Fichamento: The Rise of Europe: Atlantic Trade, Institutional Change, and Economic Growth
Acemoglu, Johnson & Robinson (2005)
Acemoglu, D., Johnson, S., & Robinson, J. A. (2005). The Rise of Europe: Atlantic Trade, Institutional Change, and Economic Growth. American Economic Review, 95(3), 546–579.
Última atualização: 2026-04-19
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Gerado em: 2026-04-19T13:00:00-03:00
1 Introdução e Apresentação do Argumento (pp. 1–7)
1.1 Apresentação do problema e dados iniciais [§1–§5]
O artigo inicia afirmando que o mundo contemporâneo foi moldado pelo rápido crescimento econômico da Europa Ocidental no século XIX, cujas origens remontam ao desenvolvimento econômico, político e social dos séculos anteriores. Os autores caracterizam o período entre 1500 e 1800 como uma “Primeira Grande Divergência”, na qual a Europa Ocidental se tornou substancialmente mais rica do que a Ásia e a Europa Oriental (§1). Contudo, há pouco consenso sobre as razões desse crescimento ter ocorrido na Europa Ocidental e ter se iniciado no século XVI (§2).
O objetivo do artigo é estabelecer os padrões de crescimento econômico da Europa Ocidental nessa era, desenvolver uma hipótese sobre as origens da ascensão europeia e fornecer evidências históricas e econométricas para suas implicações. Os autores documentam que o crescimento diferencial da Europa Ocidental entre os séculos XVI e início do XIX é quase inteiramente explicado pelo crescimento das nações com acesso ao Oceano Atlântico e, em particular, dos “comerciantes atlânticos” (Atlantic traders) — Grã-Bretanha, França, Países Baixos, Portugal e Espanha. O comércio atlântico inclui comércio com o Novo Mundo, com a Ásia via Atlântico, e atividades relacionadas ao colonialismo e à escravidão (§3–§4).
1.2 Padrões de crescimento e interação com instituições iniciais [§6–§12]
Nem todas as sociedades com acesso ao Atlântico exibem o mesmo padrão de crescimento. Os dados sugerem uma interação importante entre instituições políticas medievais e o acesso ao Atlântico: o crescimento econômico mais rápido ocorreu em sociedades com instituições iniciais relativamente não absolutistas, notadamente a Grã-Bretanha e os Países Baixos. Em contraste, países com monarquias altamente absolutistas, como Espanha e Portugal, experimentaram crescimento limitado nos séculos subsequentes, enquanto áreas sem fácil acesso ao Atlântico, mesmo Estados não absolutistas como Veneza e Gênova, não colheram benefícios diretos ou indiretos do comércio atlântico (§6).
As Figuras 1 e 2 ilustram a tese central. A Figura 1A mostra que a urbanização na Europa Ocidental cresceu significativamente mais rápido do que na Europa Oriental após 1500. A Figura 1B revela que essas tendências diferenciais se devem em grande parte ao crescimento dos comerciantes atlânticos. O restante da Europa Ocidental, com taxa de urbanização média relativamente alta de 10% em 1300, cresceu aproximadamente à mesma taxa que a Europa Oriental entre 1500 e 1850. Em contraste, os comerciantes atlânticos partiram de uma taxa de urbanização média mais baixa (8% em 1300), que quase triplicou nos 550 anos seguintes, ultrapassando a urbanização média das partes não atlânticas da Europa Ocidental entre 1600 e 1700. A Figura 2 mostra o mesmo padrão usando as estimativas de PIB per capita de Angus Maddison (2001) (§7–§9).
A Tabela 1 apresenta estatísticas descritivas que corroboram essas tendências. Os comerciantes atlânticos tinham PIB per capita de 721 em 1500, que subiu para 1.322 em 1820 (fator de quase dois), enquanto o restante da Europa Ocidental cresceu aproximadamente à mesma taxa que a Europa Oriental, cerca de 30%. A tabela também mostra a evolução da medida institucional “restrição ao executivo” (constraint on the executive) (§10).
1.3 Robustez e interpretação [§13–§18]
Os autores enfatizam que os padrões observados não refletem simplesmente a tendência de nações mais bem-sucedidas se engajarem no comércio atlântico. Não há crescimento diferencial dos comerciantes atlânticos antes da abertura das rotas marítimas atlânticas, e resultados similares são obtidos usando uma medida exógena de acesso ao Atlântico — a razão entre costa atlântica e área terrestre. Tampouco os resultados refletem alguma vantagem pós-1500 de nações costeiras em geral: os portos atlânticos cresceram muito mais rápido do que outras cidades europeias, enquanto os portos mediterrâneos cresceram a taxas similares às cidades do interior (§13–§14).
Essa evidência enfraquece as teorias mais populares para a ascensão da Europa, que enfatizam a continuidade entre o crescimento pré-1500 e pós-1500, bem como a importância de características europeias distintivas como cultura, religião, geografia e o sistema de Estados europeu. Em vez disso, é consistente com teorias que enfatizam a importância dos lucros do comércio atlântico, colonialismo e escravidão. No entanto, os autores notam que outras evidências sugerem que o comércio ultramarino e os lucros associados não foram suficientemente grandes para serem diretamente responsáveis pelo crescimento europeu. Citam Stanley L. Engerman (1972) e Patrick K. O’Brien (1982), que demonstram que a contribuição dos lucros da escravidão e do comércio com o resto do mundo para a acumulação de capital europeia foi modesta. Embora trabalho recente de Joseph E. Inikori (2002) estime fluxos comerciais maiores, suas estimativas ainda não são grandes o suficiente para sugerir que o crescimento europeu foi impulsionado exclusivamente pelo impacto direto do comércio atlântico sobre lucros ou recursos (§15–§16).
1.4 Hipótese institucional [§19–§25]
Diante disso, os autores avançam a hipótese de que o crescimento da Europa Ocidental nesse período resultou, em parte, dos efeitos indiretos do comércio internacional sobre o desenvolvimento institucional. Embora tenha havido melhorias nas instituições econômicas no final da Idade Média e início do período moderno, o rápido desenvolvimento econômico só começou com o surgimento de instituições políticas que garantiam direitos de propriedade seguros a um segmento mais amplo da sociedade e permitiam a livre entrada em negócios lucrativos (Douglass C. North e Robert P. Thomas, 1973; North e Barry R. Weingast, 1989). As instituições políticas críticas eram aquelas que limitavam o poder da monarquia e de grupos aliados. Freios ao poder e às prerrogativas reais emergiram apenas quando grupos que os favoreciam — interesses comerciais fora do círculo real — se tornaram suficientemente poderosos politicamente (§19).
