Fichamento: University Challenges: Explaining Institutional Change in Higher Education
Ansell, Ben W. (2008) — World Politics, 60(2)
Ansell, B. W. (2008). University challenges: Explaining institutional change in higher education. World Politics, 60(2), 189–230. https://doi.org/10.1353/wp.0.0009
Última atualização: 2026-05-09
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Ficha Analítica Crítica
Esta seção segue o formato IA Planilhando Textos v17.2.
Mapa Argumentativo
| Seção | Título | Função argumentativa | Contribuição para a tese central |
|---|---|---|---|
| Introdução | University Challenges | Apresentação do puzzle e da tese | Identifica dois puzzles empíricos (expansão vs. estase; modelo privado vs. público) e apresenta o trilemma como moldura unificadora |
| Seção 1 | A Trilemma in Higher Education | Fundamento empírico descritivo | Demonstra cross-sectionalmente que matrícula, subsidização e custo público formam três tipos distintos e que a relação entre variáveis só emerge quando todas três são controladas conjuntamente |
| Seção 2 | The Microfoundations of Higher Education Policy | Fundamento teórico-formal | Desenvolve o modelo formal de preferências individuais, mostrando o padrão ends-against-the-middle e os resultados sobre subsidização, matrícula, progressividade tributária e dependência de renda |
| Seção 2 (extensões) | Extending the Model | Extensão do argumento | Incorpora qualidade, progressividade fiscal e independência de renda ao modelo, gerando as hipóteses testáveis H1–H5 |
| Seção 3 | Partisan Preferences | Extensão do argumento | Agrega preferências individuais em preferências partidárias, derivando o efeito condicional de partisanismo sobre o tipo de sistema |
| Seção 4 | Testing the Partisan Theory | Análise empírica | Testa H1–H5 em painel OCDE 1980–1997; confirma reversão partisan em torno de 30–50% de matrícula, efeito negativo de veto players e progressividade |
| Seção 5 | Higher Education in England, Sweden, and Germany | Estudo de caso / Comparação | Ilustra os três tipos ideais e os mecanismos causais; testa a lógica de reversão partisan em trajetórias históricas distintas |
| Conclusão | Conclusion | Síntese e agenda | Sistematiza as implicações teóricas (inversão do modelo redistributivo padrão, bidirecionality da mudança institucional) e agenda futura (Bologna Process, países em desenvolvimento) |
Nenhuma divergência substantiva identificada — trata-se de artigo de autor único com argumento unificado.
1 Introdução (pp. 189–191)
1.1 Puzzle, gaps da literatura e tese central [§1–§4]
O artigo abre com a observação de que o ensino superior sofreu mais reformas institucionais nas últimas décadas do que qualquer outro segmento educacional nos estados industriais avançados. Em 1950, quase todos os países da OCDE possuíam sistemas de ensino superior subsidiados pelo Estado e restritos a uma fração pequena da população. Desde então, muitos transitaram para sistemas de massa com taxas de matrícula frequentemente acima de 50%, enquanto outros permaneceram no modelo elitista original.
Dois puzzles emergem dessa observação. Primeiro: por que alguns estados expandiram o ensino superior enquanto outros permaneceram em estase? Segundo: entre os que expandiram, por que alguns construíram sistemas parcialmente privados enquanto outros optaram pelo modelo público de massa? Ansell argumenta que a ciência política prestou pouca atenção a essas questões. O projeto Varieties of Capitalism aborda diferenças em perfis de habilidades, mas sua análise oculta diferenças relevantes na provisão de habilidades acadêmicas pelas universidades: Alemanha e Suécia são agrupadas como países de habilidades vocacionais, ainda que a taxa de matrícula universitária sueca seja quase o dobro da alemã.
A análise de determinantes causais da política universitária na ciência política existente limita-se às estruturas de governança entre os estados norte-americanos, sem alcance comparado internacional. O trabalho de Boix sobre determinantes partidários do gasto educacional também é inadequado para o ensino superior, pois sua lógica redistributiva — partidos social-democratas favorecem gasto como redistribuição aos pobres — falha quando o acesso à universidade está viesado para os ricos, de modo que mais gasto pode ter efeito redistributivo inverso.
