Fichamento: Leftist Governments, Distributive Strategies, and the Politics of Balance of Payments-Constrained Growth in Chile and Uruguay

Bogliaccini e Madariaga (2024)

Annotated Bibliography
Political Economy
Economic Growth
Peripheral Economies
Latin America
Redistribution
Author

Tales Mançano

Published

April 23, 2026

Bogliaccini, J., & Madariaga, A. (2024). Leftist governments, distributive strategies, and the politics of balance of payments-constrained growth in Chile and Uruguay. Competition & Change, 29(3–4), 375–398. https://doi.org/10.1177/10245294241237366

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Última atualização: 2026-04-23 Modelo: Perplexity AI Gerado em: 2026-04-23T20:37:00-03:00


1 Introdução (pp. 375–377)

1.1 O problema da restrição externa e a questão central [§1–§3]

O artigo abre apresentando um paradoxo recorrente na política econômica da América Latina: governos de esquerda em economias periféricas têm historicamente encontrado grande dificuldade para cumprir seus mandatos distributivos. A razão fundamental reside na incapacidade estrutural dessas economias de gerar divisas estrangeiras suficientes para cobrir importações e honrar dívidas externas. Quando isso ocorre, esses governos frequentemente encerram seus mandatos em crises agudas de balanço de pagamentos (BoP), abandonando programas eleitorais e abraçando austeridade fiscal e estabilização ortodoxa — um padrão que os autores identificam como reflexo do fato de que o crescimento e a distribuição em economias periféricas são fundamentalmente constrangidos pelo balanço de pagamentos (balance-of-payments-constrained growth, BoP-CG), conforme os trabalhos de Thirlwall e Hussein (1982) e Perez Caldentey e Vernengo (2017).

Os autores, contudo, observam que as respostas dos governos de esquerda latino-americanos ao processo de liberalização econômica não foram uniformes. Alguns aderiram à ortodoxia de mercado; outros adotaram medidas mais heterodoxas (Flores-Macías, 2012; Weyland, 2009). O artigo concentra-se especificamente no subgrupo dos governos de esquerda economicamente ortodoxos para responder à seguinte questão central:

Como é possível compreender a variação nas estratégias de crescimento e distributivas dentro desse grupo, no contexto de restrições externas comuns?

Inspirados em Cardoso e Faletto (1979), os autores sustentam que as restrições externas não determinam as dinâmicas internas, mas delimitam o espaço dentro do qual atores domésticos constroem suas estratégias de desenvolvimento. O artigo não busca oferecer um argumento causal, mas uma inferência descritiva e associacional — posição explicitamente fundamentada na defesa de Gerring (2012) da inferência descritiva como tarefa legítima das ciências sociais.

1.2 Contribuições e estrutura do argumento [§4–§6]

Os autores identificam três contribuições principais ao debate sobre modelos de crescimento. Primeira: incorporar casos latino-americanos — historicamente ausentes — à discussão sobre a política dos modelos de crescimento. Segunda: enriquecer o arsenal teórico da literatura de growth models com insights da economia pós-keynesiana e da tradição estruturalista latino-americana (CEPAL), que já conceitualizaram o crescimento periférico levando em conta suas especificidades macroeconômicas. Terceira: oferecer uma conceptualização dos determinantes políticos da variação nas estratégias dos governos de esquerda — especificamente, o papel das vinculações societais (societal linkages) dos partidos com grupos subordinados e a arquitetura institucional macroeconômica disponível.

Note

Tese provisória da introdução: A extensão em que partidos governantes de esquerda constroem vínculos com grupos de base e trabalhadoras organizadas, combinada com as arquiteturas institucionais existentes, abre espaços de agência política que permitem estratégias distributivas e de crescimento distintas dentro das restrições do BoP.

Os dois casos analisados — Chile (Concertación/Nueva Mayoría, 2000–2010 e 2014–2018) e Uruguai (Frente Amplio, 2005–2020) — são apresentados como similares em termos de ortodoxia macroeconômica e vulnerabilidades externas, mas divergentes nas estratégias distributivas e de crescimento adotadas. O Uruguai combinou crescimento liderado por salários (wage-led growth) com uma política neocorporatista, enquanto o Chile seguiu o caminho do crescimento liderado pelo endividamento (debt-led growth) com uma estratégia distributiva liberal de esquerda.


2 Crescimento sob Restrição do BoP (pp. 377–380)

2.1 O modelo de crescimento constrangido pelo BoP [§7–§10]

Os autores apresentam a formalização teórica central do artigo a partir de Thirlwall (1979, 2001, 2002): a restrição primária ao crescimento em uma economia aberta é o balanço de pagamentos, entendido como o equilíbrio entre demanda interna e externa. O crescimento da demanda doméstica gera pressão por importações proporcional à elasticidade-renda dessas importações — ou seja, importações crescem mais rapidamente à medida que a população enriquece. Para equilibrar esse fluxo, o país precisa gerar divisas adicionais, principalmente via exportações e influxos de capital. A razão entre as elasticidades-renda de importações e exportações define o limite de BoP ao crescimento.