A partir de 1500, e especialmente de 1600 em diante, em países com instituições iniciais não absolutistas e fácil acesso ao Atlântico, o aumento do comércio atlântico enriqueceu e fortaleceu interesses comerciais fora do círculo real, capacitando-os a demandar e obter as mudanças institucionais necessárias para o crescimento econômico. Embora os lucros do comércio atlântico fossem pequenos em relação ao PIB, ainda eram substanciais e muito maiores do que os lucros comerciais anteriores. A Figura 3 mostra que, ao final do século XVII, o volume do comércio atlântico era muito maior do que o do comércio mediterrâneo de longa distância. Os recipientes desses lucros tornaram-se muito ricos para os padrões da Europa dos séculos XVII e XVIII e, tipicamente, politicamente e socialmente muito poderosos (§20–§21).
Essas mudanças não ocorreram em países com instituições altamente absolutistas, como Espanha, Portugal e, em grande medida, França, onde a coroa foi capaz de controlar de perto a expansão do comércio. Nesses países, a monarquia e os grupos aliados foram os principais beneficiários dos primeiros lucros do comércio atlântico e da pilhagem, e os grupos que favoreciam mudanças nas instituições políticas não se tornaram suficientemente poderosos para induzi-las. A hipótese, portanto, prediz uma interação importante entre instituições iniciais e comércio atlântico — o padrão encontrado nos dados (§22).
1.5 Diálogo com a literatura e organização do artigo [§26–§31]
A premissa central do artigo é consistente com a ênfase de vários historiadores, incluindo Ralph Davis (1973a), Jan de Vries (1984), Paul Bairoch (1988), Fernand Braudel (1992) e de Vries e Ad van der Woude (1997). No entanto, os autores afirmam que, até onde sabem, não há outros estudos documentando a importância quantitativa dos comerciantes e portos atlânticos ou mostrando que o crescimento diferencial da Europa Ocidental é explicado em grande parte pelo crescimento dos comerciantes atlânticos (§26).
Teoricamente, a hipótese baseia-se na noção de que a mudança institucional, mesmo quando socialmente benéfica, será resistida por grupos sociais que perdem rendas econômicas ou poder político. Consequentemente, o processo de mudança institucional envolve conflito significativo entre diferentes grupos — no contexto europeu, entre a monarquia e seus aliados versus interesses comerciais fora do círculo real. O relato histórico pode ser visto como uma união entre a tese marxista que liga a ascensão da burguesia ao desenvolvimento da economia mundial (e.g., Eric Williams, 1944; Andre G. Frank, 1978; Immanuel Wallerstein, 1974–1980) e a ênfase neoclássica no desenvolvimento de instituições políticas e direitos de propriedade seguros na Europa Ocidental (e.g., North e Thomas, 1973; Eric L. Jones, 1981; North, 1981; J. Bradford De Long e Andrei Shleifer, 1993). Distintamente dessas abordagens, os autores oferecem uma explicação baseada na interação entre comércio atlântico e instituições políticas medievais para o surgimento de fortes direitos de propriedade privada na Europa Ocidental, especialmente na Grã-Bretanha e nos Países Baixos, a partir do século XVI. Embora alguns estudiosos tenham notado o papel importante dos mercadores ultramarinos em instâncias particulares de mudança política (notadamente Robert Brenner, 2003, e Steven Pincus, 2002, no caso britânico), os autores não têm conhecimento de uma teoria nos moldes desenvolvidos neste artigo (§27–§28).
O artigo está organizado da seguinte forma: A Seção I documenta a premissa-chave e mostra a robustez dos padrões das Figuras 1 e 2. A Seção II desenvolve a hipótese e fornece evidência histórica. As Seções III e IV fornecem evidência sobre implicações da hipótese (a evolução das instituições europeias está intimamente ligada ao comércio atlântico, e há uma interação importante entre instituições iniciais e comércio atlântico no crescimento econômico europeu). A Seção V conclui. O Apêndice resume a construção das variáveis (§29–§31).
2 I. Atlantic Trade and the Rise of Europe (pp. 7–17)
2.1 Dados e medidas de desenvolvimento econômico [§32–§36]
Os autores utilizam três séries de dados para medir o desenvolvimento econômico. Primeiro, constroem estimativas de urbanização baseadas nos números de população urbana de Bairoch et al. (1988), um conjunto abrangente de dados com informações sobre todas as 2.200 cidades europeias que, em algum momento entre 800 e 1800, tiveram 5.000 ou mais habitantes. A urbanização é calculada como a porcentagem da população vivendo em cidades com mais de 5.000 habitantes, usando as estimativas populacionais de McEvedy e Jones (1978). Também utilizam estimativas de taxas de urbanização para a Ásia de Bairoch (1988). Bairoch (1988, cap. 1) e de Vries (1976, p. 164) argumentam que apenas áreas com alta produtividade agrícola e uma rede de transporte desenvolvida poderiam sustentar grandes populações urbanas. Ademais, em Acemoglu et al. (2002a), os autores apresentaram evidência de que, tanto em série temporal quanto em corte transversal, há uma estreita associação entre urbanização e renda per capita antes e depois da industrialização. Portanto, tomam a urbanização como uma proxy para o PIB per capita (§32–§33).
Segundo, usam as estimativas de PIB per capita de Maddison (2001), que começam em 1500 e estão disponíveis para 1600, 1700, 1820 e depois com maior frequência. Os autores reconhecem que essas estimativas não passam de suposições informadas, especialmente antes de 1820, e consideram os dados do PIB como uma verificação dos resultados obtidos com os dados de urbanização (§34).
Terceiro, usam os dados de cidades europeias em nível de cidade de Bairoch et al. (1988) para investigar quais centros urbanos estavam impulsionando o crescimento demográfico e econômico, e também para contrastar o crescimento dos portos atlânticos com outros portos e cidades do interior (§35).
A Tabela 1 fornece as estimativas de urbanização e renda per capita em várias datas, confirmando os padrões das Figuras 1 e 2. A parte inferior da tabela também mostra a evolução da medida de instituições, “restrição ao executivo” (§36).