O artigo desenvolve o argumento de que a política de ensino superior na OCDE é conduzida por escolhas partidárias dentro de um trilemma entre nível de matrícula, grau de subsidização e custo público total. Governos podem atingir no máximo dois dos três objetivos simultaneamente: (a) matrícula de massa, (b) subsidização plena e (c) custo público relativamente baixo. O argumento avança em quatro etapas: demonstração empírica do trilemma, microfundamentos formais das preferências, teste estatístico em painel de 22 países OCDE (1980–1997) e estudo de caso comparativo de Inglaterra, Suécia e Alemanha.
2 A Trilemma in Higher Education (pp. 191–196)
2.1 Tipologia e trade-offs estruturais [§5–§7]
A seção apresenta a lógica do trilemma e examina seu padrão empírico contemporâneo. Se um governo decide expandir a matrícula, enfrenta uma escolha binária: ou aumenta o custo público total para manter a taxa de subsidização, ou reduz a taxa de subsidização para manter o custo total. Dessa lógica emergem três tipos ideais: o modelo parcialmente privado (matrícula de massa + baixa subsidização + custo público baixo), o modelo público de massa (matrícula de massa + subsidização plena + custo público alto) e o modelo de elite (matrícula restrita + subsidização plena + custo público baixo).
Nota 6: Uma quarta configuração é logicamente possível — sistema barato, de elite e parcialmente privado — mas não existe em nenhum estado industrializado. No entanto, é comum em países de baixa renda. A maioria dos países de renda média, como Brasil, México e Turquia, possui ensino superior altamente subsidizado no padrão do modelo de elite.
Para testar empiricamente o trilemma, Ansell utiliza dados cross-sectionais de 19 países OCDE para 2002 (Education at a Glance 2005), medindo taxa bruta de matrícula, percentual de gasto privado (proxy inversa de subsidização) e custo público como percentual do PIB. A Figura 1 do artigo plota matrícula contra gasto privado, identificando visualmente três grupos: (a) países nórdicos no quadrante sudeste com alta matrícula, alta subsidização e alto custo público; (b) países anglófonos no quadrante nordeste com alta matrícula, alto gasto privado e custo público moderado; (c) países da Europa continental no quadrante sudoeste com baixa matrícula, baixo gasto privado e custo público baixo.
2.2 Testes estatísticos do trilemma [§8–§9]
A Tabela 1 apresenta seis regressões OLS cross-sectionais alternando cada variável do trilemma como dependente. O achado central é que cada variável só se torna preditor substantivo e significativo das demais quando a terceira variável é controlada — padrão consistente com a lógica trilemática. Por exemplo, no Modelo 2, um aumento de 10 pontos percentuais na matrícula está associado a um aumento de 5 pontos percentuais na participação privada do gasto, dado custo público constante; e um aumento de 1% do PIB em gasto público está associado a uma redução de 50 pontos percentuais na participação privada, dado matrícula constante. O próprio autor qualifica esses resultados como “testes de plausibilidade indicativos” em vez de evidência robusta sobre causação, dado que a natureza cross-sectional torna problemática a exogeneidade de qualquer das variáveis.
Nota 10: Como verificação de robustez, Ansell realizou regressões 2SLS do gasto privado sobre custo público e matrícula, usando outros gastos governamentais e attainment terciário adulto como instrumentos. Os resultados 2SLS são mais robustos que os OLS, mas o próprio autor reconhece que os instrumentos não são ideais.
3 The Microfoundations of Higher Education Policy (pp. 196–207)
3.1 Estrutura do modelo formal [§10–§14]
Esta seção desenvolve o modelo formal de preferências individuais sobre política de ensino superior, que fornece os microfundamentos das hipóteses testadas empiricamente. O modelo examina uma sociedade dividida em duas gerações: pais na fase zero pagam impostos para financiar a educação dos filhos na fase um. A firma representativa produz com trabalho não qualificado (u) e trabalho qualificado (s), augmentado pela qualidade da educação (A), seguindo a função CES de Acemoglu: (Y_t = [A_t s_t^+ u_t^]^{1/}). Em condições de concorrência perfeita, salários não qualificados são (w_{ut} = u_t^{}) e salários qualificados são (w_{st} = A_t s_t^{}) — salários qualificados crescem com qualidade mas decrescem com oferta de graduados.
