Fichamento: Leftist Governments, Distributive Strategies, and the Politics of Balance of Payments-Constrained Growth in Chile and Uruguay
Bogliaccini e Madariaga (2024)
Bogliaccini, J., & Madariaga, A. (2024). Leftist governments, distributive strategies, and the politics of balance of payments-constrained growth in Chile and Uruguay. Competition & Change, 29(3–4), 375–398. https://doi.org/10.1177/10245294241237366
Última atualização: 2026-04-23 Modelo: Perplexity AI Gerado em: 2026-04-23T20:37:00-03:00
1 Introdução (pp. 375–377)
1.1 O problema da restrição externa e a questão central [§1–§3]
O artigo abre apresentando um paradoxo recorrente na política econômica da América Latina: governos de esquerda em economias periféricas têm historicamente encontrado grande dificuldade para cumprir seus mandatos distributivos. A razão fundamental reside na incapacidade estrutural dessas economias de gerar divisas estrangeiras suficientes para cobrir importações e honrar dívidas externas. Quando isso ocorre, esses governos frequentemente encerram seus mandatos em crises agudas de balanço de pagamentos (BoP), abandonando programas eleitorais e abraçando austeridade fiscal e estabilização ortodoxa — um padrão que os autores identificam como reflexo do fato de que o crescimento e a distribuição em economias periféricas são fundamentalmente constrangidos pelo balanço de pagamentos (balance-of-payments-constrained growth, BoP-CG), conforme os trabalhos de Thirlwall e Hussein (1982) e Perez Caldentey e Vernengo (2017).
Os autores, contudo, observam que as respostas dos governos de esquerda latino-americanos ao processo de liberalização econômica não foram uniformes. Alguns aderiram à ortodoxia de mercado; outros adotaram medidas mais heterodoxas (Flores-Macías, 2012; Weyland, 2009). O artigo concentra-se especificamente no subgrupo dos governos de esquerda economicamente ortodoxos para responder à seguinte questão central:
Como é possível compreender a variação nas estratégias de crescimento e distributivas dentro desse grupo, no contexto de restrições externas comuns?
Inspirados em Cardoso e Faletto (1979), os autores sustentam que as restrições externas não determinam as dinâmicas internas, mas delimitam o espaço dentro do qual atores domésticos constroem suas estratégias de desenvolvimento. O artigo não busca oferecer um argumento causal, mas uma inferência descritiva e associacional — posição explicitamente fundamentada na defesa de Gerring (2012) da inferência descritiva como tarefa legítima das ciências sociais.
1.2 Contribuições e estrutura do argumento [§4–§6]
Os autores identificam três contribuições principais ao debate sobre modelos de crescimento. Primeira: incorporar casos latino-americanos — historicamente ausentes — à discussão sobre a política dos modelos de crescimento. Segunda: enriquecer o arsenal teórico da literatura de growth models com insights da economia pós-keynesiana e da tradição estruturalista latino-americana (CEPAL), que já conceitualizaram o crescimento periférico levando em conta suas especificidades macroeconômicas. Terceira: oferecer uma conceptualização dos determinantes políticos da variação nas estratégias dos governos de esquerda — especificamente, o papel das vinculações societais (societal linkages) dos partidos com grupos subordinados e a arquitetura institucional macroeconômica disponível.
Os dois casos analisados — Chile (Concertación/Nueva Mayoría, 2000–2010 e 2014–2018) e Uruguai (Frente Amplio, 2005–2020) — são apresentados como similares em termos de ortodoxia macroeconômica e vulnerabilidades externas, mas divergentes nas estratégias distributivas e de crescimento adotadas. O Uruguai combinou crescimento liderado por salários (wage-led growth) com uma política neocorporatista, enquanto o Chile seguiu o caminho do crescimento liderado pelo endividamento (debt-led growth) com uma estratégia distributiva liberal de esquerda.
2 Crescimento sob Restrição do BoP (pp. 377–380)
2.1 O modelo de crescimento constrangido pelo BoP [§7–§10]
Os autores apresentam a formalização teórica central do artigo a partir de Thirlwall (1979, 2001, 2002): a restrição primária ao crescimento em uma economia aberta é o balanço de pagamentos, entendido como o equilíbrio entre demanda interna e externa. O crescimento da demanda doméstica gera pressão por importações proporcional à elasticidade-renda dessas importações — ou seja, importações crescem mais rapidamente à medida que a população enriquece. Para equilibrar esse fluxo, o país precisa gerar divisas adicionais, principalmente via exportações e influxos de capital. A razão entre as elasticidades-renda de importações e exportações define o limite de BoP ao crescimento.