2.2 Crescimento econômico na Europa: especificação flexível e estruturada [§37–§48]
Para testar a ideia de que o crescimento da Europa Ocidental após 1500 se deveu principalmente ao crescimento em países envolvidos no comércio atlântico ou com alto potencial para tal comércio, os autores estimam a seguinte equação de regressão (1):
\[u_{jt} = d_t + \delta_j + \sum_{t\geq 1600}\alpha_t\cdot WE_j\cdot d_t + \sum_{t\geq 1500}\beta_t\cdot PAT_j\cdot d_t + X_{jt}'\cdot \gamma + e_{jt}\]
Onde (u_{jt}) é a urbanização no país (j) no tempo (t), (WE_j) é uma dummy para Europa Ocidental, (d_t) são efeitos de ano, (_j) são efeitos de país, e (PAT_j) é a medida de potencial para comércio atlântico — uma dummy para comerciante atlântico ou, alternativamente, a razão costa atlântica-área. Os coeficientes de interesse são os (_t) nas interações entre potencial para comércio atlântico e dummies pós-1500. As regressões básicas são ponderadas pela população em cada ano, mas os autores também reportam regressões não ponderadas para completude (§37–§38).
A Tabela 2 apresenta os resultados. As colunas 1 e 2 incluem apenas as interações entre a dummy Europa Ocidental e datas a partir de 1600, capturando o crescimento diferencial da Europa Ocidental em relação à Europa Oriental. Ambas as especificações mostram crescimento significativamente mais rápido na Europa Ocidental. A coluna 3 permite crescimento diferencial para países engajados no comércio atlântico, adicionando o termo ({t=1500}tPAT_jd_t). Os resultados confirmam o padrão da Figura 1B: grandes efeitos da interação entre a dummy de comerciante atlântico e datas após 1600, tornando-se estatisticamente significativos após 1750 (e a partir de 1700 nas colunas 8–10). A estimativa para 1850 (({1850}=0.085)) implica que a urbanização entre os comerciantes atlânticos cresceu aproximadamente 8,5 pontos percentuais a mais do que em outras nações da Europa Ocidental e Oriental. A estimativa de ({1500}) é insignificante e pequena, indicando ausência de crescimento diferencial antes de o comércio atlântico se tornar importante. A inclusão das interações de comércio atlântico explica quase todo o crescimento diferencial das nações da Europa Ocidental em relação à Europa Oriental. As colunas 4–7 mostram resultados similares para o período 1000–1850, sem ponderação populacional, incluindo países asiáticos e excluindo a Grã-Bretanha (§39–§43).
Para lidar com a preocupação de endogeneidade — ser um comerciante atlântico é um resultado ex post — as colunas 8–10 usam a razão costa atlântica-área como medida de potencial atlântico. Essa medida atribui potencial positivo também a Bélgica, Irlanda, Dinamarca, Alemanha e Noruega. Os resultados são similares: o crescimento diferencial relacionado ao Atlântico é forte, com coeficientes () significativos a partir de 1700 e quantitativamente grandes. Por exemplo, (_{1850}=5.05) indica aproximadamente 6,5 pontos percentuais a mais de crescimento de urbanização nos Países Baixos do que na Itália entre 1300–1400 e 1850, explicando mais da metade da diferença real de 12 pontos percentuais (§44–§45).
Em vez de um padrão arbitrário de crescimento diferencial, os autores também estimam um modelo estruturado (2):
\[u_{jt} = d_t + \delta_j + \sum_{t\geq 1600}\alpha_t\cdot WE_j\cdot d_t + \beta \cdot PAT_j\cdot \ln AT_t + X_{jt}'\cdot \gamma + \epsilon_{jt}\]
Onde (AT_t) é o volume agregado do comércio atlântico (Figura 3). Em todas as colunas do Painel B, a estimativa de () é altamente significativa, enquanto as interações entre Europa Ocidental e datas pós-1600 são novamente insignificantes. O (R^2) desse modelo mais restritivo é próximo ao das especificações flexíveis, sugerindo que a interação significativa entre potencial para comércio atlântico e datas pós-1600 se deve à importância do comércio atlântico, não a algum outro processo paralelo (§46–§48).
2.3 Resultados para PIB per capita [§49–§51]
A Tabela 3 replica a análise usando o log do PIB per capita como variável dependente. Os dados de Maddison (2001) cobrem 1500, 1600, 1700, 1820 e 1870, com a especificação base parando em 1820. Paralelamente aos resultados da Tabela 2, os países da Europa Ocidental crescem mais rápido após 1500, embora o padrão seja menos pronunciado quando a amostra é limitada a 1500–1820. As interações entre a dummy de comerciante atlântico e datas após 1600 são tipicamente significativas a partir de 1600 ou 1700 e quantitativamente grandes. Por exemplo, a estimativa de (_{1820}=0.27) na coluna 3 indica que os comerciantes atlânticos cresceram, em média, 31% mais do que as nações da Europa Ocidental não comerciantes atlânticas entre 1500 e 1820. As colunas 4–10 mostram resultados similares estendendo a amostra para 1870, sem ponderação, excluindo a Grã-Bretanha, incluindo países asiáticos e usando a medida costa-área. O Painel B reporta modelos estruturados que novamente mostram que o crescimento diferencial da Europa Ocidental a partir de 1600 está intimamente ligado à expansão do comércio atlântico (§49–§51).
2.4 Outros determinantes do desempenho econômico [§52–§57]
A Tabela 4 adiciona covariáveis às regressões básicas para verificar robustez. Os autores permitem que países protestantes cresçam a taxas diferentes, interagindo uma dummy para país de maioria protestante em 1600 com dummies de ano a partir de 1600. Os resultados mostram que, quando a variável dependente é urbanização, essas interações são insignificantes ou apenas marginalmente significativas. Quando a variável dependente é log do PIB per capita e se usa a dummy de comerciante atlântico, há um efeito significativo das interações religião × ano, mas isso tem pouco impacto sobre o padrão de crescimento diferencial entre comerciantes atlânticos e não atlânticos. Os efeitos quantitativos do protestantismo sobre o crescimento econômico são menores do que os do comércio atlântico (§52–§53).
Para avaliar a importância das guerras (e da competição interestatal), os autores incluem uma variável que é o número médio de anos em guerra durante o período anterior. Essa variável é insignificante nas regressões de urbanização e não afeta os padrões documentados (§54).
Para investigar se a herança romana é importante, criam uma dummy para países que fizeram parte do Império Romano e a interagem com datas a partir de 1600. Essas interações são tipicamente insignificantes e não afetam os padrões reportados, exceto quando se usa log do PIB per capita e a dummy de comerciante atlântico — mas, nesse caso, os resultados indicam que países com herança romana cresceram mais rapidamente entre 1400 e 1600 e significativamente mais devagar depois (§55).