Em economias periféricas, a alta concentração em exportações de commodities implica estruturalmente menor capacidade de exportar o suficiente para cobrir importações. Para a América Latina especificamente, Pacheco-López e Thirlwall (2006) demonstraram que a liberalização comercial aumentou a elasticidade-renda das importações sem que a maioria dos países — incluindo Chile e Uruguai — conseguisse aumentar o crescimento de exportações para compensar os crescentes déficits comerciais.

2.2 Subordinação financeira e dominância do BoP [§11–§14]

Uma iteração mais recente do modelo de Thirlwall incorporou os fluxos de capital, diferenciando as dinâmicas de economias centrais e periféricas. Países centrais operam com moeda forte (hard currency), podendo financiar déficits em conta corrente com recorrentes influxos de capital. Já os países periféricos tomam emprestado em moeda estrangeira e dependem fortemente de influxos de capital para financiar importações, serviço da dívida e estabilidade de preços — influxos esses mais voláteis e sensíveis a indicadores de referência como déficits fiscais ou posição da dívida (Ocampo, 2020; Perez-Caldentey e Vernengo, 2017).

Important

Essa dependência histórica de influxos de capital tem sido a principal fonte de instabilidade econômica e política na América Latina (Prebisch, 1962; O’Donnell, 1978). Os estruturalistas da CEPAL denominaram essa dinâmica de “dominância do balanço de pagamentos” (balance of payments dominance): perturbações comerciais afetam a taxa de câmbio e os preços domésticos, enquanto perturbações financeiras operam via prêmios de risco e taxas de juros, manifestando-se como choques nas contas corrente e financeira.

Os autores sintetizam que a restrição do BoP em países periféricos é qualitativamente diferente por três razões: (a) a estrutura econômica aumenta as elasticidades de importação/exportação, reduzindo o crescimento de longo prazo; (b) a subordinação financeira e a dinâmica de moeda fraca tornam a geração de divisas altamente volátil; e (c) o gerenciamento macroeconômico é dominado pelo BoP no curto prazo.

2.3 Estratégias de crescimento lideradas por salários e por dívida [§15–§18]

Os autores seguem Hasel e Palier (2020) para distinguir estratégia de crescimento — conjunto deliberado de políticas estatais com motivações eleitorais — de modelo de crescimento — os vetores efetivos do crescimento econômico. As duas podem coincidir ou não.

A estratégia wage-led (liderada por salários) visa estabelecer um modelo de crescimento de pleno emprego em que o crescimento sustentado dos salários impulsione a demanda principalmente via consumo (Stockhammer e Onaran, 2013). Já a estratégia debt-led (liderada pela dívida) estimula o consumo via endividamento privado em vez de salários — uma alternativa que ganhou força com a financeirização e a queda da participação dos salários no PIB desde os anos 1980 (Perez-Caldentey e Vernengo, 2017; Stockhammer e Wildauer, 2016). Baccaro e Pontusson (2016) identificaram EUA e Reino Unido como pioneiros no uso da dívida doméstica como “substituto para o motor salarial enfraquecido”, enquanto Crouch (2009) conceitualizou essa dinâmica mais ampla como “keynesianismo privatizado”.

Note

Implicações distributivas: Estratégias wage-led tendem a aumentar a participação dos salários na renda total (pró-trabalho); estratégias debt-led tendem a elevar a participação do capital, visto que os juros do serviço da dívida aumentam a renda do capital (pró-capital). Governos dispõem de quatro instrumentos-chave: (1) instituições de negociação coletiva de salários; (2) salários mínimos e do setor público; (3) política fiscal (transferências e impostos); e (4) regulação do crédito e acesso ao financiamento.

2.4 Perfis de vulnerabilidade macroeconômica diferenciados [§19–§21]

As duas estratégias produzem dinâmicas macro distintas e “perfis de vulnerabilidade” (vulnerability profiles, Walter 2016) distintos. O crescimento wage-led pressiona o BoP principalmente via conta corrente: salários mais altos elevam importações e criam pressões inflacionárias que reduzem a competitividade das exportações. Isso aumenta a necessidade de financiar déficits em conta corrente via influxos de capital. Já no debt-led, renda disponível mais alta não se traduz diretamente em inflação porque os salários podem permanecer estagnados enquanto a dívida privada cresce. Entretanto, os influxos financeiros criam outros tipos de instabilidade — maior endividamento geral e maior sensibilidade da conta financeira a mudanças súbitas, tornando o crescimento debt-led intrinsecamente instável (Stockhammer e Onaran, 2013).

No longo prazo, governos podem utilizar políticas para estimular exportações; no curto prazo, dispõem basicamente de instrumentos de preços relativos (taxas de juros, câmbio nominal, política fiscal, regulações de conta de capital) para prevenir fuga de capitais e defender paridades cambiais.


3 Estratégias Distributivas e Vínculos Partidários (pp. 380–382)

3.1 Estratégia distributiva: definição e instrumentos [§22–§25]

Os autores introduzem a noção de estratégia distributiva como um conjunto de intervenções governamentais destinadas a melhorar a distribuição de renda entre fatores de produção, aliviar a pobreza e reduzir a desigualdade (Bogliaccini, 2024). Tais políticas se dividem em dois tipos: redistributivas (impostos e transferências) e pré-distributivas (política de capital humano e política salarial). O artigo concentra-se nos instrumentos pré-distributivos, especialmente a política salarial.