Em economias periféricas, a alta concentração em exportações de commodities implica estruturalmente menor capacidade de exportar o suficiente para cobrir importações. Para a América Latina especificamente, Pacheco-López e Thirlwall (2006) demonstraram que a liberalização comercial aumentou a elasticidade-renda das importações sem que a maioria dos países — incluindo Chile e Uruguai — conseguisse aumentar o crescimento de exportações para compensar os crescentes déficits comerciais.
2.2 Subordinação financeira e dominância do BoP [§11–§14]
Uma iteração mais recente do modelo de Thirlwall incorporou os fluxos de capital, diferenciando as dinâmicas de economias centrais e periféricas. Países centrais operam com moeda forte (hard currency), podendo financiar déficits em conta corrente com recorrentes influxos de capital. Já os países periféricos tomam emprestado em moeda estrangeira e dependem fortemente de influxos de capital para financiar importações, serviço da dívida e estabilidade de preços — influxos esses mais voláteis e sensíveis a indicadores de referência como déficits fiscais ou posição da dívida (Ocampo, 2020; Perez-Caldentey e Vernengo, 2017).
Essa dependência histórica de influxos de capital tem sido a principal fonte de instabilidade econômica e política na América Latina (Prebisch, 1962; O’Donnell, 1978). Os estruturalistas da CEPAL denominaram essa dinâmica de “dominância do balanço de pagamentos” (balance of payments dominance): perturbações comerciais afetam a taxa de câmbio e os preços domésticos, enquanto perturbações financeiras operam via prêmios de risco e taxas de juros, manifestando-se como choques nas contas corrente e financeira.
Os autores sintetizam que a restrição do BoP em países periféricos é qualitativamente diferente por três razões: (a) a estrutura econômica aumenta as elasticidades de importação/exportação, reduzindo o crescimento de longo prazo; (b) a subordinação financeira e a dinâmica de moeda fraca tornam a geração de divisas altamente volátil; e (c) o gerenciamento macroeconômico é dominado pelo BoP no curto prazo.
2.3 Estratégias de crescimento lideradas por salários e por dívida [§15–§18]
Os autores seguem Hasel e Palier (2020) para distinguir estratégia de crescimento — conjunto deliberado de políticas estatais com motivações eleitorais — de modelo de crescimento — os vetores efetivos do crescimento econômico. As duas podem coincidir ou não.
A estratégia wage-led (liderada por salários) visa estabelecer um modelo de crescimento de pleno emprego em que o crescimento sustentado dos salários impulsione a demanda principalmente via consumo (Stockhammer e Onaran, 2013). Já a estratégia debt-led (liderada pela dívida) estimula o consumo via endividamento privado em vez de salários — uma alternativa que ganhou força com a financeirização e a queda da participação dos salários no PIB desde os anos 1980 (Perez-Caldentey e Vernengo, 2017; Stockhammer e Wildauer, 2016). Baccaro e Pontusson (2016) identificaram EUA e Reino Unido como pioneiros no uso da dívida doméstica como “substituto para o motor salarial enfraquecido”, enquanto Crouch (2009) conceitualizou essa dinâmica mais ampla como “keynesianismo privatizado”.
2.4 Perfis de vulnerabilidade macroeconômica diferenciados [§19–§21]
As duas estratégias produzem dinâmicas macro distintas e “perfis de vulnerabilidade” (vulnerability profiles, Walter 2016) distintos. O crescimento wage-led pressiona o BoP principalmente via conta corrente: salários mais altos elevam importações e criam pressões inflacionárias que reduzem a competitividade das exportações. Isso aumenta a necessidade de financiar déficits em conta corrente via influxos de capital. Já no debt-led, renda disponível mais alta não se traduz diretamente em inflação porque os salários podem permanecer estagnados enquanto a dívida privada cresce. Entretanto, os influxos financeiros criam outros tipos de instabilidade — maior endividamento geral e maior sensibilidade da conta financeira a mudanças súbitas, tornando o crescimento debt-led intrinsecamente instável (Stockhammer e Onaran, 2013).
No longo prazo, governos podem utilizar políticas para estimular exportações; no curto prazo, dispõem basicamente de instrumentos de preços relativos (taxas de juros, câmbio nominal, política fiscal, regulações de conta de capital) para prevenir fuga de capitais e defender paridades cambiais.