Finalmente, adicionam interações entre distância do equador (latitude da capital) e datas a partir de 1600 para ver se o deslocamento da atividade econômica do sul para o norte da Europa pode explicar a ascensão das nações atlânticas. A adição dessas variáveis não afeta a importância do comércio atlântico, e as interações de latitude são tipicamente insignificantes (§56).
2.5 Expansão urbana e portos atlânticos [§58–§67]
A análise em nível de cidade (Tabela 5) estima modelos similares à equação (1), com o log da população urbana em nível de cidade como variável dependente. A variável independente chave é a interação entre uma dummy indicando se a cidade é um porto atlântico (ou porto atlântico potencial) e dummies a partir de 1500. A amostra é o painel balanceado de cidades com observações em todas as datas (§58).
Na coluna 1, (AP_j) é uma dummy para porto atlântico, com observações ponderadas pela população corrente. As interações entre porto atlântico e datas após 1600 são estatística e economicamente significativas e positivas. Por exemplo, o coeficiente de 0,79 para 1800 implica que os portos atlânticos cresceram aproximadamente 120% em relação a outras cidades entre 1300–1400 e 1800. Não há crescimento diferencial dos portos atlânticos antes de 1600. O modelo estruturado no painel inferior mostra que o coeficiente da interação entre volume de comércio atlântico e dummy de porto atlântico é altamente significativo, com (R^2) quase idêntico ao da regressão flexível (§59).
A coluna 2 reporta estimativas não ponderadas, com resultados similares, mas quantitativamente menores, pois grandes portos atlânticos como Londres e Amsterdã recebem menos peso. As colunas 3 e 4 usam uma dummy para porto atlântico potencial (qualquer cidade no painel balanceado que poderia ter sido usada como porto para o comércio atlântico), com resultados similares. A coluna 5 exclui Londres e Amsterdã para mostrar que os resultados não são impulsionados apenas por essas duas cidades; os coeficientes são reduzidos pela metade a partir de 1700, mas permanecem significativos. A coluna 6 adiciona um conjunto completo de interações país × ano para mostrar o crescimento diferencial dos portos atlânticos em relação a outras cidades no mesmo país; os coeficientes são cerca de metade dos da coluna 1, mas ainda altamente significativos (§60–§62).
A coluna 7 adiciona cidades asiáticas de Tertius Chandler (1987), e os resultados são similares, mas também mostram o crescimento diferencial de todas as cidades da Europa Ocidental em relação às cidades asiáticas. A Figura 4B e a coluna 8 mostram que os portos mediterrâneos cresceram a taxas similares às cidades do interior europeu; o que se encontra não é um efeito geral de porto, mas um efeito específico de porto atlântico (§63–§64).
2.6 Crescimento intra-país e o papel dos portos atlânticos [§68–§70]
A Figura 5A mostra a expansão dos portos atlânticos ibéricos (espanhóis e portugueses), outras cidades ibéricas e cidades do interior da Europa Ocidental. Quase todo o crescimento diferencial da Espanha e de Portugal vem dos portos atlânticos. De fato, as partes não atlânticas da Espanha e de Portugal cresceram mais lentamente do que as cidades do interior da Europa Ocidental. Relevante para a hipótese dos autores, a expansão urbana na Grã-Bretanha foi muito mais generalizada (Figura 5B). Embora os portos atlânticos britânicos (incluindo Londres) tenham experimentado expansão significativa, outras cidades britânicas também cresceram muito mais rápido do que cidades similares no resto da Europa Ocidental. Os autores interpretam isso como evidência de que, na Grã-Bretanha, a expansão do comércio atlântico levou ao crescimento econômico geral, não apenas de algumas cidades portuárias privilegiadas (§68–§70).
3 II. Our Hypothesis (pp. 17–27)
3.1 O argumento e suas sub-hipóteses [§75–§81]
A hipótese central é que o comércio atlântico contribuiu para o crescimento da Europa Ocidental entre 1500 e 1850 não apenas por efeitos econômicos diretos, mas também indiretamente, ao induzir mudanças institucionais fundamentais. O comércio atlântico na Grã-Bretanha e nos Países Baixos alterou o equilíbrio do poder político ao enriquecer e fortalecer interesses comerciais fora do círculo real, incluindo vários mercadores ultramarinos, traficantes de escravos e plantadores coloniais. Por meio desse canal, contribuiu para o surgimento de instituições políticas que protegiam os mercadores contra o poder real. A hipótese também implica que a tendência para a mudança institucional deveria ter sido muito mais forte em sociedades com freios existentes ao poder real do que em países com regimes absolutistas e monopólios comerciais controlados pela monarquia, porque nestes últimos o comércio atlântico não enriqueceu e fortaleceu tanto os grupos mercantis fora do círculo real e não perturbou o status quo político (§75–§76).
A hipótese é decomposta em quatro sub-hipóteses:
- Instituições políticas que impõem limites e restrições ao poder estatal são essenciais para os incentivos ao investimento e para o crescimento econômico sustentado;
- Na Europa moderna inicial, tais instituições políticas eram favorecidas por interesses comerciais fora do círculo real, mas não eram bem-vindas pela monarquia e seus aliados;
- Instituições favorecidas por grupos econômica e politicamente poderosos têm maior probabilidade de prevalecer; e
- Em países com instituições políticas iniciais não absolutistas, o comércio atlântico e a atividade colonial enriqueceram e fortaleceram interesses comerciais, incluindo novos grupos sem laços com a monarquia.
Juntas, essas sub-hipóteses geram a hipótese principal: em países com fácil acesso ao Atlântico e sem uma forte monarquia absolutista, o comércio atlântico forneceu lucros substanciais e poder político para interesses comerciais fora do círculo real, que puderam então demandar e obter reformas institucionais significativas protegendo seus direitos de propriedade. Com seu poder e direitos de propriedade recém-adquiridos, eles aproveitaram as oportunidades de crescimento oferecidas pelo comércio atlântico, investiram mais, comerciaram mais e alimentaram a Primeira Grande Divergência (§77–§80).
Instituições iniciais que impunham freios suficientes à monarquia são essenciais para a quarta sub-hipótese, de modo que mercadores não diretamente associados à coroa se beneficiem significativamente do comércio atlântico. Quando o poder da coroa era relativamente sem freios, como na Espanha, Portugal e França, o comércio era amplamente monopolizado e regulado, a coroa e seus aliados se tornaram os principais beneficiários da expansão atlântica, e a mudança institucional não ocorreu. Portanto, a hipótese explica não apenas o papel principal do comércio atlântico no crescimento da Europa Ocidental, mas também por que o crescimento econômico decolou na Grã-Bretanha e nos Países Baixos, e não na Espanha e em Portugal (§81).