Reconhecendo que estratégias de crescimento e distributivas são interdependentes, os autores propõem que a escolha de uma estratégia de crescimento pode reforçar, complementar ou conflitar com a estratégia distributiva, e vice-versa. Para compreender a capacidade dos governos de executar essas estratégias, dois fatores são teorizados como centrais: (i) as vinculações societais (societal linkages) — como os governos constroem coalizões e estabelecem laços com grupos subordinados — e (ii) o desenho institucional macroeconômico — o espaço de manobra política que as instituições macroeconômicas relevantes permitem ou a oportunidade de reformá-las.

3.2 Neocorporativismo vs. liberalismo de esquerda [§26–§30]

A partir dessa estrutura, os autores distinguem duas estratégias distributivas de esquerda observadas empiricamente:

Política neocorporatista: Abordagem tripartite e consensual para a política salarial sob um plano macroeconômico gerido politicamente (Marks, 1986). Pressupõe forte capacidade dos partidos de esquerda de mobilizar e acordar com grupos subordinados, especialmente o trabalho organizado. A centralização da negociação coletiva torna-se a pedra angular da estratégia distributiva, e os salários/política salarial tornam-se instrumentos primários para impulsionar a demanda interna em um modelo wage-led. O sucesso dessa estratégia requer forte capacidade de mobilização trabalhista ou, ao menos, laços sólidos com movimentos de base. Em contextos institucionais que aumentam a capacidade política de gestão macroeconômica, a negociação coletiva pode se tornar ferramenta para manter as expectativas inflacionárias sob controle (Hall e Franzese Jr., 1998), embora os governos precisem tolerar maior pressão nos preços e utilizar ferramentas complementares às taxas de juros (câmbio, política fiscal).

Estratégia liberal de esquerda: Identificada também como thirdwayism (Iversen e Wren, 1998; Mudge, 2018), representa a tentativa de alguns partidos de esquerda de se reinventar de forma market-friendly, cortando laços com o trabalho organizado e buscando apoio de setores populares não organizados e das classes médias (Roberts, 2021). Essa transformação foi globalmente alimentada pela crescente profissionalização da liderança partidária de esquerda e pela importância de “economistas transnacionais orientados para as finanças” (Mudge, 2018). Nessa estratégia, os salários são fixados pelo mercado de trabalho e pela produtividade; políticas que aumentam a renda disponível sem fortalecer sindicatos — como reduções de impostos e crédito ao consumidor — ganham centralidade, complementadas por redistribuição focalizada (means-tested). É uma estratégia pró-capital, pois desempodera o trabalho organizado e o serviço da dívida aumenta a participação do capital na renda.

Tip

A estratégia neocorporatista é reforçada por instituições que promovem maior controle político da macroeconomia (sem plena independência do banco central, com espaço para uso do câmbio e da política fiscal). A estratégia liberal de esquerda é reforçada por instituições que promovem a gestão tecnocrática — bancos centrais independentes e regras fiscais rígidas — sendo consistente com o crescimento debt-led.

3.3 Seleção de casos e métodos [§31–§34]

O argumento é explicitamente descritivo e assume duas formas (Gerring, 2012): uma descrição de como as estratégias foram moldadas nos dois casos, sem intenção de generalização causal, e uma associação descritiva, que aponta relações plausíveis entre estratégias de crescimento e distributivas. Para a análise de cada caso, os autores adotam o método de “contraste de contextos” (contrast of contexts, Skocpol e Somers, 1980), que usa a análise histórica comparativa para destacar os limites das explicações estruturalistas generalizadas. Para a parte associacional, utilizam a comparação controlada entre os dois casos (Slater e Ziblatt, 2013), focada nas diferenças nos processos políticos do lado da demanda, nas vinculações institucionais e nas políticas distributivas.

Os dados baseiam-se em fontes secundárias e administrativas, avaliações de especialistas sobre política econômica, relatórios de imprensa e documentação escrita. O período analisado compreende o Frente Amplio do Uruguai (2005–2020) e os governos socialistas da Concertación (2000–2010) e Nueva Mayoría (2014–2018) no Chile.

Chile e Uruguai compartilham características que os tornam um par comparativo adequado: ambos se situaram entre os moderados durante o “giro à esquerda” latino-americano (junto com Brasil e Argentina), ambos mantiveram orientação democrática liberal combinada com impulsos redistributivos, e ambos se destacaram na região pela gestão macroeconômica responsável, com baixa informalidade laboral e contrastando com os casos de Argentina e Brasil, marcados por inflação significativa, dívida e problemas de BoP (Abeles e Panigo, 2015). A diferença crucial, propõem os autores, está nas estratégias welfare, nas vinculações partidárias com o trabalho e no espaço institucional disponível para a gestão macroeconômica.