3 Estratégias Distributivas e Vínculos Partidários (pp. 380–382)
3.1 Estratégia distributiva: definição e instrumentos [§22–§25]
Os autores introduzem a noção de estratégia distributiva como um conjunto de intervenções governamentais destinadas a melhorar a distribuição de renda entre fatores de produção, aliviar a pobreza e reduzir a desigualdade (Bogliaccini, 2024). Tais políticas se dividem em dois tipos: redistributivas (impostos e transferências) e pré-distributivas (política de capital humano e política salarial). O artigo concentra-se nos instrumentos pré-distributivos, especialmente a política salarial.
Reconhecendo que estratégias de crescimento e distributivas são interdependentes, os autores propõem que a escolha de uma estratégia de crescimento pode reforçar, complementar ou conflitar com a estratégia distributiva, e vice-versa. Para compreender a capacidade dos governos de executar essas estratégias, dois fatores são teorizados como centrais: (i) as vinculações societais (societal linkages) — como os governos constroem coalizões e estabelecem laços com grupos subordinados — e (ii) o desenho institucional macroeconômico — o espaço de manobra política que as instituições macroeconômicas relevantes permitem ou a oportunidade de reformá-las.
3.2 Neocorporativismo vs. liberalismo de esquerda [§26–§30]
A partir dessa estrutura, os autores distinguem duas estratégias distributivas de esquerda observadas empiricamente:
Política neocorporatista: Abordagem tripartite e consensual para a política salarial sob um plano macroeconômico gerido politicamente (Marks, 1986). Pressupõe forte capacidade dos partidos de esquerda de mobilizar e acordar com grupos subordinados, especialmente o trabalho organizado. A centralização da negociação coletiva torna-se a pedra angular da estratégia distributiva, e os salários/política salarial tornam-se instrumentos primários para impulsionar a demanda interna em um modelo wage-led. O sucesso dessa estratégia requer forte capacidade de mobilização trabalhista ou, ao menos, laços sólidos com movimentos de base. Em contextos institucionais que aumentam a capacidade política de gestão macroeconômica, a negociação coletiva pode se tornar ferramenta para manter as expectativas inflacionárias sob controle (Hall e Franzese Jr., 1998), embora os governos precisem tolerar maior pressão nos preços e utilizar ferramentas complementares às taxas de juros (câmbio, política fiscal).
Estratégia liberal de esquerda: Identificada também como thirdwayism (Iversen e Wren, 1998; Mudge, 2018), representa a tentativa de alguns partidos de esquerda de se reinventar de forma market-friendly, cortando laços com o trabalho organizado e buscando apoio de setores populares não organizados e das classes médias (Roberts, 2021). Essa transformação foi globalmente alimentada pela crescente profissionalização da liderança partidária de esquerda e pela importância de “economistas transnacionais orientados para as finanças” (Mudge, 2018). Nessa estratégia, os salários são fixados pelo mercado de trabalho e pela produtividade; políticas que aumentam a renda disponível sem fortalecer sindicatos — como reduções de impostos e crédito ao consumidor — ganham centralidade, complementadas por redistribuição focalizada (means-tested). É uma estratégia pró-capital, pois desempodera o trabalho organizado e o serviço da dívida aumenta a participação do capital na renda.
A estratégia neocorporatista é reforçada por instituições que promovem maior controle político da macroeconomia (sem plena independência do banco central, com espaço para uso do câmbio e da política fiscal). A estratégia liberal de esquerda é reforçada por instituições que promovem a gestão tecnocrática — bancos centrais independentes e regras fiscais rígidas — sendo consistente com o crescimento debt-led.
3.3 Seleção de casos e métodos [§31–§34]
O argumento é explicitamente descritivo e assume duas formas (Gerring, 2012): uma descrição de como as estratégias foram moldadas nos dois casos, sem intenção de generalização causal, e uma associação descritiva, que aponta relações plausíveis entre estratégias de crescimento e distributivas. Para a análise de cada caso, os autores adotam o método de “contraste de contextos” (contrast of contexts, Skocpol e Somers, 1980), que usa a análise histórica comparativa para destacar os limites das explicações estruturalistas generalizadas. Para a parte associacional, utilizam a comparação controlada entre os dois casos (Slater e Ziblatt, 2013), focada nas diferenças nos processos políticos do lado da demanda, nas vinculações institucionais e nas políticas distributivas.