O acesso ao ensino superior é assumido como perfeitamente correlacionado com renda: indivíduos recebem educação superior se sua renda supera um limiar (y^*_t), determinado pelo nível de matrícula (s ). Pais financiam a educação por meio de um imposto linear () sobre renda, sujeito à restrição orçamentária ({y}_0 = A_1 s_1 p_1), onde (p_1 ) é a taxa de subsidização pública. A função de utilidade familiar é definida sobre dois períodos e combina (a) renda parental líquida de impostos e (b) renda descontada dos filhos, líquida do custo não subsidiado da educação.
3.2 Preferências sobre subsidização e matrícula [§15–§19]
A análise das derivadas parciais da utilidade em relação à subsidização revela um padrão ends-against-the-middle: famílias que nunca recebem ensino superior preferem menor subsidização (pagam impostos sem benefício direto); famílias cujos filhos recebem ensino superior pela primeira vez (classe média ascendente) preferem subsidização mais alta, desde que a economia nos custos supere o aumento de impostos; famílias muito ricas, por terem alta renda tributável, podem preferir menor subsidização quando (y_{i0} > {y}_0 / s_1) — proporção que cresce com a expansão da matrícula.
A análise das preferências sobre matrícula distingue dois cenários: (a) mover do sistema de elite para o público de massa, mantendo subsidização constante — nesse caso, os pobres pagam mais impostos sem benefício e se opõem; (b) mover para o sistema parcialmente privado, mantendo custo público constante — nesse caso, a redução de subsidização neutraliza o impacto tributário dos pobres, que ficam indiferentes. A Tabela 2 do artigo formaliza os efeitos sobre os três grupos (UU, US, SS) de cada transição. O grupo de renda média (US — pais não qualificados, filhos qualificados) é o único que se beneficia sistematicamente da expansão, independente do modelo. O grupo mais rico (SS — ambas as gerações qualificadas) opõe-se à expansão porque dilui o valor do diploma e reduz salários qualificados.
3.3 Extensões do modelo: qualidade, tributação progressiva e independência de renda [§20–§25]
A primeira extensão examina o efeito de alterar a qualidade da educação (gasto por aluno) como saída do trilemma. As derivadas mostram que mudanças de qualidade produzem padrão análogo às mudanças de subsidização — famílias não qualificadas preferem menor qualidade; famílias qualificadas, maior qualidade, salvo as de renda muito alta para quem o imposto supera o benefício.
A segunda extensão substitui o imposto linear por tributação progressiva quadrática ((y_{i0}) = ay_{i0}^2), seguindo De Donder e Hindriks. Com tributação progressiva, o custo fiscal de financiar expansão é menor para todos os indivíduos com renda abaixo da média, ampliando a coalizão favorável ao gasto. Adicionalmente, à medida que a desigualdade de renda cresce, mais indivíduos preferem financiar o ensino superior via tributação progressiva, intensificando esse efeito. Isso gera a Hipótese 4: progressividade tributária produz maior gasto em ensino superior, com efeito amplificado pela desigualdade.
A terceira extensão altera a premissa de acesso renda-dependente para acesso renda-independente, onde a matrícula (s) representa probabilidade igual de acesso para todos. Nesse cenário, os pobres tornam-se mais favoráveis à subsidização (porque agora podem beneficiar-se diretamente); os ricos tornam-se menos favoráveis à subsidização (perdem a garantia de acesso exclusivo). Isso gera a Hipótese 5: quanto mais renda-independente o acesso, mais cedo os partidos de esquerda favorecem maior subsidização; e há maior apoio geral à expansão da matrícula.
3.4 Preferências partidárias [§26–§30]
Ansell agrega preferências individuais em preferências partidárias assumindo que partidos representam perfeitamente os interesses de suas bases: o partido de esquerda representa o terço mais pobre, o de direita o terço mais rico, ambos competindo pelo terço médio. A análise mostra que quando a matrícula corrente é baixa ((s_0 < 1/3)), os qualificados estão no bloco da direita: a direita favorece maior subsidização e gasto por aluno, enquanto a esquerda só apoia expansão se o novo grupo de matriculados for base eleitoral da esquerda. Quando a matrícula já é de massa ((s_0 > (2-)/3)), as preferências se invertem: a esquerda passa a defender maior subsidização e expansão, e a direita busca limitar ambos. As hipóteses testáveis derivadas são:
- H1: Em sistemas de elite, partidos de direita preferem maior subsidização, matrícula e qualidade que partidos de esquerda.
- H2: Com expansão da matrícula, o padrão se inverte a partir de um limiar.
- H3: Mais veto players reduzem gasto e matrícula.