4 A Política da Distribuição, Crescimento e BoP no Chile e Uruguai (pp. 382–391)

4.1 Contexto externo comum: crises e boom de commodities [§35–§37]

A análise empírica começa com a descrição da situação externa comum enfrentada pelos governos de esquerda dos dois países no início dos anos 2000. Os dois países sentiram os efeitos da crise asiática (1997) e seus efeitos de contágio sobre a Rússia (1998), o Brasil (1999) e a Argentina (2001). Fluxos de capital saindo das economias emergentes causaram depreciação cambial, impulsionando brevemente as exportações mas gerando pressões inflacionárias após uma década de importante queda na inflação — forçando os bancos centrais a estabilizar as moedas domésticas. A crise também elevou o desemprego a níveis não vistos em mais de uma década. O Chile saiu com um sistema financeiro relativamente estável e baixa dívida pública, enquanto o Uruguai sofreu gravemente com os efeitos de contágio da crise financeira e bancária argentina (FMI, 2000).

Em meados dos anos 2000, um “boom de commodities” aumentou os preços das exportações de recursos naturais, elevando os influxos de capital e as receitas públicas — especialmente para o Chile, com empresas estatais que exportam diretamente recursos naturais. Isso criou pressões de apreciação sobre as moedas domésticas.

4.2 Vínculos partidários-trabalhistas no Chile: fracasso da reforma e liberalismo [§38–§42]

As coalizões de esquerda chilena e uruguaia adotaram estratégias distributivas distintas. A diferença mais marcante: enquanto o Frente Amplio do Uruguai recentralizou a negociação coletiva de salários, rapidamente restabelecendo laços com o trabalho organizado e aumentando os salários médios, a Concertación chilena não conseguiu fazê-lo. Em vez disso, apoiou-se no crédito ao consumidor e em um apelo distante às classes médias e aos setores populares não organizados.

No Chile, a eleição de 1999 marcou a transição da liderança da Concertación da centrista Democracia Cristã para o Partido Socialista de centro-esquerda, vitorioso em 1999 e 2005 e novamente em 2014 sob a bandeira Nueva Mayoría. A vitória dos socialistas Lagos e Bachelet trouxe renovado interesse em promover a igualdade e reavivar os laços entre a esquerda e os sindicatos. Entre as prioridades do programa “Crescimento com equidade” de Lagos estava a reintrodução de uma reforma trabalhista que visava melhorar o poder de barganha dos sindicatos e aumentar a coordenação no sistema descentralizado de negociação salarial. Entretanto, essa reforma falhou devido à forte oposição de empresários e da direita — que controlava instituições contramajoritárias da Constituição de Pinochet — e à resistência de tecnocratas e elites dentro da própria coalizão, que temiam que maior poder sindical comprometesse a estabilidade de preços e os equilíbrios macroeconômicos (Perez Ahumada, 2021; Sehnbruch, 2006; Bogliaccini, 2024). Outra reforma trabalhista proposta pela Nueva Mayoría (2014–2018) também fracassou.

Esse fracasso reforçou o poder das elites partidárias e dos técnicos dentro da coalizão e o apelo eleitoral às classes médias e aos setores populares não organizados, com expectativas de consumo crescente e acesso a bens importados (Baker, 2009). Esse quadro foi reforçado pelo banco central chileno altamente independente e pelo novo arcabouço de política monetária — inflação-alvo e câmbio flutuante — introduzido em 1999.

4.3 Vínculos partidários-trabalhistas no Uruguai: neocorporatismo restaurado [§43–§45]

O Frente Amplio uruguaio venceu a eleição de 2004 com sólida maioria parlamentar, na esteira da pior crise financeira da história moderna do país. Já em 2006, restaurou a negociação coletiva salarial no nível setorial (Consejos de Salarios), após 15 anos de descentralização promovida pelo Partido Nacional em 1991. Esse movimento empoderou o trabalho e aumentou sua capacidade de coordenação. Sem plena independência do banco central nem regras fiscais rígidas, o gerenciamento macroeconômico uruguaio recaiu completamente sobre a política coalicional da negociação salarial centralizada.

Esses dois contextos coalicionais e institucionais distintos permitiram a dependência de dois vetores diferentes para articular estratégias distributivas e de crescimento: crédito no Chile e salários no Uruguai.

4.4 Endividamento das famílias e crescimento no Chile [§46–§49]

Os dados empíricos sobre endividamento doméstico ilustram dramaticamente a divergência entre os dois casos. Durante os anos 2000, o crédito doméstico no Chile cresceu três vezes mais rápido que a economia, com a razão entre dívida e renda passando de 35,4% para 59,9% (González López, 2018). Ao final dos anos 2010, a dívida doméstica representava quase 80% da renda disponível no Chile. No Uruguai, esse percentual caiu de 28% em 2004 para apenas 16% em 2012 (Borraz e Pampillon, 2015). Ao final dos governos Nueva Mayoría, a dívida doméstica como percentual do PIB no Chile era a mais alta da América Latina — cerca de 43% — e continuou escalando para mais de 50% ao final dos anos 2020. No Uruguai, era das mais baixas, com apenas cerca de 10%.