Os dados baseiam-se em fontes secundárias e administrativas, avaliações de especialistas sobre política econômica, relatórios de imprensa e documentação escrita. O período analisado compreende o Frente Amplio do Uruguai (2005–2020) e os governos socialistas da Concertación (2000–2010) e Nueva Mayoría (2014–2018) no Chile.
Chile e Uruguai compartilham características que os tornam um par comparativo adequado: ambos se situaram entre os moderados durante o “giro à esquerda” latino-americano (junto com Brasil e Argentina), ambos mantiveram orientação democrática liberal combinada com impulsos redistributivos, e ambos se destacaram na região pela gestão macroeconômica responsável, com baixa informalidade laboral e contrastando com os casos de Argentina e Brasil, marcados por inflação significativa, dívida e problemas de BoP (Abeles e Panigo, 2015). A diferença crucial, propõem os autores, está nas estratégias welfare, nas vinculações partidárias com o trabalho e no espaço institucional disponível para a gestão macroeconômica.
4 A Política da Distribuição, Crescimento e BoP no Chile e Uruguai (pp. 382–391)
4.1 Contexto externo comum: crises e boom de commodities [§35–§37]
A análise empírica começa com a descrição da situação externa comum enfrentada pelos governos de esquerda dos dois países no início dos anos 2000. Os dois países sentiram os efeitos da crise asiática (1997) e seus efeitos de contágio sobre a Rússia (1998), o Brasil (1999) e a Argentina (2001). Fluxos de capital saindo das economias emergentes causaram depreciação cambial, impulsionando brevemente as exportações mas gerando pressões inflacionárias após uma década de importante queda na inflação — forçando os bancos centrais a estabilizar as moedas domésticas. A crise também elevou o desemprego a níveis não vistos em mais de uma década. O Chile saiu com um sistema financeiro relativamente estável e baixa dívida pública, enquanto o Uruguai sofreu gravemente com os efeitos de contágio da crise financeira e bancária argentina (FMI, 2000).
Em meados dos anos 2000, um “boom de commodities” aumentou os preços das exportações de recursos naturais, elevando os influxos de capital e as receitas públicas — especialmente para o Chile, com empresas estatais que exportam diretamente recursos naturais. Isso criou pressões de apreciação sobre as moedas domésticas.
4.2 Vínculos partidários-trabalhistas no Chile: fracasso da reforma e liberalismo [§38–§42]
As coalizões de esquerda chilena e uruguaia adotaram estratégias distributivas distintas. A diferença mais marcante: enquanto o Frente Amplio do Uruguai recentralizou a negociação coletiva de salários, rapidamente restabelecendo laços com o trabalho organizado e aumentando os salários médios, a Concertación chilena não conseguiu fazê-lo. Em vez disso, apoiou-se no crédito ao consumidor e em um apelo distante às classes médias e aos setores populares não organizados.
No Chile, a eleição de 1999 marcou a transição da liderança da Concertación da centrista Democracia Cristã para o Partido Socialista de centro-esquerda, vitorioso em 1999 e 2005 e novamente em 2014 sob a bandeira Nueva Mayoría. A vitória dos socialistas Lagos e Bachelet trouxe renovado interesse em promover a igualdade e reavivar os laços entre a esquerda e os sindicatos. Entre as prioridades do programa “Crescimento com equidade” de Lagos estava a reintrodução de uma reforma trabalhista que visava melhorar o poder de barganha dos sindicatos e aumentar a coordenação no sistema descentralizado de negociação salarial. Entretanto, essa reforma falhou devido à forte oposição de empresários e da direita — que controlava instituições contramajoritárias da Constituição de Pinochet — e à resistência de tecnocratas e elites dentro da própria coalizão, que temiam que maior poder sindical comprometesse a estabilidade de preços e os equilíbrios macroeconômicos (Perez Ahumada, 2021; Sehnbruch, 2006; Bogliaccini, 2024). Outra reforma trabalhista proposta pela Nueva Mayoría (2014–2018) também fracassou.
Esse fracasso reforçou o poder das elites partidárias e dos técnicos dentro da coalizão e o apelo eleitoral às classes médias e aos setores populares não organizados, com expectativas de consumo crescente e acesso a bens importados (Baker, 2009). Esse quadro foi reforçado pelo banco central chileno altamente independente e pelo novo arcabouço de política monetária — inflação-alvo e câmbio flutuante — introduzido em 1999.
