiões e dimensões cultural-econômicas — que expandem o escopo analítico do campo |
| Conclusão | Síntese e perspectivas | Síntese e projeção | Modera o pessimismo do doom loop ante evidências de estabilização; reafirma prioridades de pesquisa; posiciona a CPEI como campo maduro com agenda renovada |
1 Introdução (pp. 1–3)
1.1 Campo, Objetivos e Estrutura do Artigo [§1–§5]
O artigo se abre afirmando que a desigualdade econômica tem sido um tema central nos debates acadêmicos e públicos há anos, sobretudo pela percepção generalizada de seu crescimento (§1). A riqueza de pesquisas que analisou suas causas e, crescentemente, suas consequências inclui trabalhos referenciais como os de Nolan et al. (2014), os relatórios da OCDE de 2011, 2015 e 2019, e as obras de Piketty (2014, 2020). Embora a literatura mais antiga sobre os determinantes da desigualdade houvesse privilegiado forças socioeconômicas — mudança tecnológica, dinâmicas demográficas e desenvolvimento econômico —, o interesse acadêmico em fatores políticos como causas da desigualdade cresceu significativamente, inclusive dentro da própria ciência econômica (Atkinson 2015; Piketty 2014, 2020; Stiglitz 2025).
Esse interesse na interação entre fatores econômicos e políticos reflete as aspirações do campo da Economia Política Comparada da Desigualdade (CPEI — Comparative Political Economy of Inequality), objeto central do artigo (§2). Desde suas origens, a CPEI apontou para o papel crucial da política e das políticas públicas na moldagem das dinâmicas da desigualdade econômica — em particular à questão de como a redistribuição governamental via estados do bem-estar e políticas regulatórias afeta a tradução da desigualdade pré-tributária em desigualdades de renda disponível. Além disso, instituições político-econômicas como a negociação salarial coletiva e a regulação do mercado de trabalho, bem como atores coletivos como sindicatos e associações patronais, podem influenciar a distribuição de rendas de mercado antes de tributos e transferências. Estudar o papel desses fatores políticos e institucionais é a contribuição central da economia política comparada enquanto campo, complementando perspectivas da economia e da sociologia que priorizam forças socioeconômicas e demográficas.
O primeiro objetivo declarado do artigo é revisar seletivamente o campo da CPEI ao longo dos últimos 25 anos (§3). Em comparação com revisões recentes similares — Elsässer e Schäfer (2023), Lupu e Pontusson (2023), Pontusson (2025), Rosset et al. (2025) —, o artigo adota perspectiva mais ampla tanto em relação ao período revisado quanto ao escopo analítico, mantendo-se focado na dimensão econômica da desigualdade, especialmente na desigualdade de renda, embora atento às conexões crescentemente complexas entre diferentes dimensões econômicas e não-econômicas de desigualdade.
A revisão traça as conexões entre a primeira onda da CPEI — que identificava as causas político-econômicas da desigualdade no nível macro — e a literatura mais recente, que se deslocou para os microfundamentos da política da desigualdade, voltando o foco para as consequências da desigualdade sobre participação política e formação de preferências (§4). A ambição é ser abrangente, ainda que nunca completa; o propósito central é produzir uma avaliação qualitativa condensada dos achados da vasta literatura. Estudar tanto causas quanto consequências da desigualdade permite considerar ambos os aspectos como partes de um feedback loop abrangente entre o nível micro de percepções e preferências e o nível macro de instituições e políticas — cujo resultado é identificar um padrão dominante de desigualdade autorreforçante (self-reinforcing inequality).
O segundo objetivo — esboçar os contornos de uma agenda de pesquisa para o campo — é introduzido no §5, que estrutura a segunda parte do artigo. O autor anunciará foco prioritário em dois temas: (a) o papel dos partidos políticos na economia política da desigualdade, atualmente subestimado apesar de ter sido central na primeira fase da CPEI; e (b) os desafios empíricos e normativos de pensar as desigualdades na responsividade democrática ao longo da dimensão temporal, incluindo os possíveis trade-offs entre responsividade de curto e longo prazo. Em caráter complementar, o artigo comentará sobre contextos locais e sobre a multidimensionalidade da desigualdade. A motivação para esses dois eixos é também normativa: muitos estudos pioneiros adotaram implicitamente pressupostos do modelo democrático americano, negligenciando concepções europeias de boa democracia que a teoria partidária incorpora.
2 A CPEI como Campo em Maturação: Revisão de 25 Anos (pp. 3–11)
2.1 Determinantes Macro-Institucionais da Desigualdade [§6–§10]
O desenvolvimento da CPEI como campo de pesquisa iniciou com uma primeira onda de estudos no final da década de 1990 e início dos anos 2000, focados na explicação de tendências de desigualdade ao nível macro dos países (§6). Em boa medida — como frequentemente ocorre —, essa onda foi desencadeada pela crescente disponibilidade de dados comparativos, em especial os dados do projeto Luxembourg Income Studies (LIS), que forneceu medidas de desigualdade socioeconômica de renda para um conjunto maior de casos e períodos. Ao focar a desigualdade como resultado socioeconômico, a CPEI distinguiu-se — ainda que compatível — da pesquisa anterior sobre o estado do bem-estar, que se preocupara com o estudo do output de políticas em termos de níveis de gasto ou generosidade de benefícios (Esping-Andersen 1990; Wilensky 1975), mas menos com a análise da desigualdade como tal.
Do ponto de vista teórico, a CPEI desde o início questionou a sabedoria convencional em economia e sociologia, que apontava para fatores estruturais supostamente exógenos — como mudança tecnológica ou globalização — como causas últimas da desigualdade (§7). A CPEI destacou que o grau em que essas forças estruturais efetivamente se traduzem em maiores níveis de desigualdade no mercado de trabalho depende de contextos e instituições políticas. Mudanças estruturais afetam as demandas individuais frente aos formuladores de políticas, a distribuição de recursos de poder entre atores políticos e, potencialmente, a eficácia das políticas na mitigação da desigualdade.