Esse crescimento do endividamento foi impulsionado principalmente pelo crédito ao consumidor (63%), seguido por hipotecas (18,9%) e crédito educacional (8,2%) em 2014 (González López, 2018). Notavelmente, os técnicos de esquerda dentro da Concertación recusaram-se a regular as taxas de juros mesmo quando o crédito ao consumidor se concentrava em famílias de menor renda que queriam acesso a bens duráveis e de primeira necessidade, incluindo alimentos.

Note

Nexo sistêmico no Chile: O sistema financeiro sólido do Chile apoiou-se extensamente nas poupanças acumuladas de pensão dos trabalhadores em contas individuais, mantidas e reforçadas pelos governos de esquerda. Em 2019, o sistema de pensão chileno representava cerca de 80% do PIB, e entre 2000 e 2019 canalizou entre 20% e 30% dos fundos de pensão para instituições financeiras domésticas (Ruiz Bruzzone, 2021). Como resultado, o sistema financeiro chileno tornou-se o maior da região — representando 3 vezes o tamanho da economia — enquanto o do Uruguai era dos menores, representando aproximadamente o tamanho da economia (Lim et al., 2017). O setor financeiro foi também o maior contribuinte individual para o crescimento do PIB no Chile ao longo do período, com média de 1 ponto percentual entre 2000 e 2019.

As reformas sociais implementadas pelos governos Bachelet — nas pensões, saúde e educação — aumentaram a universalidade das transferências e os gastos públicos, mas foram notáveis por manter a centralidade do mercado na provisão de seguridade social (Bizberg, 2019; Bonizzi, 2013) e por estarem intrinsecamente vinculadas à estratégia debt-led.

4.5 Crescimento salarial e neocorporatismo no Uruguai [§50–§54]

No Uruguai, a estratégia baseou-se na negociação coletiva e no rápido crescimento dos salários reais. Em 10 anos de governos de esquerda no Chile (2000–2010), os salários reais médios cresceram 20%; no Uruguai, apenas 5 anos de governo do Frente Amplio (2005–2010) foram suficientes para aumentá-los em 25%. Como resultado, entre 2005 e 2019, a renda média dos adultos uruguaios aumentou por um fator de 1,45, enquanto no Chile cresceu apenas por um fator de 1,25. A participação pré-tributação na renda dos 50% mais pobres dos adultos também cresceu mais rapidamente no Uruguai.

No Uruguai, os maiores contribuintes para o crescimento do PIB durante os governos do Frente Amplio foram a administração pública (0,8 p.p.), seguida por transporte (0,6 p.p.) e comércio atacadista (0,6 p.p.) — em contraste com a predominância do setor financeiro no caso chileno.

O Frente Amplio conseguiu combinar crescimento salarial acelerado com manutenção da estabilidade macroeconômica por meio de um mecanismo específico: a negociação coletiva centralizada atuou como âncora de expectativas inflacionárias. Em vez de depender exclusivamente das taxas de juros para controlar a inflação, o governo uruguaio utilizou os acordos salariais tripartites como principal instrumento de coordenação de preços e salários.

4.6 Estratégias fiscais e implicações sobre o BoP [§55–§60]

As diferenças nas estratégias distributivas tiveram consequências diretas sobre os perfis de BoP dos dois países. No Chile, os governos de esquerda não implementaram reformas fiscais significativas enquanto mantinham o arcabouço de regra fiscal de balanço estrutural (structural balance rule) introduzido por Lagos, que limitou o espaço fiscal e consolidou a gestão tecnocrática das finanças públicas. A política fiscal chilena foi, assim, complementar à estratégia debt-led: aumentou moderadamente os gastos sociais sem ampliar significativamente a capacidade redistributiva via tributação progressiva.

No Uruguai, o Frente Amplio introduziu a reforma tributária de 2007, que criou um imposto sobre a renda pessoal (Impuesto a la Renta de las Personas Físicas, IRPF) progressivo — uma mudança significativa no sistema tributário — e aumentou progressivamente os gastos públicos em proteção social. Essa combinação de política salarial pré-distributiva e política fiscal redistributiva mais ativa distingue o modelo uruguaio do chileno.

As dinâmicas de BoP foram, consequentemente, diferentes. O Chile enfrentou pressões predominantes via conta financeira, dado o crescimento do endividamento doméstico e dos influxos de capital associados ao setor financeiro robusto. O Uruguai enfrentou pressões predominantemente via conta corrente, por conta do crescimento de salários e consumo — o que gerou inflação mais alta e pressões sobre a competitividade das exportações, parcialmente compensadas pela apreciação cambial e pelo boom de commodities.


5 Lições para Economias Periféricas (pp. 391–394)

5.1 Três pontos para análise de modelos de crescimento periférico [§61–§65]

Na seção conclusiva, os autores apresentam três pontos para aprofundar a análise da política dos modelos de crescimento na periferia, derivados da comparação Chile-Uruguai.