3.2 Evidência histórica: Grã-Bretanha [§82–§96]
Os autores fornecem evidência histórica consistente com essas sub-hipóteses, focando nas mudanças nas instituições políticas da Grã-Bretanha e dos Países Baixos. Em ambos os casos: (a) as instituições políticas no início do século XVI, embora não tão absolutistas quanto na Espanha e em Portugal, não garantiam direitos de propriedade seguros para interesses comerciais fora do círculo real; (b) houve conflito significativo entre esses grupos mercantis e a monarquia; (c) o comércio atlântico criou grandes lucros para alguns desses mercadores que eram favoráveis à mudança institucional e que então usaram parte desses lucros para apoiar o conflito contra a coroa (§82).
No caso britânico, os dois marcos na emergência de instituições políticas que restringiam o poder real são a Guerra Civil de 1642–1649 e a Revolução Gloriosa de 1688–1689. Embora não haja consenso entre os historiadores sobre a importância relativa desses dois eventos, o importante é que houve uma grande melhoria nas instituições políticas britânicas entre meados do século XVII e início do século XVIII (§83).
Embora após a Guerra das Rosas a Grã-Bretanha nunca tenha sido tão absolutista quanto França, Portugal e Espanha, tanto os monarcas Tudor quanto Stuart tentaram consistentemente expandir seus poderes. A insegurança dos direitos de propriedade era clara durante o reinado de Henrique VIII, com tentativas contínuas de regular o comércio e minar os poderes do Parlamento. Uma tentativa significativa de estabelecer uma forma de absolutismo ocorreu durante o período do chamado “governo pessoal” de Carlos I, após ele dissolver seu terceiro Parlamento em 1629, aumentar impostos de maneira inconstitucional e usar a Câmara Estrelada para manipular decisões legais a seu favor (§84).
Tanto a Guerra Civil quanto a Revolução Gloriosa foram batalhas sobre os direitos e prerrogativas da monarquia. Em ambos os casos, os interesses comerciais (incluindo grandes segmentos, mas não todos, dos mercadores e da pequena nobreza) predominantemente apoiaram aqueles que demandavam restrições ao poder da monarquia. Durante a Guerra Civil, a maioria dos mercadores, e mesmo muitos daqueles com monopólios reais, apoiou o Parlamento. Membros da Câmara dos Comuns da Cidade de Londres, o principal centro de atividade mercantil, bem como muitos distritos comerciais não londrinos, apoiaram o Parlamento contra o Rei. David H. Sacks (1991) mostra que em Bristol os interesses comerciais e industriais fora dos Merchant Adventurers eram parlamentaristas (§85–§86).
A situação para a Revolução Gloriosa é similar. A Companhia das Índias Orientais sob controle de Josiah Child apoiou Jaime II, mas a maioria dos interesses comerciais, alienada pelas concessões de vários privilégios de monopólio por Jaime II, e especialmente os interlopers — mercadores tentando entrar no comércio com a Ásia — estavam do lado da revolução. Esses mercadores também receberam forte apoio dos Whigs que buscavam restringir o rei. Pincus (2002, p. 34) conclui: “A comunidade mercantil da Inglaterra apoiou ativamente o plano de invasão de Guilherme e forneceu um suporte financeiro chave ao regime nos primeiros meses críticos” (§87).
A vitória do Parlamento na Guerra Civil e após a Revolução Gloriosa introduziu grandes freios ao poder real e fortaleceu os direitos dos mercadores. Após a Guerra Civil, a fração de MPs que eram mercadores aumentou dramaticamente. Este período também testemunhou uma série de políticas favorecendo os mercadores, incluindo os Atos de Navegação de 1651 e 1660, que restringiam o comércio com as colônias britânicas a navios e mercadores britânicos, e a dissolução de todos os estatutos de monopólio, exceto a Companhia das Índias Orientais. A sabedoria convencional na história econômica enfatiza a importância dessas mudanças institucionais para a proteção dos direitos de propriedade e como elas levaram a uma onda de inovações nas instituições econômicas, particularmente nos mercados financeiros (e.g., North e Weingast, 1989) (§88–§89).
Criticamente para a tese, as principais mudanças nas instituições políticas e a nova assertividade dos grupos mercantis coincidiram com a expansão dos grupos mercantis britânicos que comerciavam através do Atlântico. A Companhia das Índias Orientais foi fundada em 1600, e de 1600 a 1630 houve uma onda sem precedentes de investimento de mercadores, pequena nobreza e até alguma aristocracia em empreendimentos ultramarinos. O cultivo de tabaco na Virgínia floresceu na década de 1620, e a partir da década de 1640 as altamente lucrativas colônias de açúcar do Caribe se desenvolveram. Finalmente, na década de 1650 os britânicos começaram a assumir o comércio de escravos atlântico (§90).
Vários historiadores, notadamente Brenner (2003), enfatizaram que os mercadores atlânticos foram críticos para garantir a vitória militar do Parlamento na Guerra Civil. Lawrence Stone também aponta que “… outros elementos mercantis importantes podem agora ser identificados, homens interessados especialmente nos comércios americanos, na colonização da Nova Inglaterra e em quebrar o monopólio das Companhias das Índias Orientais e do Levante. Eram homens novos em novos campos de empreendimento empresarial que se irritavam com o estrangulamento político e econômico das oligarquias monopolistas mais antigas. Esses homens foram membros importantes do grupo de radicais que tomou o controle de Londres em um momento crítico em 1641, e assim inclinou o poder e a influência da cidade decisivamente para o lado do Parlamento” (1973, p. 144) (§91).
O comércio atlântico de fato criou grandes lucros para os afortunados que tiveram sucesso nesse empreendimento de alto risco. No Apêndice, os autores usam dados de lucros de Chaudhuri (1965) e de Vries e van der Woude (1997), sobre investimento de Rabb (1967), sobre comércio de Inikori (2002) e de Vries (2003), e sobre taxas de retorno de Grassby (1969, 1995) e O’Brien (1982) para estimar os lucros de várias companhias mercantis, traficantes de escravos e plantadores coloniais do comércio atlântico durante esse período. Essas estimativas sugerem que os lucros do comércio atlântico eram insignificantes antes de 1575, cerca de £40.000 em média por ano de 1576 a 1600, talvez £200.000 em média por ano de 1601 a 1650, e cerca de £500.000 por ano de 1651 a 1675. Os lucros então subiram com a expansão do açúcar e do comércio de escravos para cerca de £900.000 por ano de 1676 a 1700, £1,7 milhão por ano de 1701 a 1750, e provavelmente cerca de £5 milhões por ano no final do século XVIII (todos os valores ajustados a preços de 1600). Esses lucros eram substanciais em relação à riqueza pessoal de mercadores e da pequena nobreza da época. Além disso, por serem altamente concentrados, criaram vários mercadores muito ricos e eram grandes em relação aos recursos necessários para fazer diferença política e militarmente (§92–§94).