Empiricamente, a pesquisa CPEI inicial destacou a influência das instituições de mercado de trabalho — negociação salarial coletiva, regulação salarial e capacidades organizacionais dos sindicatos — na redução das desigualdades de renda (Pontusson et al. 2002; Wallerstein 1999) (§8). Ancorada na teoria de recursos de poder (power resource theory) desenvolvida no contexto da pesquisa sobre estado do bem-estar (Korpi 1983; Stephens 1979), a CPEI apontou para a influência do equilíbrio de poder entre empregadores e sindicatos, bem como entre diferentes atores políticos partidários, sobre as tendências de desigualdade (Bradley et al. 2003; Huber e Stephens 2014; Mahler 2004; Pontusson et al. 2002; Rueda 2008). O núcleo desse argumento é demonstrar como fortes recursos de poder para a esquerda — sindicatos poderosos e centralizados, além de partidos social-democratas eleitoralmente bem-sucedidos — estão associados tanto a um estado do bem-estar mais generoso quanto a menores níveis de desigualdade socioeconômica (Kenworthy e Pontusson 2005; Pontusson 2005). Uma revisão sistemática recente de Haselmayer e Horn (2025) confirmou a significância dos efeitos partidários no molde das tendências de desigualdade, documentando o continuado interesse acadêmico no tema.
Questão de pesquisa subjacente à primeira fase da CPEI: Em que medida fatores políticos e institucionais — e não forças estruturais exógenas como tecnologia ou globalização — determinam os níveis e as trajetórias da desigualdade econômica?
No influente debate sobre as variedades de capitalismo (VoC; Hall e Soskice 2001), o tema da desigualdade foi comparativamente menos central do que questões como formação de competências, inovação ou crescimento econômico (§9). O caráter mais ou menos saliente da desigualdade no campo da economia política comparada — potencialmente, mas não necessariamente relacionado às tendências reais de desigualdade — indica que os acadêmicos também divergem quanto ao grau em que a política efetivamente importa. Não obstante, a CPEI identificou conexões entre tendências de desigualdade e regimes de economia política e de estado do bem-estar (Iversen e Soskice 2009; Pontusson 2005). Por exemplo, instituições consolidadas de formação profissional (vocational education and training, VET) foram associadas a menores níveis de desigualdade econômica nos mercados de trabalho (Busemeyer 2014; Estévez-Abe et al. 2001), em particular quando combinadas com instituições fortes de negociação salarial coletiva (Busemeyer e Iversen 2012).
Em síntese, a primeira geração da CPEI preocupou-se primordialmente em destacar o papel dos recursos de poder, da política partidária, das instituições de mercado de trabalho e de outras instituições político-econômicas como determinantes da desigualdade socioeconômica (§10; ver Huber e Stephens 2024 para visão geral e atualização recente, bem como Haselmayer e Horn 2025 sobre efeitos partidários). À medida que o campo amadureceu, os acadêmicos tornaram-se crescentemente interessados em explorar as consequências políticas da desigualdade em termos de participação, formação de preferências e percepções, deslocando-se também do nível macro das comparações entre países para o nível micro das atitudes e preferências individuais.
Nota 1: A discussão sobre o VET como fator igualador (Busemeyer 2014; Estévez-Abe et al. 2001) é relevante para o caso brasileiro: a ausência de um sistema robusto de formação profissional articulado ao mercado de trabalho é frequentemente associada à dualização do mercado de trabalho no Brasil. A comparação implícita entre o modelo alemão e o brasileiro reforça a especificidade do caso. [nota incluída por relevância argumentativa]
2.2 Dos Determinantes às Consequências: Microfundamentos da Política da Desigualdade [§11–§18]
Para muitos acadêmicos, o ponto de partida para explorar os microfundamentos da política da desigualdade foi o canônico modelo Meltzer-Richard (MR) (Meltzer e Richard 1981), utilizado sobretudo para destacar desvios em relação ao modelo original, fundado em pressupostos fortes de escolha racional (§11). O puzzle motivador dessas explorações é a observação de que o crescimento da desigualdade, em sua maior parte, não gerou aumento proporcional na demanda por redistribuição (Kenworthy e McCall 2007; Lupu e Pontusson 2023) — o que seria esperado pelo modelo MR, segundo o qual o eleitor mediano, ao perceber crescente distância entre sua renda e a média, deveria demandar mais redistribuição.
Decompondo o modelo MR em seus componentes, o modelo pressupõe que os indivíduos têm percepções acuradas da desigualdade — de modo que percepções de maior desigualdade deveriam, por sua vez, aumentar a demanda individual por redistribuição (§12). A pesquisa recente nessa área, inspirada em trabalhos de psicologia social, identificou, contudo, uma gama de misperceptions (percepções errôneas) e vieses comuns na percepção da desigualdade (Cruces et al. 2013; Engelhardt e Wagener 2018; Gimpelson e Treisman 2018; Kuziemko et al. 2015; Norton e Ariely 2011), o que poderia explicar por que os eleitores parecem insensíveis ao crescimento da desigualdade.
Uma perspectiva complementar explica a reação moderada dos eleitores ao crescimento da desigualdade invocando percepções de justiça e aceitação da desigualdade (§14). Indivíduos que vivem em países de alta desigualdade tornam-se mais tolerantes com esses níveis elevados em vez de protestar contra eles (Mijs 2021; Mijs e Savage 2020; Schröder 2017; Trump 2018, 2023). Alguns estudos explicam esse achado pela teoria da justificação do sistema (system justification theory; Jost et al. 2004; Trump 2018), que enfatiza fatores psicológicos que tornam os indivíduos mais aceitáveis ao status quo vigente, mesmo quando objetivamente desigual. Mijs (2021; Mijs e Savage 2020), por contraste, aponta para a ideologia dominante da meritocracia, que legitima as desigualdades existentes como justas quando percebidas como resultado do esforço individual (ver também Alesina et al. 2018 para argumento similar).
Quanto à ligação entre percepções e formação de preferências, a questão central é quanto as percepções subjetivas importam em comparação com as desigualdades objetivas para moldar preferências de política e, em última instância, comportamento político (§15). A maioria dos estudos constata que as percepções subjetivas desempenham papel significativo na moldagem das preferências efetivas — em particular no apoio geral à redistribuição e a políticas relacionadas à desigualdade, como tributação progressiva ou sobre a riqueza (Ahrens 2022; Bobzien 2020; Burgoon et al. 2023; Cansunar 2021; Condon e Wichowsky 2020; Dallinger 2021; García-Sánchez et al. 2020; Gimpelson e Treisman 2018; Kim e Lee 2018; Sachweh e Eicher 2025). Uma perspectiva parcialmente contrastante é oferecida por Weisstanner e Armingeon (2022) e Kevins et al. (2019), que argumentam que as percepções subjetivas importam menos do que os fatores objetivos. Evidências adicionais de que a desigualdade objetiva importa são fornecidas por estudos que encontram apoio empírico para o argumento básico do modelo MR — isto é, que maiores níveis de desigualdade objetiva estão relacionados, em certa medida, a maior demanda por redistribuição (Finseraas 2009; Johnston e Newman 2016; Kevins et al. 2018; Lupu e Pontusson 2011; Schmidt-Catran 2016).