Primeiro: A necessidade de considerar as dinâmicas políticas e econômicas de curto e longo prazo simultaneamente. No curto prazo, ambos os governos priorizaram a estabilidade macroeconômica e a atração de capital — o que limitou o espaço para políticas redistributivas mais ambiciosas. No longo prazo, as estratégias divergiram em termos de seus efeitos sobre a estrutura produtiva e a distribuição de renda. O crescimento debt-led chileno gerou uma economia com maior financeirização e maior desigualdade estrutural, enquanto o modelo wage-led uruguaio produziu uma estrutura produtiva mais diversificada e uma distribuição de renda mais equitativa.

Segundo: A importância das instituições para compreender as estratégias de crescimento e distributivas. Os autores argumentam que as instituições macroeconômicas não são apenas restritivas — elas também constituem oportunidades políticas. A plena independência do banco central chileno e as rígidas regras fiscais limitaram o espaço para a gestão política da macroeconomia, reforçando a estratégia liberal de esquerda. A ausência dessas restrições no Uruguai permitiu uma gestão mais politicamente orientada, viabilizando o neocorporatismo. Essa observação dialoga com a literatura sobre variedades de capitalismo (Hall e Soskice, 2001), mas a enriquece ao considerar especificidades das economias periféricas.

Terceiro: A necessidade de incorporar mais forcefully a análise da mudança institucional ao estudo dos modelos de crescimento periférico. Os autores observam que ambos os casos mostram a importância de se entender como governos de esquerda tentaram — com resultados distintos — reformar ou adaptar instituições macroeconômicas existentes. No Chile, as tentativas de reforma das instituições trabalhistas fracassaram, consolidando o modelo liberal. No Uruguai, a restauração da negociação coletiva representou uma mudança institucional bem-sucedida que viabilizou o neocorporatismo.

Tip

Os autores reconhecem explicitamente que sua análise é descritiva e associacional — não causal. Apontam que as plausíveis associações descritas precisam de investigação causal futura, tanto em termos de quais fatores explicam a escolha das estratégias quanto dos efeitos dessas estratégias sobre variáveis econômicas e políticas de interesse.

5.2 Contribuição à literatura de modelos de crescimento [§66–§68]

Os autores concluem situando o artigo no contexto mais amplo da literatura sobre modelos de crescimento em economia política comparada. Essa literatura, originalmente desenvolvida para economias avançadas (Baccaro e Pontusson, 2016; Baccaro et al., 2022), tem avançado na incorporação de casos não-OCDE, mas ainda carece de ferramentas conceituais adequadas para lidar com as especificidades periféricas. O artigo contribui ao mostrar que as categorias de wage-led e debt-led são aplicáveis a economias periféricas, mas que sua operacionalização deve levar em conta as restrições estruturais do BoP, a subordinação financeira e a dependência de commodities.

A combinação de insights da economia pós-keynesiana (Thirlwall, Stockhammer, Perez-Caldentey e Vernengo) com a tradição estruturalista latino-americana (CEPAL, Prebisch) e a literatura comparativista de modelos de crescimento constitui o principal aporte teórico do artigo — um esforço de síntese que os próprios autores reconhecem como exploratório e passível de maior formalização.


6 Argumento Sintético

Note

Tese central: Em economias periféricas sujeitas à restrição do balanço de pagamentos, a variação nas estratégias distributivas e de crescimento de governos de esquerda economicamente ortodoxos é explicada — de forma descritiva e associacional — pela extensão das vinculações societais dos partidos com grupos subordinados (especialmente o trabalho organizado) e pela arquitetura institucional macroeconômica existente (grau de independência do banco central, regras fiscais). Chile e Uruguai ilustram dois casos paradigmáticos: o primeiro seguiu uma estratégia liberal de esquerda com crescimento debt-led; o segundo adotou neocorporatismo com crescimento wage-led.

Natureza do argumento: Descritivo e associacional. Os autores explicitamente não oferecem um argumento causal, mas sim uma inferência descritiva de primeiro nível — uma tipologização empiricamente fundada de estratégias e uma identificação de associações plausíveis entre variáveis políticas (vinculações, instituições) e estratégias econômicas.

O que o texto demonstra: (1) Que as categorias de wage-led e debt-led são aplicáveis e empiricamente distinguíveis em economias periféricas; (2) que há variação significativa nas estratégias de esquerda dentro de um mesmo nível de ortodoxia macroeconômica; (3) que vinculações partidárias com o trabalho organizado e o espaço institucional são fatores associados a essa variação; (4) que as restrições do BoP não determinam mecanicamente as estratégias, mas criam contextos distintos de possibilidade.

O que fica como hipótese ou agenda: A direção causal das associações descritas permanece em aberto para pesquisa futura; a generalizabilidade além de Chile e Uruguai não é estabelecida; os mecanismos específicos pelos quais as vinculações e instituições produzem as estratégias observadas não são rastreados em profundidade.

Contribuição para o debate: O artigo avança a incorporação de economias periféricas à literatura de modelos de crescimento em CPE, oferecendo uma ponte teórica entre a economia pós-keynesiana, o estruturalismo latino-americano e a literatura comparativista. Contribui também para o debate sobre agência política dentro de restrições estruturais, mostrando que as constraints do BoP não eliminam o espaço político.