Muitos mercadores usaram seus lucros do comércio atlântico para apoiar o conflito contra a coroa. O Parlamento durante a Guerra Civil foi parcialmente financiado por impostos sobre, e lucros do, comércio atlântico. Líderes parlamentares como Sir Edwin Sandys e John Pym eram ativos na colonização e no comércio com as Américas. Para a Revolução Gloriosa, Pincus (2002) fornece evidência de que “a comunidade mercantil despejou dinheiro nos cofres de Guilherme de Orange em 1688” — talvez cerca de £800.000, o suficiente para pagar um exército considerável (§95–§96).
3.3 Evidência histórica: Países Baixos [§97–§106]
Os mercadores holandeses sempre tiveram considerável autonomia e acesso a oportunidades comerciais lucrativas. No entanto, antes da Revolta Holandesa, os Países Baixos faziam parte do Império Habsburgo, e o poder político dos mercadores holandeses era limitado. A monarquia Habsburgo tentou consistentemente aumentar seu domínio político e suas receitas fiscais sobre os Países Baixos. A melhoria crítica nas instituições políticas holandesas foi, portanto, o estabelecimento da República Holandesa independente, com domínio político e segurança econômica para os mercadores (§97).
A política holandesa foi moldada pelo conflito entre os mercadores holandeses e a monarquia Habsburgo a partir do século XV. Em 1493, Maximiliano de Habsburgo havia revertido o Grande Privilégio de 1477, que dava aos estados gerais o direito de se reunir por iniciativa própria e restringia o direito do governante de aumentar impostos. Após 1552, a guerra com França e Inglaterra aumentou as necessidades fiscais dos Habsburgos e os levou a impor uma grande carga tributária sobre os Países Baixos. O crescente ressentimento fiscal e religioso levou a uma série de revoltas em 1572, principalmente orquestradas por interesses comerciais. Estas culminaram em uma guerra de independência que não terminou até 1648 (§98).
O grande ponto de virada veio na década de 1590, quando mudanças importantes na estratégia militar e comercial holandesa se tornaram evidentes. Novas táticas militares permitiram aos holandeses enfrentar a experiente infantaria espanhola. Isso foi combinado com uma “revolução” fiscal e financeira que permitiu aos estados, particularmente à Holanda, aumentar suas receitas tributárias e tomar empréstimos contra impostos futuros para financiar o esforço de guerra. Ao mesmo tempo, os holandeses deram o passo estratégico crítico de buscar acesso direto aos centros comerciais asiáticos e americanos. Isso tanto enriqueceu uma geração de mercadores holandeses quanto minou as receitas espanholas e portuguesas suficientemente para induzir Filipe III a oferecer a paz (§99).
Os mercadores foram naturalmente a principal força política e econômica do lado da independência. De Vries e van der Woude (1997) argumentam que “os interesses econômicos urbanos acreditavam, em última análise, ser vantajoso escapar da estrutura imperial dos Habsburgos” (p. 369). Interesses comerciais envolvidos no Atlântico foram particularmente importantes na moldagem do conflito. Em 1609, Filipe III ofereceu paz e independência em troca da retirada holandesa das Índias Ocidentais e Orientais, mas esses termos eram “simplesmente não viáveis politicamente porque muitos regentes e mercadores de elite haviam investido pesadamente na [Companhia Holandesa das Índias Orientais]” (Israel, 1995, p. 402) (§100–§101).
Não é surpresa, portanto, que a independência tenha colocado os mercadores firmemente no controle do processo político. De Vries e van der Woude (1997, p. 587) descrevem a nova elite política após a Revolta Holandesa como “6 a 8% das famílias urbanas com rendas superiores a 1.000 florins por ano. Esta era a grote burgerij da qual se extraía a liderança política e comercial do país. Aqui encontramos, em primeiro lugar, os mercadores” (§102).
A economia holandesa vinha se expandindo desde o século XV e experimentou avanços nas instituições econômicas antes da revolta. No entanto, o potencial dessas instituições era severamente limitado sob o jugo dos Habsburgos devido à ameaça de tributação arbitrária. As taxas de juros não caíram sistematicamente até depois de 1600, quando declinaram para cerca de um terço do nível anterior à revolta. Consequentemente, a economia parece ter passado por uma grande transformação após o início do processo de mudança política. Van Zanden (1993) nota: “Podemos ver o ponto de partida da rápida urbanização em 1580” (pp. 35–36) (§103).
Crítico foi o fato de que a melhora da sorte econômica dos mercadores holandeses, em parte do comércio atlântico, foi usada para colocar em campo um exército poderoso contra o Império Habsburgo. O comércio báltico era importante no século XVI, mas os lucros do comércio atlântico rapidamente o superaram e forneceram os fundos necessários para o esforço militar holandês. De Vries e van der Woude (1997) estimam que os lucros anuais apenas da Companhia Holandesa das Índias Orientais entre 1630 e 1670, 2,1 milhões de florins por ano, eram mais do que o dobro dos lucros anuais totais do comércio de grãos do Báltico entre 1590 e 1599 (§104).
Fritschy (2003) estima que, como resultado desses desenvolvimentos, a receita tributária per capita na Holanda aumentou quase cinco vezes de 1575 a 1610. Israel (1995, pp. 241–42) resume a razão básica para a vitória holandesa: “A partir de 1590, houve uma melhoria dramática nas circunstâncias econômicas da República. O comércio e a navegação expandiram-se enormemente, assim como as cidades. Como resultado, o poder financeiro dos estados cresceu rapidamente, e foi possível melhorar vastamente o exército, tanto qualitativa quanto quantitativamente, dentro de um curto espaço de tempo” (§105–§106).