Um tópico adicional é a ligação entre desigualdade econômica e participação política (§16). Notavelmente, no modelo MR, o passo das percepções e preferências para a participação não é modelado explicitamente, presumindo-se que os indivíduos elegíveis para votar efetivamente exercem esse direito. Contribuições pioneiras identificaram que a desigualdade econômica deprime a participação eleitoral (Mahler 2008; Schäfer 2013; Solt 2008, 2010). Pesquisa mais recente confirmou a associação entre maior desigualdade e menor comparecimento eleitoral para conjuntos mais amplos de países e períodos (Polacko 2022; Rosset 2023; Schäfer e Schwander 2019; Schwander et al. 2020). Há, contudo, evidências de que níveis mais altos de desigualdade — ou queixas econômicas mais intensas — podem desencadear protesto político e contramobilização em certas circunstâncias (Cederman et al. 2011; Kurer et al. 2019; Newman et al. 2015), embora permaneça incerto quais fatores determinam se as queixas ligadas à desigualdade têm efeito de desmobilização ou mobilização — questão relevante para pesquisas futuras.
No que diz respeito à política partidária, Pontusson e Rueda (2010) argumentaram que a desigualdade também afeta as dinâmicas de competição entre partidos — a ideia de que “a desigualdade de renda não apenas é moldada pela política, mas também molda a política” —, induzindo os partidos de esquerda a se moverem à esquerda quando a participação eleitoral é suficientemente elevada (§17; ver também Anderson e Singer 2008). Tavits e Potter (2015) constatam que o sucesso eleitoral dos partidos de esquerda depende da medida em que conseguem manter o foco da competição partidária em questões econômicas. Relacionadamente, contribuições sobre a dualização do mercado de trabalho (Emmenegger et al. 2012) mostraram como as desigualdades no mercado de trabalho na forma de dualização podem contribuir para que outsiders abandonem os partidos do centro-esquerda e optem por alternativas populistas mais radicais (Lindvall e Rueda 2012). Trabalho mais recente de Horn et al. (2026) estuda o impacto da desigualdade sobre as posições dos partidos, constatando que os partidos de esquerda em particular ajustam suas posições em resposta a aumentos de desigualdade, mas são menos responsivos a níveis persistentemente altos.
Implicação para o caso brasileiro: O achado de Horn et al. (2026) é teoricamente relevante para o PT. Se a desigualdade educacional é estruturalmente alta e relativamente estável (não em crescimento acelerado), a teoria partidária preveria responsividade limitada dos partidos de esquerda — o que pode ajudar a explicar por que o PT recorreu a atores não-partidários (conglomerados privados via PROUNI e FIES) como mecanismos de expansão do acesso ao ensino superior.
Até o presente, emergiu literatura vibrante sobre a conexão entre desigualdade e o ascenso do populismo (Burgoon et al. 2019; Engler e Weisstanner 2021; Filsinger 2023; Gidron e Hall 2020; Hartmann et al. 2022; Iversen e Soskice 2019; Kurer e van Staalduinen 2022; Norris e Inglehart 2019; Schäfer 2022; Stoetzer et al. 2023) (§18). Uma das questões centrais dessa literatura é se fatores socioeconômicos ou culturais são mais importantes para moldar o apoio ao populismo (Norris e Inglehart 2019 vs. Schäfer 2022). Um insight central é que as percepções subjetivas de privação relativa parecem ser força motriz do apoio ao populismo (Burgoon et al. 2019; Kurer e van Staalduinen 2022), apontando para o papel das percepções como mecanismo por trás da ligação entre desigualdade e competição partidária. Estudos recentes confirmaram que desigualdade e políticas a ela relacionadas permanecem no centro dos conflitos partidários entre esquerda e direita (Gethin et al. 2021; Horn et al. 2026; Jahn 2023; Piketty 2020), incluindo tanto a clivagem esquerda-direita tradicional centrada na redistribuição econômica quanto a nova clivagem universalista-particularista emergente (Zollinger 2024). A desigualdade econômica também foi associada a menores níveis de confiança política (Bobzien 2023; Lipps e Schraff 2021) e a percepções de responsividade desigual (Rosset 2023).
2.3 De Volta às Políticas: Desigualdades na Responsividade do Policy-Making [§19–§23]
A ligação entre o nível micro de percepções, preferências e comportamento político e o nível macro do policy-making é estabelecida pelos estudos sobre as desigualdades persistentes na responsividade das políticas públicas (§19). Do ponto de vista do modelo MR canônico, não haveria nada de especial a observar, pois o modelo pressupõe que os governos, por interesse próprio em sua reeleição, seguirão e implementarão as demandas do eleitor mediano. A maioria dos estudos nesse campo encontra evidências, contudo, de que a transmissão de preferências em políticas não funciona tão suavemente. Compreender a responsividade desigual é, portanto, um bloco de construção importante para o entendimento mais abrangente das dinâmicas de desigualdade autorreforçante, porque as políticas públicas tendem a ser menos eficazes na mitigação da desigualdade quando são enviesadas em favor dos ricos.
Fundando-se no trabalho pioneiro de Gilens (2005, 2012; Gilens e Page 2014; ver também Bartels 2008), muitos estudos focaram na associação entre opinião pública medida por pesquisas e mudanças subsequentes de política, para as quais os estudos de Gilens revelaram forte viés de responsividade em favor dos indivíduos de alta renda (§20). Estudos sobre outros países e amostras mais amplas confirmaram em grande medida que a responsividade enviesada do policy-making é generalizada (Elkjaer 2020; Elkjaer e Klitgaard 2024; Elsässer et al. 2021; Erikson 2015; Lupu e Warner 2022; Schakel 2021; Schakel et al. 2020; Schakel e Hakhverdian 2018). Alguns estudos começaram também a rastrear os vieses relacionados à renda em estágios anteriores do ciclo do policy-making — em posições partidárias, plataformas eleitorais, seleção de candidatos e definição da agenda (Horn et al. 2026; Schakel e Burgoon 2022; Traber et al. 2022; Weber 2020; Wüest e Pontusson 2022). Rosset e Kurella (2021) argumentam que o estágio eleitoral amplifica ainda mais as desigualdades relacionadas à renda na responsividade, pois os indivíduos de baixa renda estão pior representados nos sistemas partidários europeus comparativamente aos grupos de renda mais alta. O trabalho sobre diferenças potenciais de responsividade entre partidos confirmou que os políticos de esquerda podem ser um pouco mais responsivos às preocupações da classe média do que os de direita, mas os estudos ainda encontram viés geral em favor dos ricos em recursos (Elsässer et al. 2021; Grossmann et al. 2021; Mathisen et al. 2023; Schakel e Burgoon 2022).