Dimensão Raciocínio analítico Conteúdo
Questão de Pesquisa O artigo apresenta explicitamente a pergunta, mas seu escopo é amplo — “como entender a variação” — o que cria ambiguidade entre explicação causal e descrição tipológica. O ponto mais vulnerável é que a pergunta opera em dois níveis (variação entre casos, mecanismos associativos) sem separá-los de forma suficientemente clara. Como é possível compreender a variação nas estratégias de crescimento e distributivas de governos de esquerda ortodoxos em economias periféricas sujeitas a restrições do balanço de pagamentos? Natureza: explicativa-descritiva. Explicitada no texto.
Questões Secundárias As secundárias derivam organicamente da central e estão distribuídas ao longo do texto, mas raramente formuladas de modo explícito, o que dificulta avaliar se foram adequadamente respondidas. (1) O que distingue as estratégias do Chile e do Uruguai na gestão das restrições do BoP? (2) Quais fatores políticos (vinculações, instituições) estão associados à adoção de estratégias wage-led vs. debt-led? (3) Como as trajetórias dos dois países conectam-se às categorias da literatura de modelos de crescimento em economias avançadas? Todas derivam e sustentam a pergunta central.
Puzzle-Type O puzzle combinado — gap descritivo (ausência de casos periféricos na literatura de growth models) + puzzle explicativo (variação dentro de grupo de ortodoxia macroeconômica) — é genuíno e bem motivado. Sua generalizabilidade, porém, depende de uma amostra de dois casos, o que limita inferências mais amplas. Combinação de gap descritivo (ausência de casos Latino-americanos na literatura de growth models em CPE) e puzzle explicativo (variação não explicada nas estratégias distributivas dentro de um subgrupo de esquerda ortodoxa em contexto de restrições externas comuns). O puzzle é genuíno — a literatura de fato tratou periféricas como exceções ou as ignorou. A generalizabilidade além do par Chile-Uruguai é sugerida mas não demonstrada.
Conclusão / Argumento Central O argumento é apresentado com modéstia epistemológica adequada, mas isso cria uma tensão: o texto frequentemente faz afirmações que soam causais (“as vinculações permitem”, “as instituições reforçam”) sem sustentá-las causalmente. O claim of discovery mais forte — a tipologia e a associação — é bem sustentado pelos dados descritivos. Governos de esquerda em economias periféricas têm espaço de agência política dentro das restrições do BoP; esse espaço é moldado pelas vinculações societais com o trabalho organizado e pela arquitetura institucional macroeconômica. Chile ilustra o caminho debt-led/liberal; Uruguai ilustra o caminho wage-led/neocorporatista. Argumento descritivo-associacional. O claim of discovery principal é a tipologização aplicada ao contexto periférico.
Métodos A escolha metodológica é coerente com as ambições declaradas. O risco mais sério é a ausência de operacionalização explícita das variáveis independentes (vinculações, institucionalidade) — o que torna difícil replicar ou testar as associações propostas. O “contraste de contextos” é uma etiqueta metodológica que recobre análises muito heterogêneas na prática. Estudo qualitativo-descritivo comparativo de dois casos (Chile e Uruguai). Metodologia: “contraste de contextos” (Skocpol e Somers, 1980) para a descrição de cada caso; comparação controlada (Slater e Ziblatt, 2013) para a análise associacional. Fontes: dados secundários e administrativos, avaliações de especialistas, relatórios de imprensa, documentação oficial. Sem análise econométrica ou rastreamento de mecanismos formais.
Data Generation Process (DGP) O DGP é razoável para um argumento descritivo, mas a dependência de dados secundários e avaliações de especialistas sem triangulação metodológica sistemática é uma limitação. A unidade de análise (governo/país) é adequada, mas a agregação de períodos distintos (Bachelet I e II, Lagos) dentro do “caso Chile” pode obscurecer variação interna relevante. Fenômeno real: variação nas estratégias distributivas e de crescimento → Observação: comparação de políticas salariais, dados de endividamento doméstico, crescimento do PIB e participação setorial → Coleta: fontes administrativas (bancos centrais, CEPALSTAT, FMI), literatura secundária → Operacionalização: crescimento de salários reais, dívida doméstica/PIB, contribuição setorial ao crescimento → Análise: descrição histórica comparada + associação entre fatores políticos e estratégias → Inferência descritiva. Unidade de análise: governo nacional. Nível de agregação: nacional.
Achados e Contribuições A contribuição tipológica é o ponto mais sólido. Os dados empíricos (dívida doméstica, crescimento salarial, contribuição setorial ao PIB) são ilustrativos e bem selecionados. O que é mais especulativo é a ligação entre os fatores políticos (vinculações, institucionalidade) e as estratégias adotadas — apresentada como “associação plausível” mas não demonstrada com evidências de processo. Empírico: (1) Crescimento do crédito doméstico no Chile foi três vezes mais rápido que o PIB nos anos 2000, com dívida/renda passando de 35,4% para 59,9%; (2) Salários reais no Uruguai cresceram 25% em 5 anos vs. 20% no Chile em 10 anos; (3) O setor financeiro foi o maior contribuinte ao PIB chileno; administração pública e comércio lideraram no Uruguai. Teórico-metodológico: incorporação de categorias wage-led/debt-led ao estudo de economias periféricas; síntese entre pós-keynesianismo, estruturalismo latino-americano e CPE comparada.