- H4: Tributação mais progressiva produz maior gasto, com efeito amplificado pela desigualdade.
- H5: Maior independência de renda no acesso faz com que a esquerda favoreça maior subsidização e qualidade mais cedo.
4 Testing the Partisan Theory of Higher Education (pp. 208–218)
4.1 Dados, variáveis e estratégia de estimação [§31–§35]
Para testar as hipóteses, Ansell utiliza dados de 22 países OCDE no período 1980–1997, provenientes de dois conjuntos de dados da UNESCO (Education and Literacy; World Education Indicators) e do EdStats do Banco Mundial. O período foi escolhido por cobrir a expansão universitária em muitos estados e permitir análise longitudinal com número médio de observações por país superior a doze.
A variável dependente primária para gasto é o gasto público em ensino superior como proporção do gasto total em educação (média de 20,7%, desvio-padrão dentro dos países de 3,5%). Essa medida capta variações em subsidização ou gasto por aluno, mas não permite distingui-los entre si por ausência de dados de série temporal sobre gasto privado. A variável dependente para matrícula é a taxa bruta de matrícula terciária (média de 38,8%, mediana 34,3%).
O partisanismo é medido pelo índice de centro de gravidade do gabinete de Cusack e Engelhardt, construído a partir das codings do projeto Manifesto de Budge et al., ponderadas pela composição partidária dos gabinetes de coalizão (escala de −100 a +100). A variável é defasada para capturar a demora na implementação de política. O modelo inclui ainda uma variável interativa partisanismo × matrícula para testar os efeitos condicionais. Variáveis de controle adicionais incluem: PIB per capita; proporção da população com menos de 15 anos; gasto público total em educação; veto players (medida de 16 pontos de Huber et al.); dummy de streaming escolar; índice de Gini (LIS); e razão de carga tributária entre trabalho e capital como proxy de regressividade.
4.2 Resultados: determinantes do gasto [§36–§40]
A Tabela 3 apresenta oito especificações do modelo para gasto relativo no ensino superior, estimadas por OLS pooled com variável dependente defasada, tendência temporal linear, erros autocorrelacionados em painel e erros-padrão corrigidos por heteroscedasticidade. O Modelo 1 (“naïve”) encontra efeito insignificante do partisanismo sobre gasto, com os principais determinantes sendo demografia e gasto geral em educação. O Modelo 2 (“sofisticado”) inclui matrícula e a interação partisanismo × matrícula: os três termos são significativos ao nível de 5%, com o coeficiente interativo negativo, confirmando a reversão partisan. O limiar de reversão estimado neste modelo é de 32% de matrícula bruta.
O Modelo 3 adiciona veto players, que produzem o efeito negativo esperado sobre gasto — passagem do percentil 10 ao 90 na variável de veto players está associada a redução de 0,7 ponto percentual no gasto relativo. O Modelo 5 mostra que regressividade tributária tem forte efeito negativo sobre gasto (e portanto progressividade tem efeito positivo), significativo ao nível de 10%. O Modelo 6 (especificação completa) confirma que a interação desigualdade × regressividade é significativa e negativa, implicando que sistemas tributários mais progressivos em contextos de alta desigualdade têm gasto mais elevado — confirmando H4. O limiar de reversão nesse modelo sobe para pouco mais de 40%.
A Figura 3 do artigo plota o efeito marginal de uma mudança de 50 pontos na direção conservadora sobre gasto relativo, com intervalos de confiança de 95%, para diferentes níveis de matrícula. O resultado visual é inequívoco: a 25% de matrícula, o desvio à direita produz aumento de um desvio-padrão no gasto; a 60%, produz redução de igual magnitude. Os Modelos 7 e 8 testam H5 dividindo a amostra em países de baixa e alta desigualdade: o padrão de switching é mais robusto em países de alta desigualdade, e o limiar é substancialmente mais alto (≈50%) nesses países, implicando que a direita continua favorável ao investimento público por mais tempo quando a desigualdade de renda é maior.
4.3 Resultados: determinantes da matrícula [§41–§45]
A Tabela 4 apresenta seis especificações para a matrícula bruta. O Modelo 1 (todos os países) encontra que partisanismo defasado é negativa e robustamente associado à matrícula — uma mudança de 50 pontos à esquerda está associada a aumento de 1,35 ponto percentual na matrícula, confirmando que partidos de esquerda promovem expansão no agregado. Streaming escolar é associado a matrícula sistematicamente menor.