Há, contudo, críticos da abordagem de Gilens, que apontam que as preferências das classes média e alta são fortemente correlacionadas (Branham et al. 2017; Enns e Wlezien 2011) — de modo que a responsividade em relação aos ricos implica coincidentemente responsividade em relação às classes médias, embora os pobres continuem pior representados (§21). Para alguns, a classe média — o eleitor mediano — permanece central para a competição política, reforçando a confiança na viabilidade da tomada de decisão democrática (Elkjaer e Iversen 2020, 2023; Pontusson 2025). Outros apontaram que mesmo quando há viés em favor dos ricos, os formuladores de políticas ainda podem ser amplamente responsivos à dinâmica geral da opinião pública, num padrão de “representação real, mas desigual” (real, but unequal representation; Schakel et al. 2020; ver também Stimson 2011).
Além disso, Pontusson e Weisstanner (2018) argumentaram que a capacidade redistributiva declinante de muitos estados do bem-estar nos países da OCDE pode ter menos a ver com responsividade declinante e estar mais associada ao declínio real do apoio à redistribuição nas classes médias, à medida que os riscos econômicos se concentram em grupos marginalizados (§22). Outras pesquisas recentes também apontam para restrições exógenas — condições macroeconômicas, paradigmas econômicos dominantes ou austeridade fiscal — como fatores que podem impedir a responsividade governamental (Elsässer e Haffert 2022; Rosset et al. 2025; Tober e Busemeyer 2022).
Uma área emergente de pesquisa é o estudo das percepções das elites como mecanismo potencial que explica a responsividade seletiva (§23). Estudos recentes mostraram que os vieses nas percepções dos próprios políticos podem ser ao menos parcialmente responsáveis pelo viés geral de responsividade. Walgrave et al. (2023) constataram que os políticos são geralmente bastante maus em estimar corretamente a opinião pública, mesmo no que diz respeito às preferências de suas próprias circunscrições eleitorais. Além disso, há evidências crescentes de que os legisladores possuem visões geralmente mais conservadoras do que os cidadãos (Broockman e Skovron 2018; Pereira 2021; Helfer et al. 2024; Pilet et al. 2024). Embora o viés conservador seja um pouco menos pronunciado nos políticos de esquerda, ele ainda existe mesmo nesse grupo (Broockman e Skovron 2018). Esse viés pode estar relacionado à exposição seletiva dos parlamentares a cidadãos de alta renda e alta escolaridade em suas redes pessoais (Helfer et al. 2024; Pereira 2021) ou aos maiores esforços de mobilização de grupos partidários de direita (Broockman e Skovron 2018). Apesar desses avanços recentes, muito permanece incerto quanto aos mecanismos subjacentes à responsividade desigual.
2.4 Síntese Preliminar: A Dinâmica de Desigualdade Autorreforçante [§24–§26]
Sintetizar uma revisão abrangente — ainda que seletiva — de 25 anos de pesquisa sobre a CPEI não é tarefa simples (§24). Na perspectiva do autor, há duas mensagens fundamentais a reter. A primeira é que a pesquisa da CPEI demonstrou claramente que e como a política importa para a dinâmica da desigualdade. Enquanto a primeira onda se concentrou em identificar as causas políticas da desigualdade em termos de políticas e recursos de poder, a pesquisa posterior voltou-se mais para os microfundamentos — ou seja, como os níveis existentes de desigualdade moldam percepções, preferências e padrões de participação. Por extensão, os acadêmicos começaram a explorar as desigualdades persistentes na responsividade do policy-making, com foco crescente nos mecanismos subjacentes à (não-)responsividade.
O doom loop como achado cumulativo central da CPEI: O segundo take-home message, mais substancial, é a identificação de uma forte dinâmica de desigualdade autorreforçante (§25). Mais concretamente: os níveis declinantes de redistribuição via estado do bem-estar (Pontusson e Weisstanner 2018) estão associados ao aumento da desigualdade e do emprego precário, em particular entre os menos favorecidos; o aumento real e percebido da desigualdade e o declínio de status levam à abstenção política ou ao apoio a alternativas radicais, majoritariamente de direita (Burgoon et al. 2019; Kurer e van Staalduinen 2022), de modo que as desigualdades econômicas transbordam para as desigualdades políticas (Elsässer et al. 2021); a menor participação eleitoral dos eleitores de baixa renda está, por sua vez, associada à menor responsividade dos formuladores de políticas às demandas dos menos privilegiados (Pontusson e Rueda 2010); os populistas de direita beneficiaram-se do declínio eleitoral dos partidos do centro-esquerda, mas quando no poder não adotam políticas que mitiguem a desigualdade (Hacker e Pierson 2020; Rathgeb 2024); e as capacidades econômicas e fiscais dos governos de esquerda para promover políticas expansivas do estado do bem-estar são ainda constrangidas pela globalização e pela integração europeia (Kwon e Pontusson 2010; Tober e Busemeyer 2022), realimentando o ciclo.
A questão de como escapar desse doom loop e quais devem ser as prioridades da pesquisa futura estrutura a segunda parte do artigo (§26). O autor propõe que a pesquisa futura esclareça em que medida a dinâmica de feedback reforçadora depende de contextos específicos em termos de períodos e casos, pois a desigualdade econômica pode aumentar ou diminuir ao longo de períodos prolongados. Potencialmente, nas trente glorieuses das décadas pós-guerra, uma dinâmica mitigadora diferente pode ter prevalecido, quando a expansão educacional e as reformas progressivas do estado do bem-estar criaram oportunidades de mobilidade social ascendente, apoiadas pela abertura e democratização do sistema político. O artigo questiona se essa dinâmica de mobilidade ascendente foi autodestrutiva — ou se fatores específicos desencadearam a reversão — e se há exemplos contemporâneos de saída do loop. Constatando que tais exemplos existem — como a recalibração incremental dos estados do bem-estar em direção ao modelo de investimento social (social investment; Hemerijck 2018), que contribuiu para reduzir as desigualdades de gênero no mercado de trabalho (Pavolini e Van Lancker 2018), ou a cautelosa expansão das políticas sociais na União Europeia (Ferrera e Burelli 2019) —, o autor pondera que esses exemplos se assemelham a flores murchas mais do que a um prado florido, mas indicam que pode haver limiares quando os efeitos negativos da desigualdade persistente tornam-se suficientemente grandes para desencadear efeitos de contramobilização ao status quo (Weaver 2010).