4.3 Vínculos partidários-trabalhistas no Uruguai: neocorporatismo restaurado [§43–§45]
O Frente Amplio uruguaio venceu a eleição de 2004 com sólida maioria parlamentar, na esteira da pior crise financeira da história moderna do país. Já em 2006, restaurou a negociação coletiva salarial no nível setorial (Consejos de Salarios), após 15 anos de descentralização promovida pelo Partido Nacional em 1991. Esse movimento empoderou o trabalho e aumentou sua capacidade de coordenação. Sem plena independência do banco central nem regras fiscais rígidas, o gerenciamento macroeconômico uruguaio recaiu completamente sobre a política coalicional da negociação salarial centralizada.
Esses dois contextos coalicionais e institucionais distintos permitiram a dependência de dois vetores diferentes para articular estratégias distributivas e de crescimento: crédito no Chile e salários no Uruguai.
4.4 Endividamento das famílias e crescimento no Chile [§46–§49]
Os dados empíricos sobre endividamento doméstico ilustram dramaticamente a divergência entre os dois casos. Durante os anos 2000, o crédito doméstico no Chile cresceu três vezes mais rápido que a economia, com a razão entre dívida e renda passando de 35,4% para 59,9% (González López, 2018). Ao final dos anos 2010, a dívida doméstica representava quase 80% da renda disponível no Chile. No Uruguai, esse percentual caiu de 28% em 2004 para apenas 16% em 2012 (Borraz e Pampillon, 2015). Ao final dos governos Nueva Mayoría, a dívida doméstica como percentual do PIB no Chile era a mais alta da América Latina — cerca de 43% — e continuou escalando para mais de 50% ao final dos anos 2020. No Uruguai, era das mais baixas, com apenas cerca de 10%.
Esse crescimento do endividamento foi impulsionado principalmente pelo crédito ao consumidor (63%), seguido por hipotecas (18,9%) e crédito educacional (8,2%) em 2014 (González López, 2018). Notavelmente, os técnicos de esquerda dentro da Concertación recusaram-se a regular as taxas de juros mesmo quando o crédito ao consumidor se concentrava em famílias de menor renda que queriam acesso a bens duráveis e de primeira necessidade, incluindo alimentos.
As reformas sociais implementadas pelos governos Bachelet — nas pensões, saúde e educação — aumentaram a universalidade das transferências e os gastos públicos, mas foram notáveis por manter a centralidade do mercado na provisão de seguridade social (Bizberg, 2019; Bonizzi, 2013) e por estarem intrinsecamente vinculadas à estratégia debt-led.
4.5 Crescimento salarial e neocorporatismo no Uruguai [§50–§54]
No Uruguai, a estratégia baseou-se na negociação coletiva e no rápido crescimento dos salários reais. Em 10 anos de governos de esquerda no Chile (2000–2010), os salários reais médios cresceram 20%; no Uruguai, apenas 5 anos de governo do Frente Amplio (2005–2010) foram suficientes para aumentá-los em 25%. Como resultado, entre 2005 e 2019, a renda média dos adultos uruguaios aumentou por um fator de 1,45, enquanto no Chile cresceu apenas por um fator de 1,25. A participação pré-tributação na renda dos 50% mais pobres dos adultos também cresceu mais rapidamente no Uruguai.
No Uruguai, os maiores contribuintes para o crescimento do PIB durante os governos do Frente Amplio foram a administração pública (0,8 p.p.), seguida por transporte (0,6 p.p.) e comércio atacadista (0,6 p.p.) — em contraste com a predominância do setor financeiro no caso chileno.
O Frente Amplio conseguiu combinar crescimento salarial acelerado com manutenção da estabilidade macroeconômica por meio de um mecanismo específico: a negociação coletiva centralizada atuou como âncora de expectativas inflacionárias. Em vez de depender exclusivamente das taxas de juros para controlar a inflação, o governo uruguaio utilizou os acordos salariais tripartites como principal instrumento de coordenação de preços e salários.
4.6 Estratégias fiscais e implicações sobre o BoP [§55–§60]
As diferenças nas estratégias distributivas tiveram consequências diretas sobre os perfis de BoP dos dois países. No Chile, os governos de esquerda não implementaram reformas fiscais significativas enquanto mantinham o arcabouço de regra fiscal de balanço estrutural (structural balance rule) introduzido por Lagos, que limitou o espaço fiscal e consolidou a gestão tecnocrática das finanças públicas. A política fiscal chilena foi, assim, complementar à estratégia debt-led: aumentou moderadamente os gastos sociais sem ampliar significativamente a capacidade redistributiva via tributação progressiva.