A divisão da amostra pelo limiar de 35% de matrícula (Modelos 2 e 3) confirma o efeito condicional: abaixo do limiar, o efeito do partisanismo sobre matrícula desaparece — partidos de esquerda não expandem quando os próximos matriculados serão eleitores da direita; acima do limiar, uma mudança de 50 pontos à esquerda está associada a aumento de mais de 2 pontos percentuais na matrícula. O streaming também mostra impacto negativo maior e significativo no subsample acima do limiar.
Os Modelos 4–6 reestimam usando um modelo de correção de erros (error-correction model, ECM) para lidar com a possível não-estacionariedade da matrícula. Os resultados principais são reproduzidos com similar magnitude e significância, e o efeito condicional do partisanismo vem do componente de nível (defasado) em vez do componente de primeira diferença, sugerindo que mudanças partidárias afetam a matrícula no médio prazo, não no curto prazo.
5 Higher Education in England, Sweden, and Germany (pp. 218–229)
5.1 Enquadramento da seção [§46–§47]
Esta seção compara as trajetórias históricas de política de ensino superior em três países que em 1945 possuíam sistemas muito similares — todos de elite, públicos, com subsídio pleno e baixa matrícula — mas que divergiram substancialmente nas décadas seguintes. A Inglaterra transitou para o modelo parcialmente privado; a Suécia para o modelo público de massa; a Alemanha permaneceu em estase. A seleção dos casos é explicitamente funcional: os três casos exemplificam os três tipos ideais do trilemma, permitindo examinar os mecanismos causais sob diferentes configurações de partisanismo e instituições.
5.2 Inglaterra: do sistema de elite ao modelo parcialmente privado [§48–§56]
Em 1950, o ensino superior inglês atendia menos de 3% das crianças — essencialmente um rito de passagem para a elite. A relativa afluência dos anos 1950 aumentou a demanda: em 1956, 80% dos candidatos obtinham vagas; em 1964, apenas 60%. Como o nível corrente de matrícula era baixo, os beneficiários imediatos de qualquer expansão limitada seriam a base eleitoral do Partido Conservador. Coerentemente, o governo conservador comprometeu-se com expansão e encomendou o Relatório Robbins (1963), que recomendou integração dos sistemas universitários e tecnológicos e expansão até 15% da população. Os conservadores aceitaram o relatório em 24 horas.
O Partido Trabalhista, eleito em 1964, deparou-se com as mesmas recomendações e as rejeitou parcialmente. O secretário de educação Anthony Crosland abandonou o sistema unitário proposto por Robbins e estabeleceu a política binária (separação universidades-tecnológicos). A lógica era transparente: expandir universidades beneficiaria desproporcionalmente os eleitores conservadores dado o alto nível de dependência de renda do acesso. Em compensação, Crosland reformou o ensino secundário com as comprehensive schools, visando reduzir a dependência de renda no acesso ao longo do tempo.
A divisão no interior dos conservadores ao longo dos anos 1980–1990 espelha a predição do modelo formal: parlamentares de classe média alta apoiavam o modelo público de massa (tendo a educação universitária na margem do interesse de seus filhos), enquanto os mais ricos preferiam o sistema de elite. O Ato Educacional de 1988 de Kenneth Baker propôs dobrar a matrícula para 30% e introduzir anuidades privadas, mas foi abandonado por seu sucessor John MacGregor em 1989, precisamente por essa divisão interna. Com quotas suspensas, a matrícula atingiu 30% em 1993 por força das inscrições, mas sem financiamento proporcional — o gasto por aluno caiu aproximadamente 50%.
O governo Blair, eleito em 1997, confrontou um dilema específico: a matrícula se aproximava do nível de massa, mas a composição social dos estudantes não mudara — escolas privadas, com 7% dos alunos do secundário, representavam quase 40% dos estudantes das 13 universidades de topo. Aumentar o financiamento público beneficiaria principalmente os eleitores conservadores. A solução trabalhista foi o Ato Educacional de 1998, que introduziu anuidades de £1.000 anuais — primeira vez que financiamento privado era exigido no ensino superior inglês — e o Ato de 2004 com top-up fees de £3.000, acompanhado de bolsas para famílias pobres e empréstimos com reembolso contingente à renda. A reação das três forças partidárias confirmou o modelo: os trabalhistas defenderam a transição para o sistema parcialmente privado; os conservadores, a retenção do sistema existente com cotas de admissão; os liberal-democratas, abolição das taxas e aumento de financiamento público (modelo público de massa, popular com estudantes mas impopular entre pobres e ricos).