3 Uma Agenda de Pesquisa Futura (pp. 11–19)
3.1 Enquadramento e o Papel dos Partidos Políticos [§27–§35]
A seção de agenda foca em dois temas que, na avaliação do autor, merecem atenção prioritária nos próximos anos: (1) o papel dos partidos políticos na economia política da desigualdade e (2) a questão dos possíveis trade-offs entre responsividade a desafios de curto e longo prazo (§27). Esses dois temas são cruciais porque estão relacionados a diferentes concepções normativas de democracia de qualidade, mais inspiradas em perspectivas europeias. Grande parte dos estudos pioneiros focou no caso americano e muitos dos que adicionaram dimensão comparativa não apenas copiaram abordagens metodológicas e empíricas específicas, mas também pressupostos normativos implícitos e concepções sobre a democracia. Assim, refletir sobre o papel do governo partidário na economia política da desigualdade e sobre os possíveis trade-offs entre governo “responsivo” e “responsável” (Mair 2013) é importante tanto para avançar o conhecimento acadêmico quanto para possibilitar reflexão mais aprofundada sobre as implicações normativas e políticas dos achados científicos.
Os estudos pioneiros sobre vieses e desigualdades na responsividade democrática focaram no caso americano (Bartels 2008; Gilens 2005, 2012) (§28). Esse foco acompanhou uma concepção particular da versão ideal-típica da democracia responsiva, resumida no modelo termostático (thermostatic model; Soroka e Wlezien 2010: 15; Wlezien e Soroka 2012): o público responde imediatamente às mudanças de política ajustando suas preferências, e os formuladores de políticas, por sua vez, traduzem prontamente essas preferências atualizadas em mudanças reais de política. De modo similar, no modelo de representação dinâmica (dynamic representation; Stimson et al. 1995), os formuladores de políticas respondem tão rapidamente quanto possível às mudanças no humor público dominante.
Do ponto de vista desses modelos, a responsividade é maximizada quando os formuladores de políticas respondem rapidamente às mudanças na opinião pública geral (§29). Nessa perspectiva, os partidos políticos, “quando no poder, podem implementar políticas favorecidas por seus apoiadores mais ardorosos em vez do público geral” (Burstein 2003: 30). De modo diferente, os partidos — ao responder às demandas de suas circunscrições eleitorais mais particulares — têm incentivos para apelar a suas bases específicas em vez de ao “público geral”. Para Burstein (2003: 31), essa responsividade “partidária” pode ser mitigada por alto grau de competição interpartidária, que força os partidos a se moverem em direção ao eleitor mediano. Da mesma forma, Gilens (2012: 163) considera os partidos “maximizadores de políticas”, ou seja, “respondendo às preferências do público (e desproporcionalmente ao segmento mais abastado do público) quando necessário, mas perseguindo suas próprias agendas quando podem”. Como consequência dessa visão negativa do papel dos partidos na responsividade, Gilens espera menos responsividade quando um partido domina, mas mais responsividade com Congresso dividido e, portanto, mais competição eleitoral.
Uma perspectiva muito diferente e contrastante é desenvolvida nas teorias de governo partidário (party government) ou teoria partidária (partisan theory; Castles 1982; Hibbs 1977; Schmidt 1996; Stephens 1979) (§30). Essa perspectiva, mais enraizada nas concepções europeias de responsividade democrática, não apenas espera diferenças notáveis entre as demandas e os interesses das circunscrições de diferentes partidos — ela também postula que essas diferenças se espelham em variações nos manifestos eleitorais dos partidos e, em última instância, em suas políticas de governo (Schmidt 1996). Assim, a convergência de posições de política em direção à do eleitor mediano — ainda que compreendida como próxima ao modelo ideal-típico de responsividade dinâmica na tradição pluralista — é considerada, na verdade, um defeito de responsividade, pois elimina a escolha efetiva entre alternativas. Kirchheimer (1966) falou famosamente sobre o efeito de “oposição desaparecida” (vanishing opposition) no contexto da primeira Grande Coalizão formal na Alemanha nos anos 1960.
Da perspectiva da teoria partidária, os partidos políticos não são distrações que impedem legisladores e formuladores de políticas de implementar a vontade do povo (§31). Ao contrário, são considerados elementos construtivos integrais com a tarefa de agrupar as diversas preferências e demandas de diferentes circunscrições eleitorais em programas eleitorais mais ou menos coerentes e — subsequentemente — em acordos de coalizão, instrumentos cruciais para manter a responsabilização dos formuladores de políticas perante seus eleitores. Um exemplo complementar da literatura recente é o estudo de O’Grady (2019) sobre a influência do background socioeconômico nas posições e no comportamento legislativo dos Membros do Parlamento (MPs) no caso britânico (ver também Alexiadou 2022 e Carnes e Lupu 2023 para estudos similares). Segundo O’Grady, o gradual deslocamento de MPs da classe trabalhadora por “carreiristas” “enfraqueceu consideravelmente a representação dos interesses dos eleitores da classe trabalhadora” (Carnes e Lupu 2023: 546), embora os carreiristas sejam provavelmente mais responsivos às mudanças gerais na opinião pública.
Esse exemplo destaca as visões radicalmente diferentes — e quase diametralmente opostas — sobre o papel dos partidos nas literaturas sobre responsividade democrática e governo partidário (§32). Em grau significativo, a maior parte da pesquisa empírica existente sobre responsividade enviesada adotou ao menos implicitamente a perspectiva teórica da representação dinâmica (Soroka e Wlezien 2010; Stimson et al. 1995). Em parte, isso resulta do fato de que os desenhos de pesquisa correlacionam atitudes e preferências individuais derivadas de pesquisas de opinião pública com dados sobre decisões e prioridades de política, focando na variação das preferências ao longo da escala de renda. Poucos estudos examinaram os potenciais “vieses partidários” na responsividade dos formuladores de políticas, em particular no contexto europeu (Elsässer et al. 2017; Mathisen et al. 2023). São os acadêmicos americanos que lideram, explorando diferenças de responsividade e representação entre Democratas e Republicanos nos estados americanos e no Congresso (Bartels 2008; Ellis 2013; Grossmann et al. 2021; Lax et al. 2019; Rhodes e Schaffner 2017; Rigby e Wright 2013). Da perspectiva da teoria partidária, as diferenças partidárias na responsividade são criticamente importantes para dar peso às escolhas de voto dos indivíduos; igualmente central é a questão de se e em quais condições o governo partidário efetivamente afeta os níveis e as mudanças nas diferentes manifestações da desigualdade econômica (Haselmayer e Horn 2025).