Análise Crítica dos Achados A principal ameaça ao argumento é a endogeneidade potencial entre vinculações/institucionalidade e estratégias: os autores não descartam que as estratégias possam ter moldado as vinculações e instituições, e não apenas o contrário. Além disso, a concentração em dois casos altamente selecionados (os “melhores desempenhos” macroeconômicos da região) levanta questões de viés de seleção. Os autores respondem adequadamente à pergunta descritiva. A pergunta associacional é respondida com plausibilidade, mas não com demonstração. Ponto mais vulnerável: ausência de rastreamento de mecanismos (process tracing) que permitisse verificar se as vinculações e instituições de fato condicionaram as estratégias ou se há variáveis confundidoras omitidas (e.g., herança histórica, estrutura de exportações). Ponto mais sólido: os dados empíricos sobre dívida, salários e contribuição setorial ao PIB são robustos e bem documentados. Scope conditions declaradas: governos de esquerda ortodoxos na América Latina. Não declaradas: estabilidade política e baixa informalidade laboral — condições que raramente se combinam na região.
Limitações O ponto mais sério não reconhecido é a potencial endogeneidade das vinculações e instituições: ambas podem ser endógenas à trajetória histórica dos partidos, o que tornaria a associação espúria. A variação interna entre governos de diferentes períodos dentro do mesmo país também é subestimada. Reconhecidas pelos autores: Argumento descritivo sem pretensão causal; não generalizável além dos dois casos; análise baseada em dados secundários sem coleta primária; o argumento deixa em aberto a direção causal das associações para pesquisa futura.
Não reconhecidas ou subestimadas: (1) Potencial endogeneidade entre vinculações partidárias/institucionalidade e estratégias adotadas; (2) viés de seleção dos casos — Chile e Uruguai são outliers positivos de gestão macroeconômica na região; (3) variação interna dentro do “caso Chile” entre os governos Lagos, Bachelet I e Bachelet II/Nueva Mayoría; (4) ausência de discussão sobre o papel das exportações de commodities como fator de confusão para ambas as estratégias.
Perspectiva Teórica A síntese entre três tradições teóricas é o ponto mais ambicioso e mais promissor do artigo, mas também o menos desenvolvido. A adequação da moldura ao tipo de pergunta é alta. A coerência entre a ontologia implícita (atores políticos com agency dentro de estruturas) e o método (análise histórica comparada) é satisfatória, embora a falta de operacionalização das variáveis políticas reduza a precisão analítica. Três tradições: (1) Literatura de growth models em CPE (Baccaro e Pontusson, Hall e Soskice, Hasel e Palier); (2) Economia pós-keynesiana (Thirlwall, Stockhammer, Perez-Caldentey e Vernengo, Lapavitsas); (3) Estruturalismo latino-americano/CEPAL (Prebisch, Ocampo, Fajardo). A síntese é original e adequada ao tipo de pergunta. A ontologia subjacente é de agência condicionada estruturalmente — coerente com o método histórico-comparado.
Principais Referências O diálogo com a literatura é geralmente equilibrado, mas há uma lacuna notável na literatura sobre mudança institucional e reformas laborais na América Latina — relevante dado que o fracasso das reformas trabalhistas no Chile é um dos pontos centrais do argumento. Centrais: Baccaro e Pontusson (2016); Thirlwall (1979, 2001, 2002); Perez-Caldentey e Vernengo (2017); Stockhammer e Onaran (2013); Ocampo (2020); Prebisch (1962); Gerring (2012); Skocpol e Somers (1980); Flores-Macías (2012); Kapiszewski et al. (2021); Roberts (2021); Mudge (2018). Diálogo potencialmente sub-desenvolvido: literatura sobre power resources theory (Esping-Andersen, Korpi) e sobre reformas trabalhistas comparadas na América Latina (Cook, Murillo).
Observações O artigo será especialmente relevante para pesquisa sobre modelos de crescimento em economias em desenvolvimento e sobre as estratégias dos partidos de esquerda em contextos de liberalização. A ausência de análise formal de mecanismos limita seu uso como referência para pesquisa causal, mas o abre como ponto de partida para agendas de pesquisa mais ambiciosas. (1) O artigo não aborda explicitamente os efeitos distributivos de longo prazo das estratégias sobre a sustentabilidade dos modelos de crescimento — uma lacuna relevante dado o colapso social no Chile em 2019; (2) a análise poderia ser enriquecida pela inclusão de dados sobre distribuição funcional da renda (participação de salários/lucros no PIB) ao longo do período; (3) a ausência de discussão sobre os efeitos das estratégias sobre a estrutura produtiva (diversificação vs. reprimarização) é uma omissão teoricamente relevante dado o arcabouço do BoP constrangido; (4) para pesquisadores interessados em Brasil ou Argentina, o artigo oferece um quadro analítico útil para comparações, embora os casos de esquerda heterodoxa na região sejam explicitamente deixados de fora.