3.4 Espanha, Portugal e França [§107–§109]
Há acordo geral de que as instituições políticas espanholas e portuguesas na virada do século XVI eram mais absolutistas do que as da Grã-Bretanha e dos Países Baixos e não experimentaram reformas similares. Uma diferença chave entre esses casos e os padrões britânico-holandeses é a organização do comércio, que refletia diferenças nas instituições políticas. Durante todo o período, a concessão de monopólios comerciais era uma ferramenta central para os governantes aumentarem a receita. Quando o poder dos monarcas era restringido, eles não podiam usar essa ferramenta fiscal. O Parlamento inglês bloqueou com sucesso muitas tentativas dos monarcas Tudor e Stuart de criar tais monopólios. Em contraste, Cameron (1993, p. 127) descreve a situação portuguesa: “O comércio de especiarias nas Índias Orientais do Império Português era um monopólio da coroa; a marinha portuguesa funcionava como uma frota mercante, e todas as especiarias tinham que ser vendidas através da Casa da Índia em Lisboa… nenhum comércio existia entre Portugal e o Oriente, exceto aquele organizado e controlado pelo estado.” Similarmente, na Espanha, o comércio colonial era um monopólio da Coroa de Castela e era delegado à Casa de Contratação em Sevilha, ela própria de perto monitorada pelo governo (§107–§108).
A França pode ser vista como um caso intermediário. Embora as instituições francesas fossem igualmente absolutistas, a atividade atlântica inicial enriqueceu alguns grupos mercantis, em particular os huguenotes protestantes. No entanto, a monarquia logo entrou em conflito e derrotou os huguenotes, primeiro com o cerco de La Rochelle por Luís XIII e depois com a proibição da igreja protestante por Luís XIV. A monarquia então manteve grande parte da atividade comercial ultramarina como monopólio real, especialmente sob Colbert. No entanto, certos fortes interesses comerciais e industriais franceses se desenvolveram e, possivelmente, forçaram a mudança institucional antes, durante e após a Revolução Francesa (§109).
4 III. Atlantic Trade and Institutional Change (pp. 27–30)
4.1 Mensuração das instituições e resultados [§110–§115]
Para substanciar ainda mais a hipótese, os autores fornecem evidência empírica sobre o vínculo entre mudanças nas instituições políticas e comércio atlântico. Como não existe uma medida de instituições políticas para o período, eles criaram uma medida de “restrição ao executivo” para países europeus entre 1300 e 1850, adaptando a definição do conjunto de dados Polity de Gurr. Esse conceito mede as limitações ao uso arbitrário do poder pelo executivo (para o período relevante, a monarquia) e está presumivelmente correlacionado com a segurança dos direitos de propriedade para os mercadores e o controle sobre o monopólio do comércio ultramarino pela monarquia (§110).
Os autores seguem o manual de codificação Polity IV, atribuindo uma pontuação de 1 a 7 para a restrição ao executivo a cada país. Para 1800 e 1850, usam a codificação Polity onde disponível. Para períodos anteriores, codificaram eles mesmos, usando principalmente a enciclopédia histórica de Langer (1972). Embora possa haver discordância sobre os valores precisos, o nível geral de restrição não parece controverso (§111).
A Tabela 6 documenta as mudanças diferenciais nas instituições entre comerciantes atlânticos e outras nações da Europa Ocidental, estimando uma equação similar a (1) com restrição ao executivo como variável dependente. Os resultados mostram melhorias diferenciais significativas nas instituições entre os comerciantes atlânticos e nenhuma evidência de tendências diferenciais preexistentes. Diferentemente dos resultados com urbanização, no entanto, mesmo após a inclusão das interações de comércio atlântico, há alguma evidência de efeitos diferenciais da Europa Ocidental. As outras colunas usam os mesmos controles e interações temporais da Tabela 4. Embora as estatísticas F mostrem que muitas dessas interações temporais são significativas, nem o protestantismo, nem as guerras, nem a herança romana, nem a latitude parecem ter levado a uma maior mudança institucional após 1500. Por exemplo, as instituições em países protestantes melhoraram mais rapidamente até 1750, mas significativamente mais devagar depois disso (§112–§114).
No geral, esses resultados sugerem que, após o aumento do comércio atlântico, houve maiores avanços em direção a melhores instituições políticas nas nações engajadas no comércio atlântico e no colonialismo (ou naquelas com maior potencial para se engajar no comércio atlântico) (§115).
5 IV. The Role of Initial Institutions (pp. 30–32)
5.1 Interação entre instituições iniciais e comércio atlântico [§116–§122]
Os autores investigam se, como implicado por sua hipótese, foram predominantemente as sociedades com instituições iniciais menos absolutistas (e, relacionadamente, aquelas sem direitos de monopólio concedidos pela realeza no comércio ultramarino) que aproveitaram as oportunidades oferecidas pelo comércio atlântico. Também investigam a hipótese relacionada de North e Thomas (1973) e Jones (1981) de que os desenvolvimentos pós-1500 refletem amplamente a divergência entre sociedades que tinham instituições políticas muito diferentes na virada do século XV. Isso difere da hipótese dos autores, que enfatiza a interação entre instituições políticas iniciais e comércio atlântico (§116).
Para investigar essas ideias, estimam modelos da forma (3):
\[u_{jt} = d_t + \delta_j + \sum_{t = 1600}\alpha_t\cdot WE_j\cdot d_t + \beta \cdot \ln AT_t\cdot PAT_j + \sum_{t = 1500}\gamma_t\cdot I_{j,1415}\cdot d_t + \eta \cdot \ln AT_t\cdot PAT_j\cdot I_{j,1415} + \epsilon_{jt}\]
Onde (I_{j,1415}) são as instituições iniciais do país (j), calculadas como a média de sua restrição ao executivo em 1400 e 1500. Os termos (t I{j,1415} d_t) permitem quaisquer tendências econômicas diferenciais relacionadas a diferenças nas instituições iniciais que se aplicariam mesmo sem acesso ao Atlântico. A interação tripla (AT_t PAT_j I_{j,1415}) testa a hipótese de interesse: um coeficiente () significativo implica que houve trajetórias divergentes tomadas por países com diferentes instituições iniciais, mas essa divergência se relaciona significativamente a se eles aproveitaram as oportunidades apresentadas pelo comércio atlântico (§117–§118).
Os resultados são reportados na Tabela 7 usando a dummy de comerciante atlântico para (PAT_j). O Painel A apresenta estimativas da equação (3) com urbanização como variável dependente; o Painel B com log da renda per capita; e o Painel C mostra o papel da interação entre instituições iniciais e comércio atlântico para a evolução das instituições (§119).