Portanto, a tarefa teórica à frente é integrar as teorias de responsividade democrática inspiradas nos EUA — que enfatizam a importância da opinião pública como força motriz da mudança de política — com as teorias do governo partidário (§33). A questão de pesquisa fundamental é compreender melhor o papel dos partidos políticos como contribuintes ou mitigadores das desigualdades na responsividade. Teorias e desenhos de pesquisa que levam em conta apenas a associação entre preferências individuais e posições de política dos políticos deixam de reconhecer os potenciais efeitos colaterais da mobilização coletiva, que pode ser particularmente benéfica para os indivíduos com menos recursos.
A mobilização efetiva de indivíduos com poucos recursos via partidos de esquerda, sindicatos ou organizações similares poderia, em certa medida, mitigar e compensar as desvantagens de eficácia política relacionadas aos recursos individuais (Elsässer e Schäfer 2023) (§34). Evidências indicativas de tal efeito de compensação são dadas pelo fato de que as desigualdades na responsividade parecem ser menos pronunciadas em sistemas eleitorais baseados na representação proporcional (RP; Bernauer et al. 2015; Huber e Bingham Powell 1994; Kang e Powell 2010), que incidentalmente também são conhecidos por favorecer o governo de esquerda e estados do bem-estar mais generosos (Iversen e Soskice 2006). Da mesma forma, a configuração institucional dos sistemas de mediação de interesses — e, portanto, a medida em que as instituições corporatistas ou pluralistas dominam — tem implicações importantes para a responsividade democrática (Busemeyer 2020), pois as instituições corporatistas podem equilibrar as desigualdades nas capacidades de mobilização entre interesses especiais e interesses mais difusos e gerais (Klüver e Pickup 2019).
Prestar mais atenção ao papel da política partidária e das ideologias relacionadas também pode gerar novas perspectivas sobre como a representação descritiva e a representação substantiva (Pitkin 1967) se relacionam entre si (§35). A literatura atual identificou viés geral em favor dos indivíduos ricos em recursos e explica esse viés apontando para a falta de representação descritiva nos parlamentos, pois mesmo entre os partidos de esquerda, os membros do parlamento são geralmente altamente escolarizados e têm rendas acima da média (Elsässer et al. 2021; Grossmann et al. 2021). Contudo, embora o background socioeconômico tenha demonstrado ter alguns efeitos sobre as preferências e as decisões de política entre as elites políticas (Alexiadou 2022; Carnes e Lupu 2023; O’Grady 2019), a ideologia partidária ainda importa para os políticos (Pinggera 2021; Wenzelburger e Zohlnhöfer 2021). Mas se a ideologia importa, permanece incerto se e em que medida ela pode compensar os efeitos do background socioeconômico dos decisores individuais — de modo que, no agregado, políticos com diferentes origens partidárias continuem a perseguir diferentes programas de política mesmo que seus perfis socioeconômicos estejam se tornando cada vez mais similares. As respostas a essas questões provavelmente variam sistematicamente entre diferentes tipos de sistemas políticos, economias políticas e estados do bem-estar.
3.2 Trade-offs entre Responsividade de Curto e Longo Prazo [§36–§42]
Uma segunda área temática digna de exploração mais aprofundada é o estudo dos trade-offs entre responsividade a desafios de curto e longo prazo (§36). Tanto o modelo MR canônico quanto a maior parte da pesquisa sobre responsividade concentram-se na responsividade de curto prazo, negligenciando o fato de que o policy-making também se desenrola ao longo de uma dimensão temporal (Jacobs 2016). Isso importa porque há situações em que a falta de responsividade a urgências presentes de curto prazo envolve, na verdade, a maximização da responsividade a necessidades de longo prazo. Nesse contexto, o falecido Peter Mair (2013) falou sobre a justaposição entre governo “responsivo” e governo “responsável”. Abstraindo a questão de quais políticas devem ser consideradas “responsáveis”, uma abordagem mais normativa sugere que a tomada de decisão democrática também deve ser responsiva no longo prazo. A questão crucial é então como os trade-offs entre as perspectivas de curto e longo prazo são abordados e resolvidos — e, dado que o grosso da literatura foca na responsividade de curto prazo, há pouco conhecimento sobre esse ponto.
A questão dos trade-offs entre responsividade de curto e longo prazo está relacionada à desigualdade de diferentes maneiras (§37). Por um lado, respostas de política mais eficazes à desigualdade — como a expansão de investimentos educacionais — são frequentemente deslocadas por urgências de curto prazo, como a priorização de cortes fiscais ou gastos em políticas compensatórias (Bremer e Bürgisser 2023; Busemeyer e Garritzmann 2017). Por outro, ao examinar as desigualdades na responsividade do policy-making, a busca por objetivos de longo prazo — como expandir políticas de investimento social (social investment) ou investir mais na mitigação da mudança climática — pode reforçar ou até exacerbar as desigualdades na responsividade de curto prazo. Há evidências iniciais de que indivíduos de alta renda e alta escolaridade tendem a apoiar mais o investimento social (Beramendi et al. 2015; Garritzmann et al. 2018) e políticas orientadas para o futuro em geral (Busemeyer 2024). Se confirmado por pesquisas adicionais, um maior grau de responsividade às demandas orientadas para o longo prazo poderia reforçar os vieses existentes contra os grupos de baixa renda.
Todos os estudos citados têm em comum o fato de se preocuparem com a mensuração da responsividade a preocupações de curto prazo no presente — o que pode estar relacionado à influência das teorias de representação dinâmica (Stimson et al. 1995) nesse campo (§38). Uma questão interessante para pesquisas futuras é se a maximização da responsividade democrática no curto prazo poderia acompanhar ou mesmo provocar diminuição da capacidade de solução de problemas dos sistemas políticos no longo prazo. A mudança climática é um bom exemplo desse trade-off: se os formuladores de políticas maximizam a responsividade no curto prazo adotando políticas menos rigorosas de mitigação climática, essas ações poderiam diminuir a capacidade de resolução de problemas no longo prazo ou levar a maiores custos de adaptação. Por outro lado, políticas climáticas mais estritas poderiam exacerbar as desigualdades de responsividade no curto prazo — visto que o apoio a políticas mais ambiciosas de mitigação climática está positivamente correlacionado com a renda individual, mas poderia ser aumentado entre os indivíduos de baixa renda se vinculado a questões de redistribuição e desigualdade (Beiser-McGrath e Busemeyer 2024; Hedegaard e Kongshøj 2026).