5.4 Alemanha: estase persistente e papel dos veto players [§66–§74]
A Alemanha, como Inglaterra e Suécia, partia em 1945 de um sistema de elite. Diferentemente dos outros dois casos, ela permaneceu nesse modelo ao longo de todo o período analisado. Em 1950, a matrícula era de aproximadamente 5%; em 2000, havia alcançado apenas 27% — quase 20 pontos percentuais abaixo de Inglaterra e Suécia.
Durante o governo da grande coalizão (CDU/CSU + SPD, 1966–1969), a expansão foi parcialmente permitida precisamente porque a classe média — principal beneficiária da expansão no modelo formal — não estava dividida entre os partidos. No entanto, após a vitória sozinha do SPD em 1969, as preferências partidárias tornaram-se mais distintas. O SPD introduziu o sistema BAFöG de bolsas destinadas a estudantes de baixa renda, financiado em dois terços pelo governo federal, e expandiu empréstimos em 1974. A preocupação do SPD era com o acesso da classe trabalhadora ao ensino superior existente, não com a expansão do sistema como um todo — uma postura consistente com a predição do modelo: partidos de esquerda em sistemas de elite evitam expansão que beneficiaria principalmente a base eleitoral conservadora.
Com o retorno da CDU/CSU/FDP em 1982, o sistema BAFöG foi convertido de bolsas em empréstimos sem juros, e a inflação reduziu os elegíveis de 44,6% (1972) para 12,6% (1998). A matrícula bruta permaneceu estagnada: 18% em 1985, 25% em 1995, 27% em 2000. O Ato de Emenda ao Marco do Ensino Superior de 1998 (um dos últimos atos do governo Kohl) estabeleceu quotas em medicina, odontologia, arquitetura, administração e psicologia — as profissões mais representadas na base eleitoral conservadora.
Em 1997, protestos nacionais denunciaram o subfinanciamento do sistema, mas o SPD foi incapaz de romper o Reformstau institucional. As tensões sobre o modelo futuro persistiam em 2006: o SPD rejeitou anuidades em 2002; a CDU/CSU flertava retoricamente com taxas mas sabia que sua própria base (classe média universitária) seria prejudicada. O estado de Nordrhein-Westfalen introduziu taxas limitadas em 2006, com forte oposição estudantil. O sistema alemão permanecia em estase: quotas, streaming e o poder dos Länder bloqueavam a transição para qualquer modelo de massa.
6 Conclusion (pp. 229–230)
6.1 Síntese teórica e implicações [§75–§78]
A conclusão sintetiza as contribuições do argumento em dois planos. No plano substantivo, o ensino superior inverte a lógica redistributiva padrão das teorias de gasto público: por ser disproportionalmente acessado pelos ricos, o gasto público em universidades é tipicamente regressivo, de modo que partidos de direita são frequentemente os principais defensores do gasto universitário — resultado contra-intuitivo que o artigo documenta tanto formal quanto empiricamente.
No plano da mudança institucional, o artigo rejeita a visão binária (mudança/não-mudança) prevalente na literatura. O que importa não é apenas se um país expande seu sistema, mas para qual tipo transita — parcialmente privado ou público de massa. Essa mudança tampouco é inevitável nem unidirecional: sistemas de elite podem persistir por décadas (caso alemão) e as preferências dos partidos sobre o tipo de sistema podem se inverter ao longo da trajetória de expansão (caso sueco).
Três implicações de política são identificadas. Primeiro, demandas sociais por si só podem não ser suficientes para produzir expansão, como demonstra a Alemanha, contrariando a narrativa unilinear dos educadores. Segundo, as preferências partidárias continuarão fluidas à medida que a matrícula atinge níveis de massa, com esquerda e direita trocando posições — o Processo de Bolonha de padronização europeia pode criar alianças políticas inesperadas ao alterar simultaneamente o contexto institucional em múltiplos países. Terceiro, e mais importante, maior gasto em educação não é necessariamente uma solução para a desigualdade econômica produzida pela globalização. Se o ensino superior for renda-dependente, maior gasto pode solidificar diferenças econômicas existentes — agravando, não aliviando, a desigualdade nos estados da OCDE.