Os resultados nos três painéis são similares. A interação entre a medida agregada de comércio atlântico e o potencial para comércio atlântico, (AT_t PAT_j), é geralmente significativa por si só e também quando inserida contra os termos (t I{j,1415} d_t). Isso mostra que a capacidade de aproveitar o comércio atlântico foi de grande importância para os desenvolvimentos pós-1500. Quando os autores adicionam a interação tripla (AT_t PAT_j I_{j,1415}), este é tipicamente o único termo significativo. Por exemplo, o coeficiente de 0,021 nessa interação tripla na coluna 4 do Painel A implica que a urbanização em um comerciante atlântico com uma restrição inicial ao executivo igual a 3, como os Países Baixos, cresceu 15,7 pontos percentuais a mais do que a urbanização em um país comerciante atlântico com as piores instituições iniciais (restrição = 1) (§120–§121).
Esses resultados implicam que os padrões reportados até agora são explicados quase inteiramente pelo fato de que países com governantes inicialmente restringidos foram capazes de aproveitar as oportunidades apresentadas pelo comércio atlântico. Embora Espanha e Portugal tenham se beneficiado da transferência de recursos do Novo Mundo durante o século XVI, eles não desenvolveram as instituições políticas para apoiar o crescimento econômico nem experimentaram desenvolvimento econômico sustentado. A evidência sugere que esses padrões diferenciais estão intimamente relacionados ao fato de que eles começaram a era pós-1500 com regimes absolutistas no controle da atividade ultramarina. Por outro lado, parece que as cidades-Estado italianas, que começaram com instituições relativamente não absolutistas por volta de 1500, não experimentaram maior desenvolvimento econômico porque não tinham acesso tão fácil ao Atlântico quanto a Grã-Bretanha e os Países Baixos. Grã-Bretanha e Países Baixos foram os vencedores econômicos porque tinham tanto instituições políticas relativamente boas para começar quanto acesso pronto ao Atlântico (§122).
6 V. Conclusion (p. 32)
6.1 Síntese e agenda de pesquisa [§123–§125]
O artigo documenta um fato distintivo e interessante relacionado ao processo de crescimento europeu: entre 1500 e 1850, o crescimento das nações com acesso ao Atlântico e o crescimento dos portos atlânticos respondem pela maior parte do crescimento diferencial da Europa Ocidental em relação à Europa Oriental. Parece, portanto, que a ascensão da Europa entre 1500 e 1850 foi em grande parte a ascensão da Europa atlântica e a ascensão dos portos atlânticos. Esse fato enfraquece teorias das origens do desenvolvimento europeu que enfatizam características europeias distintivas e dinâmicas puramente internas, mas é consistente com aquelas que dão um papel proeminente ao comércio atlântico e minimizam a continuação de tendências pré-1500 ou características europeias permanentes, como religião, herança romana ou cultura europeia. Se esses fatores são importantes, deve ser por causa da interação entre eles e a oportunidade de comerciar no Atlântico (§123).
Os autores sugerem que o comércio atlântico contribuiu para o crescimento europeu através de um canal institucional indireto, além de seus efeitos diretos mais óbvios. A hipótese é que o comércio atlântico gerou grandes lucros para interesses comerciais a favor da mudança institucional em países que atendiam a duas precondições cruciais: fácil acesso ao Atlântico e instituições iniciais não absolutistas. Esses lucros inclinaram a balança do poder político para longe da monarquia e induziram reformas significativas nas instituições políticas, que introduziram direitos de propriedade mais seguros e pavimentaram o caminho para inovações adicionais nas instituições econômicas. Com seus direitos de propriedade recém-adquiridos, as nações mercantis inglesa e holandesa investiram mais, comerciaram mais e estimularam o crescimento econômico (§124).
A análise parou antes da industrialização da Europa Ocidental, focando nos desenvolvimentos econômicos e políticos entre os séculos XVI e XIX. Consequentemente, os autores não investigaram por que algumas nações atlânticas bem-sucedidas, como os holandeses, não se industrializaram cedo, enquanto a Grã-Bretanha e algumas nações não atlânticas, como a Alemanha, o fizeram. Suspeitam que a resposta esteja relacionada à competição interestatal, respostas de “modernização defensiva” de certas nações europeias e, possivelmente, os efeitos adversos das oligarquias sobre a industrialização, mas deixam investigações adicionais para pesquisas futuras. Reconhecem que o processo de crescimento europeu moderno inicial é multifacetado e que sua intenção não é oferecer uma explicação monocausal, mas sim sugerir que o comércio atlântico desempenhou um papel importante nesse processo (§125).
7 Apêndice: Definições das Variáveis e Fontes (pp. 28–31, 33–34)
7.1 Resumo das principais variáveis e fontes [Apêndice]
O Apêndice detalha a construção das variáveis. Para o PIB per capita, usam Maddison (2001). A população total vem de McEvedy e Jones (1978). A população urbana é de Bairoch et al. (1988) para a Europa, com dados asiáticos de Bairoch (1988) e Chandler (1987). A razão costa atlântica-área usa o comprimento da costa atlântica (excluindo Mediterrâneo, Báltico e Ártico) de Integrated Coastline Management e área terrestre do World Bank. A dummy de comerciante atlântico é codificada pelos autores para Grã-Bretanha, França, Países Baixos, Portugal e Espanha. A dummy de porto atlântico é baseada em Bairoch et al. (1988) e DK Publishing (1997). O volume de comércio atlântico é medido como a média de viagens equivalentes por ano, construído a partir de de Vries (2003), Tracy (1990), Davis (1962) e Steensgaard (1974). A restrição ao executivo é codificada seguindo a metodologia Polity IV, usando Langer (1972) para antes de 1800. A religião é codificada a partir de Langer (1972) e Stearns (2001). A herança romana é uma dummy para países que fizeram parte do Império Romano e não subsequentemente do Império Otomano. As guerras por ano são codificadas a partir de Kohn (1999), excluindo guerras civis e coloniais fora da Europa. A latitude é o valor absoluto da latitude da capital, escalada de 0 a 1.
O apêndice também fornece estimativas detalhadas dos lucros britânicos do comércio, explicando que os valores são ajustados a preços de 1600 usando o índice de salários de Phelps Brown e Hopkins (1955). Para 1576–1600, os lucros do corso foram de cerca de £40.000 por ano. Para 1601–1650, os lucros totais do comércio asiático e do Novo Mundo são estimados em £200.000 por ano. Para 1651–1675, sobem para £500.000. Para 1676–1700, £900.000. Para 1701–1750, £1,7 milhão. Para 1751–1800, cerca de £5 milhões em preços de 1600.
8 Argumento Sintético
Ficha Analítica Crítica
Esta seção segue o formato IA Planilhando Textos v12.0.