Portanto, a questão dos trade-offs entre responsividade a desafios de curto e longo prazo tem componentes normativos e empíricos (§39). Do ponto de vista normativo, requer uma teoria sobre como os interesses potencialmente conflitantes das gerações presentes e futuras podem ser equilibrados, mantendo os princípios da tomada de decisão democrática (MacKenzie 2016; Thompson 2010). Em outras palavras: há circunstâncias em que uma menor responsividade às preocupações do presente é justificada por maior responsividade e capacidade de resolução de problemas no longo prazo? Responder a essa questão é desafiador porque levar em conta as necessidades de gerações futuras requer “portavozes honestos” que podem, contudo, ser percebidos como tecnocratas antidemocráticos ou representantes de interesses elitistas no curto prazo.
Do ponto de vista empírico, os acadêmicos começaram a explorar os trade-offs nas atitudes individuais entre políticas orientadas para o curto e o longo prazo (Bremer e Bürgisser 2023; Busemeyer 2024; Busemeyer e Beiser-McGrath 2024; Busemeyer e Garritzmann 2017; Häusermann et al. 2019; Jacobs e Matthews 2012, 2017), em parte com o objetivo de avaliar o grau de presentismo (short-termism) na tomada de decisão política (§40). Outra corrente de pesquisa focou mais no nível do policy-making efetivo (Jacobs 2011, 2016). Até o momento, essa literatura nascente sobre a “Política do Quando” (Jacobs 2008) não prestou muita atenção à questão da desigualdade, embora haja vários pontos de conexão dignos de exploração.
O primeiro desses pontos de conexão é a questão de se a maximização da responsividade a desafios de longo prazo está associada a maiores desigualdades na responsividade a preocupações de curto prazo (§41). Por exemplo, indivíduos de alta renda e alta escolaridade são mais propensos a apoiar ação decisiva contra a mudança climática (Beiser-McGrath e Busemeyer 2024) e políticas de investimento social (Busemeyer e Tober 2023) — ambas políticas com efeitos provavelmente positivos sobre a capacidade do sistema político de lidar com desafios de longo prazo. Contudo, do ponto de vista de curto prazo, priorizar políticas ambientais e de investimento social pode ser percebido (e de fato é) uma responsividade enviesada em favor das demandas dos indivíduos de alto NSE. Assim, a questão interessante é em que medida diferentes instituições político-econômicas e de estado do bem-estar estão associadas a variações na forma como esse trade-off é empiricamente abordado.
Uma segunda questão relacionada é se a existência de alto grau de desigualdade no presente tem efeito sobre o apoio público a políticas orientadas para o longo prazo (§42). Indivíduos podem ser mais propensos a priorizar preocupações de curto prazo em contextos de alta desigualdade — em particular na metade inferior da distribuição de renda —, de modo que a desigualdade torna-se um obstáculo efetivo à mobilização de apoio para políticas de investimento de longo prazo. Essas políticas — por exemplo educação ou outras políticas de investimento social — podem ser mais eficazes na mitigação da desigualdade no longo prazo, mas sua implementação poderia ser dificultada pela maximização das urgências de curto prazo em contextos precários — mais um exemplo de como o doom loop se manifesta, desta vez levando em conta a dimensão temporal. Indicações de tal dinâmica são fornecidas por estudos recentes sobre as consequências da mudança tecnológica rápida, que mostram que indivíduos com maior risco de automação de seus empregos preferem políticas sociais compensatórias com efeitos de compensação imediata às políticas de investimento social orientadas para o longo prazo (Busemeyer e Tober 2023; Kurer e Häusermann 2022). A implicação macro desse mecanismo micro é a existência de uma relação negativa entre o grau de desigualdade e a provisão de políticas de investimento social orientadas para o longo prazo no nível dos países.
3.3 Tópicos Emergentes: Contextos Locais e Multidimensionalidade da Desigualdade [§43–§47]
Além dos dois temas tratados extensivamente, o artigo aponta outras questões de pesquisa que merecem atenção acadêmica crescente (§43). A primeira delas é o papel dos contextos locais e das desigualdades de base territorial (place-based inequalities) na moldagem das respostas políticas à desigualdade. Como observado por Pontusson (2025: 30), o arrefecimento das tendências gerais de desigualdade na última década foi acompanhado por um aumento da desigualdade entre diferentes regiões dentro dos países — em particular na Europa Ocidental. Pesquisa anterior já havia argumentado fortemente em favor de focar no nível local ao estudar as implicações políticas da desigualdade (Newman et al. 2015). Investigações mais recentes começaram a explorar as conexões profundas entre a privação econômica local, de um lado, e as percepções de declínio cultural, de outro, como fatores que conjuntamente impulsionam o apoio ao populismo de direita (Arzheimer et al. 2024; Huijsmans 2023). Outros pesquisadores na tradição da economia política estudam as implicações políticas das economias locais do conhecimento para as percepções de mobilidade social e para a política partidária (Iversen e Soskice 2019; Berriochoa e Busemeyer 2026).
Em síntese, a crescente disponibilidade de dados de pesquisa ou administrativos mais granulares fornece os meios empíricos para que os acadêmicos prestem mais atenção aos contextos locais na exploração da economia política da desigualdade (§44). Do ponto de vista teórico, há numerosas questões interessantes que merecem atenção. Uma delas é a questão de quais tipos de contextos são mais importantes na moldagem da economia política da desigualdade. Há um argumento a ser feito de que os contextos de desigualdade local são particularmente influentes, pois os indivíduos tendem a perceber sua vizinhança imediata — o que então informa suas percepções subjetivas e preferências. No entanto, a política partidária da desigualdade ainda se desenrola principalmente no palco da política nacional, e diferentes tipos de mídia social e de massa podem desempenhar papel significativo na ampliação da visibilidade das manifestações de desigualdade acima do nível local. Em síntese, permanece em aberto qual nível de governo é considerado o mais decisivo do ponto de vista dos indivíduos afetados pela desigualdade.
Uma segunda questão interessante é a relação entre desigualdade local e privação regional (§45): o argumento sobre a importância dos contextos locais refere-se mais à exposição a diferentes níveis de desigualdade dentro de determinadas localidades, ou a desigualdades entre diferentes localidades? A literatura sobre desigualdade de base territorial (Arzheimer et al. 2024; Huijsmans 2023) preocupa-se mais com as desigualdades emergentes e crescentes entre regiões em declínio e regiões em prosperidade, ao passo que a literatura sobre desigualdade local (Newman et al. 2015) argumenta em favor de prestar atenção aos níveis locais de desigualdade. Permanece em aberto qual tipo de desigualdade importa mais para a formação de preferências e escolhas de voto.