No Uruguai, o Frente Amplio introduziu a reforma tributária de 2007, que criou um imposto sobre a renda pessoal (Impuesto a la Renta de las Personas Físicas, IRPF) progressivo — uma mudança significativa no sistema tributário — e aumentou progressivamente os gastos públicos em proteção social. Essa combinação de política salarial pré-distributiva e política fiscal redistributiva mais ativa distingue o modelo uruguaio do chileno.
As dinâmicas de BoP foram, consequentemente, diferentes. O Chile enfrentou pressões predominantes via conta financeira, dado o crescimento do endividamento doméstico e dos influxos de capital associados ao setor financeiro robusto. O Uruguai enfrentou pressões predominantemente via conta corrente, por conta do crescimento de salários e consumo — o que gerou inflação mais alta e pressões sobre a competitividade das exportações, parcialmente compensadas pela apreciação cambial e pelo boom de commodities.
5 Lições para Economias Periféricas (pp. 391–394)
5.1 Três pontos para análise de modelos de crescimento periférico [§61–§65]
Na seção conclusiva, os autores apresentam três pontos para aprofundar a análise da política dos modelos de crescimento na periferia, derivados da comparação Chile-Uruguai.
Primeiro: A necessidade de considerar as dinâmicas políticas e econômicas de curto e longo prazo simultaneamente. No curto prazo, ambos os governos priorizaram a estabilidade macroeconômica e a atração de capital — o que limitou o espaço para políticas redistributivas mais ambiciosas. No longo prazo, as estratégias divergiram em termos de seus efeitos sobre a estrutura produtiva e a distribuição de renda. O crescimento debt-led chileno gerou uma economia com maior financeirização e maior desigualdade estrutural, enquanto o modelo wage-led uruguaio produziu uma estrutura produtiva mais diversificada e uma distribuição de renda mais equitativa.
Segundo: A importância das instituições para compreender as estratégias de crescimento e distributivas. Os autores argumentam que as instituições macroeconômicas não são apenas restritivas — elas também constituem oportunidades políticas. A plena independência do banco central chileno e as rígidas regras fiscais limitaram o espaço para a gestão política da macroeconomia, reforçando a estratégia liberal de esquerda. A ausência dessas restrições no Uruguai permitiu uma gestão mais politicamente orientada, viabilizando o neocorporatismo. Essa observação dialoga com a literatura sobre variedades de capitalismo (Hall e Soskice, 2001), mas a enriquece ao considerar especificidades das economias periféricas.
Terceiro: A necessidade de incorporar mais forcefully a análise da mudança institucional ao estudo dos modelos de crescimento periférico. Os autores observam que ambos os casos mostram a importância de se entender como governos de esquerda tentaram — com resultados distintos — reformar ou adaptar instituições macroeconômicas existentes. No Chile, as tentativas de reforma das instituições trabalhistas fracassaram, consolidando o modelo liberal. No Uruguai, a restauração da negociação coletiva representou uma mudança institucional bem-sucedida que viabilizou o neocorporatismo.
Os autores reconhecem explicitamente que sua análise é descritiva e associacional — não causal. Apontam que as plausíveis associações descritas precisam de investigação causal futura, tanto em termos de quais fatores explicam a escolha das estratégias quanto dos efeitos dessas estratégias sobre variáveis econômicas e políticas de interesse.
5.2 Contribuição à literatura de modelos de crescimento [§66–§68]
Os autores concluem situando o artigo no contexto mais amplo da literatura sobre modelos de crescimento em economia política comparada. Essa literatura, originalmente desenvolvida para economias avançadas (Baccaro e Pontusson, 2016; Baccaro et al., 2022), tem avançado na incorporação de casos não-OCDE, mas ainda carece de ferramentas conceituais adequadas para lidar com as especificidades periféricas. O artigo contribui ao mostrar que as categorias de wage-led e debt-led são aplicáveis a economias periféricas, mas que sua operacionalização deve levar em conta as restrições estruturais do BoP, a subordinação financeira e a dependência de commodities.
A combinação de insights da economia pós-keynesiana (Thirlwall, Stockhammer, Perez-Caldentey e Vernengo) com a tradição estruturalista latino-americana (CEPAL, Prebisch) e a literatura comparativista de modelos de crescimento constitui o principal aporte teórico do artigo — um esforço de síntese que os próprios autores reconhecem como exploratório e passível de maior formalização.