Um terceiro tema emergente, parcialmente relacionado à discussão sobre desigualdade territorial, é a natureza multidimensional da desigualdade e suas implicações políticas (§46). Mesmo mantendo o foco nas dimensões econômicas, os acadêmicos destacam cada vez mais as relações complexas e profundas entre as dimensões econômicas e as dimensões mais culturais da desigualdade — em particular na literatura exponencialmente crescente sobre o populismo de direita (Arzheimer et al. 2024; Gidron e Hall 2020). Essa complexidade crescente também se reflete no trabalho sobre a natureza multidimensional da política partidária (Häusermann et al. 2013): a competição partidária na dimensão econômica da redistribuição não pode mais ser analisada de forma separada e isolada dos conflitos ao longo da segunda linha de conflito partidário central nas democracias economicamente avançadas — que se centra mais em conflitos de valores e não-econômicos (Horn et al. 2026; Tavits e Potter 2015). Mesmo no nível das preferências individuais, trabalhos recentes mostraram que o autointeresse econômico pode ser poderoso, mas não é o único determinante das preferências: normas e valores sobre o merecimento (deservingness) dos beneficiários do estado do bem-estar e ideologias relacionadas também moldam fortemente as preferências (Attewell 2022).
Portanto, mesmo ao focar nos aspectos de economia política da desigualdade, os acadêmicos precisam prestar atenção às conexões entre as dimensões econômicas e não-econômicas da desigualdade, pois essas conexões provavelmente têm implicações políticas significativas em diferentes níveis — desde a formação de preferências até as dinâmicas de competição partidária e o policy-making (§47). Uma questão crucial para pesquisas futuras é obter insights mais gerais sobre a importância relativa dos aspectos econômicos versus não-econômicos na moldagem da política da desigualdade. Potencialmente, é possível identificar condições de contexto que afetam essa importância relativa. Alguns pesquisadores começaram a explorar o enquadramento partidário e os discursos de elite (Horn et al. 2026; Tavits e Potter 2015), mas os fatores econômicos em si também podem ser tal fator condicionante. Por exemplo, a privação econômica local e as queixas relacionadas poderiam desencadear reações políticas e protestos motivados pelo (auto)interesse econômico (Newman et al. 2015), ao passo que a afluência econômica local poderia aumentar a saliência de questões não-econômicas relacionadas a valores sociais e identidade (Zollinger 2024).
4 Conclusão (pp. 19–21)
4.1 Síntese e Perspectivas [§48–§51]
O artigo tem dois objetivos intrinsecamente relacionados (§48). Na primeira parte, o autor ofereceu uma visão geral densa — ainda que necessariamente incompleta — do desenvolvimento da pesquisa em CPEI ao longo das últimas décadas, partindo da pesquisa sobre a importância dos recursos de poder e das instituições como determinantes políticos da desigualdade até a pesquisa mais recente sobre percepções e preferências sobre a desigualdade, bem como as desigualdades na responsividade. Na segunda parte, discutiu dois temas que, em sua avaliação, são prementes para o desenvolvimento ulterior da agenda de pesquisa do campo: (a) a reflexão sobre o papel dos partidos políticos — tanto teórica quanto empiricamente — na influência da responsividade do policy-making; e (b) os trade-offs entre o curto e o longo prazo na responsividade democrática, dado que a pesquisa existente está quase exclusivamente focada em questões de responsividade às demandas e necessidades presentes, mas a existência de desafios de longo prazo prementes — como a mudança climática e o ascenso da economia do conhecimento — torna importante refletir sobre como os policy-makers devem (do ponto de vista normativo) e de fato respondem (do ponto de vista empírico) a esses desafios. A seção de agenda de pesquisa também comentou brevemente sobre outros tópicos de interesse, como as desigualdades de base territorial e a natureza multidimensional da desigualdade.
No encerramento, o autor reflete sobre as prioridades de pesquisa à luz das tendências atuais de desigualdade (§49). Como Pontusson (2025: 28–30) e outros observaram, as trajetórias de desenvolvimento dessas tendências na última década apontam mais para uma estabilização dos níveis de desigualdade do que para uma tendência de alta contínua — ao menos para a maioria dos países europeus. Tendências estáveis de desigualdade no nível dos países podem ocultar desigualdades regionais significativas, e — como a pesquisa revisada no artigo demonstrou — as percepções subjetivas das tendências de desigualdade podem divergir significativamente dos desenvolvimentos objetivos. Apesar dessas ressalvas, a perspectiva do doom loop de desigualdade autorreforçante identificada acima pode ser considerada excessivamente pessimista, em particular em uma perspectiva prospectiva.
Moderação do pessimismo estrutural: A conclusão sinaliza movimento normativo relevante — do pessimismo estrutural do doom loop para uma postura mais aberta à identificação de dinâmicas mitigadoras. Esse deslocamento é significativo para pesquisas em contextos não-OCDE, onde as condições iniciais de desigualdade e as estruturas institucionais diferem substancialmente do modelo europeu-ocidental descrito no artigo.
O autor afirma concordar com a aspiração de desenvolver novas questões de pesquisa mais preocupadas em identificar instâncias e exemplos empíricos de como a dinâmica autorreforçante da desigualdade foi transformada em dinâmica política de mitigação da desigualdade (§50). Essa aspiração provavelmente exigirá ir além da desigualdade econômica definida de forma estreita e prestar mais atenção à natureza multidimensional da desigualdade. Também levanta a questão de como a confiança dos eleitores preocupados com o declínio econômico e a privação relativa nas instituições da democracia representativa de partidos pode ser restaurada ou ao menos mantida. E requer prestar mais atenção à capacidade das democracias de lidar eficazmente com os desafios de longo prazo, como a mudança climática e o ascenso da economia do conhecimento.
No encerramento, o autor afirma que o estudo da economia política comparada da desigualdade desenvolveu-se de campo emergente a campo bastante maduro nos 25 anos revisados pelo artigo, e que a West European Politics como periódico desempenhou papel importante nesse processo (§51). O campo provavelmente continuará sendo um fórum de discussão influente nos próximos anos, porque mesmo como campo maduro, a CPEI continua a produzir questões de pesquisa novas e interessantes — como descritas no artigo — que manterão os acadêmicos ocupados por décadas.